AS SESMARIAS DO TEMPO EM QUATRO DIMENSÕES

 

 

 

 

 

Então Deus conduziu Abraão

para fora da tenda e disse-lhe:

“Levanta os olhos para os céus

e conta as estrelas, se és capaz…

Pois bem, ajuntou Ele,

assim será a tua descendência.”

(Gn 15, 5)

 

GÊNESIS DE UM HOMEM

AS SESMARIAS DO TEMPO é um livro com 4 camadas de leitura. A primeira delas é a Genealógica. Mas a Genealogia é apenas o ponto de partida de uma longa viagem.

Algumas perguntas que inquietam o homem são tão antigas quanto os primeiros filósofos gregos: quem sou eu? de onde venho? qual é a origem do mundo? O escritor Pedro Luiz devia se interrogar sobre essas coisas desde quando era menino no Sítio São José. E respondia em suas meditações de meninice sertaneja: eu sou Pedro Luiz, filho de meu pai, neto de meu avô; e venho do sangue de Antônio Félix Vieira, plantador de algodão, pastor de rebanhos, povoador deste Sertão…

A imagem do velho patriarca robusto, barbudo e respeitável, com uma penca de filhos e netos a seu redor, sentado no alpendre de sua casa rústica há 200 anos, certamente povoou o imaginário daquele menino.

Mas para responder bem àquelas interrogações existenciais Pedro filósofo precisou extrapolar o campo da investigação genealógica, sem dele se afastar por completo, apenas ampliando o horizonte das questões em giros concêntricos.

A ESCALA HISTÓRICA

É assim que da camada Genealógica transitamos suavemente à Historiografia da América Portuguesa e do Brasil Imperial. As quatro biografias que compõem o livro são uma fusão da micro-história com a macro-história, quer dizer: a história da vida privada dos 4 personagens está perfeitamente contextualizada no panorama das causas políticas, econômicas e sociais que marcaram o Nordeste colonial e o Brasil após a independência.

O leitor atento vai perceber os movimentos de “zoom in” e “zoom out” da narrativa: às vezes desce a detalhes da vida íntima dos personagens, como se fosse uma espiada na lupa, para explicar certas tomadas de decisões cruciais em suas biografias; outras vezes é como se o diretor do documentário se afastasse do foco, sem perdê-lo de vista, para revelar a paisagem mais ampla onde se instala seu objeto de estudo. Um exemplo: enquanto Napoleão Bonaparte subjugava a Europa, Dom João VI fugia de Lisboa para o Rio de Janeiro e a Inglaterra reagia ao bloqueio continental, o sertanejo Antonio Félix Vieira, pequeno herói da colonização do Estado do Ceará, era fustigado por uma dúvida terrível: – Neste ano, vou criar gado ou plantar algodão?

Essa camada Historiográfica exigiu que todas as afirmações e fatos contados no livro fossem rigorosamente testados e comprovados por fontes primárias. Nesse sentido, AS SESMARIAS DO TEMPO é um trabalho acadêmico. A bibliografia permite entrever a erudição do autor, que, no decorrer de sua pesquisa, consultou desde monografias temáticas, mapas, cartas, tradições orais, documentos de cartório, de arquivo público e eclesiástico, até os clássicos brasileiros incontornáveis, os verdadeiros “Founding Fathers” das nossas ciências sociais: Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Raymundo Faoro. Todas as fontes disponíveis foram medidas, pesadas e consideradas criteriosamente, segundo os 4 níveis progressivos da certeza científica que Aristóteles sistematizou como o “possível”, o “verossímil”, o “provável” e o “comprovado”.

E assim vai-se costurando uma biografia em outra biografia, uma história em outra fase da história, alinhavando personagens, enredos, fatos e causas explicativas: tudo ordenado numa estrutura coerente e compreensível ao leitor.

A FORMA LITERÁRIA

Quando falamos em estrutura expositiva, tocamos diretamente na terceira camada do livro – sua dimensão Literária. Trata-se de observar a forma. O estilo é leve, simples e agradável, mas seria subestimar o livro deter-se nos aspectos estéticos de sua fraseologia. Em vez disso, vamos contemplar a arquitetura da obra: átrio, pórtico e colunas.

Por mais bem fundamentado que seja um livro de História, ninguém suporta ler uma exposição burocrática e maçante. Ciente disso, o autor tempera as referências eruditas com certa dose de humor, equilibra o peso e o mofo dos documentos com uma narrativa ligeiramente inspirada nos romances policiais. É assim no episódio da moça raptada, no suspense mantido até a descoberta de um inventário perdido ou no homicídio atribuído ao alferes Gonçalo Nunes Pereira. Essa simpática habilidade do autor deve-se à leitura apaixonada das tramas de Georges Simenon, de quem eu sei que Pedro é leitor voraz.

Há muito mais a comentar sobre os aspectos literários do livro. Existem simbolismos implícitos, que o olhar atento encontra pelo caminho. Pedro Francisco é pai de Manuel Vieira e avô de Antônio Félix, que colonizou o Cariri com sua vasta descendência de pequenos criadores de gado. Repare que o autor, involuntariamente, encontrou o arquétipo bíblico fundamental da humanidade na particularíssima história de sua própria família: Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou doze filhos que formaram as doze tribos de Israel. A partir de Pedro Francisco, descemos a árvore genealógica em linha reta até a terceira geração. Em Antônio Félix Vieira, a árvore genealógica se abre – como acontece com Jacó – espalhando seus galhos e lançando as sementes sobre a terra. Como na epígrafe do Gênesis que abre este ensaio, multiplicaram-se seus filhos pelo Sertão, fertilizando com sêmen o semi-árido. Eis o milagre da vida: o que é seco produzindo frutos.

Dentro dessa estrutura esquemática, Gonçalo Nunes Pereira pareceria deslocado. Ele é o quarto personagem, casado com uma sobrinha de Antônio Félix. Mas Gonçalo também ocupa o espaço de um arquétipo muito comum na literatura: ele é o parente colateral, o agregado familiar. Para ficar com exemplos bíblicos, lembremos de Ló e Labão.

Ainda na camada Literária, outro símbolo sugestivo é a presença dos 4 elementos n’AS SESMARIAS DO TEMPO.

Por que o autor escolheu 4 personagens, e não mais nem menos? Vemos também que o livro está dividido em 4 Partes. Há 4 camadas de leitura propostas neste ensaio, e assim por diante. Em muitos campos do conhecimento, tudo o que é humano se representa pelo número 4. Temos, por exemplo, as 4 virtudes cardeais, que dizem respeito ao esforço humano, por oposição às 3 virtudes teologais, que são dons de Deus Trinitário. Os pitagóricos representavam o homem pelo tetraedro, uma figura geométrica que, atirada sobre uma superfície como dado, sempre cai com a base voltada para a terra. Na arquitetura sacra, o círculo é um símbolo do divino (sem começo nem fim) enquanto o quadrangular simboliza o humano e, por extensão, a criatura, a matéria. Nós temos necessidade de 4 Evangelhos para dar conta da infinitude da verdade; um só evangelista não seria suficiente. Além disso, todo movimento cósmico se expressa no simbolismo quaternário: as quatro estações do ano, as quatro fases da lua, os quatro pontos cardeais, as quatro causas de Aristóteles. Com três rodas, um triciclo é mais estável que uma bicicleta, porém é menos estável que um carro. É para ficar mais estável que uma mesa tem quatro pernas.

Reparando bem, as 4 Partes que dividem o livro são marcos geográficos, balizas, estacas, “landmarks” como se diz em inglês, pontos de referência estáveis que asseguram o livre fluir das mudanças temporais: de Portugal ao Cabo de Santo Agostinho, de Sirinháem à ribeira do Riacho do Machado, da ribeira do Riacho do Machado ao São José, de Quixoá à Serra Negra. Em outras palavras: do século XVIII para cá, muitas coisas se sucederam, muitos homens nasceram e morreram, muitos casaram e criaram filhos, quantas histórias de alegrias e desesperanças – tudo isso se perdeu num passado desconhecido, somente acessível através desta pesquisa de fôlego que Pedro Luiz Cândido de Oliveira realizou para si mesmo e para nosso proveito. Mas em todo o mar agitado da História, há algo fixo, perene e imutável: os topônimos sertanejos, a Aba da Serra, a ribeira do Riacho do Machado, a cordilheira das Almécegas, o Tabuleiro Comprido, todos esses lugares são hoje o que sempre foram em séculos passados. Os homens passaram, mas os rios e as Serras e os lajedos ficaram. A Geografia é a testemunha da História.

Finalmente, é isto que explica o título AS SESMARIAS DO TEMPO. Tempo e espaço. Espaço e tempo: são os dois eixos cartesianos que cortam o Cosmos em forma de cruz (em quatro quadrantes). E aqui chegamos à quarta e última camada – o alcance filosófico da obra.

A DIMENSÃO FILOSÓFICA

Todo escritor é um pequeno ordenador do Universo. Há um certo elemento Cosmológico na realização de um livro como este: Pedro quis ordenar o mundo, o seu Pequeno Mundo como ele mesmo diz no belíssimo poema que fecha o epílogo. Ordenar o mundo é compreender todas as coisas que afetam a minha vida, responder à pergunta existencial do homem: quem sou eu? de onde venho? qual é a origem do que me rodeia?

A longa investigação que ele empreendeu com AS SESMARIAS DO TEMPO a respeito da vida de seus ancestrais, sobre a história do Brasil e – por que não dizer? – em torno de si mesmo, assemelha-se àquela definição que os gregos davam à tarefa do sábio. Diziam os antigos que são três as atividades da sabedoria: conhecer a essência das coisas, estabelecer relações entre elas e remontar tudo à causa primeira.

É que a Filosofia deve também julgar a História. A Filosofia da História permite avaliar outros possíveis destinos do mundo e entrever o-que-poderia-ter-sido-e-que-não-foi. O que sonhava aquele Pedro Francisco quando deixou Portugal em direção ao Brasil? Que fim último movia a sua viagem através do Atlântico: dinheiro, prestígio, família? O que buscava o seu descendente três séculos depois, ele também chamado Pedro, quando, aos 12 anos de idade, abandonou a pequena vila do São José para ir morar em Fortaleza? O que o movia em direção ao futuro? Apenas a necessidade de estudar na capital para inserir-se melhor no mercado de trabalho? Se assim fosse, este livro não existiria.

Este livro é um grande ponto de interrogação. É uma pergunta dirigida ao passado e ao futuro. E a pergunta é a seguinte: Qual é o motor da História? O que move o homem?

A biografia desses quatro personagens – sempre em trânsito de um lugar a outro – é a jornada de cada um de nós. A vida é travessia. A vida é uma viagem permanente rumo ao Desconhecido. O fim e o princípio são sempre o mesmo. E Deus disse a Abraão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que Eu te mostrarei” (Gn 12, 1). Eis a vocação maior do homem: atender ao chamado para sair de si mesmo, sair de seu pequeno universo interior, de sua casa e sua parentela, em direção ao que lhe é totalmente estranho.

Frederico Oliveira de Araújo

Ciudad del Este, 19 de Maio de 2017

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s