O Cagão Misterioso – Capítulo 1

Observação preliminar: Este texto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura implicância da realidade. 

Eduardo Siebra, 15/08/16

 “Le Cagon Mystérieux, c’est moi.”

 

brasiliaCapítulo 1

  – Sei lá eu qual é o sentido da vida humana, ora porra!

A varanda de Atanagildo fica de frente para um dos mais encantadores jardins do Plano Piloto. Ele o batizou de “Jardim das Delícias Terrenas”, remetendo ao quadro de Bosch que também é a proteção de tela de seu telefone celular.

 – E essa sua concepção aí de “grande feito” é muito questionável. O que é um grande feito hoje? Escrever um poema épico? Compor uma sinfonia? Ainda que a gente fosse capaz disso, nossa cultura é tão exibicionista que o significado se perderia na vaidade do gesto. Imagine se a Ilíada nunca tivesse sido escrita. Se eu fosse capaz de compor o poema verso por verso, hoje, exatamente do jeito que Homero o compôs, você acha que a obra seria sublime?

Os especialistas afirmam que a eloquência é um dos mais notórios efeitos colaterais do rum guatemalteco.

– É claro que não! – continuou Atanagildo – Seria uma monumental punheta, um exercício de estilo para mostrar quão estupenda é a minha erudição.

Byron – o colega de trabalho de Atanagildo, não o poeta – fumava e apreciava o sereno da noite. Era uma varanda realmente sensacional, dava até para sentir a insinuação do perfume de uma dama-da-noite – a flor, não a moça que passara há pouco pela calçada, indo em direção ao bar do Godofredo. Byron disse, em alto paraibanês:

– Assim é muito fácil, bicho! Aí tu simplesmente anula qualquer possibilidade criativa a priori.

– Mas é exatamente isso que nossa cultura faz! – respondeu Atanagildo. – Hoje em dia todo mundo anda pra cima e pra baixo com uma câmera de celular na mão. Isso mata qualquer espontaneidade: tudo que é feito, é feito com o pensamento na imagem, no significado do ato dentro de uma narrativa de rede social. Tu já viu os discursos de nossos colegas sobre política no Facebook? Parece que os caras tão escrevendo para os historiadores do futuro , sei lá.

– É uma babaquice mesmo.

– Pois é. É por isso que a objetividade só sobreviveu na arte comercial: o resto é performance.

– Vamos dar um desconto aí. Tem coisa boa pra caralho sendo escrita, e você sabe disso. Essa conversa tá parecendo mais uma racionalização da preguiça. E mesmo que você estivesse certo quanto à arte, ainda há muito espaço para grandes ações em outras áreas. Na política, por exemplo.

O rosto de Atanagildo ficou ainda mais vermelho, dando claros indícios de que sua cabeça poderia explodir a qualquer momento, salpicando sua massa cinzenta por todos os lados.

– Que política o quê, Byron? Puta que o pariu! Tu não lembra quem eram as lideranças políticas do tempo de faculdade? O que é a política desse país, pelo amor de Deus?

Byron estava um pouco cansado do jeito de pensar de seu amigo, por isso não retrucou.

– Teve uma vez na faculdade que eu fui para um daqueles protestos contra o aumento da passagem de ônibus em Recife. Acho que foi a única coisa corajosa que eu fiz na vida. Fechamos a Conde da Boa Vista, fizemos uma zoada da porra, a polícia jogou bomba de gás, o escambal. Eu lembro que depois teve uma galera que achou massa, que ficou pensando que a gente deu uma grande contribuição pelos direitos urbanos. Agora me diz, isso resolveu o problema de mobilidade de Recife? Não! O preço da passagem aumentou, o trânsito da cidade continua uma bosta, e os discursos políticos inflamados só serviram para reforçar grupos ligados a partidos políticos.

– Ah, bicho, aí tu tá sendo niilista. Então é para a gente se contentar com a nossa mediocridade?

– Eu vou dizer em que eu acredito: que cada pessoa faça o seu trabalho direito. Posso garantir que disso vêm benefícios muito mais reais para as pessoas. Muito mais importante do que tentar deixar uma marca na humanidade, ou fazer um “grande feito”, como você mesmo diz, é dar o melhor de si na área em que você tem possibilidade de intervir. Por exemplo, nós somos dois burocratas. Ao invés de ficarmos pensando se vamos algum dia ser capazes de uma grande realização artística ou política, temos é que tocar bem a papelada, e pronto.

– Mas tu não acha isso muito pouco não? Pensa aí, talvez tu tenha aí algum talento, a mesma capacidade cognitiva de um poeta ou de um cientista, mas por comodismo está se contentando com um destino mediano…

– Vai tomar no cu, bicho! Que porra de capacidade cognitiva o caralho. O Brasil tá cheio de poeta, cheio de Baden Powell tocando violão no boteco. A gente precisa é de gente disposta a trabalhar, a fazer planejamento urbano e processo licitatório bem feito.  Cara, esse teu papo é típico do século XXI. Todo mundo quer ser especial, mas a verdade é que ninguém está disposto a assumir os custos. É uma geração de mimados. Eu só estou sendo mais honesto comigo mesmo, e acho que essa postura é sinal de maturidade.

– Ou de velhice.

– O que seja. Vou dar o melhor de mim naquilo que eu faço, e o que eu faço é tocar a burocracia.

Byron, que também ainda não havia escrito uma sinfonia, fez uma pausa dramática enquanto contemplava a noite de Brasília, sentindo cheiro de mato e de terra seca. Deu outra tragada no cigarro (já o segundo) e falou:

– Sabe o que eu acho? Tu mesmo não acredita nisso que tá falando… Acho que você está tentando se justificar para si mesmo.

– Agora pronto! Se tu sabe mais sobre mim do que eu mesmo, que posso dizer?

– Tu quer mesmo passar a vida nessa mediocridade esplêndida?

***

Uma mediocridade esplêndida, deveras, era a rotina de Atanagildo. Ela tinha seus grandes momentos – como nos dias em que ele via o sol nascer durante sua caminhada matinal no Parque Olhos d’Água, ou quando uma japonesa gatinha calhava de ir malhar no mesmo dia que ele. As duas cervejas alemãs que ele tomava com amendoim nas noites de sexta, geralmente assistindo a um filme de faroeste ou de kung fu, também lhe davam intenso prazer.

Mas, vejam bem, um dia tem vinte e quatro horas. O nosso herói é do tipo que, por razões fisiológicas ainda não de todo esclarecidas, precisa dormir no mínimo oito horas por noite. Acontece que as enigmáticas inteligências que conceberam as regras do serviço público brasileiro julgaram ser imprescindível que um servidor federal estivesse diariamente presente em sua repartição durante o mesmo intervalo de tempo que os proletários da revolução industrial afirmaram ser o máximo que um adulto poderia trabalhar sem cair numa degradante estafa física e mental – ou seja, oito horas. Os matemáticos, ignorantes como são dos aspectos práticos da vida, nos diriam que Atanagildo teria, então, oito horas inteiras de seu dia para gastar como bem entendesse.

Acontece que Atanagildo precisa usar essas oito horas “livres” para espremer o suco de laranja, aguar as plantas, lavar a louça, fazer cocô, escovar os dentes, levar o lixo para fora, dar o nó da gravata, pagar o condomínio, dirigir, comprar tomates e queijo de cabra sem lactose, calibrar os pneus de seu carro, comprar cartucho de tinta para a impressora, levar o terno para a lavanderia, mandar mensagem no Whatsapp e até mesmo para fazer a digestão depois do almoço. Na prática, sobram-lhe à noite exatamente duas horas verdadeiramente livres: das oito às dez. Todos os dias, durante essas duas horas de plena liberdade, Atanagildo – já estafado de ter passado o dia trabalhando e resolvendo as aporrinhações práticas da casa – precisa decidir-se entre jogar videogame ou estudar a filosofia de Wittgenstein.

Por mais afeto que seja aos divertimentos eruditos, precisamos reconhecer que muito raramente o nosso herói se decide a enfrentar o estudo sistemático da filosofia da linguagem nessas duas horas que tem livre à noite…

Mas Byron tinha razão quando disse que talvez Atanagildo tivesse a mesma capacidade cognitiva de um poeta ou cientista. Reza a lenda que Frederico II da Prússia certa feita pediu a Bach que improvisasse uma fuga para um tema musical por ele proposto. Contra as expectativas dos presentes, Bach cumpriu a façanha, e improvisou o embrião do que se tonaria sua memorável “Oferenda Musical”.  Os cientistas modernos se debruçaram sobre o caso e concluíram que para improvisar uma peça tão complexa, Bach precisava ter uma capacidade cerebral superior ao poder de processamento de um supercomputador.

Atanagildo nunca compôs uma linha musical, nem sequer foi um estudante brilhante na escola, mas – ainda que ele próprio o ignorasse – pode-se dizer que ele era uma espécie de Johan Sebastian Bach da burocracia.

À medida que foi ganhando experiência no trabalho, Atanagildo desenvolveu uma percepção acurada dos procedimentos necessários para executar sua função de burocrata. Ele tinha facilidade para organizar mentalmente as tarefas, e estabelecer uma ordem de prioridade entre elas. O caráter repetitivo de sua rotina, ao invés de entediá-lo, acabou por fazer com que tivesse uma espécie de revelação…

Ele intuitivamente compreendeu o que alguns sociólogos do século XX haviam antecipado, mas que só viria a ser empiricamente demonstrado lá pelos meados do século XXIII: a burocracia de que ele fazia parte era um meta-organismo, uma entidade de existência própria, com ritmos, fluxos e uma dinâmica. Não um animal ou monstro, mas uma espécie de ameba social constituída por pessoas e informação.

Com assombrosa naturalidade, Atanagildo era capaz de enxergar os padrões ocultos dessa entidade a que o destino o havia ligado. Era como se ele fosse capaz de ver a matriz secreta por trás do incessante bater de pernas dos contínuos de seu ministério. Essa intuição genial – a que ele próprio não dava muita importância – permitiu a Atanagildo transformar-se num arqui-burocrata, espécie de cabalista ou mago da administração pública.

Entenda-se, isso não quer dizer que Atanagildo tenha aumentado sua produtividade, ou se tornado um funcionário especialmente eficiente. Ele apenas desenvolveu a capacidade de atender, com um mínimo de esforço, aos requisitos necessários para o cumprimento de sua função institucional. Sua compreensão da máquina pública permitiu-lhe entender o significado de sua posição profissional: não era um sacerdócio ou missão, ele estava mais próximo de uma engrenagem – ou vesícula – dentro do sistema. Atanagildo sabia que superestimar, por vaidade, sua posição como funcionário público poderia ser um erro que na verdade atrapalharia o bom cumprimento de suas atividades. Uma engrenagem que perde tempo com outras considerações além de rodar sobre o próprio eixo é uma má engrenagem…

A verdade é que Atanagildo precisava de menos da metade das oito horas que passava em sua repartição para cumprir todos os seus deveres regulamentares. Enquanto outras pessoas poderiam perder horas calculando se a formulação verbal de um despacho agradaria ao secretário fulano ou ao diretor sicrano, Atanagildo – que com sua visão mística do todo entendia que o ponto não era saber a opinião desse ou daquele funcionário, mas sim identificar a necessidade da Grande Ameba – em poucos minutos era capaz de redigir e revisar um despacho aceitável, apresenta-lo ao seu chefe e iniciar a tramitação.  Ele também sabia exatamente quando apresentar uma demanda – nunca cedo demais, o que poderia levar seu chefe a pensar que ele estava desocupado, nem tarde demais, o que poderia provocar complicações desnecessárias depois.

A essa altura, os insensíveis matemáticos a que nos referimos já terão se dado conta de quanto tempo livre Atanagildo tinha todos os dias em seu trabalho para utilizar como bem entendesse. É por isso ele estava tão satisfeito com a mediocridade da rotina que tantas angústias existenciais provocava em seu colega Byron: essa rotina lhe demandava muito pouco.

Atanagildo também tinha a sorte de ter uma sala inteira só para a si. Ele a batizou de “o claustro”, e realmente a via como uma espécie de refúgio espiritual. Era um recinto pequeno, de planta quadrangular, mas muito arejado e iluminado. Havia uma pequena estante com livros, duas escrivaninhas e um grande mapa do Brasil como decoração. Os tapumes que serviam de parede conectavam-se, no seu quarto lado, a uma janela que ia do chão até o teto, e permitia uma vista panorâmica do Eixo Monumental e do deslumbrante céu do Centro-Oeste. À distância, era possível ver a “Flor do Cerrado” – a torre de TV digital de Brasília, que Atanagildo gostava de pensar como um vaso de flores na prateleira de seu horizonte. Sua mesa ficava ao lado da janela, e sobre ela havia – além do monitor e teclado do computador – um calendário chinês, um porta canetas, uma lista de ramais e um chaveiro em formato de elefante de pelúcia. Atrás da cadeira de Atanagildo ficava um vaso com uma planta que crescia com velocidade assombrosa, e já quase tocava o teto.

– Mas são uns canalhas mesmo!

Uma figura bondosa, afetando irritação, irrompeu sala adentro, obrigando Atanagildo a esconder rapidamente seu manual de latim.

– Bom dia, Secretário!

O Secretário de Administração Geral do ministério era um burocrata à moda antiga. Os muitos anos que passou no serviço público lhe deram uma desassombrada sabedoria, que se manifestava em compromisso profissional com total despreocupação por firulas. Como boa parte dos velhos, ele se acostumava com os aspectos de seu cotidiano e dos ambientes em que vivia. Se alguém lhe sugerisse, portanto, mudar um quadro de lugar em seu gabinete ou transferir Atanagildo para outro departamento, ele seria capaz de desencadear terríveis tempestades institucionais. Eles se davam muito bem, e aos poucos Atanagildo se tornava um dos maiores conhecedores vivos de sua psique.

– Você não vai acreditar nisso. Esses imbecis do jurídico nos mandaram de volta o termo de cooperação por causa da numeração do cabeçalho! – O Secretário iniciou, pela enésima vez, uma longa preleção sobre como todos os juristas são grandes idiotas, formalistas e sem qualquer senso de conexão com a realidade. Contou novamente a história da licitação que havia custado uma fortuna ao erário, por causa de questiúnculas formais apontadas pelo setor legal. Atanagildo concordou com tudo, citou um trecho de Jonathan Swift especialmente mordaz, comparou os bacharéis do Brasil a uma praga de ratos se alimentando dos bocados que conseguiam arrancar da estrutura putrescente do Estado, e pôs a culpa de tudo nos portugueses – que por terem consolidado sua burocracia cedo demais, a construíram com uma mentalidade meio medieval, e com um entendimento meio cabalístico do poder da palavra escrita de gerar realidade. O Secretário ficou extasiado, falou do filme a que tinha assistido no fim de semana, falou de seu velho cachorro, o Bing – que tinha cagado em algum lugar inusitado – fez uma piadinha sem graça e entregou o papel que trazia na mão a Atanagildo – verdadeira razão de sua irrupção dramática.

Quando o Secretário de Administração Geral saiu, na sala de Atanagildo voltou a reinar a paz habitual. Ele respirou fundo e deu uma espiada no Eixo Monumental, apreciando a brisa que entrava pela janela. Aquele céu intensamente azul, cheio de nuvens branquinhas que pareciam algodões flutuantes, passava-lhe enorme tranquilidade. Atanagildo permitiu-se perder alguns minutos vendo o vai-e-vem dos carros e voltou à escrivaninha. Abriu a gaveta e pegou o manual de latim.

Depois de declinar alguns substantivos e traduzir algumas máximas simples, Atanagildo guardou o livro e buscou no escaninho o papel que seu chefe acabara de lhe entregar.  Ao passar a vista no texto, uma profusão de sinapses nervosas aconteceu em sua cabeça. Seu cérebro de Johan Sebastian Bach entrou em movimento, permitido a Atanagildo enxergar tudo com clareza, quase que como numa revelação. Ele ponderou a linguagem, avaliou os prazos, identificou potenciais interessados ou prejudicados, concebeu uma linha argumentativa e esboçou mentalmente uma resposta. Quando abriu o software de elaboração de expedientes, maior parte do trabalho já estava feito. Ele simplesmente seguiu a intuição, e deixou o texto escrever-se por si mesmo.

Terminada a redação, levantou-se, foi até a sala do Secretário Geral e bateu na porta.

– Com licença, Secretário, aqui está a resposta.

– Ah, obrigado, Atanagildo, pode deixar na minha entrada que daqui a pouco dou uma olhada.

Com a sensação de dever cumprido, e a satisfação de ter dado mais uma pequena contribuição para o bom andamento da vida civilizada em tempos tão bárbaros, Atanagildo decidiu ir ao banheiro – mais para dar uma espraiada do que por efetivas necessidades fisiológicas.

Os antigos chineses compreenderam que existe uma correspondência entre o macrocosmo e os pequenos gestos humanos. Que os mandarins – ou seja, os burocratas – realizem os rituais nascidos da tradição é a garantia de que a harmonia reinará no Céu e na Terra. Apesar de desconhecer os preceitos do confucionismo, Atanagildo compreendia o dao de sua habitual mijada, e, talvez por intuir que era isso e apenas isso que impedia que um meteoro caísse em Brasília e transformasse a cidade numa cratera, ele sentia uma inexplicável felicidade naqueles pequenos intervalos.

Ao sair de seu escritório Atanagildo se via num longo corredor, a que anos de contingenciamento orçamentário deram um aspecto de penúria. Desde que fora lotado na Secretaria de Administração Geral, Atanagildo já devia ter feito aquele percurso por entre as paredes recobertas de carpete mofado algumas centenas de vezes. Desse total, em algumas dezenas de vezes ele encontrava Torquato, colega seu da Secretaria de Orçamento, também indo ele mesmo realizar seu ritual confuciano no banheiro.

– Opa, Atanagildo, tudo bem?

– Opa, tudo bem, cara? Tranquilo? – Retrucava Atanagildo, que era péssimo em decorar nomes e não sabia como Torquato se chamava.

– Será que essa reestruturação de nosso plano de carreiras dessa vez sai?

– Pô, bicho, quem me dera! Mas há quantos anos que a gente escuta essa ladainha?

Essas e outras trivialidades eram apenas um pretexto para Torquato expressar alguma simpatia – e mesmo sem saber seu nome, Atanagildo o tinha em alta conta, achava-o um cara muito legal. Por isso jamais se cansava de comentar com ele sobre a reestruturação, embora na verdade estivesse muitíssimo pouco preocupado com a questão.

Ao chegar ao toalete, primeiro tomava a precaução para ver se o urinol estava desocupado – para evitar o risco de ter que aliviar-se ao lado de um superior hierárquico – e, se a barra estivesse limpa, Atanagildo ia todo contente tirar água dos joelhos.

Perdoem-nos os leitores por dedicarmos nossa atenção a esse fato fisiológico banal – que certamente foi realizado pelos personagens das mais ilustres obras da ficção e pelas grandes figuras históricas, sem que os historiadores e literatos jamais tenham julgado necessária sua narração. Acontece que, embora aparentemente um detalhe, essa velha mijadinha entre a redação de um expediente e outro era um aspecto fundamental na vida de Atanagildo, como um belo relevo na cornija de um templo: os transeuntes em seu caminho para a ágora muito raramente o notam, já que o olhar se atrai pela beleza do todo. Se algum dia, porém, bárbaros trácios o destroem ou danificam, então sentimos que estamos diante de uma imperdoável violação, e nos damos conta da importância daquele antes ignorado detalhe na composição do edifício.

Do mesmo modo, Atanagildo jamais supusera que uma perturbação em seu momento cotidiano de urinar pudesse desencadear um desequilíbrio tão profundo de sua meticulosa rotina. Ele, que vivia tão contente por realizar suas tarefas profissionais chinfrins – e por ainda poder estudar idiomas indo-europeus nas horas livres – não poderia ter imaginado a fragilidade por trás de seu sentimento de auto complacência.

Aconteceu na manhã em que o Secretário de Administração Geral xingara pela nonagésima terceira vez os consultores jurídicos e em que Torquato falara pela décima segunda vez na perspectiva de sair a reestruturação do plano de carreiras. Atanagildo – que havia demorado mais que o habitual redigindo e carimbando um processo especialmente complexo – estava entretido em tentar dissolver as bolinhas de naftalina do mictório com seu jato de xixi. E então, enquanto ajustava a pontaria para obter melhores resultados, ele o sentiu…

Como descrever aquela sensação? Imaginem alguém que todos os dias olha por uma janela e vê um terreno baldio, onde há uma árvore,  um traço de terra descampada e uma gangorra quebrada. Por dez, cem, mil vezes a pessoa olha aquele ermo sem atribuir qualquer importância à visão. Então, certa feita, numa tarde banal, quente e ensolarada, o indivíduo – meio sonolento, com o bucho cheio da galinhada do almoço – deixa seu olhar perder-se na paisagem por um pouco mais de tempo. Naquele instante, como que uma diabólica revelação se descortina, e no quadro do terreno baldio sob o céu azul, no sol inclemente, na gangorra enferrujada, nos galhos das árvores, nos pedaços de mato aqui e acolá, balançados suavemente pela brisa tépida, o sujeito tem a intuição de um segredo ominoso, velado por trás da suposta habitualidade do cenário. O coração se comprime, e o indivíduo se sente esmagado pela apreensão de uma verdade que sua mente mortal simplesmente não poderia suportar.

Em plena mijada, Atanagildo sentiu na pele essa espécie de revelação nefanda… Num primeiro instante, sentiu uma grande pressão nos ombros e no peito, como se estivesse tendo um mal súbito. Apenas algumas frações de segundo depois seu cérebro, atordoado pelo impacto da sensação, conseguiu ordenar as impressões e fazer nosso herói entender o que estava acontecendo.

Uma fedentina pútrida destacava-se do mau cheiro habitual do banheiro, como se um imprevidente arqueólogo tivesse retirado a lousa de uma catacumba onde apodreciam os restos de uma multidão de cadáveres. Os banheiros de repartições públicas – mesmo aqueles ligados à gestão federal – nunca foram célebres pelo agradável de suas fragrâncias. Mas aquele era um fedor diferente, era um miasma sulfuroso, uma catinga mefítica que um místico associaria às emanações dos poços do inferno. Uma tal inhaca não poderia ter saído de dentro das vísceras de um ser humano.

Ou pelo menos foi o que pensou Atanagildo, com o talento típico dos burocratas para exagerar os próprios problemas. Seu semblante assumiu um tom esverdeado meio caricatural, que um dermatologista não acreditaria possível se lhe tivessem mostrado. Seu estômago engulhando lhe fez sentir silenciosos espasmos. Sem sequer ter fechado a braguilha, correu para a pia e passou alguns instantes em silêncio, sentindo a antecipação da própria morte enquanto contorcia o rosto em expressões que muito lembravam os trejeitos de um coreógrafo de teatro ou dança contemporânea – o que dá na mesma. Depois dessa performance, Atanagildo recuperou a voz e condensou seu mal-estar num escandaloso gorgolejo, que se escuta quando uma pessoa tenta vomitar mas não consegue:

– BLEEEEEERGH!

Se quiséssemos causar efeito, poderíamos aqui dizer que justo naquele instante um graduado burocrata entrou no banheiro e encontrou Atanagildo naquela situação deplorável, curvado sobre a pia, com o rosto – agora pálido – todo suado e as calças desabotoadas. Nosso objetivo, no entanto, não é causar frisson ou contar uma anedota divertida, mas nos ater fielmente aos fatos tal como aconteceram: ninguém adentrou o toalete naquele instante. Atanagildo teve tempo de lavar o rosto, arrumar os cabelos com a ponta dos dedos, ajeitar a calça e enfiar para dentro a barra da camisa social. Endireitou-se e olhou em direção à portinhola das baias onde ficam as privadas. Ainda teve tempo de fazer uma expressão indignada ao entrever um sapato social preto, engraxado e aparentemente de uma marca cara – o que dava um indício do status social do cagão – pela abertura por debaixo da portinhola. Ter-se-ia talvez até permitido um muxoxo indignado, se naquele momento a pestilência não o tivesse atingido mais uma vez, como se a própria Grande Muralha da China tivesse desabado sobre ele. Seu instinto mamífero de sobrevivência o fez sair correndo dali, antes que tivesse tido tempo de resmungar o que quer que fosse.

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