História e Metafísica em “OS CANHÕES DO SILÊNCIO” de José Chagas

História e Metafísica em

OS CANHÕES DO SILÊNCIO de José Chagas

forte-da-ponta-da-areia

pois investigo o eterno como se isso

fosse agora meu único serviço

minha missão de homem que aqui vem

para servir de testemunha ao vento

e dar-me todo ao sacrifício lento

de, fingindo-me ser, não ser ninguém

José Chagas

INTRODUÇÃO

Neste ensaio, vamos desdobrar as meditações sobre Ser e Tempo no livro OS CANHÕES DO SILÊNCIO de José Chagas.

Todos nós sabemos o que é o Tempo. Ou pelo menos temos dele uma vaga noção. Como diz Santo Agostinho: “O tempo… se não me perguntas, eu sei o que é; mas, se me perguntas, já não sei mais”.

E o Ser? Saibamos por enquanto que a palavra “Ser” não é um termo vazio ou uma muleta retórica – sempre disponível à mão do escritor – para disfarçar a falta de algo importante a dizer. O Ser é algo que implica diretamente a minha vida e a sua vida; é a razão pela qual alguém deveria ler OS CANHÕES DO SILÊNCIO. É isto o que pretendo demonstrar antes de chegar à conclusão deste ensaio.

O Ser na obra poética de José Chagas não é abstrato, mas, ao contrário, bastante determinado e concreto: o homem, o bairro do Desterro, o mirante, a janela, a cidade, o mar e o vento, para citar apenas alguns elementos que compõem o universo literário do autor. É concreto porque, etimologicamente falando, o Ser “cresce com” (do latim cum + crescior). Ele permeia todas as coisas que nascem, se desenvolvem, morrem e se transformam. O Ser está em tudo quanto existe, mas não da mesma maneira. Como diz Ferreira Gullar no fim d’O POEMA SUJO: “a cidade está no homem/mas não da mesma maneira/que um pássaro está numa árvore (…) a cidade não está no homem/do mesmo modo que em suas/quitandas praças e ruas”. Teremos a ocasião de esclarecer melhor essa questão no curso deste ensaio.

Antes de iniciar nossa interpretação, contudo, vale a pena tecer algumas considerações gerais a respeito da obra à guisa de apresentação para os leitores que ainda não a conhecem.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DA OBRA

OS CANHÕES DO SILÊNCIO é um livro composto de um único e longo poema com quase 300 páginas. Adaptando o conceito francês de “roman fleuve”, podemos dizer que se trata verdadeiramente de um poema-rio. Há um fio da meada que percorre todo o livro. Esse fio é o Tempo ou, mais precisamente, as meditações do poeta em torno da passagem do Tempo e tudo o mais aí implicado: a breve duração da existência, a finitude e a morte, no plano do indivíduo; e no plano social, as sucessões de tempo na história, as heranças do passado, a tradição, os vestígios coloniais, os vícios atávicos de um povo; e assim por diante. Como disse certa vez o crítico Martim Vasques da Cunha: “toda obra de arte que se preze fala do Tempo”. É por esse motivo que Marcel Proust é um grande escritor, porque não pode haver questão existencial mais crucial para o homem do que esta. E é por isso que José Chagas é um poeta grandioso.

A obra em questão poderia ser classificada como uma epopéia lírica, no sentido que damos ao termo neste ensaio. Contudo, seja no plano formal seja no plano temático, a obra se distingue das epopéias tradicionais se a comparamos, por exemplo, com OS LUSÍADAS, EL CID ou a JERUSALÉM LIBERTADA. Em primeiro lugar, porque n’OS CANHÕES DO SILÊNCIO a história do povo não é contada de maneira heróica nem ufanista (ao contrário, muitas vezes ela é cantada a pretexto da depuração espiritual do poeta). Ademais, o lugar de onde o poeta fala ao leitor não é coletivo, quer dizer, ele não fala em nome do povo; seu ponto de vista é personalíssimo, o poeta fala a partir do seu coração. Daí o aspecto lírico que faz de OS CANHÕES DO SILÊNCIO um livro que só pode ser classificado como épico num sentido muito especial do termo.

Em seu aspecto estrutural, o longo poema de Chagas não é conduzido por um mesmo modelo métrico – à diferença de OS LUSÍADAS, por exemplo, cujas oitavas rimas marcam o ritmo do começo até o fim. Nesse poema-rio, como o chamamos, a narrativa flui em calhas de diferentes tamanhos e larguras, ora espichando-se em decassílabos ou alexandrinos, ora encurtando-se e ficando mais ágil na estreiteza de quadras de 5 sílabas, ora simplesmente ficando à vontade em versos livres e brancos. José Chagas é um mestre no manuseio de todos os metros. E parece utilizá-los a propósito não só para exibir o seu virtuosismo verbal – capaz de versificar com especial destreza e habilidade – mas sobretudo para gerar um efeito desejado na pulsação rítmica do poema em que, notem bem, a semântica é diretamente influenciada pela sonoridade. E mais: os diferentes padrões tonais usados de maneira consciente por José Chagas têm ainda a vantagem de evitar que o ouvido do leitor se canse de uma repetida batida de tambor: quando estamos no auge do transe provocado pela sucessão de estrofes acentuadas por forte padrão rítmico, naquele momento de enlevo, o poeta muda a clave sonora de repente e nos conduz por outros canais do mesmo rio.

Finalmente, uma palavra sobre o título. Em São Luís do Maranhão, lugar de onde o poeta fala para o mundo, há dois antigos canhões de guerra à beira-mar que são um cartão-postal da cidade. Esses vestígios do tempo colonial são hoje ruína. O poeta nos diz que eles estão “mudos” porque inativos. Mas esses canhões que serviram para defender a cidade no passado deveriam – mesmo em seu atual silêncio – “falar” ou “comunicar” algo misterioso para nós. De fato, quando o homem se recolhe em meditação, em profundo silêncio interior, o homem escuta o estrondo do Ser.

A COMUNHÃO DO SER NA ESCALA DO TEMPO

Chegamos então ao núcleo deste ensaio. O presente tópico poderia intitular-se, mais sucintamente, “Ser e Tempo”. Pois é essencialmente dessas duas realidades que aqui se trata e de que maneira Tempo e Ser se articulam em OS CANHÕES DO SILÊNCIO.

Façamos uma breve digressão filosófica a fim de que possamos interpretar melhor a poesia aparentemente ingênua de José Chagas.

Para penetrar na metafísica e na história, como sugere o título deste ensaio, ou na Metafísica da História, basta compreender que tudo quanto existe ou pode vir a existir é Ser.

Embora invisível como o Tempo, o Ser é a realidade mais presente da nossa experiência. Está em tudo. Este livro é um ser, eu sou um ser, você é outro ser, e assim por diante. Goethe dizia que deve haver algo em comum entre mim e aquela estrela distante para que eu possa contemplá-la neste momento. Esse algo em comum é que os filósofos chamam de Ser; porque a estrela é e eu sou aqui e agora.

Ser é uma palavra genérica para referir-se a tudo quanto há.

Entretanto, nenhum ente que conhecemos é o Ser enquanto tal, ou em outras palavras: nenhum ente esgota todas as possibilidades do Ser. Cada ente é um ser particular e determinado, limitado, finito, que não contém em si todas as determinações possíveis que lhe poderiam acontecer.

Isto porque o Ser de cada ente particular se manifesta no Tempo. Nós não conhecemos nenhum ente fora do tempo. E o inverso também é verdadeiro, quer dizer: só podemos compreender a noção de Tempo vinculada à presença do Ser. Por isso, o primeiríssimo verso de OS CANHÕES DO SILÊNCIO canta:

Para começar

quebremos a louça do tempo.

Somente na ruptura estrondosa de um ser que se desfaz é que a nossa mente consegue captar a temporalidade das coisas.

Ser e Tempo são os dois pólos estruturais da existência: a permanência do Ser e a sucessividade do Devir. Entre forma e movimento se equilibram todas as coisas da nossa experiência. Toda a Filosofia grega é uma investigação em torno desses dois pólos. Parmênides é o filósofo do Ser, Heráclito é o filósofo do Tempo. Platão e Aristóteles articulam melhor a relação entre Ser e Tempo nas suas respectivas filosofias. Mais tarde no mundo Ocidental, os sábios da Patrística vão fazer a sua própria articulação no Credo, fundindo a filosofia helênica com a Revelação judaico-cristã: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Deus e as coisas: o Ser e o Devir.

Deus é o único Ser puro, eterno e imutável, porém nós não O conhecemos diretamente. Deus é mistério para nós. Todas as coisas que conhecemos diretamente estão no Devir. Elas são enquanto existem, sujeitando-se às diversas escalas de Ser, conforme seus diferentes graus de durabilidade: por exemplo, há moscas que só têm algumas horas de vida; um cão vive em média dez ou quinze anos; um homem pode durar oitenta anos; uma pedra pode durar muito mais que um homem; e assim por diante.

Tudo o que nós conhecemos através da nossa experiência – os seres finitos – tem uma duração limitada. Somente o Ser em si é eterno, pois o Ser enquanto Ser (não este ou aquele ente particular, mas o Ser ontologicamente falando, o Ser no sentido mais geral possível do termo) não pode simplesmente desaparecer no nada absoluto. Lavoisier dizia que “na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. Quando este homem morre e apodrece, suas células são reintegradas no universo, de modo que o ex-homem torna-se uma outra coisa, mas esta outra coisa ainda é e sempre será um modo de Ser.

Tudo o que existe participa do Ser, em maior ou menor grau, conforme a sua durabilidade. Ora, quanto mais um ente dura no tempo, mais ele participa das perfeições do Ser (mais próximo de Deus, podemos dizer).

Assim, tudo o que existe forma uma “comunhão do Ser” que podemos classificar numa escala que vai do menos durável até o mais durável: no exemplo anteriormente dado, aquela mosca está mais próxima da ponta esquerda da escala em direção ao menos durável, enquanto as pirâmides do Egito estão do lado oposto aproximando-se mais do outro extremo em direção ao mais durável.

Para simplificar e para o propósito que nos interessa na interpretação d’OS CANHÕES DO SILÊNCIO, podemos estabelecer a seguinte comunhão do Ser segundo a escala do Tempo:

HOMEM -> SOCIEDADE -> UNIVERSO -> DEUS

Explico. Um homem dura menos do que a sociedade onde ele se insere: a vida de Getúlio Vargas durou 72 anos, enquanto a história do Brasil completou há pouco tempo mais de 500 anos. Por sua vez, uma sociedade dura menos do que o cosmos inteiro: por mais que o Império Bizantino tenha durado 1000 anos, um Império não é mais durável do que as Cataratas do Iguaçu que estão jorrando água numa escala de tempo da ordem de milhões de anos. Por fim, só Deus é mais durável que o universo por Ele criado. Se o universo é muito antigo, Deus é eterno. Na definição de Dante Alighieri, Deus é “l’Amor che muove il sole e l’altre stelle”, ou seja, Deus é o amor que transcende o cosmos: Ele move o sol e demais estrelas.

É claro que o conjunto dos quatro termos acima – HOMEM, SOCIEDADE, UNIVERSO, DEUS – é abstrato e não aparece assim conceitualmente na obra de José Chagas. Porque, na linguagem da poesia, os conceitos se escondem por trás das coisas palpáveis. Assim, uma coisa é dizer “minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá” e outra muito sem graça é dizer “minha terra tem árvores onde canta o pássaro”. A Poesia é a linguagem da máxima concretude, enquanto a Filosofia se ocupa dos conceitos abstratos. Se assim não fosse, não seria poesia; poderia ser, no máximo, poesia ruim.

Vamos dar agora o mapa da obra de José Chagas e indicar os elementos de seu universo literário que correspondem àquela comunhão do Ser segundo a escala do Tempo:

  1. a) homem: O POETA, O “EU” LÍRICO, A PROSTITUTA, O BURGUÊS, O BARBEIRO, A MOÇA SUICIDA, O ESPECTADOR DE TELEVISÃO, GONÇALVES DIAS, O GAROTO QUE SOLTA PAPAGAIO, O VIOLÃO, etc.
  1. b) sociedade: SÃO LUÍS, O BAIRRO DO DESTERRO, O MIRANTE, OS TELHADOS, A JANELA, O QUINTAL, O AZULEJO, O BORDEL, A IGREJA DE SÃO PANTALEÃO, O TREM, A USINA, etc.
  1. c) universo: O MUNDO, O MAR, A CHUVA, O CAVALO DA MORTE (na verdade, todos os animais que aparecem no livro), A LUA, O VENTO, A MANHÃ, A TARDE, A NOITE, A PEDRA, O ESPAÇO, O CÉU, etc.
  1. d) Deus: DEUS.

Não inseri nessa lista todos os elementos que compõem o vasto universo literário de José Chagas. Mas qualquer novo elemento poderá ser encaixado em uma daquelas categorias. Ou em mais de uma delas ao mesmo tempo, porque, em seu jogo poético, o poeta brinca de deslocar alguns elementos do seu nível “estacionário” e os recoloca em outro nível: assim, por exemplo, o mirante às vezes se confunde com o poeta numa fusão de sujeito e objeto que é própria da ressignificação da realidade operada pela Poesia. Mais uma vez: estamos aí no reino da Poesia e não da Filosofia.

O mais importante aqui é perceber as diferentes camadas de Tempo depositadas sobre as coisas que nos cercam. O geógrafo Milton Santos dizia que “o espaço é uma acumulação desigual de tempos”. Essa definição da Geografia é mais poética do que científica e aplica-se muito bem a OS CANHÕES DO SILÊNCIO, uma vez que da janela do mirante o poeta observa a cidade e contempla o tempo mítico, dos feitos perdidos no passado; o tempo histórico, dos registros, dos monumentos arquitetônicos, do patrimônio colonial; o tempo laboral dos transeuntes ocupados com o imediatismo da vida urbana; o tempo poético, enfim, que assiste a todas essas sobreposições e interposições de camadas temporais.

Como se vê, na poesia de José Chagas, os elementos da paisagem de São Luís deixam de ser meros elementos da paisagem e são transformados pelo universo interior do artista. Em outras palavras, eles deixam de ser Geografia e assumem um simbolismo universal. Fiquemos com o exemplo do mirante. A presença desse adorno arquitetônico no centro histórico de São Luís pode não chamar muito a atenção do transeunte que tem os olhos cansados de olhar e não repara no significado transcendente do mirante. O que é um mirante? É a parte mais elevada de um sobrado, de onde se pode observar a cidade do alto, acima dos telhados. O mirante coloca o homem um pouco acima do chão para usarmos um verso de Ferreira Gullar. O mirante nos permite tocar o céu (e, portanto, o Eterno). É o simbolismo da Torre que está presente em todas as culturas civilizadas. Os sumérios tinham a zigurate pela qual o homem subia para ficar mais próximo dos deuses. Em outras culturas, essa função da Torre é assumida pelo simbolismo da montanha, conservando o mesmo significado. Na Grécia Antiga, é o Olimpo. No judaísmo, é o Monte Sinai onde Moisés falou diretamente com Deus. No Monte Tabor, Cristo se transfigurou e Deus manifestou a Sua glória aos homens. O mirante, portanto, é uma via simbólica que re-liga o homem a Deus.

O mirante não é nem chão nem céu propriamente: ele está a meio caminho entre o céu e a terra. É uma ponte entre os dois planos. E nessa sua condição entre o imanente e o transcendente, o mirante expressa a situação do próprio poeta que se sente dividido entre o terreno e o celeste: ele habita as duas pátrias, mas por isso mesmo não pertence a nenhuma delas porque é um estranho lá e cá. No mirante, o poeta contempla essas duas dimensões: a eternidade celeste e a efemeridade terrena. Assim, o poeta no mirante simboliza a própria condição ideal do homem que está atento à sua especificidade humana: o homem é um ser abaixo dos deuses (seres puramente espirituais) e acima dos animais (seres puramente materiais), como disse Platão n’O Banquete. Nesse sentido, essa dupla pátria do homem (corpo e alma) o distingue dos demais seres do universo, mas paradoxalmente também faz com que o homem seja um resumo de toda a Criação. E é aí que reside a tragicidade da existência humana: o homem sabe que não é eterno, porém possui algo a mais que os animais não têm. Portanto, o homem fica nem lá nem cá, aspirando às alturas mas ainda preso ao rés-do-chão. O homem fica no mirante, dividido, contemplando o Ser e o Tempo. Mais adiante será preciso recordar essa explicação quando tratarmos do tempo da obrigação e o tempo da contemplação – a tensão fundamental em que se equilibra o artista diante das contingências práticas da vida.

Analisemos o simbolismo de outros elementos do universo literário de José Chagas.

O SIMBOLISMO DOS ANIMAIS

Dentro da linha em que estamos, cabe abrir um tópico em separado para estudar o simbolismo dos animais que aparecem em OS CANHÕES DO SILÊNCIO.

Chama a atenção do leitor a multidão de animais que saltam do poema: as andorinhas, o urubu, o cupim, o cavalo, o bem-te-vi, os ratos, as baratas, o gato, o morcego, os pombos, entre outros.

Em meio a outras coisas inanimadas, mas que assumem também uma vida própria como é o caso do mirante, da janela, do vento, da chuva, da roupa estendida no varal, dos telhados, do mar, por exemplo, o que significa afinal a presença daqueles bichos no poema?

É simples. Eles estão ali para ensinar ao homem uma lição do Tempo. Ouçamos um pouco a melodia de José Chagas:

O mirante me habita

e eu o sustento em minhas ruínas

ou o alimento sempre

com o que não sou

e ele me julga

com sua pulga

e ele me trata

como barata

e dá em mim

com seu cupim

mas eu o trato

igual a um rato

que rói até

a própria fé

O cupim cava o silêncio

e extrai dele um pó

que é a paciência do tempo

(…)

O cupim constrói entre ruínas

e organiza o seu trabalho

numa antiga lição

que os homens não aprendem

Ele percebe que em torno de mim

há muitos papéis e muitos livros

montando um pesado silêncio

sobre milhões de palavras

Nem sempre sei o que fazer

com esses papéis e esse silêncio

O cupim sabe

e devora as folhas da vida

com a sua razão de ser anterior

ao mirante

anterior ao livro

anterior ao papel

anterior ao próprio homem

Como assim o cupim é anterior ao homem? Este cupim – aqui e agora – tem uma duração no Ser mais breve que a do homem, se o analisamos dentro da comunhão do Ser segundo a escala do Tempo. Nesse sentido, o homem seria mais eterno que o cupim. Porém o homem conhece cada animal muito mais enquanto espécie do que individualmente. Salvo os bichos domésticos a que chamamos pelo nome e que portanto individualizamos, os animais se apresentam para nós como uma confusão entre indivíduo e espécie. Ora, a animalidade enquanto tal é mais durável no Ser do que eu e você juntos. É essa, aliás, a razão pela qual no Antigo Egito e em diversas outras culturas prospera o culto animista: os animais assumem a representação dos deuses (estão acima dos homens na comunhão do Ser porque enquanto espécie duram mais no Tempo).

Por essa razão, classificamos os animais que aparecem no poema no terceiro degrau da escala do tempo (o Universo), junto com os demais seres da natureza: o vento, a chuva, a lua, a manhã, a tarde, a noite e outros fatos cósmicos. Tal como no Antigo Egito, os bichos no poema de José Chagas têm a função de lembrar ao homem o quanto ele é perecível. Escutemos um trecho da canção sobre o gato:

O gato chega a esse fim de tarde

ao longo de um caminhar

de mais de trezentos anos

e os telhados o reconhecem

como a testemunha mansa

de todas as forças do tempo

que agora se ocupa inteiro

na preparação da noite

E a tarde é uma demora mole

desmanchando-se quente no ar

enquanto o gato espreguiça o horizonte

e se alonga todo em poente,

no anoitecer do bairro.

Tempo e gato

se juntam

se integram

na razão clara

que apóia os telhados

(…)

Também os ratos e as baratas que habitam os sobrados de São Luís surgem dos ralos para as páginas de OS CANHÕES DO SILÊNCIO a fim de ensinar ao homem uma lição de Ser e sobretudo de Tempo, uma lição de sombras. Apesar da diferença de gênero literário, acontece aqui o mesmo que nas fábulas: esses animais são personificados e têm características humanas com o propósito de nos contar uma moral da história. Na fábula, há um casamento perfeito entre ética e estética. Aqui, mais uma vez, como anunciado na introdução, vê-se que as meditações de José Chagas sobre o Ser não são verborragia; ao contrário, são palavras densas de sentido que implicam diretamente a minha vida e a sua vida.

Entre paredes

a noite é um trabalho

de ratos

no sobrado do mundo

Os ratos são feitos

de tempo. Raça oposta

ao sonho. Crias da solidão

roendo o osso duro

do ser

A noite os inventa

e eles se cumprem

como uma ordenação

do tempo

Nos sobrados

o rato

tem vícios humanos

e o veneno do homem

não o extingue tanto

quanto a humana condição

o transforma

Cumpre atentar

para um rato de São Luís

para o seu estilo próprio

de rato a roer

uma tradição entregue

aos ratos e às baratas

Ao rato cabe

o patrimônio maior

do que a cidade conserva

(…)

De vez em quando

se diz

que é preciso matar os ratos e as baratas

de São Luís

Mas é preciso também

matar o que há de rato e barata

em todos nós

que estamos desgastando

impunemente São Luís

José Chagas escreveu OS CANHÕES DO SILÊNCIO em meados da década de 1970. Naquela época, já observava que a cidade estava sendo destruída pelo que existe de rato e barata em nosso coração, destruída por seus próprios habitantes que deveriam amá-la e preservá-la (amar o Ser, cuidar do Ser). Há aqui um encontro da ética com a estética: somos impelidos a tomar uma postura diante da realidade. Não há como ficar indiferente à leitura ou passar incólume pela poesia. Como no famoso soneto de Rainer Maria Rilke, O TORSO ARCAICO DE APOLO, alguém contempla uma bela escultura, entra num êxtase estético e escuta dentro de si uma voz que diz: “- Eu tenho que mudar de vida”.

Sigamos em tal êxtase na companhia de nossas amigas, as baratas:

Vista a barata por fora,

                não se sabe o que é por dentro

                nem que coisa se elabora

                em seu ressequido centro.

                Não oferece colheita

                nenhuma que nos conforte

                e dela só se aproveita

                o alívio de sua morte

A barata não tem uso

nenhum dentro do mirante,

mas de simples bicho intruso

passa a animal dominante,

pois é ela que se irmana

na sua essência e na forma

à barata kafkiana

em que a gente se transforma.

Daí a barata é uma

forma de horror sibilino,

e eu talvez um dia assuma

sua casca e seu destino.

(…)

                Matando a barata,

                o homem se mata

                ao menos no quanto

                ela foi espanto,

                ela foi presença

                que lhe deu motivo

                para o que ele pensa

                ser razão de vivo.

Concluamos esse breve estudo sobre os animais de OS CANHÕES DO SILÊNCIO que não pretende ser exaustivo, mas apenas servir como um guia ilustrativo da obra. Escutemos por fim o tropel dos cavalos, cujo galope violento, vigoroso e sonoro se faz sentir na pulsação rítmica dos versos, quando os recitamos em voz alta, obedecendo suas pausas e seus pés métricos:

O cavalo da morte também passa

sua crina de fogo pelo ar

e eriça os pêlos dessa tarde baça

de tanto em seus espelhos se fechar.

O cavalo da morte é de uma raça

que fareja nas torres, a escutar

os gemidos do vento que o traspassa

e dos sinos que dobram devagar.

O cavalo da morte se alimenta

de fantasmas e musgos nos telhados.

Seu relincho desperta a violenta

lua dos corações desesperados.

E a morte é uma égua a escoicear violenta

a própria sombra dentro dos sobrados.

O poeta assiste à degradação da cidade e à decadência de todos os seres, porque tudo o que existe perece. É o poeta quem vê, de mãos atadas, mas de olhos bem abertos, o Tempo se manifestar de todas as formas, inclusive da forma mais aterradora que é a morte. Ao meditar sobre a morte, nos convida a desenvolver uma consciência da finitude.

A CONSCIÊNCIA DA FINITUDE

É possível traçar um paralelo d’OS CANHÕES DO SILÊNCIO com um belíssimo soneto de Percy Shelley chamado OZYMANDIAS. Ele conta a história de um viajante que, ao caminhar por terras antigas, encontra a estátua de um grande rei aos pedaços no meio do deserto. Ainda estavam cravadas no chão as duas gigantescas pernas de pedra, sem o torso; ali perto, meio afundada na areia, jazia a cabeça. O rosto tinha uma expressão de escárnio, um olhar frio e arrogante, que o escultor deve ter captado muito bem, conhecendo as loucas paixões daquele rei. E no pedestal havia uma mensagem que o soberano mandara gravar na pedra:

Meu nome é Ozymandias e sou Rei dos Reis.

Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”

Então conclui o poeta Shelley:

Nada resta. Junto à decadência

das ruínas colossais,

ilimitadas e nuas as areias solitárias e inacabáveis

estendem-se na distância.”

O rei Ozymandias estava preso demais ao poder temporal a ponto de não se dar conta da efemeridade de sua vida. Como numa fuga inútil e ilusória à realidade da morte, o homem tende a ficar preso demais ao presente. O político vive consumido em projetos de poder. O burguês vive ocupado em ganhar mais dinheiro. O trabalhador vive a luta pela sobrevivência. Todos estão concentrados, engajados, absortos no tempo presente. Ninguém tem tempo para contemplar o fluxo do Ser? Ninguém pára um minuto para meditar no fato de que a vida é passageira? Do alto de sua visão privilegiada a partir do mirante, o poeta parece ser o único homem do bairro que atende ao chamado da contemplação…

A cidade está só

apesar de olhada por todos os ângulos

e estou no mirante perdido nela

morrendo com ela

como um capitão em seu navio

A cidade está só/apesar de olhada por todos os ângulos”. O centro histórico de São Luís é um defunto a cujo velório todos comparecem para se solidarizar com o morto, mas ninguém é tão solidário a ponto de entrar com ele no caixão. Só o capitão do navio chega ao radicalismo de naufragar junto com o barco, porque se sente ligado a ele por um laço afetivo muito forte.

Mas o Tempo chega para todos, seja rei ou escravo, empresário ou poeta. É a ironia do Tempo; ele escarnece de nós como as areias do deserto zombam daquele poderoso defunto. É por não ter essa consciência da comunhão do Ser na escala do Tempo que os Ozymandias da vida perdem a noção de si mesmos e acham que são semideuses, ou seja, que o tempo da morte não limitará o seu poder terreno.

É aí que entra o simbolismo universal da pedra – sonho dos que querem rivalizar com o Eterno. Mais uma vez, José Chagas apanha um velho elemento da paisagem – a pedra de cantaria, utilizada pelo Império português para pavimentar a cidade colonial – e extrai o seu significado mais profundo. Arremedo precário da eternidade, a pedra é uma coisa cósmica duradoura, um ersatz divino:

Essa pedra ainda

parirá um rei

um rei cuja vinda

prenunciarei,

que a pedra é de um reino

que se encantaria

até vir um rei

no carro do dia

ocupar um trono

e reinar além

do que é mau ou bom

no chão de ninguém.

A pedra é um apoio

nessa construção

que é ou que foi

o nosso orgulho vão.

É possível ainda traçar mais um paralelo entre OS CANHÕES DO SILÊNCIO e outro clássico da literatura universal: a belíssima novela de Tolstoi, A MORTE DE IVAN ILITCH, cujo protagonista é um alto funcionário público da Rússia czarista. Muito orgulhoso de sua carreira meteórica, Ivan vive como se fosse imortal, isto é, sem ter plena consciência de sua própria finitude. Mas aos trinta anos de idade o personagem é surpreendido por um câncer incurável que lhe vai matando aos poucos. Só a partir da convivência dolorosa com a doença é que Ivan vai aprendendo o verdadeiro sentido da vida.

Pois qual é o sentido da vida? O sentido é a direção para a qual alguma coisa aponta. E a direção para a qual a vida tende é o Devir, o Ser que sofre no Tempo.

Só a consciência da própria finitude devolve o homem à Realidade.

E isto não é especulação teórica, filosofia vaga ou ontologia da desconversa inventada pelo autor deste ensaio. É algo muito concreto e muito prático: nós morremos. Ninguém pode negar este fato. A grande questão diante da certeza da morte é a seguinte: como terei vivido até a morte chegar? A minha vida tem sentido? Como posso dar sentido à minha vida? Terei vivido de forma consciente, isto é, assumindo plenamente o sentido da minha vida que é uma duração do meu ser no Tempo e dentro da comunhão do Ser, portanto em harmonia e em responsabilidade com os demais seres da Criação?

Viver sem consciência da própria finitude é a maior alienação a que um homem pode se submeter. Os marxistas falam na alienação do trabalhador em relação ao produto da fábrica, mas esquecem que não existe maior alienação do que esta. Eis a pior das alienações. Até porque a consciência da finitude não depende de classe social, e nenhum burguês poderá aplicar sua mais-valia e roubar esta consciência do trabalhador. Tal como o Diabo, o burguês pode até matar o corpo do operário, mas nunca o seu espírito. É como diz Jesus Cristo: “Não temais os que matam o corpo, mas não têm poder para matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10, 28).

Entretanto, no limite, a Realidade é tão inescapável (é tão real) que ninguém vive em total inconsciência de sua própria finitude. Por exemplo, alguém que contempla um velho álbum de fotografias está naquele momento conscientizando-se de sua condição finita e, de algum modo, escapando à alienação. Mas a questão é que, da mesma forma que existem graus de participação nas perfeições do Ser, existem também graus de maior ou menor consciência dessa participação. Se eu não atender ao chamado do mirante, posso estar ainda muito aquém do nível ideal ou desejado para a minha condição humana.

Para encerrar este tópico, escutemos mais uma vez um pouco da música de OS CANHÕES DO SILÊNCIO. Talvez o poeta tenha outra coisa a nos ensinar:

A vida espera lá fora. Molhada

a vida espera. Eu

devo chegar cedo a mim

e ao ofício que me confiaram. Devo

assinar papéis

sugerir coisas

manter-me regulado entre artigos de lei

Lá fora o tempo

me aguarda

um tempo profissional

para o qual chover ou não chover

nada tem com o seco expediente

da manhã entregue ao público

e medida em espera que se enfia

para dentro dos relógios

até mastigar-se em engrenagens de eterno

e extrair-se dela o óleo da paciência humana

que azeita os ossos do ofício

O tempo do mirante é largo e solto

como sem compromisso com ninguém

(…)

Eu não vivo esse tempo, ele me vive,

toma conta de minhas horas todas

(…)

O tempo lá fora

apenas me ensina

a chegar na hora:

mera disciplina

Aqui no mirante

o tempo nos diz

que há um sonho errante

sobre São Luís

(…)

No mirante

sofro desejos de chão

do bairro

No bairro

anseio a paz fechada

do mirante

Entre eles se estende a linha bamba

da vida

em que penduro os dois opostos sentidos

de minha unidade

Aparentemente, José Chagas resolve o problema da seguinte forma. O homem vive numa tensão constante entre dois tempos antagônicos: o tempo da obrigação e o tempo da contemplação. Mas o homem não pode renunciar a nenhum dos dois se quiser ser plenamente feliz. “A vida espera lá fora/Molhada a vida espera” significa que o que há lá fora também é vida. A vida não é apenas o universo interior do poeta. Aceitar a necessidade de ganhar o pão com o suor do seu rosto também é uma forma de consciência da finitude, porque, se o homem pára de produzir, certamente morrerá de fome. Não existe almoço grátis; alguém está pagando a conta. O homem é filho de Adão: o homem é expulso do jardim do Éden, perde a sua imortalidade e é obrigado a trabalhar para se sustentar no Ser. Por isso, encontrar-se com o trabalho como sendo uma outra forma de consciência da finitude – o outro lado da moeda – é também encontrar a si mesmo: “Eu devo chegar cedo a mim”, diz o poeta. Mais uma vez o homem está dividido: tempo da contemplação e tempo da obrigação. É preciso se equilibrar na corda bamba e tentar abraçar os dois tempos simultaneamente. Nisto consiste a Sabedoria.

O ITINERÁRIO DA ALMA PARA DEUS

                Para encerrar este ensaio, retomemos o princípio de nossa investigação. Os numerosos elementos do universo literário de José Chagas, já mapeados acima, podem ser reduzidos em quatro categorias segundo a escala de durabilidade do Ser:

HOMEM -> SOCIEDADE -> UNIVERSO -> DEUS

Há, portanto, uma via simbólica que vai do menos durável ao eterno e cujos pólos são o homem e Deus. Assim, o sobrado é uma construção social – mais permanente que o poeta – a testemunhar o tempo histórico da São Luís colonial. Já as ondas do mar quebram nas areias da Praia Grande desde muito antes da fundação da cidade, sendo portanto testemunhas do tempo cósmico. Chagas contempla assim camadas de tempo com escalas diferentes: os telhados (sociedade) e o vento (universo).

A consciência da comunhão no Ser segundo a escala do Tempo é uma via de acesso a Deus. N’OS CANHÕES DO SILÊNCIO, José Chagas ascende por uma via simbólica através dos diversos topoi que compõem a sua poética (tudo o que ele vê da janela) e chega até Deus, tal como Dante Alighieri atravessa o Inferno, o Purgatório e o Paraíso para, no último verso da DIVINA COMÉDIA, chegar a contemplar “l’Amor che muove il sole e l’altre stelle” .

Estou no mirante

dividido em dois,

próximo e distante,

antes e depois.

Estou como quem

se reparte igual:

tanto para o bem

tanto para o mal.

Sem querer ser anjo,

sem choro, sem riso,

com Deus eu me arranjo

sempre que é preciso.

Não me vem receio

de buscá-lo assim.

Se nele eu não creio,

ele crê em mim.

Ele me confia

uma dor humana

sob a garantia

de que a dor me engana.

E eu cumpro o que posso,

quanto ao mais não juro,

que o destino nosso

Deus sabe que é duro.

Recordemos aqui tudo o que foi dito a respeito do simbolismo do mirante. Os dois pólos da comunhão do Ser na escala do Tempo são o homem e Deus. E o homem pode buscar Deus através das coisas animadas e inanimadas (o gato e os telhados) ascendendo por uma via simbólica até o Eterno. Quanto mais os entes participam das qualidades do Ser Supremo, tanto mais eles O simbolizam com perfeição. Como diz São Paulo: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o Seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência por Suas obras” (Rm 1, 20).

Não obstante isso, após esse longo trajeto percorrido, José Chagas parece ter descoberto um atalho no itinerário da alma para Deus. Há ainda outra forma mais direta, mais simples e até mais poética em que homem e Deus se encontram – não no mirante, mas na Encarnação do Verbo. Na palavra que se faz carne, ocorre uma fusão perfeita do humano com o divino. É também uma fusão de Ser e Tempo, pois nesse acontecimento Deus entra na História para assumir as dores do homem, e o homem assume a dignidade de Deus.

Deus sabe o que é

ser homem sozinho

sem perder a fé

em meio ao caminho.

E sabe a secreta

via que conduz

no Cristo um poeta

com seu osso em cruz

e Deus sabe que a luta

é também corporal,

que alma não se executa

sem base em pedra e cal

Esta última trova dá bem a dimensão do horizonte filosófico de José Chagas. O calejado agricultor de mão grossa, nascido em Piancó na Paraíba e exilado no Maranhão, onde se tornou depois poeta de ofício e funcionário público profissão, era talvez sem querer um escolástico perdido no século XX. “E Deus sabe que a luta/é também corporal/que alma não se executa/sem base em pedra e cal” é, na verdade, a tradução daquele famoso axioma tomista “a graça supõe a natureza” para a linguagem do repente nordestino. Já diziam os autores patrísticos: “quod non est assumptum non est sanatum”, isto é, aquilo que não foi assumido por Cristo não foi redimido. É daí mesmo que José Chagas canta

que é preciso descer ao barro

de que o homem dói de ser feito

e domar a angústia que amarro

com os arames do meu peito

(…)

É preciso que o corpo inteiro

se recrie em novo roteiro.

Eis a suprema Poesia porque só na Poesia são permitidas essas fusões ilógicas entre seres conceitualmente tão distintos como Deus e o homem. Na poesia, é compreensível que as coisas se apresentem como uma fusão do Ser, contrariando os princípios da Lógica (identidade e não-contradição). Assim, o poeta é o mirante e o mirante é o poeta. O gato é o telhado, e o telhado é o gato. O cupim é o dente do tempo. A morte é um cavalo a galope.

A atividade da filosofia – como produto da inteligência e do esforço de compreensão – é distinguir as coisas que, às vezes, surgem compactadas no discurso poético. Mas a poesia é e sempre será a linguagem do mistério. E não existe mistério maior, ontologicamente falando, do que o mistério da Encarnação do Verbo: a união perfeita entre Deus e o homem.

Acompanhando as últimas estrofes citadas de OS CANHÕES DO SILÊNCIO, chegamos ao dístico “É preciso que o corpo inteiro/se recrie em novo roteiro” (São Paulo: Siciliano, 2002 – Coleção Maranhão Sempre, pg. 158). A partir desse ponto do poema, Chagas escreve exatamente 10 quadras pedindo perdão a Deus, numa espécie de Kyrie Eleison sem missa. O poema se transforma em diálogo direto com Deus, dirige-se a Deus e invoca-O. Dá-se um encontro pessoal e afetivo de um EU com um TU. Nesse encontro da alma com Deus, o poema se transforma em oração.

                E o mais é pedir perdão,

                seja a Deus ou a quem for

                por ter odiado ou não

                e até por sentir amor.

                Peço perdão

                porque respiro

                e solto em vão

                praga e suspiro.

               

                Peço perdão

                porquanto esmago

                em minha mão

                o meu afago.

                Peço perdão

                porque me nego

                a ser cristão

                em cruz e prego.

                Peço perdão

                porque mastigo

                o suado pão

                do alheio trigo.

                Peço perdão

                por ser sozinho

                entre os que vão

                no meu caminho.

                Peço perdão

                porque não sei

                se sou razão,

                loucura ou lei.

                Peço perdão

                porque não fiz

                do coração

                minha raiz.

                Peço perdão

                por tudo enfim,

                pelo que é não,

                pelo que é sim,

                pelo que vai,

                pelo que vem.

                Perdão, meu pai,

                não sou ninguém.

Todas as coisas que o poeta vê da janela do mirante têm, cada uma em sua proporcionalidade, maior permanência no Ser, porém não têm uma perfeição que é exclusiva do homem: a consciência da finitude. A consciência humana é capaz de captar a ordem das coisas, perceber a hierarquia dos seres e de situar a si mesma no mundo. É também uma consciência de si mesma, ou seja, consciência de consciência. E sendo consciência de sua própria condição finita ela, como se diz na linguagem popular, “se recolhe à sua insignificância”. “Perdão, meu pai/não sou ninguém” é uma conclusão nada niilista porque afirma Deus, afirma o Ser Supremo. O homem consciente de si não pensa que é duradouro como as pirâmides, mas sabe que é pequeno como um grão de areia diante do universo. E menor ainda diante de Deus.

CONCLUSÃO

Chegamos ao fim deste ensaio. Estamos agora em condições de justificar o título. A longa meditação sobre Ser e Tempo em OS CANHÕES DO SILÊNCIO é pura Metafísica da História. Em geral, os filósofos contemporâneos desdenham o estudo da Metafísica, talvez por ignorarem que não pode existir a rigor nenhum pensamento anti-metafísico, uma vez que nada escapa ao âmbito do Ser. É preciso recuperar o estudo da Metafísica, inclusive em sua rica tradição escolástica (muito mal estudada hoje em dia), para que a filosofia possa encontrar bases seguras para o pensamento. Por outro lado, a Metafísica é uma disciplina cuja complexidade impede que ela seja absorvida pelo nosso intelecto sem a complementação da História. É fácil perceber a razão disso: a nossa experiência do Ser se dá sempre no Tempo, assim como a experiência do Tempo não se dá sem o Ser.

A poesia de José Chagas, como se viu, tem muitas implicações filosóficas e até teológicas. Ela é um discurso de Metafísica e de História do princípio ao fim. Sua matéria poética é muito concreta: as coisas do ambiente natural e urbano da cidade de São Luís. Essa matéria poética é tratada na sua historicidade radical. O Ser na poesia de Chagas é sempre um Ser historial.

José Chagas é um poeta com ampla envergadura intelectual e de grande sensibilidade estética. Se considerarmos apenas seu repertório de recursos técnicos e estilísticos, será talvez um dos mais perfeitos artífices do verso que surgiu na poesia brasileira do século XX. Ele definia a si mesmo como “um violeiro sem viola”, reconhecendo que, de alguma forma, sua obra era uma síntese da tradição popular com a cultura erudita. Essa sua dupla cidadania popular e erudita, por assim dizer, faz que José Chagas tenha meios de expressão linguística para penetrar em temas metafísicos com a mesma simplicidade das canções de parlenda, ciranda ou cantigas de roda.

Haveria, na verdade, muitas outras abordagens possíveis para a análise literária de OS CANHÕES DO SILÊNCIO. Preferi, no entanto, uma leitura rigorosamente ontológica porque, a meu ver, é a que melhor esclarece a obra em seu conjunto e a que melhor ilumina o ponto de partida existencial que, imagino, deve ter angustiado o coração do poeta.

Frederico Oliveira de Araújo

Foz do Iguaçu, 07 de outubro de 2016

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA PARA ESTE ENSAIO

CHAGAS, José. Poesia Reunida.

SANTOS, Mário Ferreira. Tratado de Simbólica.

VOEGELIN, Eric. Ordem e História, Vol. I.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA CITADA NESTE ENSAIO

­­­

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia.

AGOSTINHO, Santo. As Confissões.

ARISTÓTELES. Das Categorias.

CHAGAS, José. OS CANHÕES DO SILÊNCIO.

CUNHA, Martim Vasques da. A Poeira da Glória.

GULLAR, Ferreira. Toda Poesia.

PLATÃO. O Banquete.

SANTOS, Milton. O Brasil: Território e Sociedade no século XXI.

TOLSTOI, Leon. A morte de Ivan Ilicht.

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