Leitura em voz alta para crianças

Asian parents reading to baby daughter --- Image by © Jose Luis Pelaez, Inc./Blend Images/Corbis

Os benefícios da leitura em voz alta são inúmeros. Dos 2 aos 6 anos de idade, na chamada fase de pré-alfabetização, a criança precisa ser estimulada para adentrar com familiaridade no mundo das letras.

Em EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA de Monteiro Lobato, o rinoceronte explicava à boneca que, muito antes de se transformarem em letras, as palavras eram sons… Qualquer pessoa entende que o aprendizado da escrita depende da leitura (ser apresentado ao nome das letras, p. ex). A leitura, por sua vez, vem necessariamente depois da fala. Ora, a fala é uma decorrência da escuta. Então, todo o processo de alfabetização começa com o desenvolvimento da percepção auditiva. A percepção auditiva da criança deve ser trabalhada desde os primeiros dias de vida, mas precisa ser intensificada a partir dos 2 anos de idade.

É pela leitura em voz alta para os nossos filhos que eles serão formalmente apresentados às estruturas da linguagem, adquirindo aos poucos uma consciência linguística. Quando se lê um livro em voz alta, a criança toma contato com frases mais complexas, porque a escrita é menos compacta do que a fala. Além do mais, é pela leitura que se amplia o vocabulário, pois a criança ganha palavras novas (floresta, lenhador, reis e rainhas) que extrapolam seu ambiente imediato e limitado (lençol, mamadeira e chupeta). Em terceiro lugar, o ato de ler uma história em voz alta desperta o sentido da atenção e educa a concentração – virtude que será essencial para, anos depois em sala de aula, absorver o que o professor tem a lhe dizer.

Essa atividade vem associada ao prazer e à diversão. É parte fundamental do enamoramento com a língua materna que caracteriza a fase gramatical da educação. As crianças geralmente se alegram com a leitura em voz alta e pedem à mãe que conte a sua história predileta. A repetição da história também é importante (desde que a história seja bem selecionada). Todos nós aprendemos pela repetição, mas não é só isto. É pela repetição que o esquema narrativo é fixado na inteligência do ouvinte e se consolidam tanto a simpatia com o herói quanto a impressão moral.

No caso dos pequenos romances de formação, como o conto de João e Maria, por exemplo, as personagens passam por um amadurecimento interior; dessa maneira, todos os percalços vividos no meio do caminho são compreendidos – no instante em que se reconta – como provações necessárias à luz de um sentido final. Mais ainda: quando a criança pede para que se repita a mesma história, ela está expressando um desejo de previsibilidade do seu coração! A criança é um ser frágil; ela precisa desta sensação de segurança que a repetição da história lhe dá. Ela vai acompanhando com ansiedade cada frase, cada ação e reação dramáticas só para ter o prazer de conferir, mais uma vez, que tudo acabará, enfim, num desfecho que ela já conhece. É como a raposa ensina ao Pequeno Príncipe [1]

Daí a importância da rotina e dos rituais na vida da criança (dormir cedo, em horário estabelecido, rezar, dar um beijo de boa-noite, dizer bom-dia ao amanhecer etc). Os rituais são uma prova de amor. É um aprendizado, por assim dizer, litúrgico.

Por fim, existe certa solenidade no ato de ler em voz alta. Mesmo sem muita cerimônia nem preparação, a criança aprende por si só que “algo está acontecendo” diante dela. A solenidade desse momento especial fica ainda mais evidente em atividades como a contação de estórias ao vivo e o teatro de fantoches.

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[1] “No dia seguinte o príncipe voltou. __ Teria sido melhor se voltasses à mesma hora -disse a raposa. __ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração… É preciso que haja um ritual. __ Que é um “ritual”? -perguntou o principezinho. __ É uma coisa muito esquecida também -disse a raposa. __ É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adoram um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!”

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