A SABEDORIA DAS EVIDÊNCIAS – parte I

 

  1. INTRODUÇÃO

 

 

Arquimedes, o grande matemático grego, teria dito a famosa frase “dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio que eu levantarei o mundo”. Eis uma evidência da Física que qualquer um de nós pode aplicar ao mais singelo experimento doméstico: uma ferramenta tão rudimentar como uma barra de ferro ou um pedaço de madeira, quando devidamente apoiada num ponto firme e seguro, é capaz de erguer, por exemplo, uma janela emperrada ou até um caminhão.

Na história do conhecimento, a busca pelo Ponto Arquimédico – quer dizer, um ponto de partida firme e seguro para o saber – sempre foi o desejo de todos os cientistas, de todos os filósofos e de todos os sábios. Quem quer que afirme alguma coisa sempre parte de uma positividade. Mesmo quem está equivocado apóia-se em alguma premissa que, embora seja no fundo falsa, lhe parece inegável, ao menos até convencer-se do contrário. E mesmo quem nega uma afirmação está, na verdade, afirmando algo; afirma que aquele argumento exposto não é válido e que a verdade deve ser outra. Portanto, a afirmação precede (e está embutida em) toda negação.

Em outras palavras, quem emite qualquer juízo sobre qualquer matéria está sempre afirmando alguma coisa.

Por isso, o relativismo total é absurdo; é uma contradição em termos. Nenhuma filosofia, aliás nenhum pensamento, pode ter como base o relativismo. O verdadeiro relativismo (como o próprio nome sugere) só pode ser relativo a algo, quer dizer, o ato de matizar ou nuançar uma propriedade específica da coisa. O relativismo nunca poderá ser o fundamento do saber. Porque todo fundamento é necessariamente algo certo, firme, seguro, positivo, apodítico. Voltaremos a este ponto mais à frente.

Agora, é claro que a vida do homem é muito mais cercada de dúvidas do que de certezas.  Na prática, a nossa vida é cheia de incertezas, de vacilações e de perguntas sem respostas, porque a mente humana é estruturalmente limitada – tão finita quanto nós mesmos. Por isso, é simplesmente impossível ter certeza sobre tudo na vida. Seria muito bom se não fosse assim, mas a realidade da nossa experiência é que só podemos ter certeza absoluta sobre uma parcela ínfima do que conhecemos. Ainda assim, mesmo sendo ínfima em comparação com o tamanho do Universo, essa minúscula parcela de certeza que temos a graça de possuir é indestrutível o suficiente para não nos sentirmos completamente perdidos e abandonados na existência. Ela é demasiado escassa, mas já é alguma coisa. Exemplo de uma certeza apodítica: o todo é maior que uma de suas partes. Eis uma sentença bem segura sobre a qual não pode pairar qualquer possibilidade de erro.

Bem, o leitor já deverá ter percebido que com essa rápida introdução estabelecemos o nosso modo especial de filosofar: vamos procurar compreender o óbvio. Para quem nunca se aventurou pelos caminhos da Filosofia Perene pode parecer desnecessária tal empresa, uma vez que o óbvio já seria por si mesmo e-vidente, isto é, algo que se nota sem qualquer dificuldade. No entanto, devo adiantar que nem sempre é fácil enxergar o óbvio. Às vezes é preciso que alguém nos mostre, pois estamos cegos demais para vê-lo. Ademais, quando reduzido a uma fórmula genérica (como no exemplo acima da relação entre o todo e a parte) qualquer pessoa é capaz de reconhecer o óbvio, mas não é assim se a mesma relação aparece em meio a um debate: misturada com cifras e dados quantitativos, entre argumentos válidos e outros inválidos, perdida na selva selvaggia da discussão acalorada. Nesses momentos de tensão, a nossa inteligência sofre uma espécie de downgrade. Tanto assim que frequentemente só nos ocorre impugnar o argumento adversário algumas horas após o debate, quando já passou o momento oportuno de fazê-lo. Era tão óbvio e você deixou passar…

Por isso, batizei este escrito de A SABEDORIA DAS EVIDÊNCIAS. Pretendo com isso tornar evidente o que já é – ou o que ainda não é, mas deveria ser.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s