Da Influência de Jaspion e He-Man na Formação Moral da Geração da Década de 80

Quando comparada às que vieram antes e depois, a geração da década de 80 parece inesperadamente moralista. Não a deslumbra o desbunde dos anos 70, nem o consumismo digital dos anos 90 e 2000. Só não se pense que essa inclinação se deva ao fato de seus integrantes terem nascido quando a democratização estava em curso, ou à ressaca da liberação dos costumes. Como pretendo demonstrar, essa veia moralizante se explica pelo fato de a geração de 80 ter passado sua infância assistindo a Jaspion e He-Man na televisão.

He Man

Eu tenho a força!

He-Man foi um dos primeiros programas de TV criados com o deliberado propósito de promover uma linha de brinquedos: a coleção de figuras de ação Masters of the Universe. Logo depois do estrondoso sucesso da marca Guerra nas Estrelas – que revolucionou a indústria cultural ao pôr o monomito de Joseph Campbell e a filosofia Zen da escola Soto a serviço do merchandising – He-Man foi lançado como tentativa de gerar um segundo hit de vendas. Apesar dessa gênese inquestionavelmente capitalista, não consigo pensar em forma mais singela de ensinar às crianças os conceitos de legalidade e de legitimidade política. Talvez o desejo de lucro não tenha impedido os roteiristas e produtores de ter alguma liberdade criativa…

He-Man é o alter ego do príncipe Adam (Adão em inglês, o primeiro homem), filho do rei Randor, o justo e legítimo soberano de Eternia. O nome do reino já nos indica que o bom governo pode transcender o tempo: quando o soberano dá a cada um o que é seu, não se devem temer as transformações da história. A justiça é uma só para todas as eras.

Adam é um mancebo pacifista, quase efeminado em sua repulsa ao emprego da força. Essa aparente passividade, algumas vezes beirando a covardia, justifica-se quando entendemos que, num regime de plena legalidade, apenas excepcionalmente se deve recorrer à violência. Um soberano amparado por leis justas e pelas tradições não teme o povo. Nenhum poder ostensivo poderia ser mais sólido que a lealdade dos governados.

Que diferença, porém, quando o protagonista se vê deparado com a ameaça de Esqueleto. No panorama simbólico da animação, esse feiticeiro representa o perigo de um usurpador. Seu desígnio é conquistar o Castelo de Grayskull (“Greiscu” para os íntimos) e tomar para si as misteriosas forças escondidas na fortaleza. A narrativa nunca deixou claro quem foram os construtores de Grayskull. O monumento ergue-se num recanto pouco povoado de Eternia. Simboliza as forças telúricas do país – tendências irracionais ligadas à relação das massas com o solo. Por isso seu aspecto sinistro, uma caveira cinzenta, evocando pulsões de morte e aniquilação. Uma força poderosíssima, mas perigosa se posta em mãos erradas.

As tendências atávicas aprisionadas no Castelo de Grayskull são vigiadas pela Feiticeira – metade mulher, metade coruja, ou seja, personificação de uma sabedoria lunar, plena. Ela é a guardiã das energias do castelo, e nem mesmo o Rei Randor está autorizado a penetrar seus salões sem o aval dessa personagem.

A tentativa de Esqueleto de conquistar o Castelo de Grayskull representa o risco de as forças irracionais recalcadas pela comunidade serem desencadeadas por um tirano. Esqueleto é o autocrata populista: sua capacidade de manipular forças arcanas pode ser interpretada como habilidade. Num cenário de crise, ele poderia canalizar tais forças e usá-las para implantar um império terrivelmente poderoso, mas violento e injusto.

É significativo que o único eleito pela Feiticeira para usar as energias de Grayskull seja o legítimo herdeiro do trono – príncipe Adam. A ele foi dada a Espada de Grayskull, artefato capaz de desencadear o poder impregnado nos vetustos alicerces do castelo. Essa escolha não é gratuita. Adam é o único capaz de conter a pulsão destrutiva de Grayskull, manifestando-a de forma consciente, restringida pela legalidade que ele – o futuro governante – representa.

Ao bradar o mantra “Pelos poderes de Grayskull… eu tenho a força!”, o príncipe Adam evoca o potencial sagrado de sua terra e se transforma no halterofilista e heráldico He-Man, arquétipo do herói, figura que expressa o vigor da juventude a serviço de uma causa nobre. Essa metamorfose nunca é feita de forma leviana. He-Man só surge quando Grayskull está ameaçado, ou seja, quando Eternia se depara com o risco da desagregação. A mensagem é a de que, em tempos de paz, quando a comunidade civil prevalece, os potenciais destrutivos das massas devem permanecer sob controle, aprisionadas em profundos calabouços. Só o perigo de esfacelamento da pólis justifica dar vazão a essa energia. O símbolo fálico da espada de Grayskull é o veículo da virtude marcial, pela qual He-Man pode projetar de forma condensada seu potencial agressivo.

Apenas He Man pode controlar a ameaça do Esqueleto

Apenas He Man pode controlar a ameaça do Esqueleto

O que está implícito aqui é que o uso descontrolado da força é um dos maiores perigos à comunidade. He-man é a metáfora da capacidade de contenção do homem completo. Adam, que habitualmente se entrega a levianos divertimentos aristocráticos, é o único capaz de encarnar, numa emergência, o potencial bélico da sociedade sem que esta corra o risco de corromper-se. Nas mãos de qualquer outra pessoa – mesmo de uma bem-intencionada, mas sem os mesmos méritos do príncipe – a espada de Grayskull seria uma ameaça comparável a de armamentos nucleares nas mãos de um regime instável.

Os demais personagens da animação também escondem preciosos ensinamentos. Mentor (Man-at-Arms, na versão em inglês) simboliza o caráter instrumental da tecnologia: ela deve ser posta a serviço das necessidades do reino, e não se tornar um objeto de deslumbramento, ou um instrumento de desumanização. Teela, sua filha, representa a temperança e a prudência da mulher a serviço da cidade. Mesmo o alívio cômico do programa, Gorpo, nos ensina algo: Eternia é um Estado laico, mas tolerante. A pequena criatura – um imigrante trollano, praticante de feitiçarias e adivinhações – simboliza o que deve ser a relação entre Estado e Igreja. Embora seja íntimo associado da família real, Gorpo não possui verdadeiro poder. Suas práticas arcanas são toleradas – e às vezes seus conselhos levados em conta pelos governantes – mas nunca o elemento metafísico que ele representa prevalece no momento de tomar uma decisão.

Ao fim de cada episódio, He-Man tomava um pouco de seu tempo para fazer um balanço moral de suas aventuras. Com a sabedoria de rei filósofo, ele se dirigia aos espectadores para mostrar que as experiências que vivemos sempre podem representar uma oportunidade para o aperfeiçoamento pessoal. Ele nos ensinava a não confiar nas respostas fáceis, e a valorizar o trabalho duro, a cooperação e a capacidade de autocrítica. Essas “conversas” informais de He-Man eram a prova de que ele instruía sem manipular: ao contrário de Teletubbies e Bob Esponja, He-Man não se envergonhava da agenda política que representava.

Interpretar Jaspion é uma tarefa um pouco mais complicada, pela singularidade cultural que marca a cultura japonesa e pelo Jaspioncaráter mais exaltado das metáforas do programa. “O Fantástico Jaspion” é mais um exemplo da franquia Metal Hero, do gênero tokusatsu, ou programa de efeitos especiais. Como He-Man, Jaspion é um produto do entretenimento comercial alimentado pela publicidade. Seu objetivo é distrair, e elevar os índices de audiência.

Seria um erro, porém, deixar-se iludir por seus enredos aparentemente derivativos. É bem verdade que cada episódio seguia um modelo previsível, segundo o qual o herói se deparava com um monstro, que lhe sentava a porrada por uns dez a quinze minutos até o instante em que Jaspion decidia derrotá-lo usando os mesmos e velhos recursos de sempre – o gigante guerreiro Daileon ou a spadium laser (sic, em nipo-latim)[1]. O espectador condescendente talvez percebesse, quando muito, um remoto resquício do bushido (武士道) na rigidez das narrativas: o repetido emprego de técnicas infalíveis é o atributo do herói abnegado e plenamente devotado ao aperfeiçoamento da técnica. Essa ritualística – a que é insensível a ansiedade ocidental – revela uma individualidade absorvida pelo caminho do guerreiro: Jaspion se confunde com a sua missão e o seu destino de explodir os monstros ao fim dos episódios.

Se assistimos, porém, todos os capítulos da série um após o outro – como fiz recentemente, por razões eruditas, logo após ter adquirido a caixa de DVDs – nos deparamos com um inesperado panorama, que extrapola o cenário intelectual da cultura tradicional nipônica – até mesmo em suas vertentes kawai-xintoístas mais alucinadas. Logo no início da série, descobrimos que Jaspion é um órfão adotado pelo profeta Edim – intrigante mistura de São João evangelista com o Mestre Yoda. Edim não apenas inicia o herói no caminho do guerreiro, mas também lhe faz conhecer uma ominosa profecia.

Numa era há muito esquecida, desconhecidas potestades escreveram a Bíblia Galáctica. Segundo essa escritura, há, no Abismo primordial, uma divindade negra que personifica as energias negativas do universo e remói sonhos de carnificina e holocausto. Trata-se de Satan Goss, o pesadelo biomecânico que parece mas não é o Darth Vader, e que tem o poder de enfurecer as criaturas. Na treva, o Xogum do submundo sonha com o dia em que implantará o Império dos Monstros, dando início à era em que os homens servirão de pasto aos demônios.

Ainda segundo a Bíblia Galáctica, esse iminente apocalipse só poderia ser evitado pela intervenção de um guerreiro celestial. Esse escolhido contaria com a ajuda da criatura mitológica conhecida como pássaro dourado – símbolo para a intervenção benévola da divindade. Os rigorosos treinos a que Edim submete Jaspion se devem ao fato de o profeta acreditar que aquele garoto é o eleito de que falam as profecias – espécie de ninja-messias robotizado da era espacial.

As crianças, deslumbradas pelos movimentos acrobáticos do protagonista, não tinham como perceber esse subtexto cristão da narrativa. O simbolismo, porém, é inconfundível: Satan Goss representa Lúcifer, ou seja, as pulsões cósmicas de desagregação e destruição. Jaspion é o guerreiro divinamente inspirado, o homem transformado em herói pela mediação de arquétipos religiosos. Seus artefatos tecnológicos – tais como a armadura Metaltex e o próprio Daileon – são menos importantes que a completa entrega do herói ao serviço da luz. Seu mais poderoso armamento é a sua integridade de caráter.

O mais surpreendente conceito de Jaspion definitivamente é o pássaro dourado. Como a pomba da iconografia cristã, ele remete ao Espírito Santo: não se trata propriamente de uma criatura, mas sim de um potencial espiritual que permeia toda a criação e também habita o coração dos homens. Tomemos o caso do Prof. Nambara – o cientista aliado de Jaspion que decide partir pelo mundo em busca do pássaro dourado. É ilustrativo que suas perambulações sejam constantemente frustradas por sua incapacidade de encontrar o pássaro – única potência que poderia deter Satan Goss. Essa frustração se deve ao fato de o cientista supor que o pássaro dourado seja uma realidade palpável, que pudesse ser avistada e capturada.

À medida que os episódios se sucedem e a narrativa vai se desenvolvendo, aprendemos que o pássaro dourado dividiu-se em cinco fragmentos, cada um dos quais repousa dentro de crianças de coração puro – as assim chamadas “crianças irradiadas pela luz”. A lição aqui velada é a de que cada ser humano tem dentro de si um potencial divino originário, intrinsecamente bom. Podemos perder de vista esse poder ao nos deixarmos levar pelas necessidades da vida cotidiana, mas ainda assim a inclinação à bondade permanece, em potencial, nos que forem capazes de reencontrar sua pureza.

A metáfora oposta é expressa pelo temível MacGaren – antagonista de Jaspion e filho de Satan Goss. MacGaren, que possui forma humana, ilustra a fagulha demoníaca do homem. Ele é obcecado pelo poder que provém da tecnologia, e seria capaz de sacrificar sua própria individualidade pela obtenção de poder. O vilão sintetiza o risco de se sacrificar a alma em nome da ganância. O programa não hesita em explorar o caráter odioso dessa escolha, e ao fim da saga o próprio MacGaren se metamorfoseia num demônio idêntico ao Satan Goss – perdendo, assim, para sempre seus últimos vestígios de humanidade.

Jaspion ensinou às crianças da década de 80 não apenas a entender a vida como uma batalha cósmica entre as forças da luz e das trevas – ou seja, a tomar as coisas pelo que elas são – mas também a perceber que o verdadeiro campo de batalha é o espírito. Monstruosidades como as que Satan Goss trazia à Terra possuem plena realidade como potencial psicológico. Da mesma forma que o mestre diabólico foi capaz de enfurecer o benevolente monstro Namaguideras – para aflição das crianças de outrora! – nós mesmos, se não nos precavermos contra as forças obscuras de nosso espírito, podemos dar vida a seres igualmente sinistros.

***

O sucesso de Jaspion e de He-Man se deve não apenas ao caráter mirabolante de suas tramas, mas principalmente à sua capacidade de transmitir verdades arquetípicas em narrativas simples. Inconscientemente, os produtores dos programas deram origem a mitos que representaram para as crianças da década de 80 mais ou menos o que as estórias de Hércules e de Teseu representavam para os antigos gregos: contos alegóricos e instrutivos, que são mais do que aparentam.

É claro que nossa geração também tem os seus cretinos; a diferença é que, enquanto a geração atual – que apenas pode contar com a pós-modernidade confusa e transgênero de “Hora de Aventura” e “Apenas um Show” para se situar no mundo da moralidade – não tem tanta segurança sobre o melhor tratamento que se pode dar aos maus[2], nossa geração não hesita diante daquilo que considera errado. Se algum aproveitador de meia tigela tenta descumprir a lei no ambiente de trabalho, não temos nem dúvida: pulamos de nossas escrivaninhas e sentamo-lhes um Daileon Kick bem no meio do peito. Se não bastar, e o malfeitor insistir, o jeito é libertar o Raio Cósmico no escritório e acabar com a raça dele[3].

Para concluir, eis a lição-síntese que esses heróis nos ensinaram: não importa quão ridículo seja seu corte de cabelo, você sempre pode ser especial.Jaspion edim

[1] Uma pergunta que as crianças da década de 80 nunca conseguiram responder é: por que Jaspion não usava o gigante guerreiro Daileon ou spadium laser desde o começo para matar logo o monstro, antes de apanhar?

[2] Para eles não está muito claro se a normalidade é ou não um defeito mais grave do que o crime!

[3] Ou por acaso alguém duvida que a Operação Lava Jato seja algo além do impacto de uma geração inteira de policiais federais educada por Jaspion e He-man?…

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5 Respostas para “Da Influência de Jaspion e He-Man na Formação Moral da Geração da Década de 80

  1. Qual gato? O gato guerreiro? Sem sombra de dúvidas, deve ser uma referência ao potencial bestial do ID: o aspecto animalesco da psique que, se bem controlado, pode ser um poderoso aliado da mente consciente, ou seja, do He-Man…

    Realmente um ponto importante que faltou em minha análise.

    Quanto à She-Ra, peço desculpas, mas eu não assistia!

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  2. Cara, sou seu fã. Ótima análise, muito nostálgico (por favor peço que tome o nostálgico como elogio). A profundidade de sua análise tanto de Jaspion como do He-man não me deixaram nada a desejar.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Excelente! No ano 2010, me deparei novamente com Kamen Rider Black, que estava sendo exibida na TV Ulbra. Apesar da empolgação inicial – afinal, guardava ternas lembranças dessa série – em pouco tempo me aborreci com a similaridade e inverossimilhança dos enredos. Não obstante, nesse “reencontro” tive uma intuição sobre o impacto que essa e outras séries japonesas tiveram na minha formação moral (Jaspion, Esquadrão Winspector, Jiraya). Eduardo, vejo amparada a minha hipótese. Parabéns pela excelente análise. Só faço um reparo: nasci em 1990 e, portanto, não sou uma criança dos anos 80, mas também tive contato com tokusatsus até por volta de 1995. Quanto a He-man, também assisti na infância, mas não gostava muito; a estética até hoje não me agrada. Um abraço.
    Obs.: vim parar neste blog por meio de “Jovens Diplomatas” e não consegui mais parar de ler.

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