Vésperas: sonetos

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Vésperas

I

Sôbolos rios que vão
Por Babilônia me achei
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião
(Camões)

Meu canto de onde sopra nas palmeiras
rasga o céu, neste maio tropical.
E a luz azul, que banha as derradeiras
horas da tarde, se dilui em sal.

Meu canto segue a estrela branca e fina
dos Serões. E eu prevendo a vez final
Toco a flauta de um galo-de-campina
para compor o meu canto geral.

Escuto nesta tarde a voz dos ventos,
e a minha voz imita os violentos
timbres velhos do peito lusitano.

Mas não sonho ganhar um território
senão dentro de mim: meu Oratório.
Eu narro agora a saga em outro plano.

II

Contava com uma colheita de uvas,
Mas ela só produziu agraço.
(Is 5,2)

Minh’alma mira o topo desta Serra
onde clarins de guerra dão sinal…
Mas eu que sou a luta: eu sou a terra
que deve sucumbir à capital.

Meu campo teme o Dia do Juízo,
que é o tempo do ocaso universal,
enquanto espera a luz do paraíso
para florar o alho em meu quintal.

Debulhando o Rosário em cada fava
sinto na carne a natureza escrava,
tal como Adão, marcado pela Queda.

Soubesse então o que a lavoura dava!
Minh’alma é como a mandioca-brava
que nasce doce, mas depois azeda…

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