MACUNAÍMA: Arquétipo da Alma Brasileira

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MACUNAÍMA: Arquétipo da Alma Brasileira

A interpretação que apresento a seguir é baseada no filme de Joaquim Pedro de Andrade, MACUNAÍMA – O herói sem nenhum caráter, com Grande Otelo e Paulo José no papel do protagonista. Um dia, quem sabe, ampliarei este estudo para fazer uma análise mais aprofundada sobre a rapsódia original de Mário de Andrade. Por ora, para o propósito deste texto, fiquemos com a versão cinematográfica que não se afasta, no essencial, da narrativa do livro.

Recordo que li MACUNAÍMA na escola, no ano em que prestei vestibular. Na época, dei boas gargalhadas, mas não tinha maturidade para apreender o significado da história. O enredo me parecia um tanto confuso e até certo ponto surrealista. Retenho que meu professor de literatura enquadrou a obra no contexto das vanguardas e do modernismo etc etc, porém o que mais me marcou, não sei se como resultado das aulas ou de minha cabecinha confusa, foi o ingênuo ufanismo com que eu e meus colegas exaltávamos a falta de caráter do anti-herói. Já me parecia muito ousada a idéia do autor de inverter completamente um arquétipo tradicional da cultura Ocidental e, pela primeira vez, pensava eu, num rasgo de genialidade, criou-se um herói muito diferente do esquema estabelecido.

Hoje assistindo ao filme, percebi como eu, meus colegas e meu professor de literatura estávamos enganados. A obra é realmente de gênio, mas não pelo argumento que me entusiasmava aos 17 anos de idade, senão pela razão precisamente inversa!

Mário de Andrade teve a proeza de cristalizar num personagem toda a nossa miséria para expô-la ao ridículo e exorcizá-la, definitivamente, de nossa alma tupiniquim. Um escritor talentoso como ele não precisa dos rótulos de “denúncia social” ou “literatura engajada” associados à sua obra. Basta ser um leitor sensível para perceber que o mito de Macunaíma é a mais virulenta sátira à cultura brasileira de que tenho notícia. Para mim, não faz sentido perguntar se era esta a intenção do autor, porque o gênero literário que ele escolheu é compacto demais e deixa essa questão sem resposta. Poder-se-á sempre recorrer a cartas, anotações de gaveta e declarações de punho do autor para provar que seu propósito era outro. Mas, respondo eu, uma coisa é a obra literária e outra coisa é o homem. A obra, depois de escrita e publicada, tem vida própria e está sempre aberta a uma interpretação heterodoxa como a minha, inconformista como a minha, e, se é para épater l’academie, profundamente herética como a minha.

Para começar, ouso afirmar que MACUNAÍMA não é um romance. Trata-se mais propriamente de um mito. Vou explicar por que. Num romance, os elementos simbólicos aparecem diluídos, quase imperceptíveis ou subliminares, de forma apenas alusiva. Por falta de um termo melhor, vamos chamar essa técnica do romance de metáfora “indireta”. Na linguagem mítica, como na poesia, os símbolos são explícitos – a metáfora tem cor, cheiro e gosto de metáfora. Em outras palavras, o mito é pura analogia. O romance é história social com recursos à analogia, para fins estéticos.

Pois MACUNAÍMA tem todo o jeitão de narrativa mítica. “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente…”. Qual mata? Quando nasceu? São perguntas supérfluas, pois isso é irrelevante. A época pode ser qualquer época. A mata é qualquer mata. Trata-se do tempo e do espaço míticos. Além disso, os elementos simbólicos da obra são evidentes e reveladores. E é aí que a película de Joaquim Pedro de Andrade, por emprestar uma plasticidade notável à história, com cores vibrantes e cenas magistralmente toscas, torna ainda mais explícitos alguns traços marcantes da incultura brasileira.

I – O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

Macunaíma não é um personagem; é o arquétipo, o molde, a fôrma dos nossos personagens de ficção e de realidade. Sabe por que Macunaíma parece caricato, seus traços nos parecem burlescos e ficam ainda mais exagerados nos trejeitos de Grande Otelo? Tem de ser assim porque a fôrma de cozinhar biscoito tem contornos muito mais destacados do que o biscoitinho que sai do forno, e este, quando sai, vem meio arredondado. A fôrma é mais rígida porque tem função de moldura.

Em outras palavras, Mário de Andrade colocou no subtítulo de seu livro um epíteto que poderia se aplicar à maioria dos personagens da literatura ou do cinema brasileiros. Fazendo isso, Mário de Andrade nos ajudou a enxergar o óbvio. Não é apenas Macunaíma que é sem caráter. Me apontem, por favor, dois ou três personagens de nossa literatura ou de nosso cinema que foram capazes de grandes atos de heroísmo em sentido clássico, de alguém capaz de cometer grandes sacrifícios pessoais para ajudar os outros, de abnegação em prejuízo de si e em favor do próximo, de genuínos atos de amor gratuito! Deem-me três exemplos contrários de Macunaíma em toda a nossa vasta ficção. Se Macunaíma é a quebra de um clichê, onde estão afinal os clichês?

Tomemos alguns casos tirados dos escritores maiores e suas obras principais. Se você, leitor, tiver outros exemplos contrários além daqueles que eu apresento a seguir, peço a gentileza de indicá-los nos comentários deste blog. Estou à procura de heróis brasileiros e preciso da sua ajuda.

  1. Em MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, Leonardo desde pequeno fazia suas diabruras como Macunaíma e, mesmo adulto, nunca se endireitou na vida, dado a traições e leviandades.
  2. A imensa galeria dos falsos heróis de Machado de Assis é povoada de oportunistas (TEORIA DO MEDALHÃO), hipócritas (MARIANA), adúlteros (MISSA DO GALO), invejosos (O DIPLOMÁTICO), bajuladores (O ESPELHO) e por aí vai. Brás Cubas é cínico e insensível. Dir-se-ia que Machado de Assis fazia crítica à sociedade burguesa do Rio de Janeiro de sua época? Ora, veremos que esse problema no Brasil não é redutível a um tempo determinado.
  3. Em SÃO BERNARDO, de Graciliano Ramos, Paulo Honório é um anti-herói tão mesquinho e cruel que leva sua pobre mulher ao suicídio.
  4. Em SAGARANA, de Guimarães Rosa, Lalino Salatiel é uma paródia do Filho Pródigo. A exceção honrosa de SAGARANA é Augusto Matraga, homem que chega à idade adulta como um cafajeste, mais um malandro brasileiro que saltou das ruas para as páginas de nossa ficção, porém se converte, transcende e conclui a sua história como um perfeito herói trágico. Riobaldo, de GRANDE SERTÃO: VEREDAS, é um anti-herói de outra natureza, pois faz um pacto com o demônio, algo como um Fausto caipira.
  5. No ROMANCE D’A PEDRA DO REINO, de Ariano Suassuna, Quaderna é um homem que se dá ares de grandeza, mas são vanglórias tão ridículas como as supostas vantagens que, na cena final do filme, Macunaíma reconta para o papagaio. No AUTO DA COMPADECIDA, esse personagem tão simpático que é o João Grilo resolve todas as suas dificuldades na vida com embrulhadas e atos desonestos.

A série da TV GLOBO popularizou o personagem criado por Ariano Suassuna. João Grilo é o equivalente brasileiro do Lazarilho de Tormes – novela popular espanhola. Mas Lazarilho não é o arquétipo literário mais querido pelo povo espanhol. O personagem mais amado do mundo hispânico, consequentemente transformado em modelo de virtude, é, como qualquer um sabe, o Dom Quixote. E o Engenhoso Fidalgo de la Mancha é um herói no sentido clássico do termo, que se sacrifica pelos outros, capaz dos maiores gestos de grandeza, de bondade e de solidariedade.

Vamos comparar a cena em que Macunaíma agride o sapateiro com um equivalente no DOM QUIXOTE.

Após ser ludibriado pelo sujeito que lhe enganou na venda do pato, Macunaíma encontra no parque um menino sapateiro que trabalhava honestamente e foi assaltado por um malandro de rua. Em vez de compadecer-se pelo sofrimento do indefeso, Macunaíma dá-lhe um tapa e rouba-lhe o resto do dinheiro que este ainda tinha. Para completar, Macunaíma quer dar à sua agressão ares de “lição de vida” para a jovem vítima, como se ela precisasse disso para se tornar mais experiente e mais resistente ao sofrimento.

A mesma situação dramática é vivida por Dom Quixote. O cavaleiro medieval não é um malandro carioca; não tem navalha no bolso para brigar no bar, nem terno branco para impressionar os trouxas, mas é revestido de lança e armadura para proteger os oprimidos. No início de sua saga como cavaleiro, Dom Quixote encontra um escravo sendo açoitado pelo patrão e intervém em favor do primeiro, ameaçando o último de desforrá-lo caso não parasse de castigar o pobre homem. O próprio escravo, agradecido, adverte que Dom Quixote deveria ter cuidado com suas palavras, pois seu patrão é rico e poderoso. Mas o Quixote não se intimida com o nosso conhecido “você sabe com quem está falando?” e responde aos dois com uma sentença que resume todo o drama ético do ser humano: – “Cada um é filho de suas obras”. É tudo o que Macunaíma não faz: assumir sua parcela de responsabilidade na vida.

Não estou fazendo um discurso moralista. Nem quero dizer com isso que a literatura deve ter apenas personagens bonzinhos, engomadinhos, penteadinhos e cumpridoresinhos dos seus deveresinhos. Longe disso! A arte se faz é da luta entre o bem e o mal. E o mal, o feio, o monstruoso têm uma função estética indispensável na obra de arte. Imagine o que seria de CRIME E CASTIGO se Raskolnikov não praticasse o homicídio? Simplesmente não haveria o romance de Dostoievski! Nós nunca leríamos HAMLET se o príncipe da Dinamarca não se vingasse do seu tio e da sua mãe… O que eu acho anormal é que uma cultura nacional faça a apologia do grotesco. E é precisamente este o caso com a interpretação vulgar a respeito de Macunaíma.

II – A PEDRA MUIRAQUITÃ, OU A LAVAÇÃO DA BURRINHA NOSSA DE CADA DIA

Após chegar à cidade e acasalar-se com a guerreira Ci, Macunaíma passa a viver como gigolô de sua bela mulher, que por sua vez ganha o pão de cada dia com assaltos a bancos. Os miseráveis irmãos de Macunaíma que chegam com ele à cidade, o preto Jiguê e o velho Manaape, pedem-lhe hospitalidade, mas o anti-herói, como um sultão sentado em robe de chambre e dedilhando um violãozinho safado, nega ajuda aos irmãos alegando que a casa é pequena demais para acolhê-los.

É a guerreira Ci que apresenta a Macunaíma a sua “pedra muiraquitã”, amuleto milagroso que ela carrega pendurada no pescoço: segredo do seu sucesso nas batalhas da vida. Macunaíma pede a pedra mágica, mas Ci não lhe dá. Quando Ci morre, Macunaíma lê no jornal que o burguês Wenceslau Pietro Pietra adquiriu a muiraquitã e se tornou um homem muito rico e poderoso.

A partir desse momento do filme, a saga de Macunaíma será a sua busca incansável pela pedra milagrosa que promete um benefício equivalente (pelo menos Macunaíma vê assim) a um prêmio de loteria. Trata-se do nosso mito da lavação da burra: obter o máximo de vantagem com o mínimo de esforço.

Movido pela lei do Gerson, Macunaíma então fracassa em várias tentativas de adentrar a fortaleza do Gigante Piaimã e roubar-lhe o tal amuleto. Aqui vem a essência da coisa. É significativo o fato de que o personagem que não tem ânimo nenhum para trabalhar e que só aos seis anos de idade pronunciou as suas primeiras palavras (Ai que preguiça!) demonstre não obstante uma energia inesgotável para caçar a sua galinha-dos-ovos-de-ouro: se veste de mulher, tira a roupa, arrisca-se a levar um tiro, arranja emprego de enfermeiro, quase é cozinhado no caldeirão da bruxa, recorre à pomba-gira. Quando se trata de roubar um bilhete premiado de loteria, nenhum obstáculo o faz desistir ou sentir preguiça.

A meu ver, o cineasta encaixou muito bem esse aspecto de lavação da burra ao inserir o jogo do bicho, outro vício brasileiro incurável, nas bodas macabras da filha de Wenceslau Pietro Pietra. Numa inversão demoníaca, o sorteado no jogo do bicho é premiado com a morte, sendo arremessado a um tanque e comido vivo pelas piranhas. É evidente para qualquer um o sentido dessa cena: o fim do vício é a autodestruição. Ou como diz São Paulo, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). Hoje em dia, os nossos zumbis da cracolândia têm uma experiência real e triste desse preceito bíblico.

Macunaíma consegue derrotar o Gigante afogando-o na piscina da morte, realizando assim o desejo da turma e libertando os demais convidados da festa. Macunaíma vai se tornar herói? Só provisoriamente. Porque, se no livro de Mário de Andrade, Macunaíma vira estrela (quer dizer, um simbolismo da transfiguração, da capacidade de transcender, de elevar-se, de ir para o céu), a versão do filme é mais realista.

III – O MALANDRO OTÁRIO

No filme, Macunaíma termina seus dias pateticamente, incapaz de se levantar da rede, inventando mentirinhas de criança para desculpar-se com a família porque não tem ânimo sequer para ir atrás de comida. Sua tapera vai desabando, mas ele não reage para reerguer seu teto nem para proteger-se da chuva. Já com a muiraquitã no pescoço, a única coisa que ainda põe Macunaíma em movimento é o sexo – um primitivismo atávico nacional. Ele pensa em tomar banho de água fria para aliviar-se (recorrendo à técnica dos monges, seria um ensaio de ascetismo?), mas logo se encanta ao ver no lago a imagem da Uiara nua. Pula no lago e é devorado pela assombração.

O filme termina com o sangue de Macunaíma pulsando na água, ao som da música marcial de Villa-Lobos: DESFILE AOS HERÓIS DO BRASIL. Joaquim Pedro de Andrade não poderia ter escolhido trilha sonora mais irônica. É óbvio que os heróis do Brasil a serem homenageados com essa marchinha não são gente macunaímica, mas grandes brasileiros como Mário de Andrade, que nos revelou o engodo em que cotidianamente nos metemos.

Foi um tanto decepcionante assistir nos “extras” do DVD à entrevista com Heloisa Buarque de Hollanda, para quem a escolha do canto orfeônico leva o espectador “para longe” (no sentido positivo de profundo) na história do Brasil. Heloísa não explicou onde fica esse longe, nem fundamentou a afirmação de que o filme do seu amigo tem a ver com o momento vivido pela geração de 1968. Para mim, o filme é grandioso porque extrapola qualquer datação histórica, mostrando-se atualíssimo ainda hoje. Querem ver? Numa das suas apostas fracassadas de se dar bem sem esforço, Macunaíma está quase caindo no desespero até que ouve de Manaape a idéia de ludibriar o governo dizendo-se artista a fim de descolar uma pensão do Estado. Mas qual não foi a decepção de Macunaíma ao descobrir que havia uma lista de espera com dois mil falsos artistas na expectativa dessa boquinha!

Uma leitura obrigatória para todo brasileiro alfabetizado é o bem-humorado ensaio do poeta Ângelo Monteiro, intitulado TRATADO DA LAVAÇÃO DA BURRA OU INTRODUÇÃO À TRANSCENDÊNCIA BRASILEIRA (1986, Recife, Ed. Bagaço), de onde retirei o título do tópico anterior.

Uma das graves doenças da alma do brasileiro é a sua inaptidão média para transcender. Aliás, em ambientes chiques a palavra “transcendência” é até imoral e proibida. Certa vez fui falar desse assunto com uma amiga minha, e ela torceu o beiç­o, rindo-se de mim. Macunaíma é o arquétipo de nossa alma pesada, preguiçosa, apática, modorrenta, fechada, com uma recusa às vezes agressiva contra a possibilidade de as outras pessoas enxergarem um céu mais azul.

Fernando Pessoa dizia que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. No filme, a pequenez da alma macunaímica fica claríssima na cena da rixa em praça pública.

No centro da cidade, estava um popular discursando em louvor do Cruzeiro do Sul e dos valores da família, quando Macunaíma o interrompe violentamente. Numa gritaria em que ninguém se entende, o anti-herói desdiz o orador e começa a fazer seu próprio discurso terra-a-terra, sustentando que os males do Brasil são coisas como a saúva, a erisipela, o bicho de pé e outras causas sociais bem chãs. De repente, descemos das estrelas para as formigas. Quando um país não tem um horizonte infinito de Sentido simbolizado por uma constelação em forma de Cruz (dizia o orador: “alvo, meta e consagração”), a vida então se resume a um passatempo inútil e tedioso como esmagar cabeça de saúva, num gesto de absoluta falta de sentido que se repete ao longo do filme… Talvez por isso Macunaíma seja um personagem tão amado e admirado por nossos sociólogos e cientistas políticos, pessoas como ele presos à imanência e sustentando até o fim que isto é a realidade.

As cenas finais de MACUNAÍMA – O herói sem nenhum caráter são deprimentes.  Ele é o nosso “malandro otário” arquetípico, contando vantagens inexistentes para um Zé Carioca da floresta. Assim como João Grilo vendeu um “gato que ‘descome’ dinheiro”, Macunaíma perdeu trinta contos investindo num pato similar – o que pode ser interpretado como um episódio particular de lavação da burra dentro da sua saga maior de lavação da burra em busca da pedra muiraquitã.

Enfim, Macunaíma é, por assim dizer, o Wilson Simonal literário. Todo mundo conhece a história da simonalização de um artista. Esse famoso cantor da década de 1970 costumava cantar de galo de que tinha contatos privilegiados com o regime militar, o que era pura bravata. Resultado: Wilson Simonal teve sua carreira destruída pelo pessoal da esquerda que o acusou de dedo-duro; foi isolado do meio artístico e nunca mais arranjou emprego. É a cara do Brasil. O brasileiro que não sabe a diferença entre inteligência e esperteza, no fim, descobre que é burro.

Não é por ser anti-herói que Macunaíma escapará do destino trágico. A morte não tem preferência apenas por almas elevadas como Antígona, Hamlet, Thomas Becket, Joana D’Arc e Augusto Matraga. Macunaíma é um personagem de sátira, mais parecido com Shylock ou com o Burlador de Sevilla, o que não o impede de amargar um fim terrível. Como disse Eugéne Ionesco, não há nada mais trágico do que a comédia…

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4 Respostas para “MACUNAÍMA: Arquétipo da Alma Brasileira

  1. Obrigado ao leitor AntimidiaBlog. Em primeiro lugar, pela paciência de ler o meu texto. Em segundo lugar, por me dar de presente mais um exemplo que é a prova viva do que estou dizendo.

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  2. Caro Fredon,

    Nunca li Macunaíma, portanto não tenho como saber se sua interpretação está ou não correta. Mas concordo com sua percepção de que, uma vez que é publicada, a obra ganha vida própria, e pode assumir significados não previstos pelo autor. Isso certamente aconteceu no caso, por exemplo, de Dom Quixote, que começou como uma bem-humorada sátira de um mundo antiquado, e se tornou, para as gerações posteriores, numa das mais poderosas metáforas para a condição trágica da vida humana.

    Quando Macunaíma foi escrito, não se sabia ainda ao certo o que era a nacionalidade brasileira. Mário de Andrade pode ter criado seu personagem até com alguma simpatia, como um esforço descritivo para expressar traços do caráter nacional que não eram considerados pela literatura ortodoxa até então. Não sei se por trás disso ele possuía um projeto político muito claro – ou seja, afirmar, de forma categórica, que ser como o Macunaíma era bom ou ruim.

    O problema foi a apropriação do texto que foi feita pelas gerações posteriores. O que podia ser uma provocação vanguardista acabou se tornando, como você bem pontuou, uma espécie de mito fundador. Ou seja, o que podia ser mera constatação acabou se tornando numa chancela cultural: “Já que nosso caráter nacional é assim, então talvez seja bom que seja assim! Vamos nos orgulhar do que temos de específico, vamos construir uma nova nacionalidade antropofágica, que não presta contas às caretices da cultura ocidental!”.

    Se isso realmente aconteceu, talvez, então, o mito de Macunaíma, tenha tido um efeito pernicioso em nossa cultura. Também não chego a achar que a obra deveria ser lida com finalidades edificantes (como se pode fazer com muitas sátiras escritas no passado), mas, quando observamos o que o Brasil se tornou nesse começo de século XXI, não posso deixar de imaginar que talvez nós precisássemos de outros mitos e outras referências nacionais – mitos que não simplesmente reproduzissem os traços herdados de nossos ancestrais, mas que servissem de inspiração sobre como esses traços poderiam ser incorporados e metamorfoseados dentro do projeto de construção da civilidade nacional. E por civilidade não me refiro a nenhuma categorização cultural de caráter conservador: refiro-me apenas à construção de um espaço público em que os brasileiros possam interagir política, cultural e socialmente sem incorrer, o tempo inteiro, em tantas e tantas formas de agressão e de violência.

    Mário de Andrade não pode ser culpado pela apropriação que fizeram de sua obra: um bom livro sempre comporta mais de uma leitura. Acho que o equívoco foi das várias gerações de educadores que se deixaram iludir por um ideal cultural antropofágico como fundamentação para a brasilidade, usando esse e outros livros para justificar – como uma mãe coruja deslumbrada com o filho mal-criado – os vícios de nossa cultura.

    Grande abraço!

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  3. É muito interessante essa sua interpretação acerca da obra de Macunaíma. Eu a assisti há muito tempo, creio que na minha adolescência em sala de aula. Naquela época, por falta de maturidade, não absorvi da obra significados que fosse profundos. Não pude, por exemplo, enxergar elementos sociais e políticos que o autor, ao que parece, utilizou como ferramentas para expor a sua visão da sociedade brasileira. Vou assistí-la novamente! Como vc disse, “romance é história social com recursos à analogia para fins estéticos”, concordo. Creio que a leitura de uma grande obra literária deve ser feita com essa premissa, ou seja, a de que temos à nossa disposição uma história que, além do elemento ficcional, é carregada de forte elemento cultural vivente que é embasado na experiência verdadeira da sociedade. Não duvido que o protagonista, na melhor interpretação, tenha essa característica universal à luz da sociedade brasileira. São muitas as referências, como, por exemplo, a velha “lavação da burrinha nossa de cada dia”. Lamentavelmente o brasileiro, em geral, é assim….

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