Como a Puminha Conquistou a Galáxia

Dedicado à musa que o inspirou.

 

Puma, em uma de suas explorações.

Puma, em uma de suas explorações.

Eiko acordou no meio da noite por causa de uma intensa luminosidade que entrava pela janela de seu quarto. Sonolenta, por alguns segundos ela imaginou ouvir um zumbido vindo do jardim. Quando despertou por completo, a luz e o som tinham desaparecido.

Esfregando os olhos com a dobra dos dedos, ela se levantou e foi até a janela arrastando Jerônimo, seu elefante de pelúcia, pela tromba. Tudo parecia normal, mas algo a deixou inquieta – talvez o atípico silêncio. À exceção de um sutil farfalhar das árvores, não se ouvia nenhum som, nem mesmo dos grilos ou das rãs.

– Puminha?

Arrastando Jerônimo, Eiko foi até a sala e destrancou a porta da frente.

– Puminha, cadê você?

Era bem verdade que Puma, que não costumava prestar contas de sua vida a ninguém, frequentemente desaparecia em misteriosas expedições noturnas pelos sítios daquelas bandas. Uma inexplicável intuição, porém, dizia a Eiko que algo não devia estar bem.

Ela procurou atrás da casa, na oficina, e foi até mesmo ver se ela não estava no curral das vacas. Depois voltou para dentro de casa e começou a revirar os cômodos, sempre chamando sua gatinha pelo nome.

– Pumiiiiinha!

Depois de um tempo, sua mãe apareceu na cozinha.

– Eiko, que barulheira é essa?

– Mamãe, a Puminha desapareceu!

– Que desapareceu o quê, Eiko, ela deve estar passeando por aí com seus amigos. Vamos dormir, que está muito tarde.

– Sério, mamãe, eu acho que levaram a Puminha embora…

Carregando Eiko e o Jerônimo de volta à cama, sua mãe tentou tranquilizá-la, lembrando-a dos hábitos noturnos dos felinos. Quando ela saiu e fechou a porta, Eiko se levantou novamente e foi mais uma vez à janela.

Do lado de fora, a noite de Ivaitinga estava no mesmo marasmo de sempre. Os bichos, aparentemente recuperando a coragem, voltaram à cantoria habitual nas poças e nos matagais. O enorme pé de jabuticaba do sítio dos Yoshidas encobria parte de um céu incrivelmente estrelado. Por trás da silhueta de seus galhos podia-se ver, esplêndida, a grande faixa de astros incandescentes da Via Láctea. A noite estava tão nítida que, prestando um pouco de atenção, era possível discernir até as manchas das enormes nuvens de matéria que há nas incomensuráveis distâncias entre as estrelas.

Sem saber explicar exatamente por que, Eiko olhou para a claridade do alto e, com uma lágrima escorrendo pela sua bochecha, murmurou para si:

– Puminha…

***

O que Eiko jamais poderia imaginar era que, naquele exato instante, Puma também contemplava a luminescência da Via Láctea, mas de um ponto de vista um pouco diferente.

Sentada nas patinhas de trás, a gatinha observava, por um enorme painel de matéria orgânica translúcida, o centro da galáxia em todo o seu esplendor: as estrelas que não podemos ver da Terra por causa da opacidade das nebulosas fulgiam em plena glória, numa descomunal concentração de matéria inflamada. Luz, luz por todos os lados, como olho humano jamais pôde contemplar – a não ser pelas frias lentes dos telescópios! Puma estava tão intrigada com aquele mosaico cintilante que mal se lembrava de casa. Sua carinha rechonchuda de gata siamesa, porém, expressava um ar de indiferença aristocrática que lhe era muito típico.

Depois de passar algum tempo contemplando as vastidões interestelares, ela se entediou e começou a lamber suas patinhas. Enquanto se ocupava com o asseio, uma silhueta ignota emergiu do outro lado do estranhíssimo compartimento em que Puma se encontrava.

Ao ver que o ser, ou entidade, ou aberração, avançava cautelosamente em direção a ela, Puma pôs-se em alerta. Não a incomodava nem tanto os traços disformes da criatura, mas sim o odor meio asséptico que exalava do corpo do desconhecido.

O ser estancou a dois passos da gatinha. Permaneceu alguns segundos estático, sondando a expressão do pequeno predador terráqueo. Criou coragem, então, e estendeu um de seus membros em direção a Puma, quase como se fosse fazer um cafuné. Ao ver que o alienígena tomava liberdades, Puma pôs para fora suas garras retráteis e deu-lhe um tremendo arranhão na protuberância lívida!

– Miau! (“Sai pra lá, seu bicho fedorento!”, em idioma felino).

Agredido pelo monstrinho, o alienígena recuou, apavorado, e trancou a escotilha circular atrás de si. Tendo expulsado o invasor, Puma rondou um pouco por entre os indecifráveis instrumentos de seu novo território, afiou as unhas numa espécie de tela sintética que encontrou em um dos cantos (e que ficou toda esfarrapada) e se enrolou num lugarzinho mais escuro que havia do lado oposto ao painel translúcido. Tirou um cochilo gostoso, e por isso nem viu quando a espaçonave perfurou o continuum espaço-temporal e entrou num buraco de minhoca. Ela sonhou que matava passarinhos, e que presenteava seus cadáveres ensanguentados à sua humana de estimação, Eiko.

***

A angustiante solidão espraia-se por amplidões que o homem só pode conceber com o auxílio dos dígitos sem sentido da matemática. São espaços fora do escopo da mente mortal, distâncias diante das quais o nosso mundo aproxima-se a um nada.

Nessas profundezas, cintilam as luzes com que sonhou a criança cósmica: deslumbrantes mandalas suspensas no éter, um belíssimo cemitério de morte incandescente.

Nos raríssimos recantos em que as condições físico-químicas se mostraram menos inóspitas, emergiu da matéria amorfa a mente, a vida que cresce, que se alimenta, que contempla. Muitas e inusitadas são as suas formas – às vezes não mais que gigantescas nebulosas flanando entre os sóis, às vezes oceanos inteiros de matéria orgânica, emitindo misteriosas ondas de radiação em direção ao Nada, às vezes bestas titânicas serpenteando nas profundezas de tempestuosos labirintos, e também às vezes civilizações como a nossa – sociedades formadas por indivíduos que cooperam e competem.

Nalgumas dessas esquinas longínquas, em galáxias apartadas da nossa pela eterna noite, tais formas de vida já se encontraram. Seguindo a misteriosa lei daquilo que pulsa, houve combate: a uns ele revelou senhores, a outros, escravos.

As espécies que foram capazes de desenvolver uma tecnologia eficaz para viagens interestelares tiveram vantagem. Como parasitas no corpo de Brahman, saltaram pelos buracos que abriram na trama do espaço-tempo para atacar seres menos inteligentes e explorá-los segundo os cruéis designíos de seus próprios mestres. Assim surgiram os temíveis impérios galácticos. Dentre tais raças conquistadoras, nenhuma foi tão temível e nenhuma tão bem sucedida quanto os habitantes do Planeta Zingon.

Zingon! Um nome infame em incontáveis línguas! Para bem dizer a verdade, o Império Zingoniano nunca possuiu o mais poderoso dos exércitos. Enquanto outros povos tentaram se valer da força bruta para derrotar seus inimigos, os zingonianos usaram estratégias mais sutis… Eles são tão fabulosamente astutos que, na maioria de suas campanhas, obtiveram vitória sem disparar sequer um tiro. Tal proeza só é possível porque os zingonianos usam seu vasto intelecto para esmiuçar e analisar as diferentes psicologias da galáxia, em busca de vulnerabilidades inusitadas[1].

Na Escola de Guerra de Zingônia a elite do Império é iniciada nas sutilezas do approach intergaláctico. Todos os dias, os jovens patrícios assistem às explanações dos mais experientes generais. São discutidas não só táticas de combate, mas também profundas questões psicológicas e econômicas, tais como a inclinação das civilizações materialmente mais prósperas à música ruim e ao besteirol.

No dia em que se formaria a mais nova turma de cadetes, o General Zingulião – a genial mente por trás da conquista do ultratecnológico planeta Bessalzônia[2] – comparecera pessoalmente para lecionar a aula de encerramento. Os estudantes estavam aprumados em seus trajes militares de gala nos diferentes patamares do imponente anfiteatro. Acima do púlpito, um enorme telão projetava a ameaçadora imagem de Adjsetmodelight, o Imperador de Zingon. No centro da sala havia uma misteriosa caixa preta, hermeticamente fechada.

O general quebrou as expectativas iniciando sua explanação com uma pergunta:

– Imaginem um planeta qualquer, em cuja biosfera convivam diferentes criaturas com diferentes graus de inteligência. Digam-me, com base nos conhecimentos que adquiriram aqui: qual dessas criaturas conseguiria impor seu domínio sobre os demais seres?

Pegos de surpresa, nenhum dos cadetes ousou responder, hesitando serem ridicularizados diante de seus pares.

– Vocês não aprenderam nada? – esbravejou Zingulião, meio azulado de raiva – De que adianta ter cursado a melhor academia militar do Império, se vocês não conseguem responder a uma questão elementar como essa?

A reputação da turma dependia daquele instante: o silêncio não seria bem visto pelos superiores. Um jovem zingoniano decidiu arriscar:

– A espécie mais inteligente, ou seja, aquela que for capaz de desenvolver a mais sofisticada tecnologia, irá impor seu domínio sobre as demais, senhor!

Zingulião lançou um olhar furioso para o jovem. Alguns temeram que ele fosse puxar sua pistola e desintegrá-lo ali mesmo…

– Não! Seu mentecapto! Imbecil! Você não é digno do uniforme que usa!

O estudando baixou o olhar. Zingulião continuou:

– Vocês acham que foi com esse tipo de avaliação que Zingon conquistou o mundo conhecido? Acham que se tivéssemos dependido só da competição tecnológica, teríamos sido capazes de derrotar tantos povos mais avançados? Não! Esse é o tipo de pensamento que vocês devem evitar quando liderarem as legiões! Se querem vencer, o primeiro passo será entender o inimigo.

Zingulião pegou um pequeno dispositivo de seu uniforme e apertou um botão. No enorme projetor onde até então aparecia o retrato do imperador, surgiu a fotografia de um planeta.

– Esse é o planeta Terra[3], o terceiro de um remoto sistema planetário num dos mais afastados recantos de uma galáxia em espiral. – O general apertou novamente um botão e diferentes imagens da Terra começaram a ser projetadas. – Aqui vive uma civilização que apenas muito recentemente descobriu a energia atômica, e que ainda está ensaiando seus primeiros passos em viagens interestelares. É uma espécie inventiva, que vem demonstrado alguma engenhosidade técnica, e que, se não exaurir completamente os recursos naturais de seu planeta, talvez possa descobrir em breve o princípio das viagens multidimensionais.

O projetor mostrou imagens das principais metrópoles terrestres e de algumas das maiores obras de engenharia de produção humana. Em seguida, apareceram cenas de grandes campos, e enormes estábulos abarrotados de animais.

– Como se pode ver, os habitantes desse planeta aproveitaram-se de sua superioridade tecnológica para explorar o trabalho e a carne das demais criaturas. Uma análise simplista baseada apenas nessas imagens talvez concluísse que os terráqueos são os senhores absolutos do planeta. Mas essa seria a conclusão de alguém incapaz de enxergar por trás das aparências…

Zingulião acionou novamente o dispositivo, e o projetor passou a mostrar cenas dos mais variados tipos de pessoas trabalhando. Desde mineiros se esfalfando nas profundezas da Terra, passando por burocratas assoberbados com enormes pilhas de papel, chegando até aos grandes executivos, franzindo o cenho em complicadas reuniões de negócios.

– Que tipo de senhores são esses, que levam uma existência atribulada, trabalhando de sol a sol para obter os recursos econômicos de que precisam para viver? Como se pode ver, o domínio humano sobre as demais criaturas só é possível com intensos esforços físicos e intelectuais. Notem a diferença em relação a nós, zingonianos, que quando não estamos nos dedicando à conquista, gozamos da mais absoluta e gratificante liberdade!

Os estudantes arregalaram os olhos.

– Não, nenhum ser que precisa dedicar um terço de seu tempo a qualquer atividade laboriosa pode se considerar livre, muito menos senhor do que quer que seja! Os terráqueos são escravos dos mecanismos que eles mesmos engendraram.

Zingulião fez uma pausa dramática, e continuou:

– Mas não são escravos apenas disso! Há, no planeta Terra, outra espécie que, sem precisar ter desenvolvido sofisticadas capacidades tecnológicas, conseguiu parasitar o trabalho humano sem que eles sequer se dessem conta! São seres que, com pouquíssimo dispêndio de energia, conseguiram controlar a mente dos terráqueos, manipulá-la segundo seus mais caprichosos desejos…

Os cadetes não podiam acreditar no que ouviam. Que terrível criatura seria aquela, que com tão pouco conseguira escravizar uma espécie que já possuía conhecimento sobre as fabulosas energias escondidas no átomo? Certamente uma monstruosidade hedionda e viciosa, dotada de enormes poderes telepáticos…

– Ao tentar conquistar um planeta como a Terra, precisamos, ao invés de simplesmente usar a força bruta para subjugar a civilização nativa, compreender que tipo de estratégia permitiu que esses seres escravizassem os terráqueos com tão pouco esforço, passando a gozar do mais absoluto ócio. Com isso, a vitória seria possível sem o desgaste das batalhas.

Um dos estudantes não se conteve e pediu autorização para falar:

– Mas, general, que tipo de demônio é esse que consegue controlar de forma tão completa a mente da espécie mais evoluída?

Com um ar de severidade satisfeita, Zingulião anunciou:

– Para que vocês pudessem compreender melhor os mistérios da conquista planetária, obtive autorização do gabinete do imperador para enviar uma missão para nos trazer uma dessas intrigantes criaturas!

Pôde-se ouvir o burburinho dos comentários apreensivos dos estudantes, bem como o som de seus traseiros se remexendo nos bancos de obsidiana.

– A criatura está bem aqui! – Disse Zingulião, apontando para a caixa preta em frente ao púlpito. Muitos não se contiveram.

– Por Zingon!

– Será possível?

O general ordenou silêncio com um gesto, e continuou:

– Não se preocupem. A criatura não é fisicamente ameaçadora, e seus poderes hipnóticos só fazem efeito contra os desprevenidos. Aproximem-se para que possamos estudar melhor.

Um físico teórico que observasse aquela caixa preta do ponto de vista dos cadetes possivelmente não conseguiria precisar se a criaturinha que estava lá dentro estava viva ou morta. Se fosse um físico bobo, poderia chegar até mesmo à absurda conclusão de que ela estaria viva e morta ao mesmo tempo.

No escurinho lá de dentro, porém, Puminha sabia perfeitamente que estava muito viva, obrigada, apesar da vaga barulheira que vinha de fora e que a estava impedindo de tirar um cochilo naquele escurinho gostoso. A agitação toda, para dizer a verdade, a estava deixando muito mal-humorada…

Zingulião acionou o dispositivo que liberava a tampa da caixa. Fez-se silêncio. Os cadetes não conseguiam ver direito o que havia lá dentro, mas ao mesmo tempo estavam amedrontados demais para se aproximar.

Depois de alguns segundos de angustiante expectativa, a Puminha, que já tinha perdido o sono mesmo, resolveu ver que palhaçada era aquela. Como estava com preguiça, ela foi saindo devagarzinho: primeiro surgiram suas orelhinhas pontudas, depois apareceram duas patinhas, e então, para supremo espanto da multidão de zingonianos, emergiu da abertura a carinha rechonchuda de bolacha de chocolate que ela tem.

– Eita!

– Olha!

– Que bichinho engraçado!

Desarmados pela expressão de fofurinha irritada da Puma, os jovens se aproximaram para vê-la melhor. Zingulião, ligeiramente desconcertado com a intensidade daquele interesse – que parecia extrapolar o meramente acadêmico – pigarreou, empertigou-se e tentou continuar sua explanação.

– Esses, meus caros, são os verdadeiros senhores da Terra! – e apertou novamente um botão, dando início à exibição de um vídeo mostrando a relação dos felinos com os humanos. Resumindo, era um vídeo sobre gatinhos, muitos e muitos gatinhos danados, fazendo todo tipo de travessura. Apareceram imagens de sisudos gatos persas, derrubando objetos de valor de cima da mesa e quebrando tudo impunemente, imagens de gatos siameses arranhando preciosíssimos sofás e cortinas, gatos pretos desfilando por cima de prateleiras de livros, filhotes de gatinhos cochilando gostosamente em cima da cama, gatinhos pulando, gatinhos mordendo, gatinhos sendo gatinhos! Depois, o vídeo revelou a expressão facial dos humanos que interagiam com os felinos: um olhar arregalado, um leve sorriso, e um semblante da mais pura e completa demência, uma idiotia revelada pela vergonhosa incapacidade de reagir aos charmes de uma espécie superior…

Zingulião tomou ar para continuar sua explanação, mas perdeu o fio da meada quando percebeu que ninguém lhe dava mais atenção: estavam todos absorvidos na contemplação da intrigante criaturinha. O mais preocupante foi que ele imaginou ver, estampado no rosto dos estudantes, uma expressão não muito diferente daquela que faziam os seres humanos no vídeo… Seria possível?

– Que bonitinha!

– Será que ela morde?

Puma estava acostumada a ser paparicada pelos bípedes, e talvez apenas por isso tenha suportado aquela explosão de efusividade. Quando um dos alunos mais afoitos tentou passar a mão sobre sua cabeça, ela perdeu a paciência, e deu-lhe uma muito bem dada mordida, fazendo uma cara de indignação felina simplesmente irresistível!

– Ai!

– Olha, que bichinho bravo, gente!

– Ela é muito fofinha!

Como todos os povos conquistadores, os habitantes do Planeta Zingon admiram e veneram demonstrações de força e de intrepidez. Puminha certamente não foi a primeira fera que atraiu o interesse dessa espécie: em suas muitas explorações, os zingonianos se depararam com os mais variados e assustadores predadores intergalácticos, que eram capturados e então exibidos no fenomenal bestiário de Zingônia. Jamais, porém, eles haviam se deparado com um ser como a Puma – que reunia as características do mais sanguinário animal selvagem com a fofurinha de um bicho de pelúcia.

Aquela mistura de contradições deve ter exercido um fascínio irresistível sobre a mentalidade marcial dos zingonianos, o que se depreendia pelo fato de que, à despeito dos esforços de Zingulião para dar continuidade à palestra, os alunos continuavam completamente embasbacados pela gatinha, que agora havia saído da caixa e desfilava com charme e indiferença pelo anfiteatro. Atrás dela, os cadetes tentavam atrair sua atenção.

– Oi! Vem cá, bichinho!

– Oooooi! Oi, bichinho, vem cá!

Vendo a patética cena de algumas das mais promissoras mentes do que possivelmente é o mais pujante império deste quadrante do Cosmos se derretendo com esses denguinhos, Zingulião entendeu que foi um equívoco ter trazido a gata para a capital. A extensão de seus poderes de controle mental era, pelo visto, muito maior do que o general havia imaginado. Ao trazer Puma para o centro administrativo do Império, ele pusera em risco a segurança de Zingon. Um erro imperdoável para um estrategista calejado como ele… Mas ainda havia tempo para remediar o erro. Discretamente, Zingulião desabotoou o coldre de sua pistola de plasma e aproximou-se do lugar onde os estudantes paparicavam a Puminha. Ele empurrou dois dos estudantes com os cotovelos, já com a mão posta na arma. Ao chegar mais à frente, sacou a pistola e a apontou em direção à gatinha.

Acontece que, não se sabe se por acaso ou se por ardil, Puma tinha subido no colo de ninguém menos que o primogênito de Adjsetmodelight – o príncipe herdeiro de todo o Império! O jovem, desconcertado, não tinha ideia do que fazer com a pequena fera, que o usava como almofada. Os demais estudantes se derretiam em comentários muito pouco marciais ou varonis.

– Príncipe, por favor, me devolva a criatura! – Mesmo um general de cinco estrelas como Zingulião não poderia dar uma ordem ao primogênito de Adjsetmodelight – muito menos atirar em sua direção.

– Mas ela agora está querendo dormir!

– Por favor, príncipe, essa criatura é perigosa.

Ao ver que o general apontava a pistola de plasma para Puminha – vejam só que atrevimento – o príncipe indignou-se. Assumindo a postura caprichosa típica da família real, ele anunciou, tomando a Pumoquita nos braços:

– General, retire-se. Vou levar a criatura ao imperador!

E ganhou uma mordida.

***

Alguns anos depois, o sistema planetário de Yad tornou-se pouco mais que um monte de escombros. O plano de conquista original falhou[4] e os zingonianos precisaram apelar para os meios tradicionais de guerra.

Nisso eles também são incomparáveis. A frota de cruzadores estelares chegou em Yad com a força de um destino ominoso. Mas os yadianos também eram bravos, e também dominavam muitas pavorosas tecnologias de combate. Foram anos de carnificina, após os quais sete dos nove planetas do sistema colapsaram, transformando-se em enormes cinturões de asteroides orbitando em torno da estrela central. Biosferas inteiras aniquiladas, e incontáveis multidões de yadianos vaporizados. Os dois astros que restaram tornaram-se pouco mais que rochas fumegantes.

As perdas para Zingon também foram terríveis. Multidões de escravos precisaram ser mobilizados para sustentar o esforço de guerra. Centenas de milhares de zingonianos morreram em combate – um fato sem precedentes na história das conquistas imperiais. Um membro da família real foi capturado e torturado pelos inimigos.

Então, depois que as explosões das bombas haviam obliterado os últimos vestígios daquela encarniçada civilização, sobrou apenas um punhado de anciãos yadianos na superfície devastada de um dos dois planetas que restaram intactos. Capturados e escravizados, eles avançavam, sob a mira das pistolas dos legionários de Zingon, por uma trilha esturricada, numa paisagem desértica que antes fora um exuberante vale. Ao alto, era possível ver, a olho nu no céu estrelado, os enormes fragmentos rochosos do que antes haviam sido os satélites. Tudo evocava morte, até as ominosas reverberações atmosféricas causadas pelas perturbações gravitacionais. Ao longe, podiam-se discernir pavorosos soerguimentos no oceano morto.

Puminha

“Miau!”

Exaustos e famintos, os velhos foram forçados a marchar por escarpados despenhadeiros de granito, em cujas reentrâncias se escondiam as únicas criaturas carniceiras que sobreviveram ao cataclismo. Ao cruzarem um estreito rochoso, descortinou-se uma extensa planície árida, na qual os zingonianos construíram seu campo de concentração. Naquele instante, o que mais trouxe desespero ao coração dos velhos yadianos não foi nem tanto a visão dos enormes cruzadores flutuando acima da fortaleza, ou sequer as assustadoras torres de vigilância, prontas para desintegrar qualquer prisioneiro que tentasse escapar, mas sim a visão da colossal estátua diante dos portões.

A escultura representava uma divindade funesta, a sedenta deusa da guerra zingoniana, idolatrada por fanáticos dispostos a dar a própria vida para sua maior glória! Sentada nas patinhas de trás, com o rabinho enrolado e a carinha de bolacha fazendo uma expressão meio mal-humorada, ela era um lúgubre lembrete para todos que chegavam de que não havia esperanças.

Essa e muitas outras imagens da Puminha foram erguidas pelos zingonianos nos quatro cantos da galáxia. Sentada numa almofadinha no Palácio Imperial, comendo guloseimas que lhe traziam dos mais longínquos planetas, ela jamais poderia ter imaginado que tantos e temíveis combates eram travados em seu nome. Mas suspeito que ela entendia muito bem a parte sobre ser uma deusa, e sobre ser idolatrada por aquele monte de criaturas estúpidas, que ela mordia e arranhava sempre que dava na telha!

NOTAS

[1] Para se ter uma ideia, em Al Dhira II, onde habitava um povo com certas inclinações filosóficas, os zingonianos alcançaram a vitória infiltrando um punhado de filósofos relativistas nas principais universidades do planeta. Em muito pouco tempo, os aldhiranos viram sua civilização sucumbir em meio a discussões sobre os direitos dos indivíduos pertencentes aos cinco diferentes sexos dessa espécie, sobre a representatividade política dos objetos inanimados, sobre o papel subalterno que os fungos ocupavam na cadeia alimentar e, principalmente, sobre o pretenso cientificismo de sua antiquíssima ciência social! Já no quinto planeta do sistema Tchúmbom, a conquista se deu por uma engenhosa campanha de publicidade promovida por uma empresa multiestelar de capital zingoniano: divulgando padrões de consumo extravagantes e difundindo ideais estéticos inalcançáveis para o indivíduo médio daquele astro, os zingonianos conseguiram exaurir a energia vital dos tchumbonianos – que, obcecados a partir de então em realizar exercícios ventrais anaeróbicos, adquirir cremes cosméticos para deixar seus bulbos reluzentes, realizar cirurgias de redução de tentáculos e atingir um índice de massa corporal próximo à desnutrição, tornaram-se presa fácil para os bem-alimentados soldados dos cruzadores estelares de Zingon.

Acredita-se que os zingonianos desenvolveram essa surpreendente versatilidade estratégica por terem tido que enfrentar, num momento prematuro de sua história, a ameaça do Terrível X’aarn – um distúrbio cosmológico expansivo, que, por ser incapaz de distinguir entre o seu próprio “eu” e o mundo exterior, devorava galáxias inteiras numa ensandecida tentativa de abarcar o universo dentro de seu gigantesco estômago. Enquanto diversas outras civilizações rapidamente sucumbiram, os zingonianos foram capazes de sobreviver fabricando um monumental umbigo sintético que, quando lançado dentro do corpo do X’aarn, reverteu sua apavorante expansão. Desde então, o X’aarn está absorto na contemplação do próprio umbigo, e o planeta Zingon foi salvo.

[2] Ele conseguiu tal proeza lançando no mercado local uma nova e caríssima marca de computadores e de aparelhos de comunicação que simplesmente era incompatível com todos os sistemas operacionais até então em uso. O produto se tornou uma febre, e até hoje os bessalzonianos lêem, entusiasmados, biografias de Zingulião – considerado pelos jovens locais verdadeiro exemplo de empreendedorismo e de self-made alien.

[3] Em zingonianês, o nome usado para nosso planeta seria melhor traduzido como “Planeta Barro”.

[4] Os yadianos suspeitaram daquela entrega intergaláctica de pizza.

 

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