A SABEDORIA DAS EVIDÊNCIAS – parte II

2. A INCONTORNÁVEL VERDADE
Prometi na introdução voltar ao problema do relativismo. Costuma-se dizer que a nossa época é a Era do Relativismo, pois todos os valores são relativos: – “Não existe o certo e o errado. Cada um tem o seu ponto de vista. Todas as opiniões são válidas”, é o que se costuma ouvir por aí.

Esse tipo de afirmação é o que podemos denominar “argumento suicida”: prova exatamente o contrário do que queria provar. Ora, se tudo é relativo, esta não é uma afirmação relativa, mas absoluta. Imaginemos o seguinte diálogo socrático nos tempos modernos… Alguém me diz:

Não existe verdade absoluta!

– Pois bem, esta sua afirmação é relativa ou absoluta?, pergunto eu. Ou você admite que possa existir uma verdade absoluta?

Não, não admito.

– Então é absolutamente verdadeiro que a verdade absoluta não existe?

Sim.

– Logo, existe a verdade absoluta: esta que você agora postula.

Bem, talvez esta seja a única verdade absoluta: a de que ela não existe.

– Repare que a sua frase é de um non sense completo: você acaba de afirmar que só existe o que não existe. Mas tudo bem. Ainda assim, vou considerar a sua hipótese. Diga-me: você aceita que possa existir uma outra verdade além desta que acaba de admitir? Ou esta é a única?

Só existe esta.

– Pois bem, chegamos então ao segundo atributo da verdade. O primeiro, como você mesmo admitiu, é que ela existe. O segundo atributo é que a verdade é una; ela é uma só.

Bem, me parece uma conseqüência lógica da minha afirmação.

– É possível extrair ainda mais uma conseqüência: como a verdade é una, tudo o mais que está fora dela é erro. Eis então um terceiro atributo: a verdade é indivisível, isto é, entre a verdade e o erro não há acordo possível.

Talvez isto seja demais para mim. Eu posso estar errado.

– Bem, se você deseja agora revogar o que acabou de me confirmar e admite que pode estar errado, é porque existe o certo e o errado – o que é mais uma prova de a que a verdade é incontornável; por mais que nos esforcemos nunca conseguiremos escapar dela.

Se não existisse verdade, deveríamos fechar as escolas, os tribunais, os hospitais, os cartórios e as oficinas de automóvel. Se não existisse verdade, todas as respostas na prova de História seriam corretas:

-Quem descobriu o Brasil?

Foi a minha avó. Ela nasceu no dia 72 de Trecembro, pegou uma nave espacial no Marrocos, que fica no Oceano Índico, atravessou o Rio Mississipi e chegou ao litoral do Mato Grosso, onde encontrou uma tribo de portugueses que gritaram “Mar à vista!”.

– Tudo errado. Zero para você.

Ah, professor. Isso é a sua opinião…

Se não existisse verdade, um professor jamais poderia dar nota baixa a um aluno. Nem poderia haver concursos públicos, nem muito menos recurso contra o gabarito da banca examinadora. Se não existisse verdade, aboliríamos a exigência de assinar um contrato com firma reconhecida. Se não existisse verdade, jamais poderíamos reclamar com o mecânico por ele ter substituído uma peça de nosso carro que ainda funcionava. Se não existisse verdade, um empregado jamais poderia reclamar na Justiça do Trabalho o pagamento de seu salário atrasado, pois o patrão diria que já lhe pagou e, mesmo que não tenha pago, como não existe verdade, ninguém poderá afirmar quem está falando a verdade. E se não existe verdade, não existe tampouco erro médico, pois tudo é uma questão de ponto de vista: o paciente esperava que o cirurgião lhe removesse o apêndice, mas este lhe arrancou o fígado? Bem, tudo é uma questão de perspectiva.

Ora, o relativismo se desmente nas situações mais práticas da vida. Por mais que alguém o professe em teoria, ninguém no dia-a-dia age como um relativista. Quando vai tomar banho, sabe que o chuveiro derrama água, e não soda cáustica.

Por outro lado, tenho sérias dúvidas se a nossa época merece mesmo ser classificada como a Era do Relativismo. As aparências enganam. Vivemos numa época em que as pessoas empunham causas políticas com a maior veemência e aparentam ter todas as certezas e todas as razões do mundo para fazê-lo. Essas militâncias aguerridas sob a bandeira do relativismo moral não devem estar partindo de opiniões propriamente relativistas, mas de uma convicção absoluta.

Se de fato acreditassem que “cada um tem o seu ponto de vista, e todas as opiniões são válidas” manteriam uma plácida indiferença e não teriam motivo para atacar com tanta energia os Bolsonaros, os Felicianos e os Donalds Trumps. Alguém me poderá objetar que esses três personagens são intolerantes e eliminar suas idéias do campo político é uma forma de garantir a pluralidade das outras idéias. Ora, respondo eu, então nem todas as opiniões são válidas; todas parecem ser, menos uma. Dito de outro modo: a de vocês é a certa; a deles é a errada. E assim voltamos à incontornável presença da verdade.

O nosso início de século XXI é a Era do Politicamente Correto. Nesse código moralista tão estrito como o do politicamente correto é proibido até pronunciar certas expressões tidas como machistas, racistas e homofóbicas (o equivalente, no passado, às ofensas sacrílegas). O tipo de desaprovação social que se pretende impingir hoje a uma pessoa considerada politicamente incorreta ou inimiga das minorias equivale à exclusão a que eram submetidos os homossexuais na Inglaterra vitoriana. A diferença crucial é que, ironicamente, o Politicamente Correto se apresenta com uma pele de cordeiro da aparente tolerância, só para poder determinar – com uma vontade de ferro – que há comportamentos intoleráveis. Seu fundamento pode ser resumido assim: – O intolerante não será tolerado.

Como então uma sociedade autoproclamada relativista pode estabelecer um código de condutas tão estrito como o politicamente correto? A resposta é simples. É que o ser humano é relativista em favor de si mesmo, exigindo condescendência com suas próprias opiniões, mas é moralista quando se trata de enquadrar o pensamento alheio. Em outras palavras: moralismo nos olhos dos outros é refresco.

Mais uma vez, tudo nos remete de volta à presença incontornável da verdade. Este é o quatro atributo da verdade, como já anunciamos: ela é inescapável. Não é possível fugir da verdade. Se subo ao topo das montanhas, a verdade lá está; se desço às profundezas do oceano, ali eu a encontro; se corro pelos prados abertos, ela está ali; se deslizo pelos vales e rios, ali também está. A verdade está em todo lugar. Ela é a própria realidade. E está cantada neste belíssimo hino:

Salmo 139

1 SENHOR, tu me sondaste, e me conheces.
2 Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento.
3 Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.
4 Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó Senhor, tudo conheces.
5 Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão.
6 Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir.
7 Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?
8 Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também.
9 Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar,
10 Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.
11 Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim.
12 Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa;
13 Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe.
14 Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.
15 Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra.
16 Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.
17 E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles!
18 Se as contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo.
19 Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue.
20 Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão.
21 Não odeio eu, ó Senhor, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti?
22 Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos.
23 Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos.
24 E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

 

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