A Verdadeira Subversão

lucNa juventude, um excesso de serenidade muito raramente é sinal de sabedoria. É mais provável que indique indiferença.

Existe uma tensão fundamental entre o espírito e a realidade. Nossa mente se impressiona com a insinuação de plenitude que evocam conceitos como liberdade, igualdade ou justiça. São palavras, mas isso não é dizer pouco. O mundo da linguagem se presta a uma curiosa inversão, que transforma ideias nascidas da repetida observação de casos particulares em generalizações universais que se impõem à própria experiência, e condicionam as percepções futuras. Nosso espírito nem sempre presta conta aos fatos: ele é um soberano criador de mundos e nós, seus inconscientes vassalos, obedecemos a seus caprichos sem nos dar conta de que às vezes empregamos demasiada energia para tentar enquadrar a realidade nos moldes das nossas ideias.

Também senti essa angústia quando era mais jovem. As leituras que fazia em meu abafado apartamento em Recife adubavam minha cuca com enormes ideias. Uma das que então mais me fascinavam era a suposição de que o homem poderia tornar-se, pela afirmação de sua vontade, autor de seu próprio caminho. Lia Nietzsche e pensava que, com o devido comprometimento, poderia eu mesmo tornar-me o übercabra-da-peste. Chegava às vezes até a  fazer um curioso exercício mental – de inspiração, digamos, raskolnikoviana. Pensava: para sair de sua mediocridade e tornar-se imperador, Napoleão precisou tomar uma série de decisões acertadas. Ora bolas, se foi possível para ele, por que não seria também possível para mim discernir dentre as infinitas possibilidades da vida qual seria a sucessão de escolhas que poderia tomar para sair da banalidade de minha situação atual – estudante universitário de uma metrópole nordestina quente, violenta e mal planejada – para me tornar, se não imperador do orbe, pelo menos uma pessoa capaz de intervir de forma mais direta para transformar a sociedade em que vivia?

Achava desolador aquilo que considerava o espírito entreguista do povo nordestino frente ao que lhe parecem problemas sem solução. De meu lado, se eu não fazia porra nenhuma em termos concretos para mudar a realidade, pelo menos sentia muita raiva e indignação – o que, convenhamos, em termos nietzscheanos já é bastante coisa. Também não precisamos ser nenhum Haussmann para entender que um pouquinho de intenção humana bem dirigida pode atenuar problemas de mobilidade urbana e planejamento. Qual não seria, então, o potencial da ação coletiva bem coordenada? Supunha que cada um tivesse uma parcela de responsabilidade pelos problemas da cidade em que eu vivia – ainda que maior parte das pessoas não tenha tido qualquer forma de ingerência nas péssimas decisões administrativas que transformaram Recife nesse eterno lembrete às gerações do porvir de que problemas urbanos não se resolvem sozinhos. Ainda que não quisesse assumir o peso dos pecados de toda a humanidade (ou, pelo menos, da pernambucanidade) achava que era preciso me engajar de forma enérgica na afirmação de alguma causa – de qualquer causa! – nem que para tanto fosse necessário antagonizar interesses ou pensar fora da institucionalidade. E se me perguntassem, eu citaria o bigodudo profeta: “o que farei ainda não sei, mas será o horror de toda a Terra!”

Hoje entendo que esse bem-intencionado entusiasmo é a semente da violência. Não, eu não ia fundar o partido do fascicloativismo, mas mesmo assim achava que alguma forma de choque era preciso para trazer à consciência das pessoas a dimensão dos problemas. Se eu, que sou dócil se não me cortam no trânsito, pensava assim, do que não seriam capazes pessoas mais brabas e invocadas, como as que há aí aos montes pelo mundo afora? Não é por acaso que os movimentos políticos que aceitam a violência como instrumento legítimo de transformação social recebem especial apoio da juventude.

Jung ensina que o herói é um arquétipo juvenil. Ele é o guerreiro que tenta conquistar o real por um ato de vontade e de coragem. É curiosa essa percepção. Sempre achei que nos faltavam – aos brasileiros – heróis, pessoas inspiradoras, dispostas a sacrifícios com que nos tirariam de nosso habitual torpor. O herói é o conquistador de monstros e de dragões, e desceria até aos mais profundos abismos para consumar aquilo que considera o seu destino. O problema é que muitos dos monstros que imaginamos encontrar na realidade também são arquétipos, ou seja, padrões psicológicos que existem em nossos espíritos, e que só podem ser enfrentados com armas espirituais.

Nada pode ser tão perigoso quanto tentar derrotar uma realidade projetada, ou seja, um inimigo imaginário usando apenas os instrumentos da vontade. O mecanismo do bode expiatório é o trágico desfecho dessa energia mal direcionada, que culmina com uma tentativa de catarse das monstruosidades internas pelo emprego externo de violência contra os grupos que identificamos como causadores do mal. O ódio que sentimos contra o bode expiatório – seja ele o povo judeu, a burguesia ou os imperialistas americanos – é tão maior porque atribuímos a ele os vícios espirituais que possuímos, mas que não podemos suportar.

Há outro complicador que torna o desejo juvenil de subjugar o mundo pela vontade ainda mais problemático: a realidade não é um dragão que, quando atacado, se curva às nossas fantasias. A suposição europeia de que a realidade pode ser moldada livremente não passa de um mito, e um mito caracteristicamente juvenil. O fervor antropocêntrico dos gregos era pelo menos contido pela reverência trágica ao destino. O humanismo cristão, que herdou não pequena parcela do entusiasmo helênico, era mediado pelo temor à Providência e à justiça divina.

A caixa de pandora da modernidade foi aberta quando o homem europeu desvinculou o humanismo ocidental de qualquer consideração religiosa. Fausto, ao perder a alma para Mefistófeles – ou seja, a ciência – supôs-se senhor de toda a Terra, e passou a imaginar que poderia refundar o Ser com as terríveis forças que lhe foram concedidas. Se isso, por um lado, nos trouxe os foguetes e os anestésicos, por outro foi o que tornou possível o nascimento dessa horrenda besta do apocalipse: a engenharia social, a suposição de que os homens e a sociedade podem ser recriados segundo considerações científicas dos planejadores sociais – cujas cabeças estão cheias de toda sorte de fantasia de integralidade cultural.

Com uma intuição assombrosa, Jung ensina que a verdadeira iniciação na vida adulta se dá, paradoxalmente, por um ato de submissão. Apenas quando o indivíduo curva a própria vontade a algo maior que si – a comunidade, o acaso, a ideia de Deus – ele se torna senhor de si próprio. O adolescente, por não poder aceitar essa verdade, está disposto a provocar até a própria destruição para alcançar o que quer.

Apesar da estafa cultural provocada pelas duas grandes guerras do século XX, ainda somos uma cultura juvenil em muitos sentidos. Os mitos antropocêntricos sobre o potencial transformador humano continuam tão vivos quanto nunca, e é por essa razão que estamos otimistamente cavando nossa própria cova, supondo que as inovações tecnológicas serão capazes de não apenas nos salvar, mas de manter em curso o ensandecido preceito de que a produtividade econômica deve permanecer em constante crescimento.

Certa vez, um professor soltou uma frase desconcertante na Faculdade de Direito do Recife: “amadurecer é se conformar”. Lembro que isso causou certo rebuliço entre meus colegas, talvez por expressar não pequena medida de verdade. Hoje eu diria que ela parte, apesar disso, de um erro de perspectiva. Amadurecer não é se resignar: é aceitar. Mas a aceitação do limite das próprias forças não deve significar fatalismo – acreditar numa dualidade tão simplista seria reproduzir a mentalidade de um jovem tolo, invertendo-a: já que não sou capaz de dobrar o mundo, então devo me dobrar a ele.

Isso também é falso. Ao aceitar sua própria mortalidade e fraqueza – que são dados da realidade – o homem torna-se livre para encontrar seu verdadeiro papel existencial. Somos capazes de muito, ainda que não sejamos capazes de tudo. Quando nos curvamos ao que escapa às nossas forças, nós nos reerguemos transformados, e preparados para fazer um bem de que não seríamos capazes se tentássemos simplesmente impor ao mundo nosso arbítrio.

Por que sentimos tanta dificuldade em aceitar a percepção de que não somos os senhores da criação? É mais fácil apontar a existência de um processo mental do que apresentar suas possíveis causas. Talvez o ser humano tenha uma inclinação às convicções reconfortantes, talvez seja mais fácil supor que temos controle, que podemos – se assim quisermos – transformar a nós mesmos e ao que nos circunda, do mesmo modo que é mais fácil supor que viveremos nossas vidas inteiras sem que nada de ruim nos aconteça.

Amadurecer, porém, não é uma opção – nem para os indivíduos nem para as culturas. Além do otimismo antropocêntrico de que falei, nossa sociedade também vem se entregando com cada vez mais frequência a uma perigosa idealização da infância (inspirada, talvez, num resquício do mito do bom pequeno selvagem: o homem nasce bom, a sociedade o corrompe).  Essa postura é muito mais perigosa do que parece, pois além de pôr em risco nossas esperanças de educarmos moralmente as novas gerações, também permite, ao difundir a mentira de que a primeira infância é a melhor fase da nossa vida (inclusive desde uma perspectiva ética), a doentia tendência de as pessoas tentarem prolongar ao máximo a situação de irresponsável conforto de que gozam quando jovens. Ora, o homem nasce mau, com um grande potencial para o bem, e só a educação pode salvá-lo. Depositar o destino de uma sociedade na espontaneidade inata do coração humano é uma forma tresloucada de puritanismo invertido, que fatalmente nos levaria ao abismo.

Mesmo que seja menos enérgico que o adolescente, apenas o adulto pode assumir plenamente as consequências de suas escolhas. Além disso, por ter mais experiência de vida, o adulto se deixa enganar com menos facilidade pela sedução dos conceitos abrangentes. Se ele não for um completo palerma, terá aprendido a desconfiar das generalizações que tanto encantam os jovens – bem como da suposição otimista de que possa haver uma mesma solução satisfatória para todos as pessoas. O adulto também está muito mais capacitado a fazer uma avaliação realista sobre os possíveis impactos de seu comportamento. Ele vê o mundo com filtros menos fantasiosos, e se por um lado é menos simpático às promessas de rosadas utopias, por outro é muito mais capacitado para desenvolver a verdadeira empatia e compreensão pelo próximo, por saber que todas as pessoas são constrangidas pelas mesmas restrições que se aplicam a si mesmo.

Não nos iludamos achando que com a pureza de um bebê superinteligente, com seu tablet na mão, poderemos enfrentar a vida: crescer espiritualmente é necessário, pelo nosso próprio bem e pelo do dos outros, pois crescer é alcançar a consciência. Não há caminhos prontos ou fáceis até ela: para uns ela é encontrada pelo exercício da crítica e da razão, para outros pelo cultivo da simpatia para com o próximo, para alguns ela é alcançada pela oração e pela contemplação. Para mim, suponho que ela, se um dia vier, virá pela prática da meditação, ou seja, pela interiorização da atenção e pela observação de mim mesmo.

Quais demônios habitam dentro de nossa alma?

Ainda em Recife, lembro-me de confabulações que tinha com alguns amigos, em lojas de conveniência do Bairro da Boa Vista. Do fundo de nossa impotência, flertávamos com a ação política direta como forma de atingir supostos adversários. Ainda não éramos capazes de entender que o verdadeiro inimigo é interno, e que nenhuma transformação política autêntica pode acontecer sem que o homem transforme a si próprio.

Antes de subverter a ordem estabelecida, é preciso subverter a alma, preparando-a para o exercício da benevolência.

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