O Cagão Misterioso (versão completa)

Observação preliminar: Este texto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura implicância da realidade. 

Eduardo Siebra, 15/08/16

 “Le Cagon Mystérieux, c’est moi.”

 

Capítulo 1

Rodin

  – Sei lá eu qual é o sentido da vida humana, ora porra!

A varanda de Atanagildo fica de frente para um dos mais encantadores jardins do Plano Piloto. Ele o batizou de “Jardim das Delícias Terrenas”, remetendo ao quadro de Bosch que também é a proteção de tela de seu telefone celular.

 – E essa sua concepção aí de “grande feito” é muito questionável. O que é um grande feito hoje? Escrever um poema épico? Compor uma sinfonia? Ainda que a gente fosse capaz disso, nossa cultura é tão exibicionista que o significado se perderia na vaidade do gesto. Imagine se a Ilíada nunca tivesse sido escrita. Se eu fosse capaz de compor o poema verso por verso, hoje, exatamente do jeito que Homero o compôs, você acha que a obra seria sublime?

Os especialistas afirmam que a eloquência é um dos mais notórios efeitos colaterais do rum guatemalteco.

– Não! – continuou Atanagildo – Seria uma monumental punheta, um exercício de estilo para mostrar quão estupenda é a minha erudição.

Byron – o colega de trabalho de Atanagildo, não o poeta – fumava e apreciava o sereno da noite. Era uma varanda realmente sensacional, dava até para sentir a insinuação do perfume de uma dama-da-noite – a flor, não a moça que passara há pouco pela calçada, indo em direção ao bar do Godofredo. Byron disse, em alto paraibanês:

– Que tipo de idiota iria compor um poema em grego antigo, de todo modo? A questão é que esse seu jeito de pensar anula qualquer possibilidade criativa a priori.

– Mas é exatamente isso que nossa cultura faz! Hoje em dia todo mundo anda pra cima e pra baixo com uma câmera de celular na mão. Isso mata qualquer espontaneidade: tudo que é feito, é feito com o pensamento na imagem, no significado do ato numa narrativa de rede social. Tu já viu os discursos de nossos colegas no Facebook sobre política? Parece que os caras estão escrevendo para os historiadores do futuro!

– É uma babaquice mesmo.

– Pois é. É por isso que a objetividade só sobreviveu na arte comercial: o resto é performance.

– Vamos dar um desconto aí. Essa é uma tremenda generalização. Tem coisa boa pra caralho sendo feita, e você sabe disso. Essa conversa tá parecendo mais uma racionalização da preguiça. E mesmo que você estivesse certo quanto à arte, ainda há muito espaço para grandes ações em outras áreas. Na política, por exemplo.

O rosto de Atanagildo ficou ainda mais vermelho, dando claros indícios de que sua cabeça poderia explodir a qualquer momento, salpicando massa cinzenta por todos os lados.

– Que política o quê, Byron? Puta que o pariu! O que é a política desse país, pelo amor de Deus?

Byron estava um pouco cansado do jeito de pensar simplista de seu amigo, por isso não retrucou.

– Teve uma vez na faculdade que eu fui para um daqueles protestos contra o aumento da passagem de ônibus em Recife. Acho que foi a única coisa corajosa que eu fiz na vida. Fechamos a Conde da Boa Vista, fizemos zoada, a polícia jogou bomba de gás, o escambal. Eu lembro que depois teve uma galera que achou massa, que ficou pensando que a gente deu uma grande contribuição pelos direitos urbanos. Agora me diz, isso resolveu o problema de mobilidade de Recife? Não! O preço da passagem aumentou, o trânsito da cidade continua uma bosta, e os discursos inflamados só serviram para reforçar grupos ligados a partidos.

– Ah, bicho, aí tu tá sendo niilista. Então é para a gente se contentar com a nossa mediocridade?

– Eu vou dizer em que eu acredito: que cada pessoa faça o seu trabalho direito. Posso garantir que disso vêm benefícios muito mais reais para as pessoas. Muito mais importante do que tentar deixar uma marca na humanidade, ou fazer um “grande feito”, como você mesmo diz, é dar o melhor de si na área em que você pode causar impacto, ainda que peqeno. Por exemplo, nós somos dois burocratas. Ao invés de ficarmos pensando se vamos algum dia ser capazes de uma grande realização artística ou política, temos é que tocar bem a papelada, e pronto!

– Mas tu não acha isso muito pouco? Pensa aí, talvez tu tenha aí algum talento, a mesma capacidade cognitiva de um poeta ou de um cientista, mas por comodismo está se contentando com um destino mediano…

– Que porra de capacidade cognitiva? O Brasil tá cheio de poeta, cheio de Baden Powell tocando violão no boteco. A gente precisa é de gente disposta a trabalhar, a fazer planejamento urbano e processo licitatório bem feito.  Cara, esse teu papo é típico do século XXI. Todo mundo quer ser especial, mas a verdade é que ninguém está disposto a assumir os custos. É uma geração de mimados. Eu só estou sendo mais honesto comigo mesmo, e acho que essa postura é sinal de maturidade.

– Ou de velhice.

– O que seja. Vou dar o melhor de mim naquilo que eu faço, e o que eu faço é tocar a burocracia.

Byron, que também ainda não havia escrito uma sinfonia, fez uma pausa dramática enquanto contemplava a noite de Brasília, sentindo cheiro de mato e de terra seca. Deu outra tragada no cigarro (já o segundo) e falou:

– Sabe o que eu acho? Tu mesmo não acredita nisso que tá falando… Acho que você está tentando se justificar para si mesmo.

– Agora pronto! Se tu sabe mais sobre mim do que eu mesmo, que posso dizer?

– Tu quer mesmo passar a vida nessa mediocridade esplêndida?

***

Uma mediocridade esplêndida, deveras, era a rotina de Atanagildo. Ela tinha seus grandes momentos – como nos dias em que ele via o sol nascer durante sua caminhada matinal no Parque Olhos d’Água, ou quando uma japonesa gatinha calhava de ir malhar no mesmo dia que ele. As duas cervejas alemãs que ele tomava com amendoim nas noites de sexta, geralmente assistindo a um filme de faroeste ou de kung fu, também lhe davam intenso prazer.

Mas, vejam bem, um dia tem vinte e quatro horas. O nosso herói é do tipo que, por razões fisiológicas ainda não de todo esclarecidas, precisa dormir no mínimo oito horas por noite. Acontece que as enigmáticas inteligências que conceberam as regras do serviço público brasileiro julgaram ser imprescindível que um servidor federal estivesse diariamente presente em sua repartição durante o mesmo intervalo de tempo que os proletários da revolução industrial afirmaram ser o máximo que um adulto poderia trabalhar sem cair numa degradante estafa física e mental – ou seja, oito horas. Os matemáticos, ignorantes como são dos aspectos práticos da vida, nos diriam que Atanagildo teria, então, oito horas inteiras de seu dia para gastar como bem entendesse.

Acontece que Atanagildo precisa usar essas oito horas “livres” para espremer o suco de laranja, aguar as plantas, lavar a louça, fazer cocô, escovar os dentes, levar o lixo para fora, dar o nó da gravata, pagar o condomínio, dirigir, comprar tomates e queijo de cabra sem lactose, calibrar os pneus de seu carro, comprar cartucho de tinta para a impressora, levar o terno para a lavanderia, mandar mensagem no Whatsapp e até mesmo para fazer a digestão depois do almoço. Na prática, sobram-lhe à noite exatamente duas horas verdadeiramente livres: das oito às dez. Todos os dias, durante essas duas horas de plena liberdade, Atanagildo – já estafado de ter passado o dia trabalhando e resolvendo as aporrinhações práticas da casa – precisa decidir-se entre jogar videogame ou estudar a filosofia de Wittgenstein.

Por mais afeto que seja aos divertimentos eruditos, precisamos reconhecer que muito raramente o nosso herói se decide a enfrentar o estudo sistemático da filosofia da linguagem nessas duas horas que tem livre à noite…

Mas Byron tinha razão quando disse que talvez Atanagildo tivesse a mesma capacidade cognitiva de um poeta ou cientista. Reza a lenda que Frederico II da Prússia certa feita pediu a Bach que improvisasse uma fuga para um tema musical por ele proposto. Contra as expectativas dos presentes, Bach cumpriu a façanha, e improvisou o embrião do que se tonaria sua memorável “Oferenda Musical”.  Os cientistas modernos se debruçaram sobre o caso e concluíram que para improvisar uma peça tão complexa, Bach precisava ter uma capacidade cerebral superior ao poder de processamento de um supercomputador.

Atanagildo nunca compôs uma linha musical, nem sequer foi um aluno brilhante na escola, mas – ainda que ele próprio o ignorasse – pode-se dizer que ele era uma espécie de Johan Sebastian Bach da burocracia.

À medida que foi ganhando experiência no trabalho, Atanagildo desenvolveu uma percepção acurada dos procedimentos necessários para executar sua função. Ele tinha facilidade para organizar mentalmente as tarefas, e estabelecer uma ordem de prioridade entre elas. O caráter repetitivo de sua rotina, ao invés de entediá-lo, acabou por fazer com que tivesse uma espécie de revelação…

Ele intuitivamente compreendeu o que alguns sociólogos do século XX haviam antecipado, mas que só viria a ser empiricamente demonstrado lá pelos meados do século XXIII: a burocracia de que ele fazia parte era um meta-organismo, uma entidade de existência própria, com ritmos, fluxos e uma dinâmica. Não um animal ou monstro, mas uma espécie de ameba social constituída por pessoas e informação.

Com assombrosa naturalidade, Atanagildo era capaz de enxergar os padrões ocultos dessa entidade a que o destino o havia ligado. Era como se ele fosse capaz de ver a matriz secreta por trás do incessante bater de pernas dos contínuos de seu ministério. Essa intuição genial – a que ele próprio não dava muita importância – permitiu a Atanagildo transformar-se num arqui-burocrata, espécie de cabalista ou mago da administração pública.

Entenda-se, isso não quer dizer que Atanagildo tenha aumentado sua produtividade, ou se tornado um funcionário especialmente eficiente. Ele apenas desenvolveu a capacidade de atender, com um mínimo de esforço, aos requisitos necessários para o cumprimento de sua função institucional. Sua compreensão da máquina pública permitiu-lhe entender o significado de sua posição profissional: não era um sacerdócio ou missão, ele estava mais próximo de uma engrenagem – ou vesícula – dentro do sistema. Atanagildo sabia que superestimar, por vaidade, sua posição como funcionário público poderia ser um erro que na verdade atrapalharia o bom cumprimento de suas atividades. Uma engrenagem que perde tempo com outras considerações além de rodar sobre o próprio eixo é uma má engrenagem…

A verdade é que Atanagildo precisava de menos da metade das oito horas que passava em sua repartição para cumprir todos os seus deveres regulamentares. Enquanto outras pessoas poderiam perder horas calculando se a formulação verbal de um despacho agradaria ao secretário fulano ou ao diretor sicrano, Atanagildo – que com sua visão mística do todo entendia que o ponto não era saber a opinião desse ou daquele funcionário, mas sim identificar a necessidade da Grande Ameba – em poucos minutos era capaz de redigir e revisar um despacho aceitável, apresenta-lo ao seu chefe e iniciar a tramitação.  Ele também sabia exatamente quando apresentar uma demanda – nunca cedo demais, o que poderia levar seu chefe a pensar que ele estava desocupado, nem tarde demais, o que poderia provocar complicações desnecessárias depois.

A essa altura, os insensíveis matemáticos a que nos referimos já terão se dado conta de quanto tempo livre Atanagildo tinha todos os dias em seu trabalho para utilizar como bem entendesse. É por isso ele estava tão satisfeito com a mediocridade da rotina que tantas angústias existenciais provocava em seu colega Byron: essa rotina lhe demandava muito pouco.

Atanagildo também tinha a sorte de ter uma sala inteira só para a si. Ele a batizou de “o claustro”, e realmente a via como uma espécie de refúgio espiritual. Era um recinto pequeno, de planta quadrangular, mas muito arejado e iluminado. Havia uma pequena estante com livros, duas escrivaninhas e um grande mapa do Brasil como decoração. Os tapumes que serviam de parede conectavam-se, no seu quarto lado, a uma janela que ia do chão até o teto, e permitia uma vista panorâmica do Eixo Monumental e do deslumbrante céu do Centro-Oeste. À distância, era possível ver a “Flor do Cerrado” – a torre de TV digital de Brasília, que Atanagildo gostava de pensar como um vaso de flores na prateleira de seu horizonte. Sua mesa ficava ao lado da janela, e sobre ela havia – além do monitor e teclado do computador – um calendário chinês, um porta canetas, uma lista de ramais e um chaveiro em formato de elefante de pelúcia. Atrás da cadeira de Atanagildo ficava um vaso com uma planta que crescia com velocidade assombrosa, e já quase tocava o teto.

– Mas são uns canalhas mesmo!

Uma figura bondosa, afetando irritação, irrompeu sala adentro, obrigando Atanagildo a esconder rapidamente seu manual de latim.

– Bom dia, secretário!

O Secretário de Administração Geral do ministério era um burocrata à moda antiga. Os muitos anos que passou no serviço público lhe deram uma desassombrada sabedoria, que se manifestava em compromisso profissional com total despreocupação por firulas. Como boa parte dos velhos, ele se acostumava com os aspectos de seu cotidiano e dos ambientes em que vivia. Se alguém lhe sugerisse, portanto, mudar um quadro de lugar em seu gabinete ou transferir Atanagildo para outro departamento, ele seria capaz de desencadear terríveis tempestades institucionais. Eles se davam muito bem, e aos poucos Atanagildo se tornava um dos maiores conhecedores vivos de sua psique.

– Você não vai acreditar nisso. Esses imbecis do jurídico nos mandaram de volta o termo de cooperação por causa da numeração do cabeçalho! – O Secretário iniciou, pela enésima vez, uma longa preleção sobre como todos os juristas são grandes idiotas, formalistas e sem qualquer senso de conexão com a realidade. Contou novamente a história da licitação que havia custado uma fortuna ao erário, por causa de questiúnculas formais apontadas pelo setor legal. Atanagildo concordou com tudo, citou um trecho de Jonathan Swift especialmente mordaz, comparou os bacharéis do Brasil a uma praga de ratos se alimentando dos bocados que conseguiam arrancar da estrutura putrescente do Estado, e pôs a culpa de tudo nos portugueses – que por terem consolidado sua burocracia cedo demais, a construíram com uma mentalidade meio medieval, e com um entendimento meio cabalístico do poder da palavra escrita de gerar realidade. O Secretário ficou extasiado, contou a história do filme a que tinha assistido no fim de semana, falou de seu velho cachorro, o Bing – que tinha cagado em algum lugar inusitado – fez uma piadinha sem graça e entregou o papel que trazia na mão a Atanagildo – verdadeira razão de sua irrupção dramática.

Quando o Secretário de Administração Geral saiu, na sala de Atanagildo voltou a reinar a paz habitual. Ele respirou fundo e deu uma espiada no Eixo Monumental, apreciando a brisa que entrava pela janela. Aquele céu intensamente azul, cheio de nuvens branquinhas que pareciam algodões flutuantes, passava-lhe enorme tranquilidade. Atanagildo permitiu-se perder alguns minutos olhando o vai-e-vem dos carros e voltou à escrivaninha. Abriu a gaveta e pegou o manual de latim.

Depois de declinar alguns substantivos e traduzir algumas máximas simples, Atanagildo guardou o livro e buscou no escaninho o papel que seu chefe acabara de lhe entregar.  Ao passar a vista no texto, uma profusão de sinapses nervosas aconteceu em sua cabeça. Seu cérebro de Johan Sebastian Bach entrou em movimento, permitido a Atanagildo enxergar tudo com clareza. Ele ponderou a linguagem, avaliou os prazos, identificou potenciais interessados ou prejudicados, concebeu uma linha argumentativa e esboçou mentalmente uma resposta. Quando abriu o software de elaboração de expedientes, maior parte do trabalho já estava feito. Ele simplesmente seguiu a intuição, e deixou o texto escrever-se por si mesmo.

Terminada a redação, levantou-se, foi até a sala do Secretário Geral e bateu na porta.

– Com licença, Secretário, aqui está a resposta.

– Ah, obrigado, Atanagildo, pode deixar no escaninho que daqui a pouco dou uma olhada.

Com a sensação de dever cumprido, e a satisfação de ter dado mais uma pequena contribuição para o bom andamento da vida civilizada em tempos tão bárbaros, Atanagildo decidiu ir ao banheiro – mais para dar uma espraiada do que por efetivas necessidades fisiológicas.

Os antigos chineses compreenderam que existe uma correspondência entre o macrocosmo e os pequenos gestos humanos. Que os mandarins – ou seja, os burocratas – realizem os rituais nascidos da tradição é a garantia de que a harmonia reinará no Céu e na Terra. Apesar de desconhecer os preceitos do confucionismo, Atanagildo compreendia o dao de sua habitual mijada, e, talvez por intuir que era isso e apenas isso que impedia que um meteoro caísse em Brasília e transformasse a cidade numa cratera, ele sentia uma inexplicável felicidade naqueles pequenos intervalos.

Ao sair de seu escritório Atanagildo se via num longo corredor, a que anos de contingenciamento orçamentário deram um aspecto de penúria. Desde que fora lotado na Secretaria de Administração Geral, Atanagildo já devia ter feito aquele percurso por entre as paredes recobertas de carpete mofado algumas centenas de vezes. Desse total, em algumas dezenas de vezes ele encontrava Torquato, colega seu da Secretaria de Orçamento, também indo ele mesmo realizar seu ritual confuciano no banheiro.

– Opa, Atanagildo, tudo bem?

– Opa, tudo bem, cara? Tranquilo? – Retrucava Atanagildo, que era péssimo em decorar nomes e não sabia como Torquato se chamava.

– Será que essa reestruturação de nosso plano de carreiras dessa vez sai?

– Pô, bicho, quem me dera! Mas há quantos anos que a gente escuta essa ladainha?

Essas e outras trivialidades eram apenas um pretexto para Torquato expressar alguma simpatia – e mesmo sem saber seu nome, Atanagildo o tinha em alta conta, achava-o um cara muito legal. Por isso jamais se cansava de comentar com ele sobre a reestruturação, embora na verdade estivesse muitíssimo pouco preocupado com a questão.

Ao chegar ao toalete, primeiro tomava a precaução para ver se o urinol estava desocupado – para evitar o risco de ter que aliviar-se ao lado de um superior hierárquico – e, se a barra estivesse limpa, Atanagildo ia todo contente tirar água dos joelhos.

Perdoem-nos os leitores por dedicarmos nossa atenção a esse fato fisiológico banal – que certamente foi realizado pelos personagens das mais ilustres obras da ficção e pelas grandes figuras históricas, sem que os historiadores e literatos jamais tenham julgado necessária sua narrativa. Acontece que, embora aparentemente um detalhe, essa velha mijadinha entre a redação de um expediente e outro era um aspecto fundamental na vida de Atanagildo, como um belo relevo na cornija de um templo: os transeuntes em seu caminho para a ágora muito raramente o notam, já que o olhar se atrai pela beleza do todo. Se algum dia, porém, bárbaros trácios o destroem ou danificam, então sentimos que estamos diante de uma imperdoável violação, e nos damos conta da importância daquele antes ignorado detalhe na composição do edifício.

Do mesmo modo, Atanagildo jamais supusera que uma perturbação em seu momento cotidiano de urinar pudesse desencadear um desequilíbrio tão profundo de sua meticulosa rotina. Ele, que vivia tão contente por realizar suas tarefas profissionais chinfrins – e por ainda poder estudar idiomas indo-europeus nas horas livres – não poderia ter imaginado a fragilidade por trás de seu sentimento de auto complacência.

Aconteceu na manhã em que o Secretário de Administração Geral xingara pela nonagésima terceira vez os consultores jurídicos e em que Torquato falara pela décima segunda vez na perspectiva de sair a reestruturação do plano de carreiras. Atanagildo – que havia demorado mais que o habitual redigindo e carimbando um processo especialmente complexo – estava entretido em tentar dissolver as bolinhas de naftalina do mictório com seu jato de xixi. E então, enquanto ajustava a pontaria para obter melhores resultados, ele o sentiu…

Como descrever aquela sensação? Imaginem alguém que todos os dias olha por uma janela e vê um terreno baldio, onde há uma árvore,  um traço de terra descampada e uma gangorra quebrada. Por dez, cem, mil vezes a pessoa olha aquele ermo sem atribuir qualquer importância à visão. Então, certa feita, numa tarde banal, quente e ensolarada, o indivíduo – meio sonolento, com o bucho cheio da galinhada do almoço – deixa seu olhar perder-se na paisagem por um pouco mais de tempo. Naquele instante, como que uma diabólica revelação se descortina, e no quadro do terreno baldio sob o céu azul, no sol inclemente, na gangorra enferrujada, nos galhos das árvores, nos pedaços de mato aqui e acolá, balançados suavemente pela brisa tépida, o sujeito tem a intuição de um segredo ominoso, velado por trás da suposta habitualidade do cenário. O coração se comprime, e o indivíduo se sente esmagado pela apreensão de uma verdade que sua mente mortal simplesmente não poderia suportar.

Em plena mijada, Atanagildo sentiu na pele essa espécie de revelação nefanda… Num primeiro instante, sentiu uma grande pressão nos ombros e no peito, como se estivesse tendo um mal súbito. Apenas algumas frações de segundo depois seu cérebro, atordoado pelo impacto da sensação, conseguiu ordenar as impressões e fazer nosso herói entender o que estava acontecendo.

Uma fedentina pútrida destacava-se do mau cheiro habitual do banheiro, como se um imprevidente arqueólogo tivesse retirado a lousa de uma catacumba onde apodreciam os restos de uma multidão de cadáveres. Os banheiros de repartições públicas – mesmo aqueles ligados à gestão federal – nunca foram célebres pelo agradável de suas fragrâncias. Mas aquele era um fedor diferente, era um miasma sulfuroso, uma catinga mefítica que um místico associaria às emanações dos poços do inferno. Uma tal inhaca não poderia ter saído de dentro das vísceras de um ser humano.

Ou pelo menos foi o que pensou Atanagildo, com o talento típico dos burocratas para exagerar os próprios problemas. Seu semblante assumiu um tom esverdeado meio caricatural, que um dermatologista não acreditaria possível se lhe tivessem mostrado. Seu estômago engulhando lhe fez sentir silenciosos espasmos. Sem sequer ter fechado a braguilha, correu para a pia e passou alguns instantes em silêncio, sentindo a antecipação da própria morte enquanto contorcia o rosto em expressões que muito lembravam os trejeitos de um coreógrafo de teatro ou dança contemporânea. Depois dessa performance sem plateia, Atanagildo recuperou a voz e condensou seu mal-estar num escandaloso gorgolejo, dos que se escutam quando uma pessoa tenta vomitar mas não consegue:

– BLEEEEEERGH!

Se quiséssemos causar efeito, poderíamos aqui dizer que justo naquele instante um graduado burocrata entrou no banheiro e encontrou Atanagildo naquela situação deplorável, curvado sobre a pia, com o rosto – agora pálido – todo suado e as calças desabotoadas. Nosso objetivo, no entanto, não é causar frisson ou contar uma anedota divertida, mas nos ater fielmente aos fatos tal como aconteceram: ninguém adentrou o toalete naquele instante. Atanagildo teve tempo de lavar o rosto, arrumar os cabelos com a ponta dos dedos, ajeitar a calça e enfiar para dentro a barra da camisa social. Endireitou-se e olhou em direção à portinhola das baias onde ficam as privadas. Ainda teve tempo de fazer uma expressão indignada ao entrever um sapato social preto, engraxado e aparentemente de uma marca cara – o que dava um indício do status social do cagão – pela abertura por debaixo da portinhola. Ter-se-ia talvez até permitido um muxoxo indignado, se naquele momento a pestilência não o tivesse atingido mais uma vez, como se a própria Grande Muralha da China tivesse desabado sobre ele. Seu instinto mamífero de sobrevivência o fez sair correndo dali, antes que tivesse tido tempo de resmungar o que quer que fosse.

 

Capítulo 2

Atanagildo

A velocidade da luz é o mais rápido que um corpo pode alcançar. Ela equivale a aproximadamente 300.000 km/s. Ou seja, significa que se alguém sair desembestado na velocidade da luz, em um segundo terá andado 300.000 quilômetros, que é mais ou menos a distância até Cabrobró.

E até onde chegaríamos se viajássemos um ano inteiro na velocidade da luz? Teríamos alcançado a fabulosa distância de 9,5 trilhões de quilômetros – que, segundo as estimativas dos astrônomos, nos levaria além de Macapá! É muito longe, vamos convir, mas as distâncias do nosso universo são tão gigantescas que se um viajante espacial, dotado de alguma máquina miraculosa, partisse à velocidade da luz pelo cosmos afora, em um ano ele sequer teria chegado à estrela mais próxima de nosso sistema solar. Depois de passar pelo cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter e cruzado a órbita dos planetas mais distantes – quiçá dando uma paradinha para tirar uma foto dos anéis de Saturno – nosso viajante ainda se encontraria num negro abismo pontilhado de objetos gélidos – a Nuvem de Oort. Um profundo silêncio e escuridão envolveriam sua nave espacial, e ela ainda estaria sob a influência da atração gravitacional do Sol.

Se ele fosse obstinado e seguisse viagem, ele só chegaria à estrela mais próxima depois de mais de 4 anos viajando à velocidade da luz. Quanto dá isso em termos de distância? Equivale a aquilo que em cosmologia se chama LONGE PRA CHUCHU! É uma distância que não faz qualquer sentido nem mesmo para a mente brasiliense, acostumada às lonjuras monumentais. É algo que só podemos conceber em termos matemáticos, com humilde reverência.

Mas isso é só o começo da conversa. O centro da nossa galáxia, por exemplo, está a 26.000 anos luz de distância! E a nossa galáxia é apenas uma dentre as bilhões de outras que há por aí afora. Para se ter uma ideia, a galáxia de Andrômeda está a 2,5 milhões de anos-luz de distância… Imagino que ao lá chegar, nosso viajante espacial já teria virado poeira cósmica. Se sua máquina, porém, seguisse avançando pelo pélago celestial, ela ainda encontraria corpos celestes a bilhões de anos luz de distância.

O bom de ser um narrador onisciente é que você sabe literalmente de tudo: não apenas a extensão das distâncias cósmicas, mas também o sentido da vida, o destino do homem, e até mesmo a identidade do misterioso sujeito que, no capítulo anterior, usava um sapato preto de marca, engraxado. Nós sabemos, por exemplo, que numa galáxia localizada a aproximadamente 3 bilhões de anos-luz de distância do planeta Terra, havia, no momento em que se desenrolava nossa narrativa, uma criatura inteligente que contemplava as vastidões do firmamento.

Essa intrigante forma de vida – que batizaremos, por pura conveniência, de Sbrubles – sondava a luz que chegava ao seu planeta com sua profusão de aparatos ópticos. Seu corpo colossal, constituído segundo as leis de uma biologia completamente distinta da nossa, pareceria hediondo às nossas sensibilidades, porém ainda assim abrigava uma mente curiosa e benevolente.

Sbrubles meditava sobre a enormidade do cosmos em que havia nascido. Como era possível tamanha imensidão? Que mistérios não se ocultariam por traz dessa profusão de corpos celestes? Enquanto, ainda vasculhando o céu, Sbrubles rastejava ladeira acima – por entre um sinuoso desfiladeiro de rochas negras, iluminado pela fosforescência da nebulosa que pairava próximo ao seu mundo – ele imaginava se existiria, do outro lado do universo visível, através do oceano da noite, alguma criatura que, como ele próprio, se intrigava com os mistérios cósmicos. Melancólico, sentindo-se solitário no mundo, Sbrubles soltou o equivalente para sua espécie a um suspiro – mas que para nós soaria como uma prolongada bufa.

 Se alguém tivesse contado a Sbrubles que naquele exato instante, a 3 bilhões de anos-luz de onde ele estava, além de pulsares, quasares,  supernovas e aglomerados de estrelas, Atanagildo estava sentado numa escrivaninha, puto da vida porque o sistema de elaboração de expedientes estava travando, grande teria sido a sua surpresa, e maior teria se tornado seu assombro com a razão de ser das coisas.

– Ora, mas que caralho! – esbravejou, em algum ponto do planeta Terra, Atanagildo, depois de perder o trabalho de vinte minutos porque a porcaria do sistema não salvou o que ele tinha escrito.

Ele não entendia por que cargas d’água era forçado a usar um sistema tão obsoleto, e tão pouco prático. Irritado, reiniciou o software .

Seu mau humor o impediu, porém, de recomeçar o texto de imediato. Deu um empurrão com os pés e deslizou em sua cadeira de rodinhas para longe da escrivaninha. Respirou fundo e olhou pela janela, para a incrivelmente linda manhã brasiliense lá fora.

Enquanto se inebriava com o cheiro de terra seca e plantas com que a brisa estava impregnada, ele subitamente se deu conta da passagem do tempo. Cinco anos… Já fazia cinco anos que Atanagildo estava lotado na Secretaria de Administração-Geral. Era realmente inacreditável. Do ponto de vista das estrelas e quasares, aquilo não significava nada, mas para um burocrata de aspirações medíocres – que, por passar tão longos períodos sentado na frente de um computador, com toda probabilidade não seria tão longevo – cinco anos era um belo pedaço de seu quinhão existencial. Seu mau humor tornou-se exasperante quando Atanagildo se deu conta de que ele sequer havia começado a estudar japonês nesse período – e isso constava como uma de suas metas existenciais, cuja concretização estava condicionada ao domínio do latim e do grego antigo.

Quando o Subsecretário de Administração-Geral entrou em sua sala, Atanagildo remoía pensamentos sobre a vacuidade dos empreendimentos mundanos.

– Atanagildo, meu velho, como estão as coisas?

– Opa, secretário, tudo ótimo! – mentiu ele, para evitar desencadear uma longa conversa com seu chefe, que tinha sérias inclinações estoicas e moralizantes.

– Maravilha! Tenho uma novidade para você! Acabei de receber um telefonema do gabinete, e me disseram que nós vamos ser responsáveis pelo plano de reestruturação de carreiras a partir de agora!

Para os leitores não familiarizados o idioma burocratês, vamos traduzir a frase do Secretário de Administração-Geral, que em português vernáculo teria mais ou menos o seguinte significado:

– Algum folgado no gabinete não está querendo fazer seu trabalho, e por isso você, Atanagildo, que apesar de estudar latim durante o expediente que eu sei, efetivamente trabalha e produz resultados concretos, será penalizado por sua eficiência, e será incumbido de uma tarefa que claramente extrapola as competências de nossa unidade administrativa.

Atanagildo de idiota tinha apenas a cara. Ele sabia que há dois tipos de burocratas: os que trabalham e os que fazem o jogo da autopromoção[1]. Os que trabalham deixam seu nome eternamente gravado no livro da vida, e depois de mortos são recebidos com alegria pelo buda Amitaba, ao reencarnarem na Terra Pura. Os que fazem o jogo da autopromoção, porém, se dão muito melhor nesta encarnação, e conseguem os melhores cargos, as melhores oportunidades, e vivem na companhia dos que efetivamente tem poder.

Como Atanagildo não depositava suas esperanças existenciais no trabalho, ele se resignava a ter que fazer de vez em quando o trabalho de algum colega oportunista. Esse era o preço a pagar para manter a tranquilidade de sua rotina: ao nunca questionar diretamente seu chefe nem a justiça da distribuição de competências administrativas, ele podia ter certeza de que nem mesmo um alto burocrata poderia desafiar sua posição – já que isso significaria comprar uma briga com o Secretário de Administração Geral.

– Sério? Mas onde isso estava parado durante todo esse tempo?

– Ah, adivinha, na mesa de (***), aquele canalha! Bem, pelo menos agora podemos ter certeza de que esse negócio sai. – E isso era bem verdade.

Não tinha jeito, o negócio agora era tornar o processo o menos doloroso possível… Pensando pelo lado positivo, Atanagildo agora pelo menos teria uma excelente desculpa para procrastinar o que quer que fosse de sua rotina habitual: ele poderia alegar estar ocupado com o plano de reestruturação de carreiras.

Resignado, resolveu dar a velha pausa da mijadinha. Ao chegar ao banheiro, Atanagildo percebeu que Torquato – seu vizinho de corredor – estava usando um dos urinóis. Acontece que o banheiro do canto oeste do sétimo andar do anexo um não tinha divisórias entre os seus dois únicos urinóis. Isso significa que, se duas pessoas usam os mictórios ao mesmo tempo, eles são forçados a uma proximidade e uma intimidade não de todo desejável. Atanagildo adotou seu procedimento padrão nesses casos: cumprimentou Torquato – cujo nome ainda ignorava – e dirigiu-se para uma das privadas, que ficam do lado oposto do banheiro.

Ao levantar a tampa do sanitário para fazer xixi, porém, Atanagildo se deparou com uma visão escabrosa. Esse negócio de chocar a burguesia está muito fora de moda, por isso seremos breve em nossa descrição, e nos limitaremos a informar aos leitores que, alguns instantes antes, o Cagão Misterioso havia passado por ali. Acontece que, como o sanitário estava meio entupido, por mais que alguém apertasse o botão da descarga, a merda não descia. Ou seja, ao levantar a tampa, Atanagildo encontrou a privada toda cagada – e não por um cagão qualquer, mas pelo próprio Cagão Misterioso. Ele sentiu o mesmo fedor da outra vez, só que agora de forma mais intensa, mais próxima, e com o agravante de ver o aspecto físico do monte de matéria amarronzada de onde ele exalava…

Pior de tudo, como Torquato estava no banheiro, Atanagildo não podia perder a compostura a ponto de se permitir os guinchos de nojo que emitiria se estivesse só. Teve que usar tremenda dose de força de vontade para se conter, e fazer, em silêncio, o seu pipizinho.

Enquanto o xixi respingava naquela merda melada, fruto de uma digestão doentia e de uma alimentação desequilibrada – rica em gorduras e com pouca fibra – o desespero e a ânsia de Atanagildo foram se transformando em ódio pelo cagão desconhecido.

Alguns dias depois, enquanto tomava uma cerveja na casa de Byron, ele racionalizou seu sentimento da seguinte forma:

– Isso é um absurdo, meu amigo, você cagar durante o expediente! Você é remunerado pelo tempo que passa na repartição, ou seja, isso significa que esse filho da puta – quem quer que seja ele – foi pago pelo contribuinte para fazer aquela merda!

Byron, que sabia que Atanagildo de vez em quanto era remunerado para estudar latim, limitou-se a retrucar:

– Bem, pelo menos ele faz algo, o que é mais do que se pode dizer de muitos de nossos colegas.

– Isso é um absurdo, bicho! E ainda por cima, o cara não tem a menor consideração pelo próximo. Veja lá, se uma vez o cara come algo e tem uma diarreia, é perfeitamente perdoável que ele use, em caráter emergencial, o banheiro do ministério. Agora cagar regularmente no trabalho, isso é uma tremenda filhadaputice! Que custa o cara se programar para cagar em casa! E ainda obriga todo mundo a sentir o cheiro da própria merda!

 – Eita cabra exagerado!

– Mas é, bicho! Por que tu acha que o gato enterra a própria merda? Ele sabe que aquilo é uma coisa íntima, quase uma impressão digital. Não dá para permitir que outros sintam esse cheiro, que é único – isso seria como revelar ao mundo um aspecto muito íntimo seu. É por isso que esse cagão filho da puta tem menos dignidade que um animal! Ele escancara o seu intestino, e o mundo que se foda!

Alguns aspectos da psicologia humana são difíceis de discernir mesmo para um narrador onisciente. Por exemplo, não está de modo algum claro para nós se a súbita onda de mau humor que tomou conta de Atanagildo está relacionada à ação do Cagão Misterioso, ou se na verdade derivou do aborrecimento de Atanagildo com a reformulação do plano de carreiras. Ou talvez simplesmente tenha se dado conta de quão absurdo era o fato de ele – que era feito da mesma matéria orgânica que Átila, o Huno, e Tamerlão – desperdiçar os melhores anos de sua vida adulta sentado na frente de um computador.

Essa irritação começou a se manifestar em alguns sintomas preocupantes. Por exemplo, ao dirigir de casa para o trabalho, e vice-versa, Atanagildo começou a adotar uma postura temerária, que ele mentalmente definia como pedagógica. Quando percebia que algum motorista folgado querendo enfiar o carro à sua frente, roubando-lhe a dianteira,  Atanagildo acelerava para barrar a passagem do cretino. Para ele, o espaço imediatamente à frente do carro era verdadeiro Lebesraum, e deveria ser defendido com unhas e dentes. Esse comportamento aumentava as chances de Atanagildo espatifar-se no trânsito, mas coerência nunca foi o seu forte, e ele mentalmente alegava que o direito de defender sua própria segurança justificava aquela reação meio suicida, meio homicida. Ele dizia a si mesmo que não era ele quem dirigia, mas sim o Destino que rolava ladeira abaixo em direção ao motorista folgado.

Durante essa época, aconteceu um episódio sobre o qual uma parte de Atanagildo para sempre se recordaria como um motivo de vergonha e arrependimento. Ele conduzia na via preferencial, vindo da L2, quando um jovem que estava numa faixa de aceleração lateral – logo depois de ter saído da rua dos anexos dos Ministérios – sinalizou que queria roubar a dianteira, mesmo tendo a obrigação de esperar a sua vez, segundo as leis humanas e divinas. Era justo no ponto onde havia uma descida íngreme à esquerda, que leva para o trecho que atravessa o Eixo Monumental por debaixo. Atanagildo, percebendo a clássica manobra marota, acelerou e, para sua surpresa, o seu adversário – que com toda probabilidade era uma pessoa ainda mais perturbada que ele – jogou o carro em direção a Atanagildo, claramente com a intenção de atingi-lo.

Muitas décadas depois, quando já estava aposentado – ao calor de 50ºC da Brasília do futuro – Atanagildo se lembrou daquele episódio com um aperto no peito. Se ele não tivesse desviado para a faixa da direita – como efetivamente desviou – ele poderia, com uma simples batida na lateral daquele carro – ter atirado o veículo e o motorista capotando ladeira abaixo. Aquele jovem poderia ter tido a vida interrompida, com seu crânio esmagado, ou o peito traspassado pelas ferragens do veículo. Atanagildo escolheu fazer o bem, e desviar do maluco. Com a sabedoria que a idade lhe trouxera, ele sabia que tinha feito a coisa certa, mas o seu monstro interior – Shadath al Grumbug, sobre quem teremos oportunidade de falar mais adiante – sentia uma raiva persistente por não ter matado aquele filho da puta cretino e sem vergonha, que o obrigou a dar o braço a torcer, e perder o chicken game.

Outro aspecto do mau humor de Atanagildo se expressou numa espécie de paranoia quanto à identidade do Misterioso Cagão. Para ele, todos eram suspeitos. Nem o seu chefe estava isento de dúvidas. Seria possível que, enquanto Atanagildo estava distraído trocando algumas palavras com Torquato no corredor, o Secretário de Administração Geral não tivesse ido sorrateiramente ao banheiro? E o próprio Torquato? Não estaria ele no corredor justamente indo ao toalete? Será que enquanto Atanagildo estava se preparando para urinar, distraído contando o número de furos que havia no mictório, ele não teria entrado rapidamente e iniciado sua terrível obra? O pior é que Atanagildo não conseguia se lembrar se em algum momento ele havia ouvido a porta da baia se abrindo e fechando – o  que lhe poderia dar uma importante pista.

Ele suspeitou até de seu colega Byron, que trabalhava no andar de baixo. Sabe-se que os mamíferos defecam longe do lugar onde conseguem seu alimento. Será que Byron, para despistar suspeitas, não teria ido ao andar de cima para aliviar-se? Discretamente, Atanagildo passou a observar os sapatos de todas as pessoas com quem conversava, na tentativa de identificar o sapato preto lustrado que havia discernido por debaixo da porta da baia da privada.

Pouco a pouco, suas suspeitas todas foram recaindo sobre um chefe de setor chamado Murilo.

Nenhum indício apontava para Murilo como autor da cagada. Ele não usava sapato social preto – muito pelo contrário, estava sempre com um sapato marrom todo desbotado, de muito mau gosto, que não combinava com o terno claro que costumava usar. Atanagildo raramente cruzava com ele pelo corredor, ou o via no banheiro. Mas a verdade é que ele tinha, sim, a maior cara de cagão. Gorducho, com o cabelo preto lambido – que ele deixava crescer até o ombro, contra todas as convenções do bom gosto da sociedade civilizada – uma barba semi-patriarcal desgrenhada e o rosto oleoso todo esbrogodado pelas espinhas que teve na adolescência, Murilo era dessas figuras que, antes de abrirem a boca para dizer uma palavra sequer, já causam antipatia. O caso dele era ainda mais grave, pois a repulsa que ele inspirava de forma não intencional era agravada pela sua monumental chatice: ele era incrivelmente presunçoso, sempre conversava com as pessoas como se estivesse proferindo uma palestra para uma multidão de imbecis.

Atanagildo nutria especial antipatia por Murilo porque ele sempre lhe dava bom dia como se estivesse fazendo um favor. Atanagildo compartilhava a opinião – muito comum na Hinterland brasileira – de que a falta de cortesia é um pecado mais grave do que atentar contra a vida de alguém. Ele seria capaz de perdoar alguém que tivesse lhe dado um soco na venta, ou atirado com um revólver em sua direção num momento em que os ânimos estivessem mais exaltados, mas jamais seria capaz de perdoar alguém que lhe tivesse dado um bom dia atravessado.

As intervenções do Cagão Misterioso foram se tornando regulares, e elas costumavam deixar o banheiro do sétimo andar empestado por horas. Agora eram raras as vezes em que Atanagildo ia dar sua mijadinha no período da manhã e não se deparava com o inconfundível cheiro. Cada vez mais mal humorado, Atanagildo foi associando essa inhaca ao semblante de Murilo. Quando o avistava em algum lugar, Atanagildo pensava com seus botões que de uma pança tão inchada, e de uma pessoa com aspecto tão repulsivo poderia, sim, ter saído um objeto capaz de provocar aquele fedor. Logo, Murilo era o Cagão. Q.E.D.

Certa vez, Atanagildo estava na lanchonete do Ministério tomando um café com Byron e com Patrícia, conversando alegremente sobre assuntos interessantes. Patrícia era uma nikkei meio doidinha – uma beldade de pele morena que, se tivesse nascido no Japão do século XIX, teriam vivido uma vida miserável, curvada em plantações de arroz, labutando de sol a sol, mas que, tendo nascido no Brasil, pôde se beneficiar de sua inteligência superior para levar uma vida tranquila e semear, ao invés de brotos de arroz, sua bondade e alegria intuitivas nos corações perturbados de Brasília. Apesar de todo o seu ranço livresco e racionalista, Atanagildo achava Patrícia o suprassumo da sabedoria, e sempre escutava suas opiniões sobre astrologia como se o próprio Ptolomeu estivesse ali presente. Talvez por acha-la incrivelmente gatinha.

Naquele dia, Patrícia estava recomendando a prática de meditação a Atanagildo.

– Eu acho que vai te fazer bem, cada pessoa tem uma ferramenta diferente para se melhorar. Com certeza isso vai te ajudar a lidar melhor com essa sua ansiedade.

– Mas eu não sou ansioso, oras! – disse Atanagildo, ansioso. – Em todo caso, talvez você tenha razão. Eu posso tentar. O problema é que eu sei que a meditação está associada a certas concepções espirituais, e não sei até que ponto estou disposto a aceitar esse lado místico.

– Ah, mas há várias linhas diferentes. Há técnicas de meditação que não tem nenhum viés espiritual. Você pode tentar sem compromisso, e ver se isso te faz bem ou não.

Atanagildo concordou, e estava extasiado olhando para o sorriso luminoso de Patrícia quando Murilo chegou.

– Olá, pessoal, tudo bem?

“Porra, que cara intrometido do caralho!” O lapso de alegria que Patrícia lhe havia conseguido infundir foi por água abaixo tão logo Atanagildo viu a cara feia de Murilo, que puxou uma cadeira e se juntou a eles. A conversa sobre as conexões entre o macro e o microcosmos e a música de Jorge Ben Jor foi interrompida, e Murilo começou com aquele papo chato sobre fofocas burocráticas. O ministro tal havia puxado não sei quem para não sei onde. Fulano havia se dado mal. Sicrano havia se dado bem. Depois ele começou a falar de política econômica, com ar professoral, como se todos estivessem concordando com ele. Depois de palestrar por uns cinco minutos, Murilo começou a defender a atual política econômica do governo.

A raiva de Atanagildo transformou-se em fúria. Como o cara conseguia ser tão oportunista? Ele poderia acreditar na teoria que fosse, mas supor que houvesse qualquer racionalidade por trás da atual política econômica do país era pura e simplesmente uma grande canalhice.

Enquanto Murilo tagarelava, acumulando perdigoto esbranquiçado no canto esquerdo da boca, Atanagildo não conseguia deixar de pensar no dia em que tivera a infelicidade de contemplar de perto a obra do Cagão. Quanto mais Murilo falava sobre quão tendenciosas eram as críticas da imprensa às medidas governamentais, e sobre como a Escola de Frankfurt explicava muito bem o atual cenário político do Brasil, mais Atanagildo associava aquele ente fedegoso ao monte de merda escura que vira no vaso entupido na fatídica manhã. Era demais, ele não poderia tolerar a presença de uma pessoa que – agora era inquestionável! – cagava no trabalho em bases regulares. Para Atanagildo, era como ter que aguentar a própria merda ali sentada, usando os argumentos do keynesianismo para justificar a irresponsabilidade fiscal do governo. No meio de uma frase de Murilo, Atanagildo se levantou e disse:

– Desculpa, pessoal, tenho que ir. Esse negócio da reformulação do plano de carreiras está me dando a maior trabalheira!

– Ah, então isso está com você? Depois queria conversar sobre umas ideias que tenho para modernizar o ministério…

Atanagildo disse “tchau” a Patrícia e a Byron, e partiu sem responder ao aparte de Murilo, que não se sentiu nem um pouco ofendido, e continuou defendendo o governo. Atanagildo saiu da lanchonete praticamente marchando, com o passo pesado fazendo o tacão do sapato social ecoar pelos corredores.

“É, talvez eu devesse fazer meditação mesmo”, pensou Atanagildo. “Pô, Patrícia é tão gente boa!” E recuperou um pouco seu bom humor.

 

Capítulo 3

Fountain 1917, replica 1964 by Marcel Duchamp 1887-1968

O leitor que acompanhou a história de Atanagildo até esta altura talvez esteja surpreendido com a absoluta banalidade de suas angústias. Como sentir empatia por um sujeito saudável e bem-alimentado cuja principal fonte de desespero são os gases expelidos por alguma nádega anônima?

A vida humana é breve. Não teríamos nos lançado à ingrata tarefa de narrar as aporrinhações de Atanagildo se não houvesse algo de minimamente educativo em sua história. Afinal, com a população do globo terrestre caminhando a passos rápidos para a marca dos sete bilhões, seria difícil nos esquivarmos da crítica de que, num universo tão rico de narrativas reais, não conseguimos encontrar nada mais interessante para contar do que a história de um burocrata pretensioso, cuja existência era tão desprovida de drama real.

Calma, amigo leitor. Aproxima-se o clímax de nossa narrativa, em que a vidinha prosaica de nosso herói será tragada num terrível turbilhão de sexo, drogas e sangue!

Mas vejam lá, esse instante ainda não chegou. Naquele dia, Atanagildo estava, como de costume, sentado na frente de seu computador. A reformulação do plano de carreiras do ministério estava dando um trabalho dos diabos, e Atanagildo ainda tinha que dar um jeito de se esquivar do fogo cruzado causado pelo conflito entre os interesses corporativistas dos sindicatos e as pressões que vinham de seus superiores. As interferências estavam se tornando de tal modo insuportáveis que naquele dia Atanagildo disse para a secretária de sua divisão:

– Hoje eu não atendo a telefonema nem do Papa!

– E do ministro, Dr. Atanagildo?

Atanagildo levou alguns instantes até se dar conta de que o ministro estava abaixo do papa.

– Não, também não atendo, diga que estou numa reunião fora do ministério.

O trabalho avançava a passos de tartaruga. Se Atanagildo tivesse liberdade para reformular o plano do jeito que bem entendesse – seguindo tão somente os ditames da reta razão – ele poderia ter usado sua prodigiosa capacidade de redigir expedientes burocráticos para se desvencilhar da tarefa numa única tarde. Como Licurgo, ele daria ao mundo um código do bem viver para as futuras gerações: apresentaria um modelo invejável de gestão de pessoal, assentado em princípios do mérito, da eficiência e da moralidade pública. Os constrangimentos criados pelos diferentes grupos de interesse – todos ávidos não apenas em puxar a brasa para sua sardinha, mas também em garantir que o Estado lhes forneceria um forno elétrico e, paradoxalmente, uma infinita provisão de sushi de atum – tornava a tarefa praticamente impossível de concretizar. Pior de tudo, Atanagildo não tinha motivação, pois sabia que mais cedo ou mais tarde teria que sacrificar o interesse público pela realidade rasteira da gestão dos privilégios.

Sentindo um misto de tristeza e fúria homicida – que poderíamos resumir simplesmente como mau-humor – ele olhou, pela milionésima vez, pela janela de sua sala, para o conjunto arquitetônico idealizado por Niemeyer, e começou a fantasiar. Primeiro ficou se perguntando quantas horas não deve ter levado Oscar Niemeyer até chegar à concepção do formato dos ministérios – forma de caixa de fósforo. Depois ele olhou para os carros que passavam pela larga avenida, e imaginou como seria aquele trecho de terra antes de 1960, quando a futurista metrópole ainda não existia, e seu território era um grande pedaço de Goiás – ou seja, um belíssimo pedaço de mato, com árvores de tronco retorcido, córregos de água cristalina e todo tipo de passarinho colorido que se pode imaginar. Ao se dar conta do quanto a paisagem havia mudado em meros cinquenta anos, Atanagildo se perguntou, então, o que ele veria se olhasse pela mesma janela depois de outros cinquenta, ou cem, ou dez milhões de anos.

Veria os mesmos carrinhos passando pelo Eixo Monumental? Ou teria Brasília se tornado – como Palmira – uma imponente ruína no deserto, em que grupos inimigos travavam uma sanguinária batalha por cada palmo de chão? Talvez a biosfera tivesse se transformado profundamente com o decurso de tempo – e sofrido imprevisíveis consequências da intervenção humana. Numa era em que o último homem há muito caíra por terra, talvez Brasília tivesse se tornado uma paisagem alienígena, quente e enevoada, com bosques de fungos gigantes brotando nos resquícios das estruturas da cidade, e gigantescas águas vivas incandescentes flutuando acima do cemitério de nossa civilização. Ou talvez a Terra inteira tivesse voltado a ser nada mais do que um  pedaço morto de rocha, e nada restaria para recordar, no silêncio impenetrável da infinita noite de um mundo sem atmosfera, que no distante passado, houve não apenas vida, mas a vidinha besta de Atanagildo.

Se tivesse lido os jornais naquele dia, Atanagildo saberia que a habitual tranquilidade do cenário que via de sua escrivaninha se transformaria, naquela mesma tarde, num terrível pandemônio. Mais ou menos uma hora depois de seu devaneio, Atanagildo ouviu os primeiros gritos dos jovens que estavam na vanguarda de um gigantesco protesto que avançava da Catedral Metropolitana em direção ao Congresso Nacional. Em muito pouco tempo, o Eixo Monumental foi ocupado por uma enorme mancha humana que protestava contra as duras medidas de austeridade fiscal que seriam votadas naquele dia. Pela janela que costumava lhe revelar o persistente retrato da tranquilidade do cerrado, Atanagildo viu se armar o caos.

Não é nosso objetivo desviar o foco de nossa narrativa para os incidentes do peculiar momento político por que passava o país quando se desenrolou a história do Cagão Misterioso. Limitar-nos-emos a registrar que, depois que a vanguarda da manifestação tentou invadir o Congresso, a polícia reagiu de forma rápida e truculenta, com tiros de bala de borracha e bombas de efeito moral. Os líderes do movimento, no alto de um trio elétrico, gritaram, espernearam, repetiram todos os chavões da retórica de esquerda que se possa imaginar. Foram surreais a ponto de tentar organizar uma ciranda dos manifestantes no meio da confusão. Isso não bastou para dissuadir a cavalaria de avançar pelos flancos em direção ao povaréu. Estarrecido, Atanagildo viu que algumas pessoas corriam de volta em direção à Catedral carregando crianças nos braços. Que tipo de idiota iria para um protesto levando uma criança?

Em breve, as bombas de gás lacrimogênio chegaram ao carro de som. A massa humana não pôde resistir à violência organizada da polícia, que soube se aproveitar da amplidão do teatro de operações para dispersar a multidão. Era uma verdadeira aula de ciência política, o contraste entre a força direcionada do aparato estatal e a confusão do povo. Os jovens começaram a depredar as ruas e os ministérios, e Atanagildo viu, do outro lado do Eixo, um grupo de pessoas mascaradas virarem um carro que lá estava estacionado.

“Filhos da puta!”, pensou, e logo em seguida se deu conta de que o cheiro de gás lacrimogênio estava entrando pela janela. “Foda-se, vou para casa”.

A rua dos anexos dos ministérios estava completamente engarrafada. Alguns motoristas, simpáticos ao protesto, buzinavam. Parecia haver uma eletricidade no ar, como se algo muito grave estivesse prestes a acontecer. Atanagildo, que estava pouco se lixando, fechou os vidros do carro, ligou o ar condicionado e pôs um disco de música clássica para tocar. Na primeira oportunidade, pegou um atalho pelas entocas do setor de embaixadas, e milagrosamente reapareceu já perto da avenida W3, que não estava tão congestionada no sentido sul-norte. Dali foi fácil chegar ao Eixo Monumental, por onde ele queria cortar caminho até a via de acesso por trás do Estádio Mané Garrincha, que deveria estar menos tumultuada.

Como os protestos na Esplanada dos Ministérios haviam interrompido o fluxo de veículos, o trânsito no Eixo estava desimpedido. Depois do estresse se espremendo pelas ruas laterais, Atanagildo sentiu um sincero prazer por dirigir numa avenida tão larga e com vistas tão largas. Desligou o ar e abriu os vidros para sentir o aroma da cidade.

Tudo pareceu coincidir para compor um instante perfeito. Por causo do horário de verão, o sol ainda estava se pondo. Para ir à Asa Norte, onde morava, Atanagildo deveria ter dobrado à direita ou na altura da W4 ou depois do Mané Garrincha. Mas se sentia tão enlevado com a beleza súbita do crepúsculo que decidiu continuar dirigindo rumo à praça do Cruzeiro – um dos melhores pontos do Distrito Federal para se assistir ao entardecer.

No céu, enormes nuvens refletindo diferentes tonalidades de dourado e laranja transmitiam a impressão de um espaço imenso – pareciam colossais castelos onde habitavam titãs ou anjos. Na terra já semi-envolta pelo lusco-fusco, os galhos das árvores do cerrado desenhavam lindas silhuetas contra o azul embaciado do anoitecer. Por alguns minutos, aquela cidade de aspirações tão prosaicas – ocupar um cargo, receber um aumento, viajar para a europa – havia se transformado numa paisagem de um sonho ou conto-de-fadas.

Às vezes o destino – ou Deus – parece reservar aos homens esses lapsos de perfeição – para nos recordar, talvez, que a vida não é uma projeção da banalidade entre o Nada e o Nada. Um indício adicional de que havia algo de realmente misterioso naquela experiência foi que ela coincidiu com o momento em que o disco de música clássica começou a reproduzir a “Oferenda Musical” de Bach.

Nas primeiras notas, Atanagildo quase conseguia imaginar o rei Frederico II brincando com as teclas do cravo, como se estivesse fazendo uma provocação ao grande compositor. Depois, a melodia como que se solta num grande e límpido espaço, e, quando uma segunda voz se soma, Atanagildo sentia que o que começara como mero gracejo transmutava-se em oferenda, mas não ao rei: ao que é belo, ao que é bom. Então a dança sonora sai da região da mera fantasia e começa a alçar voo ao verdadeiramente transcendental, à luz divina da qual a alma humana consegue, raras vezes, vislumbrar fugazes lampejos.

É possível sentir uma triste alegria? Acho que sim, se não me engano, chamam isso de melancolia. Pois foi o que Atanagildo – o Bach dos expedientes – sentiu. Por um lado, não havia como evitar sentir uma profunda paz, e uma espécie de amor por ter podido bisbilhotar pela fresta vespertina um pedaço do paraíso. Por outro, à medida que à noite avançava, a consciência de estar dirigindo, de estar numa superfície de asfalto, entre prédios de concreto – em meio a um monte de motoristas incrivelmente folgados e mal-educados – dava àquela sensação um quê de tragédia: a de estar vivo, ou seja, a de não ser pura ideia, puro espírito.  Atanagildo fez o retorno e tomou o rumo certo, em direção à Asa Norte.

O problema de ter uma epifania é que, quando ela acaba, a vida retoma seu ritmo de banalidade. Ao chegar em casa, Atanagildo tirou a gravata e o terno, vestiu um bermudão de estampa xadrez e sentou no sofá de sua sala de estar, exatamente de frente para um pôster de um filme de Alejandro Jodorowsky que representava um olho místico.

E agora, o que acontecia? Era sexta à noite, ou seja, Atanagildo finalmente havia encerrado sua corveia semanal para a administração pública, e estava livre para se dedicar aos grandiosos feitos e ao aprimoramento da humanidade. O curioso é que, sentado ali, sem camisa, ele não fazia a menor ideia do que fazer com sua absoluta liberdade…

A confusão do protesto, o engarrafamento e o belíssimo pôr-do-sol o haviam deixado agitado. Ele se levantou e foi até a varanda espiar o Jardim das Delícias Terrenas. A noite estava agradabilíssima, como é muito comum em Brasília, e Atanagildo passou um tempo olhando para as árvores e para os vizinhos que estavam indo levar seus cachorros para cagar na grama.

Isso é a vida? Quando é que a vida começa de verdade? Ele já tinha quase trinta anos, e sentia como se ainda não tivesse descoberto algo que pudesse dar verdadeiro sentido a sua existência.  Ao mesmo tempo, sentia dentro de si um excesso de energia mal canalizada – uma vontade de criar, de fazer coisas interessantes que, na verdade, o oprimia. Certamente o leitor já terá sentido essa pulsão – a de escrever uma poesia, de anexar o país vizinho ou de sair correndo pelado pela cidade afora, dando gritos como um macaco louco.

Então veio a compreensão de que na raiz de seu mau-humor e de sua agressividade direcionada contra todos os imbecis do mundo estava uma enorme tristeza. Aquele tédio e vazio não era algo que estivesse em Brasília, ou que fosse provocado pela mediocridade de seu ambiente de trabalho: era um componente de sua alma.

Oprimido pela sensação de ter dentro de si o maior de todos os desertos – uma vastidão cinzenta que não poderia ser preenchida por nenhuma glória mundana – Atanagildo recordou-se da recomendação de Patrícia: por que ele não tentava meditação?

A grande vantagem da meditação, quando comparada à psicanálise, é que ela é gratuita. Como um grande pirangueiro que era, Atanagildo sentia que esse poderia ser um instrumento adequado para enfrentar seus problemas internos. Alguns dias antes no trabalho ele havia passado a vista nuns textos que encontrara na internet sobre técnicas básicas de meditação. Como estava sem o menor saco de sair de casa naquela noite de sexta, resolveu tentar pôr em prática, e enfrentar aquela sensação angustiante que o fazia se sentir um animal enjaulado. Pegou uma almofada e a pôs no centro da sala, de frente para o pôster do olho transcedental. Sentou em cima com as pernas cruzadas, a coluna ereta e respirou fundo.

 A técnica de meditação que ele havia encontrado na internet era extremamente simples: resumia-se a observar cada uma das inspirações e expirações, para trazer de volta a consciência ao instante presente. É realmente formidável que algumas doutrinas e religiões considerem essa singela prática suficiente para dar ao indivíduo a consciência das verdades transcendentais – ou seja, no caso de Atanagildo, a percepção de que a sua existência era ilusória, de que ele não passava de um personagem de um conto meio sem graça, escrito por uma entidade supramundana não muito diferente dele mesmo.

Ele estava nervoso demais naquela noite, porém, para alcançar tão rapidamente a iluminação. Teve, porém alguns insights interessantes. Em primeiro lugar, sentiu-se realmente melhor por observar sua respiração. Percebeu que estava meio ofegante, com a respiração curta e os batimentos cardíacos acelerados. Tentou, então, respirar mais profundamente para se acalmar.

 Depois de uns dois ou três minutos observando o ar fluindo, porém, sua mente começou a divagar. Lembrou o conselho que uma ex-namorada sua lhe havia dado: que ele devia fazer psicanálise, que ele tinha uns traços neuróticos que precisavam ser trabalhados. Passou, então, a se defender mentalmente de seus próprios pensamentos, argumentou que o problema não era ele ser meio doido, mas sim esse conceito de normalidade que podava de forma tão cruel os aspectos instintivos do homem. Disse que a psicanálise era, no fundo, uma forma de adestramento, que seu conceito de uma boa vida só poderia ser alcançado pelo sacrifício de energias que estavam na base daquilo que a humanidade tinha de mais belo.

Essa DR hipotética e extemporânea, porém, fez com que sua respiração se acelerasse mais uma vez. O site explicava que dispersar a consciência era normal, e sugeria trazer a concentração de volta para o ato de respirar quando isso acontecesse. Foi o que Atanagildo fez, e passou a recitar mentalmente: inspira……. expira……. inspira…..

Dois minutos desse exercício lhe trouxeram mais um pouco de tranquilidade. Mas sua mente não entregaria os pontos de forma tão fácil assim, e voltou a criticá-lo. Observou que o mal de sua geração é que ela foi educada com expectativas muito altas a respeito de seu próprio potencial. Todo mundo quer fazer a diferença, ter um emprego interessante, deixar uma marca no mundo, mas ninguém está disposto a arcar com os sacrifícios necessários para produzir algo realmente bom. É uma geração de mimados, em que todo mundo não apenas se acha especial, mas também não julga necessário provar essa singularidade.

– Ora, se todo mundo é especial, ninguém é especial. Veja o seu caso, Atanagildo – e aqui era a sua mente falando – você projeta a mediocridade nas pessoas que conhece, mas no fundo você mesmo vive uma existência medíocre. Já está aí beirando os trinta anos, e o que fez de realmente bom até agora? Não muito além de repetir para si mesmo o quanto você é incompreendido, o quanto o mundo não reconhece seu potencial.

Dessa vez, Atanagildo deu o braço a torcer:

  – É verdade, mente, eu sou um bosta. Mas nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Há algo de errado sim com o mundo e com essas pessoas. A vaidade e o egocentrismo de minha geração no fundo é uma expressão mal direcionada de uma percepção legítima: a de que a alma humana possui um enorme potencial, e que se bem direcionada, pode produzir coisas fabulosas. O problema é que nós estamos perdidos, não sabemos o que verdadeiramente nos motiva, qual o grande ideal que poderia justificar os sacrifícios de que você fala. Por isso ficamos em casa comendo amendoim, tomando cerveja e vendo vídeos no Porntube.

A mente de Atanagildo franziu as sombracelhas e disse, alisando o queixo:

– É, pode ser…

Aquilo de certa forma trouxe tranquilidade. No fundo, Atanagildo sentia que sua mente era gente fina, apesar de se comportar de vez em quando de uma forma incrivelmente, indescritivelmente escrota.

Voltou a observar a respiração. Um……. Dois….

O site também dizia que, depois de observar a respiração, a pessoa poderia trazer a atenção para o próprio corpo, e observar a sensação em cada uma de suas partes. Ao passar para essa segunda fase do exercício, Atanagildo se deu conta de que suas costas estavam doendo, sua bunda estava suada, e suas pernas já estavam dormentes de ter passado esse tempo todo cruzadas. Aquilo o deixou ansioso mais uma vez, com uma tremenda vontade de sair daquela posição e fazer outra coisa.

A sorte de Atanagildo era que o texto do site já havia antecipado essa possibilidade, e explicado que, se isso acontecesse, a pessoa poderia mudar de posição. Era até mesmo possível meditar deitado!

Foi o que Atanagildo fez. Deitou-se naquilo que os yogis chamam de “posição do cadáver” – e os sertanejos chamam de “com o papo para cima”. Tranquilo, com uma sensação de bem-estar físico invadindo seu corpo, voltou a observar a respiração.

Aquele bem-estar foi tão intenso, mas tão intenso, que precisamos aqui registrar que Atanagildo começou a cochilar. Seu processo de auto-observação virou um leve soninho.

Grande novamente é a tentação de enganar o leitor, dizendo que naquele instante Atanagildo sonhou que estivesse cavalgando um hipopótamo ou que fosse o Genghis Khan. (Nesse segundo caso, poderíamos até mesmo soltar a tiradinha barata de que, ao acordar, Atanagildo não soube se era um burocrata que tinha sonhado ser o Genghis Khan, ou se ele era o Genghis Khan sonhando ser um burocrata.)

Nosso compromisso com a verdade é estrito, e por isso precisamos dizer que o sonho de Atanagildo foi um repasse de cenas de seu cotidiano, com toques oníricos. Primeiro ele sonhou que estava conversando com o Subsecretário de Administração Geral, que usava black tie e estava sentado numa poltrona de couro com as pernas cruzadas, numa pose bem pouco varonil. Por mais que se esforçasse, porém, Atanagildo não conseguia entender uma palavra do que ele falava. Ao abrir a boca, o Subsecretário emitia um som ridículo de buzina de carro da década de 40:

– Fonfóm fóm fóm fóm fóm.

Nos sonhos, Atanagildo achava aquilo intrigante, mas não sentia vontade de rir. Ele apenas fazia sinal com a cabeça de que concordava com tudo o que o Subsecretário dizia.

– Fóóóóóm, fóm fóm fóm fóm!

Fazendo cara de inteligente, Atanagildo passou a se perguntar como nunca antes havia notado que o gabinete do Subsecretário estava cheio de bichos empalhados. Quando ele começou a se concentrar na cabeça de um cervo que começava a mover os lábios e também emitir som de buzina, o cenário mudou e Atanagildo se viu na lanchonete do ministério – que parecia uma enorme cafeteria de uma estação espacial de filme de ficção científica. Sentada à sua frente estava Patrícia, sorridente e completamente pelada.

Atanagildo sentiu uma profunda simpatia quando ela começou a lhe dar conselhos, a dizer que ele devia largar o emprego para ir morar na Chapada dos Veadeiros com ela. Apesar de ela estar nua, Atanagildo estava extasiado, na verdade, com a pureza que ele imaginava ver naqueles olhos amendoados, que pareciam compreendê-lo e perdoá-lo. Mas acabou notando seus mamilos escuros, nos seios pequeninos, e sentiu um enorme calor, e o desejo de segurar as mãos da amiga. Antes que pudesse fazer isso, porém, os alto-falantes da cafeteria anunciaram:

– Atenção! Atenção! O Cagão Misterioso foi encontrado! O Cagão Misterioso foi encontrado!

Na cena seguinte, Atanagildo estava correndo pelo corredor do sétimo andar em direção ao banheiro. Ao entrar, ele percebia que a portinhola da baia estava trancada, e que por baixo havia um par de sapatos sociais lustrosos. Pensava que aquela era a sua chance, que finalmente poderia descobrir a identidade do cagão.

Deu um tremendo chute na porta e, para sua surpresa, na privada não havia ninguém: só um par de sapatos pretos no chão.

“Não é possível!”, pensou Atanagildo, isso só pode ser sacanagem de Murilo, eu tenho certeza de que ele é o cagão!

Então Atanagildo fechava a porta e, ao abri-la novamente, encontrava de fato Murilo, com o rosto todo sujo de chocolate, no meio de uma cagada. Ele apontou para Atanagildo e soltou uma tremenda gargalhada.

– Há há há há há!

Atanagildo sentiu naquele instante um grande pavor, e fechou novamente a porta. Fez-se silêncio no banheiro, e Atanagildo compreendeu subitamente que Murilo não era o verdadeiro cagão, que o culpado seria descoberto se ele abrisse a porta mais uma vez.

Eis, então, que Atanagildo descobre o seu amigo Byron sentado na privada, ao abrir a portinhola pela segunda vez.

– Ah, pô, foi mal, não sabia que era você. – desculpou-se Atanagildo.

– Beleza, pô, fica tranquilo aí. – E eles começaram a bater papo sobre coisas triviais.

Mas então Atanagildo viu que a porta estava fechada mais uma vez. Agora ele já entendia o que ia acontecer: a cada vez que abrisse a porta, apareceria uma pessoa diferente. Ele ficou receoso, pois temia que, ao abrir a porta, poderia ter a desagradável visão de ver o seu chefe dando uma cagada – ou o seu vizinho de corredor, o Torquato, ou mesmo sua amiga Patrícia – pois nos sonhos os banheiros são transgênero. Mas então ele foi assaltado por uma dessas convicções oníricas inexplicáveis, a sensação de que, se abrisse a porta uma última vez, ele descobriria a verdade cabal, a identidade irrefutável do cagão que tanta antipatia lhe provocava.

Abriu a porta mais uma vez e viu a si mesmo.

Le Cagon Mystérieux, c’est moi. ­­–  Disse seu sósia, num francês duvidoso.

– J’acusse! – respondeu Atanagildo.

– Jacuzzi?

– Ahn?

E Atanagildo acordou, de papo para o ar. Sentia-se fisicamente bem, mas não tinha resolvido suas angústias existenciais. Eram nove e meia da noite de sexta-feira, e ele estava só em casa.

Levantou-se, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Abriu um pacote de amendoins salgados, despejou-os numa vasilha e foi para o sofá. Ligou a TV e começou a ver um filme sobre uma alienígena andrógina em Nova York que matava seus parceiros sexuais para sugar sua energia vital.

Pelas duas horas seguintes, Atanagildo continuou sentado, beliscando amendoim e tomando cerveja enquanto assistia àquele filme mórbido e psicodélico. Exteriormente, nada aconteceu. Na verdade, uma perigosa transformação estava em curso.

Pessoas sensíveis como Atanagildo seriam – se tivessem nascido em meio a outros povos, e em outras eras – xamãs. Sua sensibilidade seria exercitada pela tradição e canalizada para o contato com as dimensões supranaturais. Ao atingir a idade adulta, esses feiticeiros seriam capazes usar seu dom para exorcizar entidades maléficas, conversar com os espíritos das pedras ou até descer – por meio de transes induzidos – ao plano dos mortos para indagar as razões da escassez de caça.

Tendo nascido numa sociedade extremamente materialista, nosso herói não fazia ideia de que boa parte de suas angústias se deviam a sua capacidade de se sintonizar com fontes invisíveis de energias boas e ruins. Ora, sem que ele se desse conta, a cada gole de cerveja que ele tomava, uma entidade negra, habitante da sombra de sua alma, assumia o controle: Shadath al Grumbug.

A influência desse ente do submundo primeiro se fez sentir por um intenso fascínio que Atanagildo sentiu pela alienígena ninfomaníaca do filme. Ele estava achando aquela história do caralho, e melhor ainda as cenas em que o submundo nova-iorquino era mostrado pela visão distorcida dos ETs. Mas, à medida que sua morbidez ganhava força, ele perdeu a paciência, e decidiu que precisava fazer alguma coisa aquela noite.

Pegou o seu smart phone e viu quem estava on line nas redes sociais. Talvez nem todos sejam capazes de compreender quão grande é a tentação – para uma pessoa embriagada e sob a influência de uma entidade negra nascida no abismo da alma – de falar coisas idiotas e inconvenientes por meio de mensagens eletrônicas, para pessoas com quem não se possui a menor intimidade. Pouparemos o leitor do desconforto de saber exatamente quais foram as idiotices que Atanagildo falou pelo chat do Facebook naquela noite. Em sua defesa, iremos nos limitar a dizer que ele não enviou nenhum nude.

Depois de aporrinhar sua ex-namorada puxando assunto sobre coisas aleatórias e de mandar uma mensagem beirando as raias do absurdo para uma colega de trabalho cujo semblante lembrava a alienígena do filme – mas que era ainda mais bela, por ter o cabelo preto e a pele branquíssima – ele viu que Patrícia estava on line. Para ela, Atanagildo não se atreveria a soltar uma bomba atômica, mesmo estando sob influência de Shadath al Grumbug:

– Tudo bem? – escreveu ele, pelo bate-papo.

– Oi, Atanagildo, tudo ótimo. E você?

– Comigo tudo tranquilo. Só tô aqui no tédio, vendo um filme meio doido.

– Ah, é? Pô, hoje tá tendo um showzinho de rock muito legal na UNB. Por que você não vem?

Se fosse um ditador, Shadath al Grumbug com toda probabilidade baixaria um decreto obrigando as pessoas que vão a showzinhos de rock na UNB a realizar trabalhos forçados nas minas de carvão, e os proibindo de exercer direitos políticos.

– É mesmo? Você está aí?

– Tô sim, está muito legal. Deixa de marasmo e vem pra cá.

Tendo tomado já umas oito cervejas, seria perigoso sair dirigindo – não que Shadath al Grumbug supusesse que não estivesse em condições de conduzir um automóvel, mas o resquício de previdência que restava na mente de Atanagildo lhe dizia que seria uma tremendíssima merda ser pego por uma blitz da lei seca. A UNB, porém, não era tão longe assim. Dava até mesmo para ir a pé – o único inconveniente seria atravessar os ermos de Brasília àquela hora.

– Massa, eu vou sim. Quando eu chegar te mando uma mensagem.

Trocou-se em cinco minutos, escovou os dentes e saiu de casa, a pé, em busca da diversão ou da destruição – o que chegasse primeiro…

Saiu pelo Jardim das Delícias Terrenas em direção à quadra comercial, de onde vinha uma barulheira dos diabos. Quando se deu conta, estava em meio a um povaréu que bebia, fumava e escutava uma banda de blues que estava fazendo cover dos Rolling Stones. Shadath al Grumbug achou aquilo divertidíssimo. Depois de zanzar um pouco pelos diferentes bares da 409, observando o território, percebeu que no Godofredo havia significativa concentração de funcionárias públicas coroas saradas. Foi até lá, fazendo cara de mal. Pegou o cardápio de cervejas especiais para dar uma olhada.

– Amigo, quanto é mesmo essa cerveja belga aqui? – Perguntou ao garçom.

– Cinquenta reais[2].

– Pois me dê uma aí.

Ficou lá de pé, observando aquele monte de mulher gostosa bebendo, fumando e conversando sobre coisas inteligentes. Lembrou-se, então, de que Patrícia estava na UNB, e que se demorasse demais talvez não a encontrasse. Pagou a conta e saiu caminhando firme, feito um bêbado equilibrista, em direção à L2.

Tendo saído daquele bloco de projeto futurista antiquado – o que se poderia denominar, com um pouco de verve, de futuro do pretérito da arquitetura, como tudo o mais em Brasília – Atanagildo/Shadath al Grumbug subitamente se viu em meio a um ermo.

À distância, era possível discernir a silhueta dos blocos residenciais, com apenas uma ou outra luzinha acesa nas janelas, meio escondidos entre as árvores. Vista daquele ponto, Brasília lembrava a ruína de uma metrópole maia – como Tikal, um conjunto de monumentais estruturas abandonadas em meio à floresta. A brisa da noite, o cheiro de planta e, principalmente, a enormidade daquele céu transmitiam a Atanagildo uma sensação de solidão e de melancolia, mas também de beleza. De algum modo, ele sentia alegria por estar ali sozinho, e também reverência pela paisagem de fim de mundo em que se encontrava. A alegria de um bêbado, porém, é quase um êxtase, dá vontade de pular, de arrumar briga por aí, de blasfemar. A de Atanagildo foi tão intensa que ele não conseguiu se conter: abandonou a calçada de concreto por onde ia e pegou um atalho pelo enorme matagal que havia à sua esquerda.

As lendas urbanas de Brasília falam de assassinos em série que vagam pelos ermos do Parque da Cidade e da UNB, em busca de uma vítima. Quando se viu no escuro, avançando rápido pelo mato, ele sentiu a excitação do perigo. Será que algum assaltante o havia visto sair sozinho da L2 em direção àquela região despovoada? Será que alguém o estava seguindo?

Ofegante, ele parou por alguns instante e olhou ao redor. Além de sua respiração, o único som que conseguia ouvir, muito ao longe, bem baixinho, era o eco da banda que tocava na 409. Olhou para cima e, apesar da fosforescência da cidade, viu um céu lindamente estrelado. Deu-se conta, então, de que ele não sentia medo, de que na verdade ele quase desejava que houvesse alguém o seguindo. Sua alma, naquele instante, estava conectada ao misterioso coração negro da noite – essa tão subestimada dimensão de beleza e poesia, mas também de terríveis e estranhos fenômenos. Nada o poderia amedrontar: ele era o espectro, a sombra que vagava pelo bosque. Se um assaltante o tivesse seguido, terminaria por encontrar, em meio àquela escuridão, um semblante pálido, não inteiramente humano, com um sorriso meio maníaco. Ele era a verdadeira ameaça, e nenhum criminoso poderia fazer-lhe mal em meio ao seu transe, já que ele não tinha nada a perder. Sentiu vontade de dançar no meio do matagal, mas mais uma vez se lembrou de Patrícia, e seguiu adiante.

Quando menos se deu conta, Atanagildo já estava em plena festa, na UNB, com uma dose de Tequila na mão, conversando com umas meninas de Recife que ele tinha acabado de conhecer. Byron – que também tinha ido para o showzinho – o encontrou em meio a uma discussão sobre feminismo.

– Esse negócio de feminismo é uma merda! – disse Atanagildo, completamente bêbado, não por realmente acreditar naquilo que falava, mas simplesmente por sentir que aquela opinião deixaria as meninas furiosas. – Da forma como é defendido hoje, o feminismo é uma tentativa de libertar a mulher sacrificando o que ela possui de feminino. Mas não é uma libertação verdadeira transformar as mulheres em homens!

As meninas xingaram Atanagildo, disseram que ele era um machista idiota que não entendia porra nenhuma do que era ser mulher. Shadath al Grumbug retrucou que não precisava ser japonês para falar do Japão, e começou a falar que a ideia de maternidade ilustrava perfeitamente o seu ponto: que era uma das maiores bênçãos que Deus ou a biologia reservaram à fêmea, mas que foi transformado pelas feministas numa fardo, etc., etc., etc….

Byron resgatou Atanagildo no momento em que ele estava começando a falar mal de Recife – onde havia morado por muitos anos – para aquelas pernambucanas.

– Ouxi, Atanagildo!

– E AÊÊÊÊÊÊ, Byron, mermão?!! – disse Atanagildo, que ainda não se havia dado conta da presença do amigo.

Com muita psicologia, Byron conseguiu afastá-lo do perigo.

– Tu tá doido? Ficar falando mal de Recife pra essas pernambucanas aí? Tem medo de morrer não? – Perguntou Byron.

– Tenho não, bicho! – respondeu o amigo eufórico – Porra, Byron, ninguém aguenta mais esse papo das glórias passadas de Pernambuco, nem a porra daquele CD com as dez músicas de frevo que toca no carnaval de Olinda. Eu quero saber o que está sendo produzido lá hoje! Quem são os gênios da raça vivos! – Atanagildo, na verdade, adorava Recife, e sempre que podia ia passar as férias lá.

– Mermão, não interessa. Crie juízo.

Atanagildo olhou com admiração para o amigo, sempre tão auto-controlado. Falou, então, apertando seu ombro:

– Rapaz, Byron, tive uma revelação!

– Que porra de revelação?

– Eu descobri quem é o Cagão Misterioso!

– Tu ainda tá com essa história?

Atanagildo se acalmou um pouco, tentou olhar para o amigo com seriedade, como se estivesse prestes a falar algo muito importante, porém só conseguiu expressar um sorriso de bebo bosta. Então apontou para um desses neobarbudos de ocasião que passava por ali naquele instante – desses que usam coque de samurai – e disse, quase gritando:

– ELE É O CAGÃO MISTERIOSO!!!

Byron teve que usar mais uma vez sua paciência para conter o amigo. O neobarbudo fez cara de nojinho ao ver aquele bebum falando asneiras de forma tão descarada.

– Tu quer começar uma briga, cacete? – perguntou Byron. – Tu nem conhece esse mané aí.

– Mas ele é o Cagão Misterioso. – depois de uns instantes em silêncio, apontou para outro cara que estava numa boa tomando sua cerveja e vendo o show, e disse:

– Aquele ali também é o Cagão Misterioso! E aquele outro mané ali também! – disse, apontando para um outro mané ali. – depois de uma pausa dramática, disse, apontando para o amigo – E você também é o Cagão Misterioso! Você, Byron, você é o Cagão!

Byron começava a perder a paciência. Atanagildo continuou seu desabafo:

– Foi essa a minha revelação: todos nós somos um bando de cagões!

– Que conversa troncha…

– Deixa eu tentar me explicar. Veja só, a vida nos deu consciência, e liberdade para usarmos do jeito que quiséssemos. Chegamos ao mundo com um enorme potencial, mas um estoque limitado de tempo e de energia. O que fazemos? Vivemos essas nossas vidinhas meia-boca, sem nunca sair da zona de conforto. Escolhemos uma ou outra miragem, e nos iludimos dizendo que em algum momento vamos largar tudo para ir em busca de nossos sonhos. Mas a verdade é que usamos maior parte de nossas forças para resolver problemas domésticos, e inventamos desculpa atrás de desculpa para justificar a mediocridade de nossos dias. Então, quando nos damos conta, estamos velhos, com a saúde fodida, e não temos mais capacidade de realizar os planos que tínhamos traçado. E nós, que temos o fogo de Prometeu, e que comemos o fruto da Árvore da Vida, passamos a vida inteira fazendo só isso, comendo e cagando, comendo e cagando. É por isso, Byron, que nós somos todos um bando de cagões! EU TAMBÉM SOU O CAGÃO MISTERIOSO!

Aquele surto histérico de discurso pseudo-existencialista foi interrompido por uma voz feminina, que disse:

– Vocês tão muito cagões!

Era Patrícia, que pegou a conversa pela metade e soltou uma gargalhada depois de soltar sua tirada.

– Oi, Patrícia, tudo bem? Esqueci de mandar mensagem para você! – Disse Atanagildo, sorrindo.

Por alguma inexplicável razão, aquela criatura inteligente, charmosa e sensata achava o drama todo de Atanagildo engraçado. Ao coloca-lo diante de Patrícia no exato instante em que discursava às multidões do porvir, a vida parecia dizer ao nosso herói: “Vá tomar no cu, seu porra, você não sabe de nada!”. E, de fato, toda sua angústia existencial parecia incrivelmente falsa diante da alegria que Atanagildo sentia quando conversava com Patrícia. A realidade era aquilo, era aquele ombro bem desenhado cor de canela, e não aquele furacão de palavras soltas na brisa da UNB.

Já nos alongamos demais sobre as agruras de Atanagildo. Havíamos prometido aos leitores um turbilhão de sexo, drogas e sangue, e até agora não sentimos nem o cheiro de um acontecimento interessante.

Bem, certas coisas não ficam bem no papel: são melhor imaginadas que descritas. Deixaremos, portanto, à fantasia do leitor a tarefa de descobrir o que acontece quando uma japonesa moderninha resolve dar bola para um cara xarope, mas incrivelmente passional.

Sobre o nosso turbilhão, nos limitaremos a pontuar que, naquela noite, Patrícia estava num momento muito delicado de seu ciclo menstrual, e trazia um baseado escondido dentro de sua bolsa.

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