Memorização de poesia

Frederico Oliveira

Nunca entendi por que os pedagogos atuais desencorajam a memorização se ninguém pode fazer compras no mercado sem saber a tabuada de cor. Se pelos frutos conhecemos a árvore, aí estão os resultados da educação no Brasil: as crianças não sabem mais fazer contas elementares de aritmética, e os estudantes universitários não sabem colocar uma vírgula num texto.

A tal da pedagogia crítica ignora que qualquer estudo tem um componente de raciocínio livre e outro de saber consolidado na memória, sem o quê a mente não tem ferramentas para pensar. Quem já prestou um concurso público ou um exame de proficiência em língua estrangeira sabe que nem tudo pode ser improvisado na hora da prova; alguns saberes precisam estar na ponta da língua. Não é diferente a atividade do filósofo (embora o senso comum acadêmico não saiba disso), pois a disciplina de Lógica exige, por exemplo, a memorização das figuras do silogismo.

Quem não tem memória não pode aprender.

Imagine uma pessoa que estivesse sempre aprendendo pela primeira vez a lidar com os problemas: a vida seria inviável, e o conhecimento seria um angustiante trabalho de Sísifo. Ao entrar pela segunda vez num banco, a pessoa já não lembraria o que é um banco, o que é dinheiro, o que está fazendo ali.  Se você acha que estou exagerando com este exemplo, ouça os discursos da Presidente Dilma: quando ela começa uma frase, já não lembra o que disse no princípio e conclui dizendo outra coisa completamente diferente. Diagnóstico: falta de memória de curto prazo. Para ler um livro, é preciso lembrar o que está escrito no parágrafo anterior, na página anterior, no capítulo anterior; do contrário, a leitura é impossível.

Imagine agora um operador de trator com uma pá mecânica gigante em frente ao muro da sua casa. Se ele inventasse de pensar criticamente e resolvesse “não concordar” com as regras de funcionamento da máquina, ele destruiria o seu muro em um minuto. Nem tudo na vida é feito de pensamento crítico, e muita coisa na vida depende da memória.

Nós sabemos que a inteligência opera com base no duplo processo de adaptação-acomodação: o sujeito se amolda às peculiaridades do objeto novo e, ao mesmo tempo, encaixa o objeto em algum esquema próximo já existente que permite compará-lo e torná-lo conhecido.

Portanto, a memória é fundamental no processo de aprendizagem.

Acontece que a memória precisa ser exercitada. Há pessoas que têm boa memória, e outras não. Isso se deve ao maior ou menor treino da atenção.

Sigmund Freud investigou n’A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS os motivos pelos quais a nossa recordação dos sonhos é tão inconstante; segundo ele, a memória depende de fatores como o interesse, a repetição e a associação. Se você realmente se interessa por alguma coisa, você tem uma chance maior de não esquecê-la; se você ouve ou vê alguma informação repetidas vezes, tenderá a retê-la; se você é capaz de associar isso que viu ou ouviu a alguma outra coisa, provavelmente você irá lembrá-la.

Exercícios de memorização de poesia ajudam a trabalhar a memória de curto e de longo prazos, embora este não seja o único benefício dessa atividade.

Mas vale lembrar que a seleção dos poemas é tão importante quanto a atividade de memorização em si. Se você está preocupado em educar seu filho, é preciso selecionar bem o material de leitura da mesma forma que as mães nutricionistas de hoje em dia elegem com o maior escrúpulo os alimentos que podem e os que não podem entrar na boca da criança. Não acredito nessa cantilena de que ler qualquer coisa traz benefícios só pelo fato de criar o hábito da leitura. Há muita bobagem escrita por aí.  Afinal, de um ponto de vista menos rigoroso, um fast food também alimenta.

Prefira sempre os poetas clássicos. E quando digo “clássicos” não importa se são modernos ou antigos, eruditos ou populares. Parece que esta definição de classicismo está ampla demais a ponto de não definir nada. Então farei um esforço para ser mais preciso: Luís de Camões, Manuel Maria Barbosa Du Bocage (nem tudo o que ele escreveu é impróprio para menores), Gonçalves Dias, Castro Alves, Machado de Assis, Camilo Pessanha, Cruz e Souza, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes (o livro A ARCA DE NOÉ), Cecília Meireles, Mario Quintana, Patativa do Assaré e quase todo o cancioneiro nordestino recolhido por etnólogos ou publicado em cordel. É claro que essa lista não é exaustiva. Há uma questão de bom gosto e outra de bom senso. Augusto dos Anjos é ótimo, mas é para adultos.

Outro benefício da memorização de poesia é a expansão da linguagem.

O ser humano aprende por imitação. Aliás, aprende tanto o que é bom quanto o que é ruim. Assim, quando assimilamos a expressão de um grande poeta da língua portuguesa, a sua forma de comunicação naturalmente passa a ser a nossa. Adquirimos, por empréstimo, a sua arte de dizer coisas que mal conseguimos balbuciar. Um homem comum geme; mas o poeta sabe dizer a dor. Se a criança só tem modelos medíocres a imitar, ficará medíocre como eles. Mas se adota os melhores como modelo ganhará domínio do idioma, tomando para si a força de expressão verbal dos grandes poetas. T. S. Eliot dizia que os maus escritores plagiam e que os bons roubam…

É claro que, com o tempo, a criança passará a desenvolver sua própria expressividade, adaptando frases para novos empregos e criando um estilo único e pessoal. Mas a experiência elementar ensina que quando a criança está aprendendo a falar ela necessita imitar não só o modo como os adultos falam, mas também o próprio vocabulário dos adultos. Depois, naturalmente, ela vai-se desenvolvendo e elaborando suas próprias frases.

Ouso afirmar que há nesse método da imitação algo que é da vontade de Deus. O Senhor inspirou os salmistas para que escrevessem orações que são verdadeiras pérolas de espiritualidade e sabedoria. Ao rezar os Salmos, repetimos as palavras que saíram da boca do Espírito Santo. Imitamos a voz de Deus para que nossa voz possa chegar até Deus. Se é assim até com as coisas sagradas, por que não seria com a linguagem profana?

Outra coisa: não se preocupe se o vocabulário de Camões lhe parece rebuscado demais para seu filho. Esta preocupação não faz o menor sentido. Quando a criança nasce, todas as palavras são desconhecidas para ela e, no entanto, seu repertório de palavras vai-se enriquecendo dia após dia. Se um pai falasse com a criança apenas “gugu-dadá”, que é a linguagem adaptada ao nível da criança, ela nunca aprenderia nada de novo. Mas intuitivamente ninguém faz isto: nós nos dirigimos às crianças de um ano de idade já com todas as palavras da língua que estão à disposição naquele momento. E elas entendem. Por que entendem? Primeiro porque têm inteligência, mas também porque as crianças são capazes de captar a musicalidade da língua. Até um cachorro entende uma ordem de comando quando enfatizamos o tom da voz. É na sonoridade da palavra que está o significado.

Costumo contar o seguinte fato que aconteceu comigo. Na primeira vez que fui à Alemanha, andei no metrô de Munique. Eu não falo uma palavra de alemão. Vi uma senhora bávara no metrô ralhar com seu cachorro. Eu não entendi nenhuma palavra do que a senhora falou, mas o cachorrinho entendeu. Me senti humilhado: o cachorro sabia alemão, e eu não! À parte o aspecto cômico da coisa, a verdade é que, tal como o simpático cãozinho, eu consegui compreender através do contexto e do tom de voz que a dona do bicho estava dizendo para ele ficar quieto no metrô. Da mesma forma, um bebê que ainda não aprendeu a falar entende o comando dos pais para não meter o dedo na tomada. No início, a criancinha não tem nenhum vocabulário, mas ela entende a mensagem pelo jeito como as pessoas falam com ela, o tom de voz, a expressão facial e outros gestos.

Para o nosso propósito, o que interessa dessa história é o tom de voz. Toda poesia deve ser memorizada em voz alta e com uma recitação adequada. Recitar corretamente é buscar a sinceridade do sentimento expresso no poema. Exige-se muita sensibilidade para captar a voz verdadeira que emana da poesia e saber reproduzi-la fielmente. Uma recitação vacilante ou desafinada com o sentimento do poema não produz os efeitos esperados. Deve-se evitar ao máximo uma voz postiça de elevador ou de aeroporto, mas também fugir de uma afetação exagerada que não corresponde ao sentimento do poema. Se o texto é sóbrio, a voz do declamador deve expressar sobriedade; se o poeta faz uma exclamação efusiva, a leitura deve acompanhar essa efusividade, e assim por diante.

Ao exercitar essa arte em casa ou no palco, saiba que sempre será possível chegar mais próximo, cada vez mais próximo da perfeição.

Há gente famosa no meio artístico, incluindo atores, músicos e celebridades do show business que se acha muito competente para declamar poesia, mas são na verdade péssimos declamadores. Um exemplo deles é a Maria Bethânia, que chegou a gravar CDs recitando Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Vinícius de Moraes e outros grandes poetas. O que está mal na performance de Maria Bethânia é que ela declama qualquer texto com a mesmíssima voz impostada e artificial, fingindo uma certa dor de cotovelo. Não importa para Maria Bethânia se aquele poema específico exige uma voz melodramática de alguém que está morrendo com dor de cotovelo. Tudo na voz dela sai empacotado, falso e pouco convincente.

Bem diferente é o caso de Paulo Autran, grande declamador. Mas é difícil explicar o que é uma boa recitação apenas em teoria, sem mostrar um bom exemplo a imitar. Portanto, vamos fazer um exercício. Tente você mesmo declamar o poema UMA PALMADA BEM DADA de Cecília Meireles e, só depois de haver tentado duas ou três vezes, ouça a seguinte gravação de Paulo Autran:

A menos que você seja um profissional de muito talento, é bem provável que o mestre vá superar a sua perfomance doméstica. Para concluir o exercício, você precisa comparar a sua pronúncia, o tom, a ênfase em certas palavras, as pausas e a expressividade com as escolhas de Paulo Autran.

A minha dica é que, quando se vai ensinar uma criança a memorizar poesia, deve-se fornecer, ao lado do texto, a melhor maneira de declamá-lo. Uma pesquisa exaustiva ajudará neste caso: há vídeos de grandes talentos, inclusive amadores, circulando pela internet. Basta ter um pouco de sensibilidade para identificá-los. O importante é que a criança deve aprender as duas coisas juntas – a palavra e o tom – para absorver a sinceridade do sentimento ali expresso.

Como demonstrou Octavio Paz no brilhante ensaio O ARCO E A LIRA, o sentido e a materialidade da palavra são indiscerníveis na poesia. O sentido da poesia é o seu aspecto sonoro e rítmico. Em última análise, o ritmo não é uma imposição do poeta contra uma língua flácida. Em seu estado puro, a linguagem é movimento e, no fundo, a linguagem também é ritmo. O próprio universo é rítmico, pois é feito de alternâncias entre dia e noite, sol e lua, maré cheia e vazante, estações do ano que se sucedem, vida e morte. É por isso que a poesia e a música têm tanta força sobre a nossa alma – porque elas fazem vibrar alguma corda cósmica dentro de nós. E nessa vibração nos sentimos ligados à Realidade que nos rodeia e nos transcende.

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