A Maldição do Trabalho

playtimeKraton, 12/03/2013

Caro Fredon,

Lanço-me a esse texto – que não é nem só carta, nem ensaio, nem desabafo, mas tudo ao mesmo tempo – mais com desespero do que com entusiasmo pelo tema sobre que pretendo dissertar. A relação de nossa sociedade com o trabalho é uma questão que vivencio com toda a dor de um burocrata aprisionado ao seu computador. Não é assunto para uma tese: é um dos grandes dilemas pessoais que tenho enfrentado nos últimos tempos.

Não tenho, portanto, qualquer pretensão de imparcialidade ou de universalidade para meus disparates. Farei uma análise forçosamente situada, não só num contexto lingüístico e cultural, mas na minha história de vida. Quero destrinchar a questão do trabalho a partir de uma ótica declaradamente kratoncêntrica, como se o meu aborrecimento ao acordar de manhã cedo para vir labutar fosse o único drama que realmente importasse.

Faço isso não por narcisismo, mas por não acreditar que fosse possível abordar o problema de outra maneira. Mesmo sem pretender ser lido, espero, em meio às minhas lamúrias, alcançar uma ou outra verdade que tenha, sim, validade para você, para meus amigos, e quem sabe até para a multidão dos outros seres humanos que, como nós, estão afastados das grandes realizações do espírito não (apenas) pela falta de talento, mas pela exasperante falta de tempo. Não sendo relativista, aspiro à universalidade acessível à minha situação.

Dito isso, peço que perdoe qualquer arroubo megalomaníaco que encontrar na concatenação de uma ou outra idéia. Sabendo quem sou – um burocrata com cultura de almanaque, entediado, angustiado com o que acredita ser a vitória do tédio sobre o fascínio cósmico essencial – não me absterei de meter meu bedelho sobre todas as questões que considerar fundamentais para a reflexão que pretendo lançar. Valho-me do que considero um direito profundamente humano: o de falar, com ou sem propriedade, sobre as maiores e menores questões que assombram nossa espécie desde o dia em que pela primeira vez articulamos uma interjeição. Em minha defesa, apresento o fato de que não tenho pretensões de publicar esse texto no Facebook.

 Empresta-me, pois, ó Fredon, tuas orelhas filosóficas para ouvir as dores desse teu amigo!

1 – O Elogio do Trabalho

O trabalho é uma maldição. Ao lado do câncer – essa enfermidade saída da caixa de Pandora da tecnologia e da alimentação industrializada – é um dos principais males que assolam os homens de nosso tempo. No restante deste texto, tentarei mostrar que essa afirmação não é nem radical nem despropositada.

Sei que qualquer ensaio que tivesse a pretensão de criticar a necessidade de trabalhar em si mesma teria tantas chances de sucesso quanto um texto que se lamuriasse da necessidade de viver.  Pois o que é o trabalho, afinal? No limite, apenas uma palavra e, na acepção que mais nos interessa, um conceito. Esse conceito possui vários significados, alguns mais abrangentes, outros mais restritos, mas todos envolvendo a idéia de que usamos alguma medida de esforço para alcançar um objetivo. Num certo sentido, o próprio ato de digitar esse insípido texto é um trabalho. Como eu, então, digitador que sou, poderia reclamar da necessidade humana de trabalhar?

Quando o identificamos com o esforço e engenho humanos, o trabalho é, na verdade, abençoado, pois ele é nosso meio para moldar a realidade em que nós, certo dia, subitamente nos descobrimos criaturas conscientes. Foi pelo trabalho que os grandes artistas fizeram suas obras e que os grandes lógicos tiveram seus tenebrosos silogismos. Não se poderia alcançar qualquer finalidade sem essa nossa aptidão de trabalhar – aptidão que decorre de nossa capacidade de intelecção e dos polegares opositores.

É claro que, quando digo que o trabalho é uma maldição, não estou me referindo à acepção mais ampla do conceito. Ao dizer que ele é maldito, talvez esteja me referindo a um segundo significado encontrado no dicionário: a de “atividade profissional regular, remunerada ou assalariada” (ver Houaiss) no contexto de uma economia de trocas. Acho que, fora da Inglaterra e do Japão, poucos filósofos discordariam de minha proposição de que ter que trabalhar para ganhar a vida é um tremendo aborrecimento.

Mas, vejamos lá! Nem essa forma de trabalho é maldita. Ora, se tudo o que consumimos, das batatas fritas aos CDs de música clássica, provém, forçosamente, do trabalho humano, então o desejo de consumir sem trabalhar é nada menos do que o desejo de usurpar o trabalho alheio. Nesse sentido, o ócio talvez tenha um elemento de imoralidade. Todos queremos ter uma vida confortável, consumindo aqui ou ali produtos culturais interessantes. Mas aqueles que podem se aproveitar desses benefícios da economia de mercado sem mover um dedo que seja estão se aproveitando – na melhor das hipóteses – do trabalho de seus ancestrais ou, numa perspectiva mais marxista – do trabalho das classes mais arrombadas da sociedade. Os aristocratas do passado – os que patrocinaram a alta cultura, a música, a poesia e a religião em diversas de suas manifestações – só podiam ser tão legais porque descendiam de um bando de saqueadores que obrigou os povos mais politicamente corretos a trabalhar para si.

Numa economia de trocas, portanto, o trabalho possui um aspecto ético que justifica a riqueza individual. Não é de todo despropositado o horror que o catolicismo tem à usura, já que receber juros é o mesmo que enriquecer sem trabalhar (e esses protestantes anglo-saxões precisaram usar todo seu engenho para convencer o mundo do contrário). Aquilo que eu consumo, portanto – essas maravilhosas edições encadernadas dos clássicos da literatura universal, os discos da Deutsche Gramophon e as cachaças de Minas Gerais, não necessariamente nessa ordem – bem como a riqueza que eu acumulo supostamente se justifica pelo nobre e elevado trabalho que eu exerço, com a dedicação dos jovens burocratas, em meu exíguo escritório. O salário que o Estado me paga todos os meses corresponde – em tese – a uma apreciação social do valor da atividade que eu exerço pela administração pública. É esse dinheiro que me permite ter acesso – sem crises de consciência – ao fruto do trabalho do restante da humanidade.

Além disso, o trabalho possui – como muito apropriadamente me observou uma mística japonesa – um papel psicológico importante. Saber que nós conseguimos o pão nosso de cada dia com o fruto de nosso suor é um aspecto importante da narrativa que construímos, inconscientemente, para interpretar nossas vidas. A idéia de esforço e retribuição está nas camadas mais reptilianas de nossa psique, e não sei se nos tornaríamos pessoas mais felizes se conseguíssemos – quem sabe com o milagre de uma sociedade paparicada por um exército de robôs – nos livrarmos completamente dessas ideias. Sei que provavelmente os aristocratas atenienses cujos escritos aprendi – para desespero dos militantes de políticas afirmativas – a admirar discordariam disso, mas acho que o trabalho – inclusive o trabalho manual – possui, sim, sua nobreza.

“Do que estou choramingando afinal? O trabalho é bom ou é ruim? Explique-se logo, ora bolas, seu mandrião!”, talvez me dissesse um leitor impaciente, de quem não tiro as razões. Paciência que já chego lá. Dizer que o trabalho é uma maldição é, espero que já tenha ficado claro a essa altura, uma afirmação que precisa ser qualificada para fazer sentido. Se eu a fiz assim, na lata, logo ao começar meu texto, foi, naturalmente, para tornar a coisa toda mais interessante, e captar a atenção dos desocupados.

Mas é claro que o trabalho não é, em si mesmo, maldito. O trabalho é bom: ele nos permite sair dos pântanos e das florestas – cheios de tigres de dentes de sabre e mosquitos gigantes – para viver em agradáveis cidades onde se pode, com um telefonema, encomendar uma pizza e tomar uma cerveja. O trabalho dá sentido às nossas vidas e preenche nosso tempo. Ele nos permite até mesmo compartilhar do poder criativo de Deus, já que é pelo trabalho que podemos dar forma e trazer à realidade os sonhos que povoam nossas cabeças de bípedes pelados.

Ruim não é o trabalho, ruim é a relação com o trabalho que se desenvolveu – sei lá eu por que razões – em nossa sociedade. Peço licença agora para meter o cacete.

 2 – A Ética e a Ideologia do Trabalho

 O trabalho é bom, e a dedicação a ele é uma das noções mais dignas que um ser humano pode expressar. Essa frase – com a qual eu, em grande medida concordo – supostamente contradiria a proposição que fiz ao começar esse ensaio – a de que o trabalho é uma maldição.

Essa aparente contradição se explica pelo fato de eu não lamentar nem o trabalho nem a obrigação de trabalhar, mas a relação doentia que nossa sociedade desenvolveu com esse que é um dos principais aspectos da vida humana.

Uma sociedade sensata valorizaria o trabalho pelos seus frutos, ou seja, pela aptidão do esforço de um profissional de trazer bem estar às outras pessoas. A imagem insofismável que me vêm à mente é a de um anestesista competente. Que poderia ser mais digno do que seu esforço – o de aliviar os terríveis sofrimentos das pessoas que precisam ser submetidas a cirurgias? Basta pensar no que eram as amputações antes da invenção dos anestésicos para reconhecer como o trabalho de alguns indivíduos especialmente talentosos pôde transformar o mundo num lugar melhor.

Também os dentistas, essa injustiçada classe, em muito contribuem para aliviar os sofrimentos de nossa espécie. Se dermos crédito a De Quincey, que disse que um quarto da miséria humana é dor de dente, só aos dentistas deveremos a redução de 25% do somatório total de nossa miséria!

Como poderia eu, portanto, denegrir o nobre empenho dos médicos, professores e cozinheiros que tanto se esfalfam para compensar as agruras da matéria? Em meu entender, o problema começa com um deslocamento doentio que nossa sociedade fez na lógica do esforço e retribuição.

Se fôssemos tentar entender o que aconteceu de maneira meramente hipotética, poderíamos talvez apresentar o seguinte relato: o homem trabalhou e viu que os frutos de seu trabalho eram bons. Logo, concluiu que o trabalho era bom. Depois de um tempo, todavia, o homem viu que não tinha jeito, ele tinha que trabalhar para sobreviver, e isso cansava para caramba. Mas os frutos do trabalho eram bons, ué, então provavelmente esse esforço também deveria ser bom. Logo, o esforço em si mesmo deveria ser bom. Surgiu, assim, a loucura dos protestantes e japoneses.

Mas não acabou aí: eis que veio a suprema loucura! Pessoas que, de tão abarrotadas de trabalho para fazer não conseguiam pensar em nenhum objetivo melhor para as próprias vidas, passaram a acreditar que o esforço era bom independente de seus resultados. Ou seja, esfalfar-se em si mesmo era uma atividade digna, o sofrimento possui um valor ético, mesmo quando esse esforço não faz a menor diferença no resultado que se alcança. Afinal, não tem jeito mesmo, a gente vai ter que levar porrada no lombo. O melhor é não apenas se conformar, mas começar a gostar das chicotadas que levamos. Havia nascido a loucura dos burocratas latinos.

O curioso é que essa ética deturpada do trabalho – o amor ao esforço pelo esforço – é comum especialmente em profissões famosas pela sua inutilidade. Talvez como um mecanismo psicológico compensatório, as pessoas tentam justificar a existência de sua profissão (bem como, talvez, os altos salários que recebem) tentando convencer a si mesmos e ao restante da humanidade embasbacada que o seu irrelevante obrar é imprescindível à grande marcha do progresso. E eis que pessoas originalmente sensatas descobrem uma vocação para o masoquismo da irrelevância.

Mas é evidente que apenas esse mecanismo psicológico não basta para explicar que a obsessão com o trabalho tenha se tornado tão intensa e tão generalizada em nossa época. O auto-engano é uma força poderosa, mas também o é a preguiça. Acho improvável que as multidões de hominídeos que vemos atualmente, em todos os cantos da Terra, desperdiçando a quase totalidade de seu tempo desperto trabalhando, o façam apenas por um instinto de resignação. Como diriam os estoicos e os ginecologistas: o buraco é mais embaixo.

O problema é complicado, e precisa ser analisado em diferentes níveis. Talvez ajude começar com uma distinção: existe uma diferença grande entre a situação das pessoas que trabalham para sobreviver – ou seja, para garantir um nível de consumo de bens essenciais (alimentos, roupas remédios) – e a das pessoas que trabalham para garantir um padrão de consumo que lhes permita alguma medida de conforto material. No primeiro caso, não cabe falar de ética do trabalho ou ideologia do trabalho: as pessoas simplesmente não possuem opção. Elas estão obrigadas a realizar uma série de atividades mecânicas, desgastantes e danosas à saúde não por amor ao sofrimento ou à diligencia, mas sim por constrangimentos existenciais. Não sejamos hipócritas quanto a isso.

Um segundo nível do problema diz respeito às razões por que as pessoas continuam se esfalfando mesmo depois de ter alcançado um nível de renda que lhes permite ter razoável segurança em relação ao problema da subsistência. Nas sociedades industriais, a verdade é que, embora existam abismos entre os padrões de consumo das diferentes classes, é possível alcançar a linha mínima de subsistência com um nível baixo de renda. Uma parcela significativa da população trabalha para garantir padrões mais elevados de conforto e de consumo – embora, claro, possa-se debater em que extensão o consumo acima da linha de subsistência é supérfluo ou não: ser simplesmente capaz de alimentar-se não basta para garantir, numa metrópole contemporânea, um padrão de vida digno.

Por que essa segunda classe de pessoas trabalha tanto? Será que os seres humanos possuem uma propensão biológica à acumulação de objetos? Somos materialistas irremediáveis, e não conseguimos – como os índios de Cabral – resistir à visão de espelhos e penduricalhos coloridos? Ou haverá um elemento cultural em jogo que nos leva inconscientemente a internalizar mentalidades e comportamentos?

Eu arriscaria escolher a última a última alternativa. Diria que a propensão do homem moderno a consumir e a trabalhar é herdada pela cultura, e essa cultura é condicionada pelo tipo de economia em que vivemos.

Pensemos a questão em termos nerds. Do ponto de vista da civilização, o problema do trabalho foi, desde a pré-história, um problema de energia e informação. Inicialmente, a única fonte de energia disponível para nós era a própria tração humana, ou seja, a energia que poderíamos usar com nossos próprios braços. Depois de algum tempo, aprendemos a manipular novas fontes energéticas, como a tração animal, a energia dos ventos, da água e dos combustíveis fósseis. Paralelamente, desenvolvemos nossa capacidade de acumular e manipular informação com uma série de invenções (como a escrita, o ábaco) e com o próprio desenvolvimento do conhecimento.

À medida que nossa sociedade foi se tornando mais complexa, nossa capacidade de manipular o meio em que vivemos se tornou maior. O avanço da tecnologia tornou possível um aumento na produção de bens e serviços com emprego de menos esforço físico e intelectual por parte dos seres humanos. A revolução industrial, então, liberou energias com as quais nossos ancestrais sequer poderiam sonhar – como a energia aprisionada nos combustíveis fósseis e a energia atômica.

Se o nosso padrão de consumo tivesse permanecido o mesmo que o de nossos ancestrais, a revolução industrial teria significado uma diminuição do tempo que cada ser humano teria que trabalhar, já que o aumento da disponibilidade energética permitiria um aumento de produtividade que mais do que compensaria o aumento populacional. Além disso, se os frutos da produção fossem distribuídos de forma justa, a revolução industrial poderia ter significado o aparecimento de uma sociedade mais próspera e mais livre.

O que aconteceu, porém, foi exatamente o inverso. A mecanização da produção multiplicou as horas que cada operário era obrigado a trabalhar, criando jornadas de trabalho impensáveis em outros contextos históricos para trabalhadores livres. Embora tenha multiplicado a possibilidade de consumo da sociedade como um todo, a revolução industrial também teve o paradoxal efeito de nos fazer trabalhar mais.

Essa contradição – que o aumento da produtividade possibilitado pela tecnologia tenha nos feito trabalhar mais – só pode ser compreendida quando se entende o mecanismo da acumulação de riqueza. Não sou marxista, mas é preciso reconhecer a verdade, mesmo quando ela é dita aos berros por barbudos furiosos. Só se entende o que vem acontecendo com a humanidade nos últimos séculos quando se percebe que nossa sociedade baseia-se numa usurpação original da força de trabalho de parte da humanidade por outra. A acumulação de riqueza por uma determinada parcela privilegiada da sociedade não é um elemento de uma teoria social, é um fato histórico.

Não quero ser simplista, mas é preciso reconhecer que, na modernidade, a tecnologia esteve a serviço da lógica capitalista da acumulação. Não se pode entender a relação do homem contemporâneo com o trabalho ignorando a dinâmica concentradora da economia de trocas.  As forças produtivas não estão organizadas de forma racional, para atender ás necessidades físicas e espirituais do maior número possível de pessoas. A produção está a serviço do lucro, ou seja, a definição de que tipo de bens e serviços serão produzidos depende dos interesses de quem está no controle das empresas. É uma lógica viciosa que se retroalimenta, estimula a propensão a consumir (pela publicidade e pelos processos inconscientes de socialização) e força para cima o padrão de renda considerado aceitável. Isso faz com que os indivíduos se vejam forçados a trabalhar ainda mais por pressões que vêm, por um lado, do desejo individual de acompanhar as tendências de consumo da sociedade e, por outro, pela necessidade de o setor produtivo produzir cada vez mais bens e serviços desnecessários.

Esse é um processo abrangente e atinge inclusive quem não está diretamente empregado no setor produtivo. Mesmo o burocrata, por exemplo, que teoricamente trabalha no Estado em favor do bem público, tem muitas vezes seu trabalho multiplicado em razão de vivermos numa sociedade de consumo (pois não é o grande projeto dos Estados contemporâneos o estímulo ao crescimento econômico?). Até o funcionário do judiciário – esse mandarim mandrião – precisa trabalhar mais em razão de a sociedade capitalista aumentar as possibilidades de situações jurídicas que requerem a atenção do Estado.

Eis minha primeira proposição sobre o trabalho: nós trabalhamos muito por causa de uma ideia viciosa de desenvolvimento criada pela sociedade de consumo, que está a serviço da acumulação de riquezas. Maior parte de nosso esforço só é necessário na medida em que a sociedade, pela maneira como está organizada, sente necessidade de produzir novas bugigangas eletrônicas, novos alimentos de baixíssimo valor nutricional, novos objetos culturais de consumo massificado. No cerne dessa dinâmica encontra-se o processo de concentração econômica da riqueza.

É claro, nem todo trabalho se justifica apenas pela acumulação capitalista. Voltemos ao exemplo do anestesista. Se ele trabalha oito horas por dia, teoricamente ele está dedicando oito horas de seu dia a aliviar o sofrimento de seus semelhantes. Os benefícios de seus esforços são muito claros.

Mas e o cirurgião que trabalha para uma rede de hospitais particulares? Será que o seu excesso de trabalho pode ser interpretado à luz do mesmo esquema simplista?  Numa economia complexa e consumista, utilizar o relato tradicional sobre a importância do trabalho pode não passar de uma estória da carochinha sociológica. Mesmo as ocupações tradicionais – os professores, os engenheiros, mesmo os militares, quando se trata de alguns países – podem ter seu trabalho desvirtuado (e multiplicado) pela contaminação da lógica da acumulação capitalista.

Pergunto, novamente: por que nós trabalhamos? Será para aliviar a dor de dente de Thomas de Quincey? Ou não será para permitir que nossa sociedade produza mais  bens que representam necessidades de consumo imaginárias, criadas pela própria oferta? Fico tentado pela segunda opção.

Mas o problema não se encerra aqui. Se a sociedade é tão injusta quanto eu disse, por que razão nós tão passivamente nos adequamos a ela? Por não sermos capazes de compreender toda a extensão da injustiça? Pela promessa – quase sempre ilusória – de ascensão social e enriquecimento que o capitalismo nos faz? Por pura inércia?

Deparamo-nos aqui, com o problema das mentalidades. Para nós, burocratas e pequenos burgueses do alvorecer do século XXI, o trabalho deixo de ser apenas um meio de vida e se tornou quase a finalidade última de nossa existência.

As prisões mentais talvez sejam as mais terríveis. A cultura ocidental possui um poderoso instinto latente de rebeldia que talvez se explique pela intuição de quão opressora pode ser a cultura. Desenvolvemos um aparato crítico – um vocabulário filosófico – que em grande medida deseja nos libertar – nem sempre com sucesso – do peso do senso comum e do óbvio. Dois mil e quinhentos anos depois de Sócrates ter corrompido a juventude ateniense, cá estamos nós às turras com idéias que nos confundem e nos distanciam do sonho platônico do supremo bem e da fuga da caverna.

3- A Cultura do Trabalho

Nossa vida está imersa numa rede de narrativas. Muito dificilmente nós interpretamos um acontecimento de forma isolada: sempre tentamos contextualizá-lo dentro de um quadro mais amplo – um aprendizado, uma busca, uma tragédia.

As narrativas têm um papel cognitivo importante porque elas nos permitem selecionar aspectos da realidade que nos interessam. Da torrente avassaladora de informações que encontramos em estado bruto no mundo, escolhemos aquilo que julgamos importante e construímos, com tal material, nossas vidas.

Nesse sentido, os mitos não são uma opção, pois, a não ser que atinjamos a iluminação debaixo de uma árvore Bodhi, o mundo como pluralidade de fatos desconexos é ininteligível: precisamos de um esqueminha mental para que as coisas façam sentido, e em geral tais esquemas manifestam-se com a ajuda de histórias. Não quero com isso dizer que estamos condenados a viver num mundo de ilusões inconscientemente criadas: um mito não é necessariamente falso, e alguns mitos estão mais próximos de nos fornecer um relato preciso da realidade do que outros.

É a sociedade – através da cultura – que nos fornece o repertório de imagens e de ideias que usamos para construir nossas histórias de vida. Essa interação entre indivíduo e mentalidades é talvez um dos mais cabeludos problemas das ciências sociais, porém que ela aconteça é algo que nós – criaturas culturais que somos – podemos sentir com a mesma facilidade com que sentimos o ar que entra em nossos pulmões – desde que não sejamos acólitos de uma dessas seitas místicas economicistas. Muito antes da invenção da internet, nossas consciências já estavam conectadas a fluxos de informações que fazem parte de sistemas culturais – os quais, pelo visto, estamos ainda longe de compreender.

O surgimento das ideias não acontece de forma paralela ou superposta ao desenvolvimento das outras esferas da vida – como, por exemplo, a economia. A cultura não é um dos elementos da vida em sociedade: ela é um de seus próprios pressupostos. Qualquer forma de organização produtiva pressupõe a cultura na medida em que ela envolve comunicação entre os trabalhadores, atribuição de papéis, escolha de finalidades, etc.

Não seria exato dizer, portanto, que a cultura do trabalho que, segundo meu argumento, possui um papel negativo na vida do homem contemporâneo, surgiu apenas como um desdobramento da evolução da sociedade capitalista – mais ou menos como havia suposto Marx. As idéias não pairam acima da sociedade como uma superestrutura que serve só para legitimar a forma como a economia está organizada: na verdade, toda a experiência humana está imersa nesse contexto de idéias e valores.

Internalizamos nossas maneiras de pensar de várias formas – pela educação formal, pela experiência de vida que vamos adquirindo ao longo de nosso amadurecimento ou, o que é mais difícil de perceber, pela aquisição de uma linguagem que já possui, no próprio recorte que ela faz da realidade, uma série de escolhas e tomadas de postura a respeito da vida, do universo e de todo o resto. A cultura tem o efeito paradoxal de, por um lado, condicionar e direcionar nossas possibilidades de pensamento e de ação e, por outro, de nos fornecer os instrumentos críticos que nos permitem questioná-la. Pessoalmente, estou inclinado a acreditar que existem culturas mais e menos saudáveis, no sentido de que algumas formas de mentalidade favorecem o exercício da liberdade e da autonomia intelectual, enquanto outras favorecem o convencionalismo e a subserviência a esse terrível ídolo de barro – o óbvio.

A sociedade em que vivemos, embora possua raízes num antigo sonho de liberdade antropocêntrica, possui características que cada vez mais favorecem o exercício da servidão voluntária. Que tantos milhões de pessoas se contentem, em tantos lugares, em desperdiçar suas vidas dedicando-se a uma faina de significação existencial questionável – um ensandecido projeto coletivo de produzir cada vez mais balangandãs – é um indício de que algo se corrompeu nas consciências ocidentais.

Dessa escabrosa questão, extraio a segunda proposição de meu ensaio: todo o trabalho que fazemos possui um significado atribuído pela mentalidade que herdamos da cultura. O que define nossas convicções sobre o nosso diário esfalfar-se é essa maneira de pensar que absorvemos inconscientemente.

Existe toda uma mitologia associada ao trabalho, com ideais de aprendizado, sacrifício individual, vocação, honra e o escambal. Muitas dessas noções possuem, inclusive, inspiração religiosa – como já foi observado por comentadores intelectualmente muito menos irresponsáveis dessa questão. Mas além dos filtros que ajudam os indivíduos a definir a importância psicológica do trabalho individual, é essa mesma mitologia que define e justifica a importância do trabalho na sociedade, ou seja, é ela quem estabelece o valor do trabalho enquanto fenômeno coletivo.

Numa sociedade que, como observei na seção anterior, assenta-se sobre uma injustiça fundamental, não se deve subestimar a relevância dessa mitologia. Não chegarei ao ponto de dizer que ela seja uma mentira coletiva e intencional – uma conspiração, em resumo – que ajuda a mascarar a usurpação da força de trabalho de uma classe por outra, como pretendem os marxistas, mas é preciso reconhecer que, nas situações-limite, a ideologia do trabalho possui o efeito de camuflar verdades inconvenientes.

Por exemplo, tenho quase certeza de que poucas pessoas que conheço estariam dispostas a aceitar minha primeira proposição – a de que trabalhamos muito porque vivemos numa sociedade de consumo supérfluo. Admitir essa afirmação seria o mesmo que problematizar a importância do que talvez seja um dos aspectos mais definidores da vida de muitas pessoas – aspecto inclusive relacionado ao nosso senso de auto-estima. Questionar o valor do trabalho que fazemos pode, em alguns casos, equivaler a questionar a importância de nossas próprias vidas – já que, nesse século XXI, fazemos pouco mais que trabalhar e escrever idiotices na internet.

Não é muito motivador pensar que desperdiçamos um terço ou mais de nosso dia com algo que possui um valor duvidoso. E não é a pouca popularidade da epistemologia entre os hominídeos um indício de que verdades desagradáveis possuem muito menos apelo do que ilusões reconfortantes?

Eis minha terceira proposição: a ideologia do trabalho ajuda a ocultar a injustiça econômica fundamental da nossa sociedade. Ao garantir que participaremos com as consciências tranqüilas de um processo produtivo que está a serviço da acumulação de riqueza, essa mentalidade garante conformismo individual e coletivo a uma economia que está baseada na usurpação.

A cultura do trabalho nos apresenta respostas prontas e fáceis sobre o por quê das coisas serem como são. Ela nos livra da necessidade de ter que analisar uma problemática complexa – com uma série de desdobramentos éticos e políticos – desde seus fundamentos e nos permite suportar um cotidiano ordinário com alguma medida de otimismo. Ela não é completamente falsa – já que o trabalho se manifesta, em vários níveis, como uma atividade digna e indispensável – porém ela é articulada de um modo que desvia nossa atenção de problemas sociais graves.

4- Temos que mudar o mundo?

Se tudo é tão sombrio quanto dei a entender na seção anterior, por que não me embrenho numa floresta tropical e me alisto a uma guerrilha? Chegou a hora de explicar porque não sou marxista.

Como diagnóstico, o marxismo é uma teoria social poderosa, e eu pessoalmente concordo com vários das incisivas observações do barbudo prussiano. O problema é o marxismo como terapêutica. O salto intelectual acontece de forma quase espontânea. Os intelectuais socialistas, afinal, são seres humanos que fazem parte da sociedade que tentam interpretar. Uma vez que eles se dão conta de que essa sociedade é injusta, é difícil ficar eticamente indiferente ao problema da concentração de riqueza. Da compreensão, é preciso partir para a mudança, ou seja, para a mobilização política no sentido de diminuir ou abolir a desigualdade.

Pessoas mais eruditas que eu já mostraram o que o comunismo – essa interessante heresia cristã – têm de milenarismo messiânico. Partindo da percepção de uma sociedade injusta, os comunistas desenvolvem num nível intelectual um ideal de sociedade perfeita, onde as contradições de classe são abolidas. Depois eles projetam essa abstração na história – num futuro não tão distante, depois dos assustadores massacres imprescindíveis para a implantação da utopia. Desenha-se, então, nas escrivaninhas de nefelibatas famintos, a planta da sociedade perfeita, e estabelecem-se os passos concretos que serão necessários à refundação da sociedade seguindo os ditames desse projeto. E então os apóstolos desse rancoroso evangelho correm o mundo anunciando a boa nova e conspirando a morte dos inimigos do paraíso terreal.

O comunismo possui algo de diabólico já num nível conceitual. A história nos mostrou que a projeção no futuro da utopia marxista é uma carta branca para a atrocidade. A perspectiva de criar uma sociedade perfeita – em que estará abolida a exploração do homem pelo homem – justifica, a priori, todo crime que se possa cometer em nome desse ideal. Afinal, se milhares, milhões, dezenas de milhões de pessoas precisarem morrer para que se alcance essa nova etapa da evolução humana, não justificarão essas mortes os bem-aventurados milênios que se seguirão?

Toda engenharia social é desumana por transformar os homens em objetos – destinatários da benevolência de tecnocratas que viram uma luz fluorescente no fim do túnel da história. O marxismo é especialmente perigoso justo por se considerar o guardião do supremo ideal ético – a libertação das massas famintas.

Mas será factível essa utopia – uma sociedade industrial sem qualquer diferenciação de classe? E mesmo que ela fosse, estaria justificada a morte ou a tortura de um homem inocente que fosse?

Até onde vai a agência humana é mais uma dessas espinhosas questões que nos impedem de abraçar as grandes certezas políticas. A história parece ser a evidência definitiva de que a vontade de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos, quando direcionada para uma determinada finalidade, possui a capacidade de modificar a realidade. Mas qual a extensão dessa agência? Quanto mais ampliamos a escala histórica e geográfica, mais a autonomia humana parece se perder em estruturas e tendências que, do ponto de vista do indivíduo, parecem irresistíveis. Mesmo as idéias que inspiram a luta pela autonomia e pela tomada de consciência – os grandes ideais libertários da civilização ocidental – parecem elas mesmas o resultado de uma dinâmica histórica e cultural que escapa ao controle dos sujeitos da história. Quanto mais complexo e mais populoso vai se tornando o mundo, mais constrangedoras parecem as grandes inclinações coletivas – apesar das boas intenções dos funcionários da ONU.

Não quero aqui defender qualquer forma de fatalismo, mas eis um cabeludíssimo problema teórico de que não consigo me esquivar: até que ponto é sensato pretender mudar o mundo – ainda mais pela violência instrumental? Quão condenados estamos pelo meio? No meu entender, essas questões nos impõem uma outra, que talvez seja um dos mais inquietantes dilemas que o homem politicamente consciente precisa enfrentar: qual a extensão da nossa responsabilidade pela injustiça do mundo onde nascemos? A consciência da injustiça fundamental da sociedade em que estamos condicionados – por falta de alternativas razoáveis – a viver nos impõe o dever de lutar para modificar essa realidade?

Acho que as suposições implícitas nas perguntas do parágrafo anterior são eticamente questionáveis. Em primeiro lugar, porque é esperar demais dos homens tentar responsabilizá-los pelo peso dos séculos que eles não viveram. Em segundo, porque não está nem de longe claro se uma pessoa, isoladamente considerada, pode fazer diferença nos grandes processos históricos. Ninguém duvida de que, enquanto membro de uma manada – adepto de um partido fascista, de uma horda turcomana, de uma guerrilha revolucionária ou de um movimento religioso messiânico – ele pode fazer estragos irreparáveis. Porém como pessoa – como criatura conhecedora do bem e do mal, apta a julgar e a ser julgada – que pode ele fazer contra os grandes movimentos tectônicos da história?

Chego à minha quarta proposição, que é, na verdade, uma tautologia: o homem só pode ser eticamente julgado como indivíduo, ou seja, só há salvação individual. A atuação no partido político, numa burocracia, numa instituição possuem desdobramentos que transbordam o reino do bem e do mal – e adentram o campo do eficiente e do ineficiente – porém a responsabilidade ética de cada pessoa está circunscrita às relações que se dão de ser humano para ser humano.

O que fazemos como engrenagem – como peça num maquinário social do qual dificilmente escapamos – só tem valor moral quando considerado num contexto humano. Ao invés de justificar um conformismo político – como se poderia supor refletindo superficialmente sobre a questão – minha afirmação re-humaniza nosso comportamento. Que ninguém pense, por exemplo, que o mal que fazemos a outro ser humano se justifica meramente pela ordem que recebemos de um superior. Que ninguém ache que possa enviar um vagão de seres humanos para uma câmara de gás com a consciência tranqüila dos burocratas que assinam um formulário, ou que seja legítimo derramar sangue inocente em nome da revolução socialista que se aproxima.

Por outro lado, que ninguém espere que esses pequenos burocratas tenham a obrigação de se martirizar pela estupidez das manadas que fazem a sociedade pender para um ou outro lado. Resistir ao mal é preciso quando o mal invade o espaço em que se dão nossas escolhas de vida. Mesmo o heroísmo só é belo quando é um gesto de autonomia individual – um pequeno ou grande sacrifício que fazemos como homem, e não como sectários.

Na prática, equacionar essas questões é sempre muito mais complicado do que na teoria. Afinal, como definir o alcance de minha atuação como indivíduo? Se eu ocupo, por exemplo, uma função pública, não será a extensão de minha responsabilidade ética mais abrangente do que seria se eu tivesse uma ocupação estritamente privada?

Sem querer levar essa problemática muito longe, acho razoável afirmar que, enquanto homens, não podemos ser penalizados por vivermos numa economia injusta, ou sequer por não estarmos politicamente mobilizados por viver nessa sociedade injusta. Não quero que essa afirmação seja tomada levianamente. Não estou defendendo a consciência tranquila do pequeno burguês bem alimentado. Mas, se é hipocrisia ignorar o sofrimento dos milhões que padecem por causa da desigualdade social, é hipocrisia tão grande achar que se possam cobrar dividendos históricos de um indivíduo que não viveu a violência que fundou a sociedade em que atualmente vive. Existe, sim, alguma medida de responsabilidade ética pelo fato de vivermos num mundo injusto, na medida em que nós podemos escolher fazer um pouco de diferença ou tentar mitigar o sofrimento dos despossuídos – seja pelo trabalho voluntário, seja pela caridade, seja pela participação política consciente.

Dito isso, chego à quinta proposição, que é corolário da anterior: não somos individualmente responsáveis pelo fato de a sociedade impor-nos as atuais condições de trabalho. Como homens, temos o direito à vida, ainda quando nós vivemos numa sociedade injusta. Na seção seguinte, pretendo dissertar um pouco sobre a contradição entre vida na acepção que estou usando e as condições de trabalho do século XXI. 

4- Sobre a Abolição da Vida Humana

Tenho a inexplicável convicção de que a vida humana tem que ser interessante. Não tenho opiniões fortes sobre qual deve ser o sentido de nossa existência (acho que pessoas diferentes podem encontrar diferentes maneiras de dar significado à sua passagem por este mundo), mas não consigo me livrar da impressão de que, qualquer que seja o caminho que escolhamos em nossa busca pela realização pessoal, essa só pode acontecer através do exercício da consciência e da liberdade.

Não sei se somos o ápice da criação. Não sei se o espírito humano é a suprema realização cósmica. Porém acho que temos, sim, alguma coisa de especial. Nossa capacidade de ação intencional já provou, no passado que, apesar do peso dos determinantes históricos, somos capazes de muitas proezas, e de grandes transformações individuais e coletivas.

Não que sejamos todos heróis em potencial, esperando apenas a inspiração correta para mostrar todo o desapego de nosso espírito. Mas se existe, em todo e cada ser humano, a possibilidade de aprendizado e tomada de consciência, como eu poderia dizer que é indiferente tentar ou não tentar alcançar esse ideal de autonomia? Acho que tenho fé nesse singelo dogma antropocêntrico: estamos aqui para fazer ou pelo menos tentar fazer alguma coisa boa de nossas vidas.

Essa percepção torna-se ainda mais radical quando a consideramos diante da certeza da morte. Independente do palpite metafísico em que uma pessoa acredite – ou seja, independente de ela achar ou não que temos uma existência consciente após a morte – nossa existência atual, por ser temporalmente limitada, têm um caráter de ruptura, de uma efêmera mas intensa violação do Nada ou da realidade espiritual que  precede e que se segue às nossas existências mundanas. Cada pequeno gesto nosso é tão mais precioso pelo fato de o nosso tempo ser limitado.

Estar vivo é uma condição absurda e radical. Cada respiração, cada palpitar de nosso coração é um estupro metafísico: a afirmação da matéria de que o que sentimos é real, ou pelo menos parece ser real o bastante para todos os efeitos práticos que nos interessam. Todo segundo de dor e de prazer que experimentamos nesse breve lapso desperto projetam-se no infinito: ficam para sempre marcados no incomensurável oceano do incriado.

Pode parecer um exagero, mas essa é uma fascinante verdade que costumamos esquecer: a vida nos apresenta um mistério incontornável. Podemos, é claro, dedicar nossas existências a outras preocupações – como a obtenção de prazeres sensoriais, ou a mera acumulação de riquezas – mas não é intrigante pensar que nós estejamos aparatados com os instrumentos que nos permitem investigar as fascinantes questões que a vida e o mundo nos apresentam? Sou até capaz de admitir que uma pessoa possa, inclusive, escolher ignorar essas questões e dedicar-se a atividades estritamente mundanas (como, por exemplo, ao trabalho), porém acho essencial que a pessoa que fizer tal escolha a faça como um exercício de liberdade, e não por falta de alternativa melhor.

O mundo contemporâneo nos deixa com poucas escolhas. De um ponto de vista fisiológico, o homem do século XXI não é menos inteligente ou menos apto para o pensamento investigativo do que os homens de outras épocas. O que poderia explicar, então, que o exercício da reflexão seja tão raro nos dias de hoje – justo numa sociedade de abundância que tem a capacidade de criar as condições de conforto e segurança necessárias à contemplação?

A sociedade industrial de massas priva o homem de uma de suas mais valiosas heranças, que é a inteligência. Obrigados a cumprir jornadas de trabalho estafantes e a absorver uma torrente cada vez maior de informações descontextualizadas e  essencialmente irrelevantes – mas muitas vezes imprescindíveis para continuarmos competitivos num mercado de trabalho excludente – sobram-nos poucas energias para fazermos o que quer que seja quando voltamos a nossas casas. Além de trabalharmos demais, não temos mais cultura para o ócio, já que, quando chegamos em casa, resta-nos pouca disposição para fazer algo que não seja assistir televisão ou tomar cerveja. Pior ainda, nós gostamos de trabalhar, já que, por influência da ideologia do trabalho, engolimos com muita facilidade a lorota de que o trabalho é digno em si mesmo.

Que uma economia que empobrece tanto a vida de tantos milhões de seres humanos tenha se difundido – e ainda esteja se difundindo – por todos os cantos da Terra é um desses mistérios históricos difíceis de decifrar. Será que a mera abundância é bastante para explicar o triunfo do capitalismo? Ou estarão os marxistas corretos ao imaginar uma grande conspiração global de corporações e financistas que, com uma antevisão diabólica, encontraram fórmulas irresistíveis para manipular a consciência das pessoas?

Se eu fosse dar um palpite, eu diria que a explicação se deve ao fato de o mundo estar dividido em Estados nacionais que competem, militarmente e economicamente entre si. A essa altura do campeonato, resta pouca dúvida de que a economia de mercado seja a maneira mais eficiente de organizar a produção. Ao custo de outros valores (inclusive da justiça social), o capitalismo permite que a produção adquira escala e produza uma quantidade muito maior de bens e serviços a um custo muito mais baixo. É um sistema que permite grande opulência.

Quando um país capitalista industrializado, por exemplo, é comparado a uma sociedade que organiza sua produção em bases tradicionais, a discrepância é gritante. As pessoas que vivem na sociedade tradicional mais cedo ou mais tarde se perguntam por que não podem ter acesso à mesma variedade de bens e serviços. Sem empresas modernas e sem a inclemente divisão do trabalho das economias industrializadas, esse povo será incapaz de competir com a economia mais complexa caso se estabeleçam relações comerciais entre as duas nações. Além disso, como as sociedades capitalistas avançadas também são mais industrializadas, elas também são mais aptas a produzir mais e melhores tecnologias militares. Isso as torna mais poderosas geopoliticamente, e força as sociedades tradicionais a um papel secundário no sistema internacional. É só uma questão de tempo até uma elite com mentalidade reformista bolar um plano para modernizar a economia.

Se um país decide reformar sua economia seguindo princípios não capitalistas, ele enfrentará dificuldades aparentadas às das sociedades tradicionais. As economias socialistas, quando forçadas a competir economicamente e militarmente com as sociedades capitalistas industrializadas, encontram dificuldades em alcançar o mesmo patamar de produtividade e eficiência.

Não quero que essa afirmação seja tomada como uma proposta de teoria social, porém minha sexta proposição é a de que: a competição entre os Estados num sistema internacional descentralizado torna provável a difusão do capitalismo, por ser esse o modo de produção que historicamente se mostrou mais eficiente na organização dos recursos econômicos. É essa a lógica sistêmica que torna o trabalho uma maldição, pois se a difusão dessa organização produtiva é praticamente inevitável – ao menos num horizonte temporal discernível – então os indivíduos de nossa era estão forçados a adequar-se a essa lógica produtiva, mesmo que individualmente não concordem com a sociedade em que vivem.

Existe sempre a possibilidade de virar hippie – diminuir radicalmente o padrão de consumo e passar a viver por aí, de qualquer jeito. Mas será que é razoável esperar isso dos homens? Não é legítimo o desejo de querer possuir alguma medida de segurança material – sem sacrificar totalmente a possibilidade de levar adiante um projeto existencial paralelo e não utilitarista?

As condições atuais do mercado de trabalho, aliada à cultura econômica predominante em nossa época, forçam os indivíduos a adotar um estilo de vida incompatível com o exercício da liberdade e da consciência indispensáveis à plena realização da vida humana. Uma pessoa que só pode escolher qual tipo de produto irá consumir e qual será o destino da próxima viagem não é exatamente livre. Do mesmo modo, se não se tem tempo para adquirir cultura ou desenvolver o hábito do pensamento crítico, só a muito custo se pode exercitar a consciência.

No alvorecer do século XXI, nossa vida se transformou no repetir-se de uma rotina desinteressante e estafante. Nossas mentes estão anestesiadas com diversões passivas e baratas – videogames, redes sociais, filmes de apelo fácil – e cada vez menos se considera necessário o exercício da autonomia. As pessoas se contentam em ser tuteladas – pelo Estado, pelas empresas, pelos partidos, pelas organizações – e, com algum otimismo, esperam que o crescimento econômico lhes abram as portas do enriquecimento. Contentamo-nos com as satisfações dos prazeres sensoriais: o erotismo em estado bruto – despido de suas conotações espirituais e culturais – é cada vez mais interpretado como a suprema forma de realização acessível ao homem.

Claro, há exceções – graças a Deus! – mas estou aqui falando de uma tendência que caracteriza nossa época, quando a comparamos a outros momentos históricos. O trabalho, a mecanização e a reprodutibilidade cultural são marcas que distinguem o nosso tempo.

Se é verdadeira a minha quinta proposição – a de que os indivíduos não podem ser responsabilizados pelas atuais condições de trabalho – como deve se posicionar nos dias de hoje um indivíduo que, mesmo sem ser capaz de assumir as rédeas de seu destino, tem a pretensão de alcançar alguma medida de independência em sua vida? Deve ele levar às últimas conseqüências o radicalismo existencial implícito na condição humana, assumindo um estilo de vida que rompa com as convenções? Deve ele martirizar-se por um ideal, destruindo sua chance de ser feliz para tentar mudar o mundo?

Não somos anjos. Queremos alguma medida de paz e felicidade – pois que mal há em deitar numa rede no alpendre de casa e cochilar vendo uma tarde quente e azulada do sertão? Também há, no exercício consciente da soneca, um componente de liberdade. Eis minha sétima proposição: viver é preciso, e viver numa boa é mais preciso ainda. Não precisamos atear fogo ao próprio corpo em nome de um ideal de coerência filosófica para alcançar a autonomia.

Tenho algumas propostas a fazer sobre o assunto.

5- Pela Libertação dos Bípedes

Chego à mais importante pergunta de meu texto: o que fazer?

O primeiro passo para livrar-se daquilo que chamo de maldição do trabalho é ser capaz de compreender o que a provoca. Considerando as afirmações que fiz nas seções anteriores, arrisco uma sétima proposição: a redução do consumo supérfluo é uma das chaves para a liberdade.

Será que os smart phones são indispensáveis a uma vida feliz? Será que é preciso comer nos melhores restaurantes da cidade, ou viajar todo ano para se considerar uma pessoa realizada? Vivemos numa cultura de proliferação de desejos, sem nos darmos conta de que gerações inteiras tiveram vidas recompensadoras sem ter tido acesso a uma fração das satisfações materiais que podemos alcançar hoje em dia. Freqüentemente, o aumento de nossa capacidade de consumir é acompanhando pelo surgimento de novas necessidades, já que cada novo patamar econômico que alcançamos parece revelar-nos mundo inteiros de possibilidades de compra.

Não proponho nenhuma forma de ascetismo. Sou entusiasta das cervejas alemãs e das encadernações de capa dura. Acho, inclusive, que alguma medida de consumo é um elemento importante para ser capaz de desenvolver um refinamento espiritual. O prazer que se obtém com uma boa refeição pode possuir um significado estético. O bem vestir-se pode ser a expressão de uma mente sofisticada.

O que é preciso entender é que, a partir de um determinado patamar, as necessidades tornam-se imaginárias. Não é preciso pagar R$200,00 reais para poder ter uma refeição sensorialmente estimulante. Não é preciso comprar roupas de marcas caras para ser elegante. Pode-se, com alguma insistência, descobrir vinhos sensacionais a preços acessíveis.

Alguma medida de moderação nos instintos consumistas é uma pré-condição para livrar-se da maldição do trabalho. Uma vez que se tenha definido um planejamento orçamentário razoável, é possível estabelecer um projeto de carreira. Existem ocupações que nos tomam mais ou menos tempo. Ser consciente dos próprios objetivos de vida é importante para definir que caminho profissional seguir. Para que ser executivo, quando se pode ser professor de antropologia?

A questão não se esgota, porém, com a escolha da carreira. Às vezes não é realista jogar tudo para o alto e tentar a sorte numa nova ocupação. Não acho que as pessoas precisem ser eternamente penalizadas pelas escolhas existenciais que fizeram num certo instante da vida. Além do mais, se tenho razão ao dizer que parte do trabalho que fazemos só se justifica por vivermos numa sociedade do desperdício, acho justo fazer a seguinte proposição, que é a oitava deste texto: é preciso ser capaz de relevar a ideologia do trabalho na medida e extensão em que essa ideologia não tenha legitimidade.

Ou seja, as pessoas precisam usar sua inteligência e capacidade de escolha para aumentar seu tempo livre. Não é minha intenção aqui apontar como isso poderia, na prática, ser feito: este texto não é um manual. Gostaria de pontuar que, excetuando-se as situações limites – sobre as quais falarei logo em seguida – as pessoas geralmente possuem um mínimo que seja de espaço de manobra para definir como vivem. Se geralmente optam por trabalhar mais é porque a sua mentalidade favorece as escolhas que acarretam melhores cargos, melhores empregos e – consequentemente – mais trabalho. O que defendo, portanto, é que as pessoas se eduquem para aprender a sacrificar o excesso supérfluo de suas vidas em nome de mais ócio e, consequentemente, mais liberdade.

Talvez esses conselhos pareçam hipócritas para a maior parte das pessoas, num momento em que o desemprego só cresce no Brasil. Paradoxalmente, o atual cenário econômico em nosso país na verdade comprova os pontos em que tenho insistido: de um lado, há um enorme contingente de pessoas que, embora supostamente tenham tempo livre – por estarem desempregadas –, não possuem verdadeira liberdade, por estarem constrangidas pela necessidade de encontrar um meio de sobrevivência. Por outro, as pessoas que têm a sorte de ter um emprego trabalham cada vez mais, e encaram a perspectiva de perder o emprego como um argumento forte contra qualquer tipo de questionamento à lógica e à cultura do trabalho. No atual estado de coisas, o melhor que as pessoas podem fazer parece ser ficar de bico calado, e dar graças a Deus por ter um salário.

A questão econômica básica sobre como cada um irá se sustentar não é de modo algum leviana, e possivelmente constitui a principal fonte de apreensões para a maioria das pessoas. Mas isso não deve ser um motivo para nos impedir de compreender essa verdade fundamental: a de que a nossa sociedade nos faz trabalhar demais, e de que é preciso encontrar, de alguma maneira, uma forma de possuir o ócio que permitirá o exercício da liberdade.

As pessoas que tem um mínimo que seja de escolha precisam ter a coragem da dar o salto existencial em direção a uma situação de menos trabalho – ainda que isso signifique menor remuneração, menor poder, menor prestígio social numa sociedade cada vez mais competitiva. Está claro: ao decidir trabalhar menos, o indivíduo deverá estar disposto a abrir mão de algo em nome da própria liberdade. Deverá, também, estar consciente de que nunca estará de todo livre da apreensão do desemprego. Mas precisa ter coragem de começar a transformação individual: tomar consciência, em primeiro lugar, de que por ser humano, ele tem o dever e o direito de possuir uma existência interessante, plena de significado, de liberdade e de beleza. Deve compreender que sua consciência é uma dádiva, que toda pessoa tem um grande potencial para se aprimorar, e que seria uma tragédia desperdiçar nossos preciosos momentos de vida sem nunca ter a chance de escapar do ciclo vicioso de estímulo e reação em que maior parte das pessoas parece viver. As preocupações materiais são válidas – ainda mais num país como o nosso – mas elas nunca devem nos impedir de perceber que temos algo de único em nosso espírito, algo que merece ser conhecido e expressado. Ao fim, abrir mão de um salário mais alto ou de um cargo melhor pode se mostrar a precondição para uma existência plena. Nenhum bem mundano pode compensar a angústia de uma vida sem liberdade.

Essas considerações, naturalmente, valem apenas para as pessoas que possuem opção, ou seja, para uma bem alimentada classe média. E os que vivem no limite da privação material? E os que trabalham não para garantir as trufas, mas o arroz e o feijão na mesa?

Esses indivíduos são a prova de que o individualismo não é uma opção eticamente defensável quando a sociedade é injusta, e reforçam a necessidade que temos de ócio para exercício da participação política. Mesmo tendo argumentado, acima, que não podemos ser responsabilizados pelo peso das estruturas sociais que herdamos, não nego de modo algum que essas estruturas existam. Há, sim, um enorme contingente de pessoas que são vítimas da exploração do trabalho humano pelo próprio homem. O fato de eu não endossar uma revolução socialista sanguinolenta não significa que eu também negue, a priori, qualquer possibilidade de ação política voltada à reforma.

Na verdade, a resistência à cultura do trabalho e a defesa do ócio não é, como poderia parecer numa análise superficial, uma defesa da idiotia na acepção grega, ou seja, o retraimento nos interesses privados. Vivemos no mundo em que há muito ainda a ser feito em termos políticos, em todos os níveis. A pré-condição para que as pessoas tenham uma atuação mais ativa é que elas tenham, em primeiro lugar, tempo livre para se educar e para refletir sobre os problemas de que padece a sociedade e, em segundo, que elas tenham tempo para exercer suas possibilidades participação coletiva. O homem que trabalha de sol a sol para pôr a comida na mesa não tem como contribuir para a busca de soluções para os males coletivos – nem no nível de sua vizinhança, e muito menos no nível nacional ou global. Precisamos de mais tempo livre não só para nos dedicarmos à contemplação de belas obras de arte, mas também para desenvolvermos a consciência de nossa natureza social. Não, estou, portanto, defendendo aqui o ócio em sua acepção negativa – como mera indolência. Trabalhar menos para ficar em casa assistindo televisão e comendo salgadinhos seria a suprema vitória da cultura do trabalho, já que ao proceder assim nós estaríamos nos tornando a prova viva de que somos criaturas que perderam um dos maiores dons humanos, a capacidade de criar. O ócio que eu defendo é a pré-condição para que as pessoas possam elas mesmas definir uma finalidade para suas vidas.

Defendo, também, o desenvolvimento ativo de uma cultura do ócio, ou seja, de uma mentalidade mais receptiva a diferentes expressões existenciais, a diferentes maneiras de viver a experiência humana. Essa necessariamente seria uma cultura de maior compaixão, pois nela as pessoas teriam mais chances de compreender que compartilham uma condição comum.

Eis minha nona e última proposição, com a qual espero fechar esse espinhoso debate: resistir pacificamente ao trabalho é um gesto político, porque o ócio é a pré-condição da consciência e da liberdade.

 6 – Conclusão: Manifesto pela Preguiça

 Que nenhum homem se envergonhe de seus cochilos, especialmente dos tirados numa rede, sob o peso da eternidade azul de uma tarde sertaneja. Pois quais não serão as belas ideias que ele poderá ter ao acordar?

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