Precisamos Conversar sobre Star Wars

  Star Wars

Eduardo Siebra

Acho que a essa altura já é seguro falar sobre o assunto…

Meu caro leitor do blog Todos os Problemas do Mundo, tudo tranquilo com você hoje? Está se sentindo bem? Sente aí um pouquinho, tome um copo d’água. Quer um café, uma bolacha? Um pedaço de bolo, uma seriguela, uma cajuína, um pacote de trapalhitos? Um chá de boldo, um krokitos, uma fanta uva, um pouquinho de filhós? Um bode guisado com cuscuz, um prato de andu, um mucunzá, uma dose de Samanaú?

Precisamos conversar sobre Star Wars: O Despertar da Força. Meu caro leitor do blog Todos os Problemas do Mundo, eu sei como você se sente, eu também sou fã da saga. Lembro como se fosse hoje a emoção que senti quando comprei a caixa com os VHS da trilogia original na Nap Vídeo da Rua da Vala. Até hoje tenho um bonequinho de stormtrooper. Quando criança eu morria de inveja da réplica automática do R2D2 que meu primo tinha. Joguei vários jogos derivados da saga no Super Nintendo e no PC. Tenho uma relação afetiva com os personagens, as locações, o enredo. Também me emocionei ao ver o logotipo de Star Wars aparecer ao som da música de John Williams na abertura do novo filme.

Mas, esse filme, meu caro leitor do blog Todos os Problemas do mundo, é ruim… Aliás, ele não apenas é ruim, ele é uma merda!

Aqui estou falando não só como fanboy, mas como espectador e consumidor minimamente exigente. Como fã da série, não teria muito do que reclamar, pois o principal problema do novo filme é justamente o fato de a obra dialogar o tempo inteiro com a expectativa dos fãs ortodoxos. Como peça narrativa autônoma, ou seja, quando desvinculado da experiência original de assistir aos três primeiros filmes, O Despertar da Força beira o ininteligível.

Imaginemos que o Episódio IV: Uma Nova Esperança não existisse, e que o Episódio VII fosse o primeiro filme. Seria divertido assisti-lo? Sim, seria divertido, do mesmo modo que um passeio de montanha russa pode ser divertido. É interessante para pessoas afetas às satisfações simplórias – como eu mesmo sou – ver naves espaciais explodindo, gente se matando com pistolas laser e duelos de sabre de luz. Assisti a um show de pirotecnia uma vez em Hong Kong que foi divertidíssimo, ainda que, ao que tudo indique, ele não tenha lá grande valor enquanto arte dramática…

Efeitos visuais podem ser um mérito intrínseco num filme, ou até indicar virtuosismo técnico, mas não importa o que digam os críticos de cinema pós-modernos amigos de Zé Roberto,  cinema é narrativa. E, como narrativa, O Despertar da Força fracassa. Seu enredo não faz sentido sem as alusões implícitas à trilogia original. É de se esperar alguma medida de derivação num capítulo de uma série mais ampla, mas estamos tratando aqui do lançamento de todo um novo arco narrativo. Personagens saídos da casa do chapéu parecem saltar gratuitamente de uma localidade para outra – não como desdobramento da trama, mas numa progressão aparentada à experiência de mudar de fases num jogo de videogame. As cenas se sucedem com o mesmo espírito de um passeio num parque temático da Disney: “Vejam agora é a hora de encontrarmos o Han Solo! Depois vem a hora da batalha espacial. Agora é a hora do ataque à Estrela da Morte que não é a Estrela da Morte mas que no fundo é a Estrela da Morte!”

O roteiro de O Despertar da Força não parece ter sido escrito para atender às expectativas de uma criança de dez anos: ele parece ter sido escrito por uma criança de dez anos. Ainda assim, li alguns relatos de multidões de adultos aplaudindo cenas do filme – alguns chegando às lágrimas. Como é possível isso? Como é possível que pessoas sensatas – aptas, em alguns países, a compor um tribunal do júri que poderia condenar um homem à morte, e a quem a sociedade civilmente organizada atribui o poder de escolher seus líderes políticos – permitam-se tal ordem de reações diante de uma obra com a mesma envergadura épica de um episódio de Power Rangers?

Filmes ruins são lançados aos montes desde os primórdios do cinema – não há nada de surpreendente nisso. O que me causa estupor é ver uma quantidade tão grande de pessoas – críticos de cinema, inclusive – dando tanta importância a um filme tão ruim. Estamos, aqui, diante de um fenômeno cultural que merece reflexão.

O Despertar da Força não é uma narrativa no sentido moderno da palavra. A não ser quando um autor intencionalmente resolve brincar com os diferentes níveis de realidade, entendemos uma peça de ficção como um universo coerente e autocontido. Seus personagens e sua cronologia obedecem a uma lógica interna que não remete às regras de coesão do universo em que vive o criador da obra. A metalinguagem só é aceitável quando usada como recurso expressivo de um narrador onisciente, uma vez que a relativização da coerência interna do mundo ficcional afetaria um dos principais suportes de toda narrativa – a suspensão da descrença.

J. D. Connor, resenhista do LA Review of Books, observou neste artigo que a primeira frase de O Despertar da Força – “This will begin to make things right”, possui não apenas sentido dentro da narrativa, mas também dialoga com o fã ansioso por ver serem deixadas para trás as supostas falhas da segunda trilogia filmada por George Lucas. O autor aponta essa disposição do filme de conversar com as plateias como um exemplo de uma tendência mais ampla dos filmes blockbuster americanos.

Essa relativização da quarta parede – ou seja, do limite entre a ficção e o espectador – não é um experimento vanguardista, mas sim uma regressão mental. Ruins como fossem, os filmes comerciais da década de 70 ou 80 eram narrativas consumadas, que bebiam nas fontes clássicas da cultura ocidental. O Despertar da Força não: ele é como uma brincadeira de criança, cuja pretensão é fazer com que o indivíduo sentado na poltrona do cinema suponha que possa ele mesmo fazer parte do mundo onde existem os jedis.

É por isso que o filme é tão derivativo do Episódio IV: Uma Nova Esperança. Não se trata aqui de contar um novo capítulo – como foi feito ao longo dos anos nos livros e quadrinhos do assim chamado “universo expandido” de Star Wars – mas sim de reencenar os mesmos temas e sensações que fizeram o primeiro filme o sucesso que foi. Apenas muito forçadamente se poderia argumentar que os paralelos entre o Episódio IV e o Episódio VII se explicam pela estrutura mítica da narrativa. Mesmo que isso fosse verdade, isso apenas reforçaria o argumento de que o Episódio VII aponta para uma tendência regressiva da cultura pop de massa, já que, do mesmo modo que as encenações rituais dos povos primitivos, elas não contam propriamente novas estórias, mas reencenam efetivamente os mitos de um povo.

Já se explorou muito a influência de Joseph Campbell no roteiro do primeiro filme da saga. As aventuras de Luke Skywalker seriam apenas mais uma encarnação do monomito, ou seja, da narrativa fundamental da aventura humana. Mesmo que isso fosse verdade, certamente Star Wars não foi um sucesso por ter sido capaz de recontar esse padrão, mas sim porque o filme desenvolveu uma boa estória, com episódios e personagens marcantes. Caso contrário, deveríamos classificar Star Wars não como cinema de entretenimento, mas como drama religioso – mais aparentado à Paixão de Cristo que todos os anos se encena em Nova Jerusalém do que aos romances de aventura do século XIX e XX que inspiraram a saga. Seria uma espécie de liturgia duma metafísica adolescente.

O grande público, porém, se não está disposto a levar a sério essa baboseira mitológica, parece estar inclinado, ao menos num nível inconsciente, a cultivar sincera devoção pelos elementos fundamentais da narrativa. Vamos lá: o Episódio IV tinha um vilão com máscara e voz eletrônica. O Episódio VII também – ainda que seja um vilão adolescente emo, com voz de drag queen dominatrix da cena eletrônica underground berlinense. O Episódio IV tinha um planeta desértico, onde morava um jovem sonhador ansioso por ampliar seus horizontes. O Episódio VII também – ainda que nesse caso seja uma menina, e ainda que ela demonstre mais relutância em abandonar seu mundinho familiar. O Episódio IV tinha um alívio cômico robótico que se comunicava por beeps e acabava por se tornar o leal companheiro do protagonista. O Episódio VII também. O Episódio IV tinha a Millenium Falcon, o Chewbacca, e gangsters que queriam matar o Han Solo. O Episódio VII também.

As semelhanças não param de se suceder. O que é a Primeira Ordem, senão um Império Galáctico recauchutado, que tira todo o peso do desfecho da trilogia original? Que é Snoke, senão um novo Imperador Palpatine, comprado numa loja de 1,99? O que é aquele planeta enorme com um canhão, senão uma Estrela da Morte ainda mais aloprada? E o Luke Skywalker, que virou um novo mestre Yoda? Falou-se tão mal da segunda trilogia produzida por George Lucas, mas ela no mínimo teve coragem de inovar, tanto visualmente como em termos de narrativa – coisa que os criadores do Episódio VII não tiveram coragem de fazer.

Star Wars é uma marca, sua principal função, do ponto de vista de quem detém seus direitos autorais – ou seja, a Disney – é gerar lucros. Ainda assim, os bons filmes da nossa infância são a prova de que cinema comercial não é incompatível com criatividade e inovação. O Episódio VII, ao apostar numa fórmula pronta, já testada e aprovada pelo gosto do público, revela que seus produtores, interessados em faturar alto, preferiram bancar um filme que recicla velhos conceitos batidos. É o grande marasmo criativo da Holywood atual, que nos últimos tempos tem infestado as salas de cinema com montes e montes de remakes, reboots e crossovers.

Meu caro leitor do blog Todos os Problemas do Mundo, eu sou um nerd de formação clássica. Leio quadrinhos e assisto a filmes de ficção científica. Me emociono até hoje quando escuto a música da cena da ópera de “Final Fantasy VI”. Mas há um limite para a nerdice, meu caro leitor, e esse limite é o senso de respeito intelectual a si próprio! Não podemos encher os bolsos de produtores de grandes estúdios que contam com nossa condescendência para empurrar goela abaixo o mais vergonhoso dos enlatados, uma narrativa pasteurizada que só consegue emocionar um adepto da fé – exatamente como aquelas novelas bíblicas que passam na Rede Record!

Não, não e não! Esse filme é uma porcaria, e só fez tanto sucesso porque as multidões estão ávidas por resgatar a emoção original de assistir pela primeira vez o memorável início da série Star Wars! Pura nostalgia desengajada de quem planeja passar no McDonalds depois da sessão.

Eu, pelo menos, pensarei várias vezes antes de gastar meu rico dinheirinho com um ingresso caríssimo para assistir novamente a um filme sobre abobrinhas requentadas.

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4 Respostas para “Precisamos Conversar sobre Star Wars

  1. É só o primeiro da nova fase, amigo. E, sim, de fato ele faz um resumão da trilogia clássica e lança novos elementos. Ele é pra ser um diálogo com os clássicos, afinal, está restabelencendo uma saga q tem mais de 30 anos. Calma, ele deixa os elementos de mistério para os outros. Esse filme só preparou o caminho, enaltecendo a trilogia clássica, como tinha que ser. Algo muoto fora disso seria cliche em relação ao mundarel de ficção científica que já exiate e que veio depois de Satar Wars. Pra ser um Star Wars, regenerado e feito pra quem ama e quer amar mais o universo, tinha quer “pagando pau para o que é clássico. Calma….. tem muito por vir ainda. Por fim, digo que um fan de verdade não chamaria o ama de merda! A não ser que você seja um daqueles “fans” em que tudo é sempre ruim. Abrç.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigado pelo comentário. Eu entendo que Star Wars é uma marca, e que sua principal função, do ponto de vista de quem produz os filmes, é gerar lucros para a companhia que detém os direitos, ou seja, a Disney. Mas sinceramente não acho que o cinema comercial seja incompatível com a criatividade e a inovação. O problema desse último filme, na minha opinião, é que eles apostaram numa fórmula pronta, já testada e aprovada pelo gosto do público. Ou seja, produtores interessados em faturar alto optaram por bancar um filme que recauchuta vários conceitos do Episódio IV.
    Do ponto de vista financeiro, eles certamente estavam com a razão: o filme foi um sucesso. Mas isso tira muito do encanto da marca Star Wars para mim. Na verdade, acho que essa falta de ousadia criativa é um problema generalizado da Holywood atual: basta ver a quantidade de reboots e remakes que estão sendo feitos. Quem quer consumir algo novo, precisa apelas para outras mídias (por exemplo, Netflix).
    Enfim, espero não ser um fã muito chato, mas talvez eu seja um consumidor chato. Os ingressos para as sessões de cinema são caros (eu, pelo menos, pago inteira), e eu não acho razoável ficar gastando tanto para assistir um enlatado, ainda que seja uma superprodução enlatada.
    Mas respeito e entendo seu ponto de vista! Espero que os próximos filmes sejam mais interessantes (acho que podem ser, já que essa similaridade entre o episódio IV e o VII foi muito apontada pelos críticos).

    Abrç

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  3. Concordo plenamente quanto à ortodoxia da nova obra, em se limitar a rimas constantes com a trilogia clássica, e também sei que um bom filme tem de funcionar por si só. Mas, ainda assim, vejo que o filme criou uma narrativa interessante e introduziu personagens principais carismáticos e bem construídos. Como é uma série de três filmes, eu ainda não dei meu veredicto, mas se a segunda parte também pecar com esse medo e consequente falta de originalidade, apontarei essa nova trilogia como medíocre. Por hora, classifico o episodio VII como bom, nem ruim, nem fantástico. Um bom filme.

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