Reflexões sobre a composição II: o senso do movimento

Frederico Oliveira

No ensaio anterior, analisamos a função da forma na obra de arte. Aqui, falaremos do seu oposto: o movimento. O movimento é o irmão da forma. Os dois interagem na composição e, conjugados, provocam em nós a emoção. A forma e o movimento são complementares. Enquanto a forma tem o poder de fixar a arte, o movimento tem o poder de deslocá-la. A luta entre a forma e o movimento é que dá essa sensação ambígua e inexplicável que manifestamos ante uma obra de arte que nos surpreende. A forma da arte me diz que há nela algo de estável, mas insurge-se também um elemento de instabilidade, de sucessão, de devir. É um equilíbrio dinâmico. Parmênides e Heráclito: o ser e o sendo.

Quando Vinicius de Moraes falou na “estratégia do poema”, ele se referiu à forma do movimento, isto é, tanto o modo para chegar lá quanto a destinação escolhida. Podemos ainda dizer isso de outra maneira e com apoio em outro grande poeta. Octavio Paz, no célebre ensaio O ARCO E A LIRA, demonstra que o sentido da poesia é o seu aspecto sonoro e rítmico. Diz o crítico mexicano que o ritmo não é uma imposição do poeta contra uma língua flácida. Em seu estado puro, a linguagem é movimento e, no fundo, a linguagem também é ritmo. O próprio universo é rítmico, pois é feito de alternâncias entre dia e noite, sol e lua, maré cheia e vazante, estações do ano que se sucedem, vida e morte. É por isso que as artes têm tanta força sobre a nossa alma – porque elas fazem vibrar alguma corda cósmica dentro de nós. E nessa vibração nos sentimos ligados à realidade que nos rodeia e nos transcende.

A arte, portanto, tem movimento. Se bastasse apresentar um único exemplo em favor de minha tese, eu citaria o Cinema: a fotografia em andamento. Mas o cinema não vale porque o cinema é um exemplo óbvio demais. Vamos procurar movimento em artes nas quais ele não seja tão aparente. Por exemplo, na música. A música é feita de sons que, fisicamente falando, são ondas. E as ondas se movem. Mas o que nos interessa não é o fenômeno físico, senão a sua dimensão estética. Um concerto, uma sonata, uma toada, uma modinha, um sambinha, uma cantiga de ninar, enfim qualquer forma musical é um movimento que inicia e termina, ou seja, vai de um silêncio a outro silêncio. O que apreciamos é o itinerário do som. Às vezes a canção tem mais de um único movimento, tem vários deles, contando estrofes e refrões que se repetem e voltam e prosseguem e vão até o fim. Acabou? Pronto: o movimento já era.

O movimento da música não difere muito, na sua estrutura, da narrativa literária. Existe uma forma que se vai alongando, delineando, às vezes mais lentamente, outras vezes apressada, que costumamos chamar de enredo. Cinema tem enredo, teatro tem enredo, contos e romances também. A narrativa é uma flecha que parte de um lugar em direção a um alvo: o clímax da história. Mas se a narrativa é movimento no atacado, também o é no varejo. Quero dizer: a narrativa literária, sendo ela mesma um longo movimento, também é composta de uma multidão de minimovimentos que formam o seu curso maior. Dito de outro modo, um romance tem a história principal que é o fio condutor da trama, mas tem também uma série de outras histórias menores, personagens paralelos, figurantes de novela que vão povoando o cenário, tornando-o mais rico e complexo.

Boa literatura precisa de movimento. Um conto se faz com ação. Poesia se faz com coisas. O plano estático das idéias e dos conceitos não pertence muito à literatura; pertence à ensaística, à reflexão crítica, à especulação filosófica. A narrativa literária propriamente dita é feita de fatos. Na fábula, o macaco roubou a cenoura do coelho. No romance, o homem traiu a mulher com a vizinha. Na epopéia, o guerreiro matou o inimigo. No poema lírico, a amada enlouqueceu e se transformou em lua. Tudo isto são atos e fatos. São coisas acontecidas e sucedidas, ainda que só na imaginação. Numa palavra: movimento.

Existem quadros que parecem perfeitamente estáticos. Um autorretrato, por exemplo. Mas, ainda assim, qualquer tela por mais parada não deixa de me sugerir, no mínimo, o movimento da mão do artista que a criou: tinta para lá, pincelada para cá. Por ora, vamos esquecer os cavalos agitados d’O Grito do Ipiranga de Pedro Américo, para não facilitar demais a nossa tarefa. Pensemos numa tela bem monótona. Não é ela a fotografia (a imagem estática, portanto) de um instante que se eternizou no tempo? A imagem congelada me sugere que houve algo antes e que haverá algo depois daquele momento retratado no quadro.

Não há como fugir do tempo: tudo o que é humano é temporal. Aliás, sequer conseguimos conceber perfeitamente a eternidade, não temos palavras para expressá-la, representamos a eternidade com a metáfora de um “eterno presente” – o que ainda é um apelo à noção de tempo. O tempo é uma realidade inescapável para o homem.  Não é o tempo que passa: nós é que passamos através do tempo. E o tempo é movimento.

A dança é o movimento do corpo. Esta foi fácil. Já vimos o cinema, a música, a literatura. E tudo o que vale para a narrativa literária vale com mais razão para o teatro, pois, uma vez encenado no palco, o texto ganha muito mais movimento com a dramaticidade dos atores. A pintura, como vimos, também ela é composta de movimento.

Mas há talvez uma arte que foje à regra, uma arte que foi pensada para deixar as coisas bem quietinhas no seu canto; do contrário, poderia ser perigoso para as pessoas que andam nas ruas. Esta arte é a arquitetura. Afinal, um edifício não é projetado para entrar em movimento, mas para resistir a um terremoto. No entanto, permitam-me observar que até a arquitetura na sua realização mais perfeita tem um quê de movimento. Não falo em termos de engenharia dos prédios que balançam para não cair, mas em nível puramente estético. Tampouco falo de qualquer arquitetura barata, mas apenas das melhores. Ferreira Gullar escreveu certa vez um poema assim:

Lições de Arquitetura

Para
Oscar Niemeyer

No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asas

(…)

Costuma-se dizer que uma casa bem projetada é uma casa “leve”, que parece suspensa no ar ou está prestes a voar. Não sei se a arquitetura de Oscar Nienmeyer chega a esse nível de perfeição, mas de todo modo se non è vero, è ben trovato. Para ficar na modernidade, vou recorrer a outro arquiteto famoso. É o catalão que desenhou uma catedral que mais parece um castelinho de areia feito por crianças sentadas à beira do mar. Olhando de perto, dá até para perceber o movimento de areia molhada escorrendo por fora, como se estivesse a qualquer momento a ponto de ser destruída por uma onda violenta do mar… Refiro-me à Catedral da Sagrada Família, de Gaudi.

sagrada-familia.png

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