Contação de estórias

               

Contação de estórias

Felizmente no Brasil existem bons contadores de estórias. Recordo que na minha infância meu padrinho me deu de presente um LP da Bia Bedran, que, posto a tocar, logo se transformou numa máquina eletrônica de imaginações e risadas. Minha irmã até hoje lembra com saudade aquelas estórias estrambóticas que geralmente terminavam em música, como a do menino que não tinha nome: o pobre Catê Calanquê.

Desde cedo, eu ficava curioso para descobrir o segredo do ato de contar, me perguntando como é que se transforma um acontecimento normal numa história interessante que prenda a atenção das pessoas. Na minha família, nós temos um tio que é um grande contador de lorotas, o tio Renato. Desde minha infância até hoje, as pessoas da minha família se reúnem nas datas festivas para celebrar alguma coisa, mas também para se sentar em roda e escutar os causos de tio Renato. Cresci com a impressão de que a arte de contar uma anedota, por exemplo, guarda alguma relação íntima e secreta com a arte de escrever um romance: a suspensão do descrédito do público, a ordem dos fatos, as pausas, a expectativa… e a cereja reservada para o fim.

No nordeste, ainda hoje existem cantadores de viola que improvisam rimas e narram episódios inacreditáveis, fábulas com os bichos do sertão, histórias de morte e de assombração, de amor e traição, de lutas políticas entre os coronéis e muitas outras coisas. Quando eu era criança, tive a sorte de ver pela primeira vez uma dupla de repentistas em ação diante dos meus olhos. Aquilo me deixou uma profunda impressão na alma. Os dois violeiros vinham do interior do Ceará e passaram à porta da casa do meu avô para cantar e pedir dinheiro. Aqueles cantadores eram a arte viva em estado bruto – materialização humana e ambulante da poesia. Talvez por isso, anos depois, quando li o Evangelho de São João, não tive nenhuma dificuldade em crer na teologia do Verbo Encarnado.

A contação de estórias é uma atividade que os pais podem promover com muitas variações.

De forma interativa, pode-se propor aos filhos que eles recontem a história com suas próprias palavras. Esta maneira exercita a inteligência da criança tanto na capacidade de resumir quanto na habilidade de captar o essencial. Às vezes uma criança (ou mesmo um adulto) pode tentar resumir um filme e deixar de fora os elementos relevantes, prendendo-se aos mais periféricos.

É importante que os pontos de inflexão da narrativa e as falas dos personagens sejam ressaltados por mudanças na entonação da voz.

Isto ajudará no desenvolvimento da consciência fonológica, que é a primeira etapa da alfabetização. O mesmo vale para a declamação de poesia, pois de nada aproveita uma recitação fraca, tíbia, morta, que não transmite através da voz a sinceridade dos estados emocionais que o autor quis exprimir. Hoje em dia existem no mercado livros infantis que dão dicas sobre a ênfase mais adequada para cada diálogo, conforme o estado emocional do personagem – seja de medo, ira, júbilo etc.

Além da artista Bia Bedran, que está em plena forma realizando espetáculos pelo Brasil, vale a pena mencionar o trabalho da contadora Carol Levy, que conheci recentemente na internet. Ela tem igual talento para contar boas estórias usando poucos recursos cênicos. É importante para o narrador não exagerar no material de apoio nem nos trejeitos corporais que devem ser muito mais alusivos a fim de despertar a imaginação da criança, jamais para desviar o foco da história que é: a linguagem.

Pela atividade de contação, a criança aprende a transcender do teatrinho que se encena ali diante dos seus olhos em direção ao elemento que está invisível naquele momento, quer dizer, algo que se pode ouvir mas que não se pode tocar: a palavra.

Creio que não é necessário insistir nos benefícios da contação de estórias. Se você é cristão, basta lembrar que Jesus de Nazaré educava por meio de parábolas. O Senhor tinha o dom de reunir em torno de si uma multidão que parava para ouvir e aprender com o exemplo paradigmático do Filho Pródigo, do Bom Samaritano, do pobre Lázaro e tantas outras histórias imortais…

O jovem escritor Yuri Vieira conta que sentiu sua vocação literária despertar ainda na primeira infância graças à experiência de que já falei – a leitura em voz alta. Como o seu pai viajava a trabalho, ele e suas irmãs ficavam em casa com a mãe e todos dormiam juntos na mesma cama. A mãe dele lia histórias para os filhos adormecerem, e às vezes até a mãe adormecia lendo, mas o menino Yuri era o único que não dormia e acordava a mãe porque queria saber o resto da história.

Mas se você é uma pessoa bem pragmática que não está interessada que seu filho seja um bom cristão, nem muito menos que ele se torne um escritor de talento, se você é um burguês que deseja ver o seu filho ganhando milhões com uma carreira de, sei lá, publicitário… Ainda assim, você precisa saber que um publicitário é alguém que vende produtos. E para obter sucesso nessa arte, ele vai precisar fazer aquilo que os gênios do marketing norte-americano chamam de storytelling.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s