Despirocando o Sete

 

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Frederico Olveira

 

Faço parte de uma geração que foi educada para ser livremente criativa. Mas, em retrospectiva, talvez sejamos obrigados a constatar que esta geração não está à altura das expectativas que em nós depositaram pais, mestres e pedagogos.

A PERPLEXIDADE

A pedagogia construtivista, adotada no Brasil a partir do fim da década de 1970, afirma que a criança deve ser exposta aos estímulos do mundo, e o seu aprendizado acontecerá espontaneamente do contato com esses estímulos. No construtivismo, o mestre deve interferir o mínimo possível no processo de aprendizagem (quem nunca ouviu essa máxima antes?). É o lugar-comum que você ouve da boca da pedagoga quando vai matricular seu filho na escola.

Mas o fato curioso é que Luís de Camões, Tchaikovsky, Michelangelo, Molière, Mozart, William Shakespeare e Dante Alighieri não foram ensinados pelo método construtivista. Os gênios do passado receberam a educação tradicional: eles aprendiam em cima de modelos, e os modelos eram dados (hoje diríamos “impostos”) e tinham de ser copiados. Veja bem, isto mesmo: copiados.

COMO SE FAZ UM CLÁSSICO

Desde a primeira vez que li Shakespeare achei estupendo. Foi uma espécie de amor à primeira vista meu primeiro contato com HAMLET, ainda na escola. Eu me perguntava: como alguém pode ser tão inteligente a ponto de inventar uma história fictícia na qual um príncipe inventa uma loucura fictícia na qual apresenta uma peça para dizer tudo o que gostaria de dizer às pessoas se ele estivesse normal – uma peça dentro da peça? Anos depois, já fora da Universidade porque, diga-se de passagem, ninguém no ambiente acadêmico me ensinou este segredo elementar, descobri que o enredo de HAMLET era, na verdade, um mito mais antigo que Shakespeare. O grande dramaturgo inglês colocou muito de sua criatividade na obra, é claro, mas ele não criou ex nihil feito Deus na origem do Universo. Shakespeare trabalhou em cima de algo que ele recebeu da tradição.

O problema da educação moderninha é que ela quer parir crianças que sejam deuses, criadores absolutamente livres, ou no mínimo shakespearezinhos sem ter a menor idéia de como é que Shakespeare “se fez”. O triste é que a educação construtivista só tem conseguido criar mini consumidores do mercado de massas capitalista: jogadores de videogame e compradores de bonecos do desenho animado da hora. Onde estão os nossos Mozarts do século XXI compondo concertos sinfônicos aos 6 anos de idade, como fazia o menino prodígio de Salzburg? Estão ali no shopping center comendo McLanche Feliz.

Algum tempo depois, descobri que, muito além da procedência mitológica de HAMLET, MACBETH e outras peças suas, Shakespeare simplesmente plagiou com a maior cara de pau trechos inteiros das VIDAS PARALELAS de Plutarco para escrever a belíssima peça intitulada JÚLIO CÉSAR.

Era Shakespeare um desonesto por causa disso? Veremos a seguir.

Antes, deixemos um pouco de lado os exemplos europeus para não parecer esnobe, elitista e etnocêntrico – o que pode ofender a sensibilidade politicamente correta, de um lado, e a direita nacionalista de outro. Falemos, também, dos talentos brasileiros que são abundantes.

Vou recomeçar. Quando vi pela primeira vez na televisão a adaptação d’O AUTO DA COMPADECIDA de Ariano Suassuna, feita por Guel Arraes, achei aquilo lá uma maravilha comparável (senão superior) às comédias de Shakespeare. Só muito tempo depois de assistir à minissérie produzida pela Globo, é que resolvi ler o texto original escrito por Suassuna. Para surpresa do público desavisado, Ariano informa no prefácio que sua peça se baseia em três ou mais romances de cordel do Nordeste: o episódio do gato que supostamente defeca moedas pertence à “História do Cavalo que Descomia Dinheiro”, e os episódios do enterro da cachorra e do juízo final são tirados de histórias de cordel homônimas.

Nem todo escritor faz essa gentileza suassúnica de declarar, logo na abertura da obra, de onde tirou a matéria-prima para a sua criação. Ariano não só documentou isso no prefácio d’O AUTO DA COMPADECIDA como costumava contar uma anedota nas suas conferências conhecidas como “aula espetáculo”. Certa vez, estava ele a contar  como e por que recorria aos cordéis tradicionais, quando um aluno o interpelou: – “Se os episódios são da literatura popular, o que é que o senhor inventou afinal?”. E Ariano respondeu: “- Eu escrevi a peça, ora”.

Neste ponto, posso retornar à pergunta lançada anteriormente: era Shakespeare um autor desonesto e um plagiador barato de Plutarco? Plagiador pode ser; barato certamente não. Mas a noção mesma de plágio é bem mais moderna do que se supõe e não faz muito sentido quando se examina os textos literários pré-modernos e as outras artes em geral do período clássico. Por exemplo, uma das dificuldades dos historiadores da Alquimia é estabelecer com segurança quem é o autor genuíno de um tratado alquímico, justamente porque qualquer alquimista anônimo podia atribuir à sua obra o nome de um antecessor famoso, seja para emprestar credibilidade a seu próprio trabalho, seja para homenagear o tal antecessor. A noção moderna de plágio é uma decorrência do positivismo historiográfico do século XIX. E os artistas de valor não estão nem aí para Leopoldo von Ranke.

Além da metodologia construtivista, eu atribuiria ao gosto burguês pela novidade, pela moda, esse pudor moderno em se apropriar dos tesouros da tradição.

A pedagogia moderna está tão entranhada em nosso inconsciente que, quando perguntamos ao nosso filho o que ele aprendeu hoje na escola, alguns acham uma maravilha se ele responde que pintou o sete por lá. Ah, quanta liberdade! Quanta expansão do eu e da imaginação! Quanta criatividade livre, leve e solta! Mas é assim que se fabricam gênios do naipe de Marcel Duchamp… Se você acha lindo contemplar uma privada suja de cocô num museu e chama isso de arte, então pare de ler este texto bem aqui. Mas se você é uma pessoal normal, então continue a lê-lo porque aparentemente amamos as mesmas coisas.

DAS ARTES À CIÊNCIA COGNITIVA

Mas qual é o respaldo científico que sustenta as afirmações deste ensaio?

Há poucos anos descobri as pesquisas realizadas pelo Dr. Reuven Feuerstein em Israel. O Dr. Feuerstein obteve resultados quase milagrosos ao recuperar crianças que sofreram traumas psicológicos ou fisiológicos durante a guerra judeu-palestina. Após alguns anos de trabalho, as crianças sequeladas do Dr. Feuerstein tornaram-se capazes de resolver problemas de matemática complexos para a idade delas, aprenderam línguas estrangeiras, recobraram a autoestima e começaram a traçar projetos pessoais para o futuro. Um dado interessante é que Reuven Feuerstein fora discípulo de Piaget e Vigostsky, os pais do construtivismo, mas deixava claro em seus trabalhos que começou a obter resultados a partir do momento em que introduziu o componente pedagógico que é negado pelos construtivistas: o mediador. Basicamente, a diferença entre a psicopedagogia de Feuerstein e a de seus ex-mentores é que, na primeira, o mediador (pai, professor ou terapeuta) é o termo que faltava na equação do aprendizado.

Podemos resumir a sua “experiência do aprendizado mediado” da seguinte maneira. É impossível que alguém aprenda tudo diretamente do contato espontâneo com os estímulos do mundo. É como supor que uma criança vai passear no jardim, ver uma abelha, um passarinho, uma laranjeira e intuir sozinha  que a abelha poliniza a flor de laranjeira, a qual se reproduz em novas árvores que, por sua vez, dão abrigo e alimento aos passarinhos. Se o mundo fosse assim tão cor-de-rosa, poderíamos abolir os livros e os professores de biologia. Para que servem então as escolas? As escolas custam caro, e as crianças estão matriculadas para aprenderem alguma coisa do e com o mediador.

É claro que o contato direto com as experiências do mundo é importante. Não é preciso ser nenhum construtivista para saber disso, pois Aristóteles na METAFÍSICA e Immanuel Kant na CRÍTICA DA RAZÃO PURA já diziam que o conhecimento decorre das impressões sensoriais. Isto é quase um truísmo em escolas filosóficas tão diferentes quanto a aristotélica e a kantiana. A questão é que é preciso conduzir, direcionar, mediar os dados captados pela sensibilidade.

AULA DE REDAÇÃO

Voltemos mais uma vez à minha escola. Lembro bem que a minha professora de português no ensino fundamental me deixava “pintar o sete” à vontade na redação. Nunca esqueço o dia em que escrevi um texto colando vários bordões de propaganda da TV, cujo conteúdo já não sou capaz de reproduzir exatamente, mas recordo que concluía assim “…e se sujar a roupa? Tudo bem, mamãe lava!”, que na época era o mote da propaganda de um sabão em pó.

Ou seja, em vez de estar copiando os mitos e os clássicos gregos como fazia Shakespeare, ou as lendas brasileiras e o romanceiro popular como fazia Ariano Suassuna, eu perdia meu tempo na escola reconstruindo chamadas publicitárias (feitas para vender produtos), livremente e à minha maneira, sem a menor intervenção da mediadora. Por que quem disse que marketing também não é arte?

O resultado é que, no 3º ano do ensino médio, quando mudei de professor, eu não conseguia sequer receber nota nos exercícios de vestibular. Meu exercício de redação vinha frequentemente com o código “FT”, que queria dizer: fuga do tema. O novo professor por piedade não me dava zero, mas era o que eu merecia. Meus pais então pagaram uma professora de redação particular, fora da escola, uma professora já idosa, conhecida como “chata”, rigorosa e à moda antiga, cujo curso passei a frequentar às tardes. Eu argumentava e até teimava com a prof. Aparecida de que não, desta vez eu não havia fugido do tema! Não era possível! Quer dizer, naquele estado de confusão mental, eu sequer conseguia enxergar o fato de que tinha entrado pela perna de um pato e saído pela perna de um pinto; começara um tratado a respeito do perfume do alho e concluíra a tese sobre o comportamento exótico dos bugalhos.

Mesmo depois do treinamento com a professora Aparecida e de muito esforço pessoal, posso testemunhar que, de certo modo, até hoje carrego comigo aquela deficiência, tão profunda e duradoura foi a ferida da educação construtivista que recebi na infância no colégio de classe média mais caro da minha cidade. Agora mesmo, ao escrever este texto, por exemplo, percebi que estava tratando de dois problemas paralelos e que meu rascunho daria ensejo a publicar dois ensaios em vez de um. Desmembrei então os parágrafos para me concentrar em um assunto de cada vez, evitando assim a maldita “fuga do tema”.

Isto é muito grave para um estudante. É ainda mais grave para um adulto que, não percebendo a gravidade, ainda planeja transformar a pura confusão mental em teoria pedagógica. Porém, gravíssimo mesmo é o Ministério da Educação não saber explicar o desastre que ocorre todos os anos no ENEM. Se o Sr. Ministro da Educação vier me perguntar, eu terei a grata satisfação de explicar o problema a Sua Excelência porque sou um ex-aluno e tive de estudar para reparar deficiências adquiridas por causa de uma metodologia equivocada que estava em moda na França 40 anos atrás e que a própria França já abandonou desde meados dos anos 1990 (coincidentemente enquanto eu estava no colégio sendo ensinado de acordo com essa teoria).

A TAREFA DOS PAIS E PROFESSORES

Em se tratando de Brasil, é muito provável que a coordenadora pedagógica da escola que você escolheu para seu filho tenha sido formada numa faculdade de pedagogia construtivista. Ela é capaz de aleijar a inteligência do próprio filho dela, não por maldade, é claro, mas porque no Brasil essa corrente é dominante desde os anos 1970 e, de um modo geral, encheu a cabeça dos profissionais da educação com preconceitos infundados. Preconceitos contra o quê? Contra o que se chama vulgarmente de “educação tradicional” e que pode ser assim caracterizada:

  • memorização é prejudicial: não se deve obrigar o aluno a decorar, mas ajudá-lo a entender;
  • repetição é sem graça: exercícios repetitivos desestimulam a criatividade, sendo necessário estar constantemente apresentando novidades;
  • não existem clássicos, pois tudo é excelente: a idéia de que existe um bom gosto em oposição ao mau gosto é preconceito das elites;
  • não se deve ser exigente com o aluno, pois ele pode ficar triste: a noção de que cobrar um determinado nível de excelência termina por ferir as suscetibilidades psicológicas e melindrar o aluno;
  • ninguém ensina ninguém: o mestre não transmite conhecimentos unilateralmente, sendo o processo pedagógico uma via de mão dupla.

Abstenho-me de refutar cada um desses pontos porque todas essas preocupações da pedagogia moderna estão muito corretas, dependendo da dosagem do remédio. Não se trata aqui de aderir a um partido A contra um partido B. Tratar o debate sobre educação como se fosse disputa de torcida me parece uma estupidez sem tamanho. A pedagogia é uma aplicação específica da Sabedoria, e o sábio é aquele homem capaz de encontrar uma harmonia entre as tendências mais opostas da vida.

Aristóteles chamava essa virtude de “frônesis”, que podemos traduzir por “bom-senso”. Tecnicamente falando, o bom-senso é a capacidade de modular, ponderar, reconsiderar, analisar todos os dados do problema e sob todos os seus ângulos. O bom-senso é o verdadeiro relativismo. O problema começa quando uma determinada linha mais panfletária da pedagogia moderna abraça aqueles pontos acima como se fossem um bloco fechado, tratando-os como “slogans” de alguma agenda política que é preciso implementar.

A suprema tarefa do mediador é escapar da estupidez política e amar profundamente o educando. Ao amá-lo de verdade, buscará encontrar a medida certa, o ajuste fino, para não cometer excessos nem por uma razão nem por outra. Se o adulto se recusa a exercer esse papel de mediador inteligente, a educação vai dar errado e a criança vai passar a vida pintando o sete ou… despirocando de vez.

 

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