Introdução ao livro de contos “AS PORTAS FUGAZES”, de Rodrigo C. Pereira

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“A história da Europa, do período que vai do século XVI ao século XIX, é a história de uma cultura cuja unidade sofreu uma ruptura e que procura por todos os meios disfarçar a realidade dessa ruptura. Esse processo teve origem no fato de que os dois elementos fundamentais da estrutura psíquica do homem, o elemento Ético e o elemento Estético, que até então viviam, como é natural, integrados e fundidos numa realidade comum, se divorciaram e passaram a ter uma vida independente e autônoma. “

MELLO, Mario Vieira de. Nietzsche. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, pg 20.

 

 

Permita-me quebrar um pouco o protocolo das Introduções. Já vamos conversar sobre AS PORTAS FUGAZES, mas antes disso preciso fazer um parágrafo de digressão. Creia-me: o leitor haverá de me dar razão quando vier a terminar a leitura do livro.

Se você é um admirador de Dostoievski, certamente sentiu-se seduzido pelas reflexões filosóficas de seus romances. Mas você também sabe que a grandeza de Dostoievski não reside aí. A habilidade com que o escritor russo manuseia as idéias de seu tempo poderia fazer dele “apenas” um pensador, não fosse outro talento maior ainda que ele tem. Dostoievski é propriamente um artista porque as idéias filosóficas não estão soltas ou avulsas nos seus romances; elas não são “enxertos” em um enredo narrativo divorciado delas. Em CRIME E CASTIGO, OS DEMÔNIOS e OS IRMÃOS KARAMAZOV, as correntes de pensamento que formam a arquitetura intelectual da narrativa “acontecem” na carne viva dos personagens – o que lhes confere uma carga de realismo muito forte, além de prestar um grande serviço aos Filosófos de Academia. Sim, porque Dostoievski consegue dialogar com o cidadão comum e mostrar que as idéias filosóficas são, de fato, coisas que devemos levar a sério, pois as teorias se encarnam em pessoas e têm consequências graves para a sociedade.

O leitor encontrará em AS PORTAS FUGAZES a mesma técnica dostoievskiana  de traduzir debates filosóficos em personagens vivas, isto é: em ação dramática.

Estes contos encerram questões existenciais que acompanham desde sempre a história do Ocidente: o sentido do universo; a projeção do eu no mundo; a arte como via estética (talvez privilegiada) de projeção do eu; as dificuldades inerentes ao fazer literário como obstáculo a essa projeção; a presença feminina como um jardim de delícias que é revelação provisória do sentido da existência; e assim por diante. Mas este volume de estórias não é nenhuma exposição maçante de História da Filosofia. É uma sequência de causos vazados em literatura moderna e permeados de fino bom-humor. Logo adiante voltaremos a falar do senso de humor do autor deste livro.

Por ora, vou-me ater ao tema central que alinhava esses contos e constitui a unidade substancial que permitiu fossem eles agrupados num só volume sob o título misterioso de AS PORTAS FUGAZES.

O que são portas fugazes? Como o próprio nome sugere são “acessos provisórios” para uma outra dimensão em que o homem parece estar plenamente integrado no cosmos.

Desde o advento do Iluminismo e o Século das Luzes, o ser humano elegeu a Razão como tábua de salvação e fonte de significado para a existência. Para o homem moderno, Deus e a Igreja não explicam mais o universo, nem a natureza nem a sociedade. Na definição de Nietzsche, a Modernidade tirou Deus do trono e colocou em seu lugar a Razão, conservando o principal: o trono. Pois bem. A verdade é que, em pleno século XXI, assistimos a um retorno do esoterismo, do gnosticismo e do misticismo que procuram recuperar o senso de Mistério da existência. Simplesmente porque o homem não suporta viver como cético absoluto em um universo que é destituído de transcendência. Se a vida é puramente matéria – se cada organismo é apenas um aglomerado de células – então a vida não faz o menor sentido. Para que raios estamos jogados neste mundo cujo destino inevitável é o fim? O retorno do misticismo e de tendências similares são, portanto, uma tentativa de reintegrar o homem no cosmos.

Neste livro de estórias, o problema filosófico mais urgente para o homem do século XXI não flutua no céu das idéias como uma quimera. Trata-se de um questionamento filosófico verdadeiro que desce até ao terra-a-terra das situações mais imanentes da vida. Tudo aqui está articulado: o universo inteiro. É como se lutassem as mais altas aspirações de Dom Quixote com os apelos mais mesquinhos de Sancho Panza. Estou falando de Oberon; do patchouli xamânico de Lucineide; da visão de Discreto Amâncio; do chuveiro elétrico do marido de Antônia; do ouro sujo.

Eu disse que as portas fugazes são “acessos provisórios” para uma outra dimensão em que o homem parece estar plenamente integrado no cosmos. Eu disse “parece” porque, em alguns contos, a personagem passa realmente por uma iluminação autêntica como em CONSUMINDO-SE, enquanto em outras estórias – como OURO SUJO – a personagem tem apenas a impressão de ter obtido uma revelação quando está, na verdade, seguindo uma pista falsa.

Vejamos um de meus contos favoritos, ANA E O LOBO. O professor de filosofia se vê dividido entre as elevadas especulações de Platão e o desejo sexual bem mundano. A “surpresa” que Ana reserva para o velho professor é mais uma porta que se abriu e se fechou. Do ponto de vista da técnica literária, sou da opinião de que a grande sacada narrativa desse conto é a recusa final do personagem. Um escritor medíocre (como eu) finalizaria o conto dizendo que, após o encontro com “a surpresa” de Ana, ele passou a compreender o sentido do universo. Mas o nosso autor é um escritor de gênio, que reserva surpresas para o leitor. Aqui acontece algo como n’A MÁQUINA DO MUNDO de Drummond: há uma transformação do desejo do protagonista quanto à revelação do segredo.

Outro problema filosófico gigantesco que brinca de se esconder por trás dessas estórias (aparentemente) singelas é o esteticismo. É ele que justifica o trecho escolhido como epígrafe desta Introdução. Em síntese, podemos dizer que o esteticismo é uma espécie de idolatria da beleza, uma tendência da alma humana de adorar o deus da estética. É que o homem moderno já não acredita em Deus, por isso mesmo sente a necessidade de fabricar inúmeros bezerros de ouro para substituí-Lo.

O problema do esteticismo está magistralmente articulado no conto OURO SUJO, por exemplo. Trata-se da estória de um monge obcecado pela pirotecnia da experiência mística, deixando de lado a verdadeira espiritualidade que consiste em fazer o bem ao próximo. É o divórcio entre Ética e Estética de que nos fala Mário Vieira de Mello no excerto citado. O monge tem a ilusão de que a experiência mística é algo puramente espiritual, ou seja, não pode ser maculado por nenhum traço de matéria. É a antiga suposição gnóstica de que a matéria é má e só as coisas “espirituais” são dignas de valor. Se no Gênesis Deus criou o mundo “e viu que era bom”, o sábio gnóstico tem a certeza de que Deus se equivocou em sua divina avaliação. É o antiquíssimo debate entre Santo Agostinho e os Maniqueus. Para um verdadeiro cristão (é o que se espera de um monge) não deveria haver abismo entre espírito e matéria, pois o Credo professa que Deus é o “criador de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Mas não este é o caso do nosso personagem, cujo fim… não vou antecipar nesta Introdução. Só vou deixar consignado que um Ego inflamado é a coisa mais próxima que existe do Inferno, principalmente para alguém em busca de sua porta fugaz de acesso ao transcendente – seu Oberon particular onde tudo é harmônico e preenche o universo de sentido.

O problema do esteticismo também está subjacente ao conto CADERNO DE INCÊNDIOS – talvez a melhor estória desta coletânea, ou a mais bem realizada do ponto de vista artístico. E está igualmente presente nas veleidades literárias de LÚCIO FERES, O DIABO.

Neste último, abre-se uma porta dos fundos (no sentido mais imanente do termo, vale a pena conferir!) para um diálogo com o Ser em sua longínqua morada sublime. Este conto é de arrancar boas risadas. Aliás, não consigo me lembrar de uma só estória deste livro em que o intrigante, o melancólico e o tétrico não se confundam com o hilário. Rodrigo Pereira é de um bom-humor ímpar, até mesmo – e principalmente – quando está falando de coisas sérias. Não sei se você notou, leitor, mas a comparação é mais uma vez inevitável: este é o humor de Dostoievski. Lembre-se de Raskolnikov arrependido nas últimas cenas de CRIME E CASTIGO enquanto beijava o chão e dizia “eu profanei esta pátria!”… justamente no momento mais solene do romance, um transeunte, que assiste à cena, sentencia: “Não repare. Ele está bêbado”. Os dois autores têm uma mistura de humor negro com uma incrível capacidade de rir de si mesmos. Talvez porque aí nos queiram ensinar uma lição de sabedoria: quem se coloca como ridículo adquire o segredo da humildade. E a humildade verdadeira não é se achar maior nem menor do que os outros: é uma simples constatação da realidade – a realidade de que o homem é um grão de areia em face do universo.

Mas o universo tem mesmo sentido? A experiência humana mais elementar revela que sim. Nem que sejam aqueles raros instantes de sentido, verdadeiros lapsos fortuitos de felicidade passageira: um sonho de criança (talvez Ana do conto ANA E O LOBO) ou uma tarde azul de domingo, passeio de família com pipoca, algodão doce e roda-gigante no parque. São esses fugitivos momentos de felicidade que nos dão um rápido vislumbre de sentido. Será que a eternidade é o suceder ad infinitum de momentos como este? Será que a eternidade é uma espécie de orgasmo perpétuo (talvez o sonho do Lobo do mesmo conto)? Não sabemos. Apenas temos nesta vida experiências provisórias do que quer que seja a eternidade: uma porta para ela se abre e nos deixa entrever o que há do lado de lá, mas rapidamente se fecha na nossa cara. O prazer da literatura também faz parte desses raros instantes. A literatura é ela mesma uma porta fugaz.

Frederico Oliveira de Araújo

Foz do Iguaçu, 02 de Agosto de 2016

link para o livro completo:

https://www.wattpad.com/story/84996487-as-portas-fugazes

 

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