A Era dos Espertinhos

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O sonho iluminista! O conhecimento a apenas um clique de distância, e plena liberdade para expressar nossas opiniões!

É para causar poluções noturnas no sono eterno de Voltaire. Adentremos nossa cybercaravela para navegar pelo oceano tenebroso dos blogs e contas de twitter. Vamos em busca do conhecimento, da verdade, da sindérese. Vejamos como estão usando sua liberdade esse povo do século XXI.

Levantar âncora! Içar velas! Desfazer as amarras mentais! Mal nos lançamos ao mar e avistamos um minúsculo rochedo sobre as ondas – um blog – em que um jovem cheio de ares, com um megafone na mão, brada suas ideias aos navegantes entediados que vem e vão. Ele defende a opinião X. Qual é a opinião X? Pouco importa! Quem liga se ela é certa ou errada, se é ou não eticamente defensável. A opinião X lhe agrada, lhe parece bem. Ele ainda  a ilustra com um ou outro fato da Wikipedia, mesmo que isso seja absolutamente desnecessário. Sua intuição lhe diz que ela deve estar correta, e isso basta. O ilhéu defende a opinião X com tenacidade, como se dissertasse sobre uma verdade que só os cegos de entendimento não alcançam. Se ele pôde discerni-la através do véu de Maia, ora bolas, que os outros não a aceitem só pode se sinal de demência, de mau caráter. O blogueiro grita, esperneia, esbraveja, não economiza insultos contra todos os que se recusam a aceitar a sapiência humana quintessencialmente destilada – a opinião X!

A lógica é para os que não sabem gritar. Quando se tem razão desde o princípio, o método e o pensamento são meros floreios com que se endossa uma ideia pré-concebida. Todo mundo sabe disso, é como discutir futebol ou religião: ninguém muda de ideia. Para que perder tempo com epistemologia – esse negócio chato do caramba que nem sei direito o que é – quando se pode insultar?

Depois de sorver o néctar da sabedoria com o filósofo jogador de videogames, retomemos nossa odisseia em busca do dharma pelos mares sempre dantes navegados. Mal partimos e… – Terra à vista! Lá está outra ilhota, com um jovem mancebo a professar sua fé a apedeutos que tiverem a sorte de ouvir algum de seus instrutivos berros. Este arhat, de barba lumbersexual e coque de samurai simbolizando seu estado de plena comunhão com a Inteligência transcedental, é defensor da opinião Y – diametralmente oposta, registre-se en passant, à opinião X, a que nos havíamos convertido cinco minutos atrás. Pasmamos ao nos dar conta de nossa momentânea idiotice: a opinião Y é que é a boa, é que é descolada, é a que vai pegar bem na hora de cascatear uma caloura loura. Graças ao multisciente guru com que nos deparamos no segundo rochedo, pudemos finalmente compreender que todos os que discordam da opinião Y querem o retorno da ditadura militar (ou do medievo), morrem de admiração pelos métodos de controle demográfico de Adolf Hitler e ainda por cima chegam ao absurdo de achar que ópera é melhor que maracatu. Apenas um canalha poderia discordar da opinião Y! Por que? Porque… Bem, em primeiro lugar, porque a galera do movimento pensa assim, e a galera do movimento é muito foda, muito engajada. Os caras são muito gente fina, e gente fina não pode estar errada. Em segundo lugar, tem vários vídeos de pessoas inteligentes defendendo a opinião Y do Youtube – tem até mesmo uma entrevista com o Noam Chomsky. Logo a opinião Y é verdadeira. QED. Rabanetes aos que discordarem!

Não precisamos ir além do Cabo Bojador para perceber que a internet está cheia de iluminados. Oh, que alegria viver nesta época, em que a parafernália de Steve Jobs fez brotarem como cogumelos em cocô de vaca tantos sábios! A verdade pulula por todos os cantos! Vamos casualmente ler um editorial em nossos smartphone e – pluft! – a verdade nua e crua salta bem em nossas ventas. Depois, passando a vista pelo twitter enquanto esperamos dar o tempo de fazer a próxima série da musculação, vemos não um nem dois, mas uma profusão de aforismos sobre o ente, o dente e o doente. Realmente admirável que no passado os filósofos tenham quebrado tanto a cabeça em busca dessa tal verdade, quando hoje sabemos perfeitamente que ela é se acha em qualquer lugar. Pois, ora, até mesmo um desses meninos tomadores de toddynho encontra, ao espiar, ainda sonolento, o interior de sua caixa de sucrilhos, a verdade nua, crua e resplandecente. Às vezes, quando cutucamos o umbigo e percebemos uma sujeirinha ali grudada, que descobrimos? Que bem no meio do nosso bucho, ou seja, no òμφαλός do mundo estava a sabedoria eterna, que por engano tomáramos por meleca.

Por que, então, meu Deus do Céu, tanta gente dedicou tanto esforço no passado a esmiuçar as regras do bom pensar? Por que tantos maçantes volumes sobre as possibilidades e limites da razão? Para que tudo isso, se hoje sabemos que para estar certo basta fazer pose de bonito? Ah, se Descartes tivesse Tinder, certamente não teria meditado dentro do forno.

Senhoras e senhores, eu declaro iniciada a Era dos Espertinhos, em que a sabedoria, a inteligência e a verdade serão um direito universal!

Só que não.

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