Buda chega ao Céu

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Observação preliminar: Esse texto já havia sido postado no blog, mas resolvi republicá-lo por duas razões: 1) Fiz algumas modificações em trechos que, na minha opinião, tinham problemas estilísticos e 2) Porque acho que ele merece mais atenção do que realmente recebeu.

Enfim, para os que tiverem estômago para uma provocação teológica…

Por detrás do vidro do balcão, o querubim de bochechas rosadas olha para o rosto do ancião e compara com a figura do passaporte. Na imagem, suas orelhas estão bem mais longas e os cabelos estão presos num inverossímil penteado que faz as curvas parecerem pequenas bolinhas.

– Senhor… Gautama?

– Sim…

O anjinho tenta novamente passar o passaporte no leitor automático e mais uma vez obtém sinalização de erro. Depois de conferir pela terceira vez o visto, ele examina a capa do passaporte e só então se dá conta de que é vermelha.

– Oh! O senhor poderia ter pegado a fila dos santos e iluminados, Sr. Gautama, ali à direita, em frente à porta estreita. Ela é bem mais rápida.

– Ah, me desculpe, eu não sabia… Devo ir para lá?

– Não, não! Por favor, pode deixar que resolvo isso. Só um minuto, deve ser um problema técnico.

Na fila, as solteironas e beatas começam a dar sinais de impaciência. Ouve-se um cochicho aqui e acolá. Ainda examinando o passaporte, o querubim pega o telefone.

– Alô? Bom dia, aqui quem fala é Guriel. Estou com um pequeno problema no guichê sete. Tentei dar entrada num passaporte santificado mas o sistema está disparando uma sinalização.

(…)

– Não, não é um Mujahid. (…) Gautama, primeiro nome Sidarta. Nacional de Shakya. Já conferi o visto e está ok.

(…)

– O número é 108111.  Sim, posso aguardar. (…) Ok, muito obrigado então.

Dirigindo-se ao Príncipe Sidarta, o querubim diz:

– Senhor Gautama, obrigado por esperar. Vou precisar encaminhá-lo ao escritório do chefe do Setor de Imigração. O senhor poderia por gentileza me acompanhar?

– Houve algum problema?

– Não, não, mas é que seu passaporte está disparando uma mensagem automática. Pode ser um problema no nosso sistema operacional, mas precisamos confirmar com a chefia para ter certeza.

– Ah….

Na fila, uma beata comenta baixinho para a freira que estava ao seu lado:

– Aposto que foi algum pecado de última hora! Eu bem que suspeitei dessa carinha de santo…

– Ave Maria!

***

Acomodado num sofá em posição de lótus, Sidarta Gautama observava, absorto, os ponteiros dourados do relógio que havia na parede. Num mostrador digital ao lado estava escrito: “Faltam (…) dias para o Apocalipse”. Mais embaixo havia diversos cartazes com mensagens motivacionais e propaganda religiosa. Num deles havia uma foto de Cristo sorrindo, com a legenda: “Não só Eu salvo.”

Sobre a porta à sua esquerda havia uma placa indicando: “São Pedro Simão, Chefe do Setor de Imigração do Paraíso”. Ao lado, entre a porta e o bebedouro, um cartaz emoldurado com a mensagem: “Deixai aqui todas as preocupações, ó vós que entrais”.

Depois de alguns minutos, quando o Buda já estava absorto em processo meditativo, a porta se escancarou e um sujeito encorpado e muito barbudo, com um luminoso halo sobre a cabeça, entrou na sala de espera e dirigiu-se ao príncipe, fazendo visível esforço para tentar ser amigável:

– Sr. Buda, me desculpe por fazê-lo esperar. Houve um pequeno ruído na nossa comunicação, mas o assunto já foi resolvido. Gostaria, em nome do setor, de pessoalmente lhe dar as boas vindas ao Paraíso!

– Obrigado! Desculpe-me, o senhor é…

– Ah, me desculpe, eu me chamo Simão, mas o pessoal por aqui só me chama de Pedro. Estávamos há muito tempo esperando por sua chegada. Queria dizer, senhor Buda, que é sinceramente uma grande honra conhecê-lo!

Cumprimentando-o com essa exclamação, São Pedro quase esmaga em suas enormes mãos de pescador os delicados dedos do príncipe indiano. Com barba e cabelos volumosos, São Pedro parecia desses lusitanos bondosos e meio desconfiados. Seu aspecto era a de um homem prático, sem muita paciência para especulações teológicas. Ele disse:

– Quando terminarmos as formalidades, uma carruagem de fogo estará esperando o senhor logo na saída. Eles vão levá-lo diretamente às suas acomodações no setor da Terra Pura. Diga-me, Sr. Buda, o senhor foi bem tratado por nossa equipe na Imigração?

– Sim, sim… Foram todos muito simpáticos e atenciosos.

– Bom saber. Tenho recebido algumas reclamações de imigrantes que foram submetidos a tratamento constrangedor pelos arcanjos da segurança. É uma pena, mas nossos anjos costumam ser um pouco racistas: eles acham que todo europeu loiro é um nazista…

– Nazista?

– Oh, me desculpe, nossa noção de tempo aqui é um pouco relativa. São pessoas que fizeram muito mau uso de um de nossos símbolos prediletos… Bem, isso não vem ao caso. Na verdade, não havia problema nenhum com seu passaporte. A mensagem foi disparada porque o Chefe quer  falar pessoalmente com o senhor.

– O senhor queria falar comigo? – perguntou o Príncipe Gautama a São Pedro.

O santo cristão franze o cenho e, três segundos depois, ao finalmente entender as palavras de Sidarta, dá uma risada meio estrondosa:

– Não, meu amigo, não o chefe do Setor de Imigração. Refiro-me ao Chefão, o Todo-Poderoso, o Manda-Chuva!

– Oh! Brahman?

– Ele tem muitos nomes.

– Mas eu não sou digno…

– Ah, Sr. Buda, deixe disso. Se você soubesse quantas milhões de vezes o Chefe teve que escutar essa ladainha! Vá por mim: todos são dignos d’Ele!

Mesmo tendo alcançado a transcendência, Buda sabia que ser chamado para uma conversa com o Chefe podia ser mau sinal. Será que seus ensinamentos O haviam contrariado? Era bem possível, já que Sidarta apregoara a milhares de seguidores que o mundo que Ele havia criado com tanto esforço (seis dias inteiros trabalhando sem parar) era nada menos que uma ilusão e a fonte de todos os sofrimentos dos homens.

– Mas é por alguma razão em particular?

– Por que você não pergunta pessoalmente? Ele o está esperando dentro do escritório. – E, atrapalhando-se um pouco, Pedro tentou procurar uma chave no enorme molho que ele trazia consigo, pendurado ao peito. Depois de alguns segundos, ele deu um tapinha na testa e disse, como se tivesse acabado de se lembrar de algo: – Que tolice, a minha! Às vezes quase esqueço que Ele está em todos os lugares! – Só então o Príncipe Sidarta se dá conta de que Deus está ao seu lado, sentado numa das cadeiras da sala de espera.

***

É difícil expressar, em palavras humanas, o conteúdo de uma conversa com o Deus Informe, fonte inesgotável de tudo que há. Falando, porém, em termos estritamente metafóricos, podemos dizer que Deus queria ter uma conversa com Sidarta sobre budismo.

A sala de espera, São Pedro, o Terminal de Chegada, os arcanjos, os querubins, tudo desapareceu! Aquela conformação fictícia do Paraíso desfez-se, bem como os fossos incandescentes da materialização mental desse estado de espírito que é o Inferno. Todos os mundos reais e imaginários sumiram, levando consigo todas as criaturas vivas, todas as mentes, todas as formas de consciência, tudo porque Deus assim o desejou naquele lugarinstante, como se tivesse apertado o botão “desliga” da realidade.

Assumindo simbolicamente a forma de um triângulo, Ele falou, na verdadeira língua:

“Sidarta, gosto do seu trabalho porque ele trouxe alívio para muitos. Amo tudo o que faz bem aos meus filhos, e tudo o que os traz de volta a Mim. Mesmo tendo alcançado a iluminação, talvez você não tenha entendido que a estrada que você trilhou, Eu mesmo trilhei no princípio de tudo, só que no sentido inverso…”

A súbita revogação do Ser poderia parecer assustadora para uma mente mortal, mas o Príncipe Sidarta, exultando na contemplação daquela luz mais intensa que a do Sol, mas que não cegava nem ofuscava, sentiu a indescritível alegria de estar na presença do Pai, e sentir o derradeiro repouso.

“Você nasceu homem. O ponto de partida de sua jornada é a separação. Você começou sua busca a partir da individualidade, da noção de ‘eu’ que o fazia pensar ser um príncipe indiano. Em algum momento, desconfiou que existe uma ligação entre todos os seres, e que o aparente isolamento de cada um poderia ser um erro. Então, supôs que dissolver essa individualidade ilusória no vazio deveria ser um tremendo alívio. Há verdade nessa maneira de pensar, mas apenas, Sidarta, para uma consciência que, como a sua, referia-se ao mundo que Eu criei.

Para nenhuma de minhas criaturas poderia ser diferente. Embora Eu jamais tenha me ausentado de suas vidas, sei que para meus filhos o mundo deve parecer uma queda ou uma perda. Por que tanta dor? Por que a crueldade? Por que o mal?

A concretude era necessária para que Eu me descobrisse, e não há concretude sem dor. Para mim, a referência inicial é o Vazio. Nenhuma separação, nenhuma alteridade… A derradeira perfeição, mas sem o marco do mundo para que tal beatitude pudesse ser julgada boa. Só havia o repouso, e Eu só tinha a mim mesmo. Como poderia saber que Eu era bom?

O que é o mundo antes de Mim? Claro que falo de passado como símbolo: o não-Ser em que Eu vivia e vivo, e que me levou a criar o mundo é tão real quanto sempre. Nele não há sofrimento, mas também não há alegria, pois apenas por ele não há como saber que sou bom. Mesmo inteiro, Eu não era. O vazio se basta, e é o que pode ser dito dele.

E é aqui que nossas jornadas se tocam. Pois você, que é parte de Mim, um dia sentou à sombra da árvore Bodhi para meditar sobre a transitoriedade de suas sensações. E usando as técnicas da yoga para concentrar-se na imobilidade dos pensamentos, você encontrou o caminho que conduzia de volta ao meu ponto de partida: ao Vazio.

Mas Eu também fiz a minha yoga, só que uma yoga bem diferente, pois era a yoga da separação. Nada sendo, Eu era infinita potencialidade. E eis o mistério que para sempre permanecerá oculto, mesmo para um iluminado como você: surge a primeira barreira, a primeira linha, e Eu fui.  Eu Me neguei ao afimar: Eu sou.

Fiz-me Verbo, essa foi a primeira separação, e desde então, houve. Eu sou o que sou. E se revelaram as primeiras verdades: Como sou perfeito! Como sou completo! Algo há, pois cá estou, e Eu sou uno.

Eu era a única realidade. A unidade, o brahman, e tudo era abarcado por meu corpo. Mas ainda não havia parte, apenas um sujeito, Eu, que também era o único objeto.

Então meditei. Enquanto você precisou concentrar-se para abstrair a transitoriedade e a ilusão de uma individualidade, Eu me concentrei para abstrair a imobilidade e a ilusão de uma totalidade absoluta. Afundei em Mim mesmo, mergulhei na minha consciência e recitei o mantra que Me expressa: Om.

E eis que aconteceu o segundo milagre. Em Mim descobriu-se a parte! Traçou-se a segunda linha: Eu sou, mas também há o mundo. A partir do instante em que nós fomos, nasceu a dor, pois a dor é a separação de Mim. Ao mesmo tempo, porém, nasceu a alegria, pois a alegria é estar em Mim, e só pode saber isso quem soube o que era não estar.

Sem isso, Sidarta, o Vazio é apenas o Vazio – e não iluminação. E Eu sou apenas uma opressora totalidade. Se o Vazio redime, é porque há o sofrimento, a perda e a queda. Sem isso, pode haver plenitude, mas não pode haver redenção. O sofrimento dos meus filhos, que também Me são, é a sua salvação e é a Minha salvação. E com eles Eu sinto e sofro. A dor da mais insignificante criatura também é a minha dor. Como se engana quem pensa que assisto indiferente aos sofrimentos do mundo! O sofrimento de cada um dos que criei é sentida com mesma intensidade por Mim, e nessa dor está a salvação.

Criei o mundo, e vi que Eu era bom. E esse mundo está cheio de mim. Como me alegro ao reencontrar cada uma das minhas criaturas! Que êxtase sentir cada um de meus filhos retornando a Mim! Sem perdê-las, eu jamais poderia tê-las, pois então Eu só teria a mim mesmo. Você me entende Sidarta? Entende por que era necessário o mundo? Por que era necessária a queda? Mesmo todo o pesar que Me causa ver alguns de meus filhos perdidos, tateando cegos no enorme universo que criei, sei que não poderia ser de outro modo, sei que essa desorientação do espírito é a única maneira de eles, um dia, retornarem a Mim…”

Refez-se o mundo, refez-se o Paraíso. São Pedro olhava intrigado para o Buda, talvez por causa da cara espantada de êxtase que fazem todos os que veem a face do Senhor. Depois de uns segundos calados, decide dar-lhe um tremendo tapa nas costas e diz:

“Seja bem-vindo ao Paraíso, Sr. Buda! E deixe de frescura que isso aqui é o Céu!”

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Uma resposta para “Buda chega ao Céu

  1. Rapaz, que texto brilhante.
    Essa perspectiva do “Todo” ter feito o caminho inverso dos iluminados é muito curiosa. Complicado o fato de entendermos intelectualmente, apenas, a questão da unicidade da criação e a ficção do eu.
    Já rompi muito os paradigmas idealistas que carregamos… mas segue a jornada.
    parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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