As Conexões Ocultas

recife noite“E assim se acaba o mundo, não com um papoco, mas com um pluft!”

T S Eliot, em tradução livre

Quando a noite veste a cidade com seu sudário de treva, o Cavaleiro das Trevas vaga por imundas ruelas em busca de delinquentes. Não se sabe se o que o move é um fervoroso senso de justiça ou uma psicótica fixação com a mente criminosa: no final das contas, ele fará justiça, marcando os transgressores que tiveram o azar de o encontrar com sua sinistra marca negra.

A mesma marca negra que, estampada no fundo amarelo de um pôster em papel couché, estava colada na parede da sala do professor Marcos Delgado, no 13º andar da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco. Quando terminava de lecionar sua aula de Epistemologia da Ciência para a turma de mestrandos em relações internacionais, ele gostava de fantasiar que havia, como seu super-herói predileto, terminado uma emocionante missão. Sim, pois seu dever era proteger as desprevenidas mentes de seus pupilos de convicções tão perigosas quanto os vilões das revistas em quadrinhos que ele, aos 40 anos, ainda lia: mitos sobre o poder explicativo das ciências; mentiras perpetuadas, por falta de rigor filosófico, sobre a lógica da inferência e, pior de tudo, a credulidade sobre existência de relações causais nos assim chamados mecanismos da sociedade. A seu modo ele era um herói.

O professor Marcos estava absorto nesse sublime momento de identificação arquetípica com o homem-morcego quando ouviu alguém bater à porta do minúsculo escritório. Levantou-se da escrivaninha abarrotada de teses de doutorado com a frustração do yogi interrompido pelo carteiro.

– Com licença, professor…

– Oi Renatinha, minha querida, o que foi?

– Posso ter uma palavrinha com o senhor?

Seu mau-humor cedeu quando ele viu que era uma de suas alunas prediletas. Com certo ar condescendente, Marcos convidou-a a entrar e pediu que se sentasse, achando que se tratava de alguma dúvida acadêmica. Quando a pequena beldade ajeitou-se na cadeira, ela falou, com candura, mas também com gravidade.

– Professor, eu estou muito preocupada com Zé…

– O que foi que aconteceu?

As sociedades humanas sempre produziram, desde as mais priscas eras, criaturas de aguçada percepção para as dimensões suprassensíveis do Ser. São pessoas capazes de ler, nas entrelinhas do real, aspectos geralmente ignorados pela grande e atarefada massa dos seres humanos. Em outras épocas, eram venerados como homens sagrados. Tornavam-se xamãs, rapsodos ou profetas.

Zé era um desses visionários extemporâneos, transformados em vagabundos pela modernidade. Poderíamos defini-lo, sem medo de incorrer em demasiado impressionismo terminológico, como um típico porra-louca recifense: um auto-sabotador inteligente e perspicaz, sem nenhum senso de regularidade, absolutamente incapaz de se adaptar às entediantes rotinas do mundo burguês.

– Não sei, professor, mas ele não sai mais de casa. O senhor não percebeu que faz duas semanas que ele não vem à aula?

– É verdade… – Marcos não se havia dado conta. Gostava da inteligência penetrante de Zé, possivelmente era um dos únicos alunos que acompanhavam todas as sutilezas epistemológicas que ele discutia em sala. Mas sabia que ele era desleixado, e não deu por sua falta.

– Eu fiquei realmente preocupada depois que Mozart foi lá no apartamento dele. O lugar sempre foi meio bagunçado, mas parece que agora está um verdadeiro chiqueiro. Ele não tem coragem de sair nem para ir fazer a feira, e está pedindo aos amigos que comprem macarrão instantâneo e levem até lá.

– Sério?

Renatinha era desses bons corações, que se partem quando veem o sofrimento de um bichinho peludo.

– Professor, eu estou preocupada, tenho medo que algo possa acontecer…

– Pode deixar, Renatinha, eu vou tentar falar com ele. Eu acho que isso é tudo frescura dele, Zé gosta de aparecer. Mas vou dar uma passadinha lá sim. Só uma coisa: por que vocês não tentam falar com os pais deles?

– Não sei, professor… Eles moram lá em Ouricuri, e já são velhinhos. Não sei se eles conseguiriam ajudar. E tem mais uma coisa…

– O que?

– Eu acho que a doidice de Zé tem alguma coisa a ver com algo que o senhor falou durante a aula.

Em todos esses anos lecionando filosofia da ciência, o professor Marcos Delgado jamais ouvira falar de uma crise psicótica desencadeada pelas leituras de Karl Popper, Thomas Kuhn ou Paul Feyerabend. Crises de tédio, talvez, ou sono, mas apenas um positivista muito encarniçado sentiria um incontrolável desejo de se isolar do convívio humano ao compreender quão falível é, na verdade, o conhecimento. Aquilo não fazia o menor sentido.

– Renatinha, até parece… Olha, para ser bem sincero, eu acho que isso tudo é um pretexto dele para ficar em casa sem fazer porra nenhuma. Ainda assim, mesmo que Zé tenha endoidado de verdade, acho que teria sido coincidência. Talvez ele já tivesse tendência à depressão.

– Não sei, professor… Mozart conversou com ele e disse que ele não parava de falar umas coisas meio estranhas. Ele disse que Zé só falava de causalidade, e de como o senhor tinha finalmente feito ele entender algo.

***

Uma atmosfera úmida e malcheirosa pairava sobre o bairro da Boa Vista, como os miasmas de um cadáver apodrecendo num lamaçal. Embora sentisse aversão profunda por aquela multidão de estudantes nihilistas, trabalhadores obcecados por futebol, vendedores ambulantes, criminosos e flanelinhas que perambulam sem parar pelas ruas mal iluminadas do que já deve ter sido uma bonita área residencial, Marcos no fundo gostava do excesso de vida suada, o ar de decadência nostálgica, o rancor da pobreza que já foi nobre – ou que pelo menos imagina que sim. Enquanto caminhava pela Avenida Conde da Boa Vista, olhando de vez em quando para a luz que saía dos apartamentos no alto de prédios antigos e mal cuidados, Marcos sentia como se a memória de outra época ainda permanecesse ali, emanando dos cubículos de desesperadora solidão, onde uma esquecida e depravada classe média esperava, sem grandes expectativas, o tempo passar. Com uma satisfação tristonha, ele caminhava como se fosse um herói mascarado e ignoto: um bastião de decência num mundo que não se encontra mais.

E foi como um paladino da razão que o professor Marcos Delgado emergiu das trevas da Rua Fernandes Vieira, em frente ao Edifício Portal da Boa Vista, onde Zé morava. O pesado trânsito da Avenida Agamenon Magalhães contrastava com a absoluta desolação daquelas vetustas calçadas. Depois de cumprimentar o porteiro, que já o conhecia – pois outros amigos seus moravam lá – ele atravessou o estacionamento e entrou pela porta principal do edifício caixão.

No painel do velho elevador, com certo luxo dos dias idos, Marcos apertou o grande botão metálico do décimo sétimo antar. A porta corrediça fechou-se e a máquina, ameaçando alçá-lo ao abismo, rangeu ominosamente em direção ao alto, até parar com um solavanco. Marcos viu-se num corredor mal iluminado pela fosforescência intermitente das lâmpadas. Avançou pela penumbra até o apartamento de Zé.

– Professor Marcos? – disse o rapaz, com sincera surpresa, depois de ter espiado pela fresta entreaberta.

– Oi, Zé, tudo bem? Posso conversar um pouquinho contigo?

O silêncio que se seguiu revelou certa hesitação. Ele não parecia confortável com a ideia de admitir o professor no apartamento. Mas acabou cedendo, talvez porque no fundo desejasse conversar com Marcos.

O espetáculo que o professor Marcos Delgado viu quando Zé abriu a porta fê-lo sentir um aperto no peito. Como os lunáticos que acumulam todo tipo de tralha, Zé havia abarrotado sua sala de objetos, só que ao invés de simplesmente tê-los espalhado, ele os organizara segundo alguma indecifrável lógica: embalagens vazias de cereais e salgadinhos, copos de macarrão instantâneo e caixas de leite estavam dispostas ao lado de uma vassoura, um ferro de passar e um balde com a tampa virada para o chão. Os muitos livros que o jovem possuía estavam dispostos sobre o tapete, formando um padrão hexagonal dentro do qual Zé meticulosamente arranjara garrafas vazias de refrigerante, de vinho e de cerveja, canetas, uma tesoura e um grampeador. Em cima da televisão, havia diversos rolos de papel higiênico, e na estante de livros podiam-se ver copos, cabides, talheres, e algumas miniaturas de brinquedo de personagens de filmes de ficção científica. Do teto, pendiam barbantes nos quais Zé amarrara objetos aleatórios, como um sapato, uma lanterna e uma escova de dentes.

Tudo estava organizado de forma tão cuidadosa que parecia até que Zé estava intencionalmente tentando provar que havia ficado louco. Não parecia obra de um desvairado, mas sim artificiosa criação de expositor de galeria de arte contemporânea.

Antes de permitir que Marcos entrasse, Zé disse:

– Professor, queria mesmo conversar com o senhor, mas eu só posso deixa-lo entrar com uma condição…

– Qual?

– O senhor precisa me prometer que não vai tocar em absolutamente nada. – Disse o rapaz, não com o ar de esquizofrênico paranoico, mas com a severidade de uma pessoa que tivesse consciência das coisas ruins que poderiam advir de seu descuido. – Em absolutamente nada mesmo! – Insistiu.

Depois de espiar mais uma vez para a paisagem de fantasia que via por trás de seu aluno, Marcos aquiesceu.

– Tá, Zé, não vou mexer em nada.

Com isso, o jovem convidou o professor a entrar e conduziu-o até o sofá – que, surpreendentemente, estava livre de quinquilharias – pedindo cuidado para que Marcos não esbarrasse nos objetos que pendiam do teto. Quando se sentaram, Zé olhou fixamente para o mestre e lhe confessou:

– Professor, não sei se devo ficar agradecido ou se devo odiá-lo, mas o senhor tinha toda razão… Foi graças ao senhor que eu entendi!

Zé tinha um aspecto péssimo, parecia que por muitos dias resistira a uma terrível tensão física e psicológica. Sua pele e cabelos oleosos também indicavam que ele não devia tomar banho já fazia algum tempo. Seus olhos, porém, expressavam uma serenidade desconcertante. Era como se ele tivesse tido uma revelação, como se finalmente tivesse alcançado algum conhecimento arcano sobre a natureza última da realidade, mas ao mesmo tempo tivesse descoberto que a derradeira resposta era um grande disparate – a confirmação de que a posição do homem no plano geral das coisas era, simplesmente, estapafúrdia!

– Zé, eu vim aqui porque o pessoal anda meio preocupado com você…

– Professor, por favor, pode parar! Não me venha com esse ar protetor. Eu sei muito bem o que o senhor deve estar pensando vendo esse monte de tralha entulhada por aí… Deve achar que endoidei, ou que estou tentando chamar atenção… Mas não é nada disso, nunca estive tão lúcido.

Havia algo no engajamento intelectual e na completa falta de comprometimento utilitário de Zé que fascinava o professor Marcos, e que o lembrava um pouco de si mesmo quando mais jovem.

– Mas vamos convir, isso aqui está uma esculhambação, meu camarada! – Disse Marcos, atendendo ao pedido e deixando para trás qualquer vestígio de seu ar professoral. – E além do que, bicho, tu já tem falta pra caralho. Eu vim aqui também para te dar um toque. Eu gosto muito de tu, mas tu sabe muito bem que comigo não tem boquinha. Nós já estamos terminando o semestre, mas se você continuar sem aparecer, vai rodar por excesso de faltas.

Zé sorriu, sentindo-se mais à vontade diante da sinceridade habitual do professor.

– Eu entendo a sua preocupação… Mas o senhor precisa entender, para mim não dá mais! Eu não tenho mais como sair de casa…

– Que não tem mais como sair de casa, Zé? Que viadagem é essa, agora? Deixa disso, bicho, tu é um cabra inteligente pra caralho, não pode ficar com essas frescuras aí não. Oa, sério, vamos deixar de palhaçada e vamos tomar uma coca ali naquele posto da Fernandes Vieira. Você tá muito impressionado, tá precisando tomar um ar… Beleza?

Quando Marcos fez que ia se levantar do sofá, Zé o segurou firmemente pelo braço.

– Professor, por favor, me escute. – Pelo olhar com que o fuzilava, Marcos viu que Zé falava sério. – Desculpe, eu sei que é difícil de entender. Mas me dê uma chance! Se existe alguém que pode entender o que está acontecendo comigo, é o senhor…

Marcos desarmou-se com aquele elogio velado e sentou-se, quieto, no sofá.

– O senhor se lembra daquela aula que nos deu, faz umas três semanas, sobre a ideia de causalidade nas ciências sociais?

– Claro que lembro, Zé, eu dou a porra dessa aula todo semestre faz sete anos!

– Então o senhor vai entender aonde estou tentando chegar. Acho que nunca antes, desde que entrei na faculdade, tinha tido uma experiência assim, tão transformadora. Sempre fui um pouco entusiasmado pelo pensamento científico, e achava que era só uma questão de tempo até a ciência desvendar todos os mistérios da natureza. Mas o senhor abriu minha cabeça, mostrou que existia uma diferença entre o método científico e a ideologia da ciência, e nos precaveu contra o risco de a ciência se transformar numa espécie de nova religião! – O entusiasmo de Zé pelas suas aulas encheu Marcos de orgulho.

– Rapaz, eu fico feliz que você tenha gostado da aula, e que tenha ficado entusiasmado com o debate. Mas, cá entre nós, o que diabos isso tem a ver com pendurar a caralha do sapato do teto, Zé? Tu só pode estar de sacanagem comigo, bicho! Pára com isso!

– Professor, tente ter um pouco de paciência, eu não estou brincando. – E novamente lançou-lhe o mesmo olhar solene. – Posso terminar?

– Vá, termine aí.

– Como eu dizia, aquilo tudo me afetou muito, e me fez rever uma série de antigas convicções. Mas o senhor tem razão, esse não é o ponto principal, e não tem nada a ver com a parafernália que o senhor está vendo aqui – e com um gesto da mão mostrou as bugigangas. – Sei que deve parecer muita maluquice, mas posso assegurar que há uma explicação por trás de tudo. O x da questão está num exemplo que o senhor nos deu para mostrar as limitações da ideia de causalidade.

Em suas aulas, o Professor Marcos Delgado gosta de explorar as contradições desse conceito. Quando empurramos uma bola de bilhar, parece-nos muito óbvio que o movimento de nossa mão é a “causa” do movimento da bola. Mas o universo não funciona como uma mesa de sinuca, e os fenômenos nem sempre são tão simples. Muitas vezes verificamos a ocorrência simultânea de dois eventos, sem que possamos dizer exatamente se um foi causado pelo outro. Às vezes podemos estabelecer meras correlações, mas não propriamente uma relação de causa e efeito. O assunto é tão problemático, explica o professor, que alguns filósofos chegam a dizer que a causalidade é algo que se encontra dentro de nossas cabeças: uma projeção subjetiva, que tenta associar os fenômenos naturais ao voluntarismo de nossa vivência interior – para cada fenômeno há uma causa, do mesmo modo que para cada ação há uma vontade.

E se não for bem assim? E se por trás da aparência visível do universo houver conexões que nós, simplesmente, não conseguimos identificar? O professor Marcos gosta de provocar seus alunos com o seguinte exemplo:

“Imaginem que, num determinado instante, um vulcão entre em erupção no Pacífico.” – Ele diz. – “Imaginem também que, naquele exato segundo, do outro lado do mundo, uma gaivota comesse um peixe. Os dois fenômenos aconteceram exatamente no mesmo momento, mas aparentemente não há qualquer relação entre um e outro. Mas e se, ao contrário do que supunha Einstein, os deuses jogassem dados? E se as misteriosas inteligências que arquitetaram o universo tiverem estabelecido, desde o princípio dos tempos, que exatamente quando aquela gaivota comesse aquele peixe específico, um vulcão entraria em erupção no Pacífico?”

Essa é uma suposição filosófica, que não pode ser contestada pela ciência. O Professor Marcos a usa para mostrar que existem limitações ao que pode ser comprovado ou refutado pela observação. A essa altura da aula, Marcos costuma arrematar:

“Isso não significa, meus caros, que não exista uma relação causal oculta entre o comportamento da gaivota e a erupção vulcânica. Significa tão somente que, com os instrumentos de nossa racionalidade, nós jamais conseguiremos definir se essas conexões existem ou não. É claro, o fato de não sermos capazes de saber se elas existem não significa de forma alguma que elas não existam…”

Um anti-herói, deveras.

– Pois então, professor – Continuou Zé, fitando-o no sofá. – o senhor mesmo nos explicou que não temos como saber se algum gesto banal que fazemos aqui não poderia ter um impacto do outro lado do mundo. Aquele exemplo da gaivota e do vulcão me impressionou muito… Não temos como saber se é ou não verdade! E quem me garante que se eu derrubar aquela vassoura – disse ele, apontando para o canto – uma pessoa não poderá morrer de forma trágica num país distante?

Após a evocação a suas explanações em sala de aula, o Professor Marcos Delgado entendeu aonde Zé estava tentando chegar. Seu aluno parecia estar se permitindo uma extrapolação infantil de uma suposição que ele fizera com finalidades didáticas. Ter percebido isso o deixou irritado, como se tivesse percebido que havia se deixado levar pelo faz-de-conta de uma criança tremendamente esperta.

– Olha, Zé, eu gosto muito de você, mas se você não parar com essa história, eu vou ficar aborrecido de verdade. Você é inteligente, e sabe perfeitamente que falei aquilo em sala apenas para ilustrar um ponto. É claro que se você derrubar uma vassoura, isso possivelmente coincidirá com o instante em que alguém irá morrer em algum lugar do planeta. Mas isso por uma razão muito simples: porque há gente morrendo no mundo o tempo inteiro, porra! E isso não tem nada a ver com você derrubar ou não a porra da vassoura. Ou melhor, talvez até tenha, mas nós nunca conseguiríamos estabelecer essa conexão. Ou seja, tanto faz! Ainda que essa realmente fosse a causa da morte da pessoa, nós não podemos ser responsabilizados por isso, pois não teríamos consciência do mal que estaríamos causando.

Naquele instante, o rosto do estudante assumiu um ar terrivelmente sombrio, como se Zé tivesse começado a meditar sobre algo de implicações aziagas.

– Sim, professor… Nós não teríamos como estabelecer essa conexão por meios racionais – e Zé enfatizou muito essa palavra. – Mas o senhor acha que esses sejam os únicos meios ao alcance do conhecimento humano?

Por um instante, Marcos hesitou, e sentiu um calafrio subindo pela sua espinha.

– Você está insinuando que possui uma alguma percepção paranormal?

– Não peço que acredite em mim, mas peço que pelo menos tente me entender. Desde criança, costumo ter certas convicções inexplicáveis. Às vezes brotam na minha cabeça perguntas como: “E se o simples fato de eu coçar meu nariz pudesse provocar uma tempestade em algum lugar no Pacífico?” Passo, então, a ficar convencido de que, se eu coçar o nariz, provocarei uma tremenda tempestade. Antes eu via isso como uma curiosidade, uma fixação que talvez pudesse ser explicada pelo psicanalista. Mas, mesmo consciente de sua irrealidade, no fundo sentia que essa associação mental escondia um vínculo muito concreto…

– Mas você sabe muito bem que o fato de você ter uma convicção intensa não quer dizer que ela seja verdadeira.

– Eu também pensava assim. Mas, professor, depois daquela aula, tudo mudou…

–Por que? O que fez o negócio desandar?

Zé esperou alguns segundos, como se criasse coragem.

– Não conseguia tirar o exemplo que o senhor deu da minha cabeça… E então tive um estalo… Foi numa noite em que tive insônia. Depois de várias horas me revirando na cama sem conseguir dormir, em que eu só conseguia pensar na lava do vulcão escorrendo por causa da bendita gaivota, tive uma ideia satânica. Pensei: “e se essas suposições recorrentes não forem sinais de uma perturbação emocional, mas sim de uma percepção superior?”

– Você nunca tinha cogitado isso antes?

– Não, jamais levei essas convicções tão a sério. Nunca imaginei que elas pudessem ser explicadas por uma capacidade real de conhecimento. Mas entenda, eu nunca tinha tido a chance de pôr as minhas suposições à prova. Quando eu era criança, e morava no sítio de meus pais, tinha muita pouca informação sobre o mundo lá fora. Como poderia saber se eram verdadeiras minhas apreensões de que uma ação qualquer sobre meus brinquedos poderia ter uma consequência inesperada do outro lado do mundo?

– Eu imagino que essa seja uma limitação que se aplique ainda agora, não?

– O mundo mudou muito nos últimos quinze anos, professor… Com a internet, posso facilmente saber o que acontece no planeta inteiro!

– Não estou entendendo…

– Naquela noite eu finalmente me dei conta de que agora eu tinha à minha disposição os meios com que poderia provar se minhas impressões eram ou não verdadeiras!

– Vendo na internet se alguma das previsões se concretizou?

– Sim! E foi naquele instante que começou o inferno em que serei obrigado a viver pelo resto de meus dias. Levantei-me da cama apavorado e sentei-me à mesa na cozinha. Em cima dela, havia um anão de cerâmica que uma tia minha havia me dado. Comecei a encará-lo de forma meio maníaca, tomado pela impressão de que aquele objeto encarnava algum destino funesto. Brotou, então, na minha cabeça mais uma dessas impressões de que falei. Supus que, se eu derrubasse o anão, em algum lugar do Himalaia um avião iria se acidentar, matando dezenas de pessoas inocentes. Como diabos um anão de cerâmica, desses de nariz rechonchudo e gorro vermelho, poderia provocar um acidente aéreo? Não faço a menor ideia! É óbvio que os dois acontecimentos não parecem possuir qualquer relação! Ainda assim…

–Você mesmo tem consciência de que a suposição é absurda. Por que se permitiu entrar tão fundo nessa doideira?

– Eu tentei manter uma postura racional diante da coisa. Ainda que sentisse intensamente a convicção de que estava à minha mão o poder de provocar uma catástrofe, decidi provar que aquilo não era real. Dei um peteleco na cabeça do anão e o derrubei sobre a mesa.

– Imagino que nada tenha acontecido.

– Sim, nada aconteceu, pelo menos naquela hora. Acho que eu esperava que o prédio desmoronasse, ou que um meteoro caísse sobre a cidade, mas a vida continuou. Foi um tremendo alívio. Finalmente tive tranquilidade o suficiente para dormir. Desabei na cama e só acordei quase ao meio-dia do dia seguinte.

– Resolvido o caso?

– Quem me dera! No dia seguinte acordei apreensivo. Ainda não havia concretizado meu experimento, faltava verificar na internet se havia alguma notícia que confirmasse que existia uma conexão causal entre a queda do anão e algum acidente aéreo. Antes de fazer qualquer coisa, corri ao computador e abrir um site de notícias, sentindo o coração na goela. Não gosto nem de lembrar do que senti naquele instante…

Zé suspirou, e ficou alguns segundos com o olhar perdido no tapete.

– Professor, o senhor por acaso se lembra do que aconteceu no último dia oito?

– Não…

– Um avião comercial caído no Nepal! Quase 150 pessoas desparecidas! Você consegue imaginar como eu me senti, professor? 150 pessoas mortas, espatifadas na rocha ou carbonizadas, e tudo por que eu dei um peteleco na porra de um anão de cerâmica!

– Calma aí, Zé! Eu entendo que você tenha ficado assustado, realmente foi uma coincidência sinistra. Mas acidentes aéreos acontecem o tempo inteiro. O que em outra circunstâncias seria apenas mais uma manchete tornou-se, naquele contexto, motivo para perturbação.

– Mas justo no Himalaia, justo naquela hora? Seria realmente uma coincidência fabulosa! Mas você não está me entendendo, professor! Essa foi apenas a primeira revelação. Agora que eu sabia que existia um método para comprovar minhas intuições, eu podia testá-las. E professor, o senhor não acreditaria se soubesse o que descobri… Eu desvendei uma verdade diabólica! Não há espaço para ilusões! Professor, nós vivemos numa medonha e indecifrável máquina concebida apenas para nos atormentar!

– Por que, Zé? Pelo amor de Deus, pára com isso!

– Sim, professor, eu descobri que todos os acontecimentos do mundo, todas as desgraças, todos os infortúnios aparentemente imprevisíveis, estão encadeados, segundo misteriosas conexões, às coisinhas mais banais que o senhor poderia imaginar! E agora não há um segundo, um instante que seja em que eu não sinta na minha pele a iminência dessas catástrofes! Ah, se o senhor soubesse quantos vidas dependem desses objetos que o senhor vê espalhados por aqui! É terrível demais!

O rosto de Zé estava ensopado de suor. A tensão em seus músculos era tamanha que, magro como ele era, parecia que seu corpo ia arrebentar.

– Zé, o que você está tentando me dizer é que, se eu mexer em qualquer uma dessas quinquilharias que você empilhou em seu apartamento, terríveis desgraças poderiam acontecer?

– Professor, o senhor precisa compreender…

Batman saberia muito bem que alguns dos mais terríveis inimigos encontram sua força não na brutalidade física, mas em sua capacidade de obcecar e enfraquecer a mente. O Professor Marcos Delgado não se permitiria ser tão facilmente convencido pelos disparates de um lunático, ainda que fosse um lunático inteligente. Se cedesse um pouco que fosse, poderia ser ele mesmo enredado na trama.

Marcos se levantou, indignado, e apontou para as garrafas que estavam postas no centro do hexágono de livros.

– Zé, e o que aconteceria se eu derrubasse aquelas garrafas ali?

Um surto de pavor pareceu tomar de conta do rapaz.

– Professor, pelo amor de Deus, não faça isso!

– Meu amigo, a gente tem que acabar com essa brincadeira logo! Se você continuar com isso, você vai terminar endoidando de verdade!

– Por favor! – O jovem se levantou e tentou segurar Marcos pelo braço, ao perceber que ele caminhava em direção ao centro do tapete, onde estavam arrumados os livros e as garrafas vazias. Ao ver que não tinha forças para impedi-lo, Zé começou a gritar. – Professor, você não entende! Pelo amor de Deus, não derruba essas garrafas!

Marcos sentia que era seu dever mostrar a loucura de tudo aquilo. Desvencilhando-se de Zé, deu um tremendo chute, espalhando livros e derrubando todas as garrafas. Tão logo o fez, sentiu o aperto em seu braço ceder.

Ia voltar-se para dizer algo ao rapaz, mas ficou sem reação quando o viu. Zé estava de joelhos no chão, choramingando de forma desesperada.

– O senhor tinha prometido não tocar em nada! O senhor tinha prometido! – E voltava a soluçar. Aquela imagem crua da loucura apavorou o professor Marcos. Ele recuou até a porta, sentindo vontade de sair o mais rápido possível dali. Quando chegou à porta, Zé o encarou, com os olhos vermelhos e o rosto contraído numa careta deplorável.

– O senhor não tem a menor ideia do que fez.

***

Já era tarde quando Marcos saiu do Portal da Boa Vista. Recife assumira um ar ainda mais soturno: não havia vivalma nas ruas. Marcos caminhava absorto, sentindo-se frustrado, remoendo o diálogo que tivera. Talvez ele se tivesse imaginado capaz de uma intervenção rápida e incisiva, que traria Zé de volta a si com um apelo aos fatos. Agora ele se sentia arrependido pela má avaliação que fizera. O caso era muito mais grave do que havia pensado.

Estava tão ensimesmado que mal se importou quando foi abordado por um jovem delinquente na Manoel Borba, já perto de casa:

– Aê, fera, passa a carteira aí!

– Hein?

– Passa a carteira aí, moral!

– Ora, vá tomar no cu, seu porra! A carteira o caralho!

Sentiu vontade de encher o adolescente de porrada, mas se controlou e continuou até o portão de seu prédio. Sentiu-se um pouco melhor quando, ao entrar em seu apartamento, ouviu um miado de boas vindas.

– Oi, Átila!

Marcos sentou-se no sofá e deixou que seu gato preto sentasse em seu colo. Enquanto o acariciava, observava pela janela o amarelado lívido que as luzes de Recife projetavam sobre as nuvens que passavam, pesadas, sobre a cidade. Sentiu-se terrivelmente só, como frequentemente acontecia quando ficava acordado até aquela hora. Os espigões que via, ameaçadores, na paisagem transmitiam-lhe tudo menos a sensação de vida. Àquela hora, Recife parecia morta, como uma antiquíssima cidadela que tivesse sido abandonada após uma maldição divina.

Foi dormir infeliz. Acordou mal humorado.

Sua cabeça, pelo menos, estava fresca: não se lembrava do que havia acontecido na noite anterior, só sabia que tinha que se apressar para pegar o ônibus e ir à Cidade Universitária. Levantou-se ainda tonto e foi preparar o café. Como de costume, ligou o rádio para ouvir as notícias. Enquanto espremia o suco de laranja, ouviu o locutor narrar a manchete: um terrível tsunami havia atingido a Indonésia. Foi uma das maiores catástrofes que já se abateram sobre o país: dezenas de cidades costeiras foram inteiramente destruídas, milhares de pessoas morreram, um número ainda maior ficou desalojada. Os prejuízos eram incalculáveis, e as agências humanitárias temiam que o impacto da catástrofe humanitária pudesse se agravar nos dias seguintes.

Uma notícia realmente dramática, mas, para bem ser sincero, nada que fosse interromper a rotina de um professor universitário que mora do outro lado do planeta. Para Marcos, a enormidade do sofrimento daqueles desconhecidos era uma conjectura: algo que podia ser apenas imaginado, mas não sentido na carne. Ele continuou, portanto, preparando seu desjejum enquanto o jornalista descrevia a paisagem apocalíptica que se havia tornado aquela parte do mundo. Talvez o cheiro de café, ou talvez o insistente ruído do motor do espremedor de laranja fez Marcos se lembrar de suas experiências na noite anterior. O apartamento abarrotado de bugigangas, a conversa alucinada com o jovem, a discussão que tiveram no final e a decisão de Marcos de desorganizar as garrafas vazias que estavam postas em cima do tapete.

Um tremor correu-lhe o corpo. Será possível que… Não, ele não poderia se deixar levar pela lógica de seu aluno. Era óbvio que não podia haver qualquer conexão possível entre o fato de ele ter espalhado aquelas garrafas pelo tapete da casa de Zé e um tsunami ter se formado no Oceano Índico. O mero fato de ele ter sido capaz de fazer essa associação já era preocupante…

O locutor informou que o terremoto que provocara o tsunami ocorrera por volta das 23:15 hs da noite anterior, no horário de Brasília. Foi mais ou menos nesse horário que Marcos saiu do Portal da Boa Vista. O professor olhou para Átila, que esperava, ansioso em cima do sofá, que seu humano colocasse sua comida no potinho.

– Será possível, Átila? Será que eu matei todas essas pessoas?

– Miau!

– É verdade!

O gato tinha razão. Que importava se Zé estava certo ou errado? Se existiam mesmo as conexões ocultas de que ele falava, os homens não podiam ser responsabilizados por desencadeá-las. Tudo bem que Marcos poderia ter dado um pouco mais de atenção aos alertas de Zé, mas… Ora, mas como assim? Com toda probabilidade aquilo havia sido uma coincidência! Certamente muitas outras coisas ruins devem ter acontecido na face do Planeta Terra no exato instante que Marcos derrubou as garrafas. Sem muito esforço, ele poderia estabelecer uma relação causal com qualquer daqueles acontecimentos! Se passasse a acreditar nisso, em pouco tempo ele mesmo estaria doido, sem coragem de sair de casa, arrumando seus objetos como se eles pudessem influir na vida de quem vivia a milhares de quilômetros! Para não falar nos efeitos que poderiam ser desencadeados do outro lado da galáxia, ou quem sabe no outro extremo do universo, onde civilizações inteiras poderiam ser aniquiladas pelo mero fato de Marcos ter amarrado primeiro o cadarço do sapato esquerdo, e não do direito.

Não, definitivamente ele não se permitiria entrar nessa! O Cavaleiro das Trevas encontraria um jeito de resistir aos jogos mentais dos vilões. Marcos, também, saberia se preservar daquela doidice.

Sentiu-se revigorado, resolveu pôr mais comida do que o habitual para Átila, como recompensa por tê-lo ajudado a se livrar das fixações. Tomou banho, barbeou-se, vestiu-se e saiu pelas ruas da Boa Vista, com disposição renovada para enfrentar os desafios do dia. Partiu, num ônibus atulhado de gente suada, rumo à Cidade Universitária.

A ausência de Zé na aula fez Marcos sentir nova apreensão, mas dissertar sobre epistemologia das ciências sociais tinha um efeito relaxante sobre sua mente. Ao final, ele estava novamente confiante, e até pensou em telefonar para o aluno para ver se ele estava melhor. Pensou um pouco mais, porém, e achou melhor manter a distância.

Chegou em casa exausto, depois de ter pegado um puta engarrafamento na Caxangá. Brincou um pouco com Átila, jantou e depois se permitiu um prazer indulgente: ler a última edição da revista do Batman, que ele havia acabado de comprar na banca da parada de ônibus da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Nada de escrever papers ou revisar projetos de dissertação mal escritos naquela noite. Abriu até uma das long necks que ele sempre deixava na geladeira para momentos críticos.

Estirado no sofá só de bermuda, acompanhado de seu fiel escudeiro – que passeava elegantemente de lá para cá pela sala – bebericando a cerveja geladíssima e petiscando amendoim de um pires, ele apreciou sem pressa a revista. Deteve-se em cada painel, observando os detalhes do uniforme do herói, os efeitos expressivos que o ilustrador havia conseguido dar aos vilões, os aspectos do sombrio cenário por que o homem-morcego circulava. Era um momento de intenso prazer, e por isso o professor Marcos se sentiu tão mais irritado quando viu que seu celular tocava.

– Mas que caralho! Quem diabos será a uma hora dessas?

Era Zé. Marcos tinha seu número gravado no celular. Sentindo uma desconcertante ansiedade, atendeu.

– Alô?

– Professor, eu tenho algo muito importante para perguntar ao senhor.

Marcos sentiu-se apreensivo, receoso de mais uma vez se deixar levar pela insanidade de Zé. Apesar de certa curiosidade mórbida sobre os rumos que a conversa poderia tomar, ele queria manter sua serenidade de espírito, e por essa razão tentou desconversar:

– Você está melhor? Notei que você não foi à aula mais uma vez.

– Professor, nós não temos tempo para isso. O que eu vou dizer é extremamente importante, mais importante que qualquer coisa que jamais tenha acontecido na sua vida!

– Você ainda está nessa? Nossa conversa de ontem não te fez ver que essa sua estória não tem pé nem cabeça?

– Professor, eu não o culpo. O senhor realmente não tinha como saber. Não acho que o senhor deva se sentir responsável pela morte dessas pessoas. Mas agora eu lhe imploro, por favor, escute o que vou dizer!

– Pela morte de quem? Não sei do que você está falando!

– Para que negar? É difícil aceitar que toda aquela destruição e todas aquelas mortes tenham sido causadas pelo senhor… Mas no fundo o senhor deve sentir que é verdade, porque essa é a verdade!

Marcos permaneceu em silêncio, sentindo um peso sobre os ombros e a garganta. Ele estava novamente perdendo o controle. Havia uma pontinha de sua mente que queria acreditar no que Zé dizia, a outra queria escapar daquele jogo.

– Professor, a pergunta que eu vou fazer vai parecer muito estranha, mas peço que tente me levar a sério. Muito mais do que você imagina depende disso…

O professor Marcos Delgado sentia como se estivesse prestes a fazer algo proibido.

– Diga.

Depois de um suspiro, o aluno disparou:

– Quantas vezes você passa o papel higiênico na bunda quando vai ao banheiro?

O feitiço desfez-se.

– Você tá me zoando, né? Você não tá louco porra nenhuma, você tá querendo é tirar onda com a minha cara, não é?

– Professor, eu sei que parece estranho, mas eu imploro, por tudo o que é mais sagrado! Eu nunca falei tão sério na minha vida! Farei o que o senhor quiser para que acredite em mim! Eu saio do meu apartamento, volto às aulas, faço qualquer coisa, mas por favor, me escute!

O tom de desespero na voz não parecia fingido. O rapaz parecia estar prestes a cair numa nova crise de choro. Lembrando-se do esgar desesperado que o vira fazer na véspera, Marcos convenceu-se de que a pergunta despropositada deveria ser apenas mais um sintoma de loucura. No fundo o jovem era quem mais sofria com aquilo tudo.

– Tudo bem, se acalme, eu vou fazer um esforço para não ficar muito puto.

– Obrigado! Se o senhor apenas pudesse entender! Mas eu preciso saber, professor, quantas vezes você passa o papel higiênico na bunda quando vai ao banheiro?

Foi difícil controlar a raiva.

– Eu sei lá, ora porra! Você acha que eu fico contando quantas vezes eu passo a porra do papel higiênico quando vou limpar o rabo?

A pergunta escondia parte da verdade. O professor Marcos Delgado tinha, já desde muito tempo, um pequeno tique. Sempre que ia ao banheiro, ele contava o número de vezes que passava o papel higiênico na bunda, e sempre, sem exceção, tomava muito cuidado para que no final ele tivesse passado o papel um número par de vezes. Ou seja, podia passar quatro vezes, seis vezes, oito vezes, mas jamais três, cinco ou sete.

Zé hesitou, e depois disse, para enorme assombro de seu professor:

– Na verdade, não importa o número exato de vezes. Mas professor, preste muita atenção ao que vou dizer: nunca, mas nunca mesmo passe o papel higiênico um número de vezes ímpar na bunda!

Marcos não podia acreditar. Ele jamais havia mencionado essa sua mania a quem quer que fosse. Zé não poderia ter adivinhado aquilo!

– Por quê?! Por que, Zé?!

– Professor, tudo aquilo que você conhece, tudo aquilo que você mais ama depende disso. É só o que eu lhe peço, e prometo que jamais voltarei a aborrecê-lo com essas minhas teorias. Irei para as aulas e concluirei a disciplina, e nunca mais conversaremos sobre esse assunto. Mas por favor, nunca passe o papel um número ímpar de vezes na bunda! Você me promete?

Foi difícil decidir.

– Você me promete, professor?

– Eu prometo, Zé…

***

Naquela noite, sentindo um misto de vergonha e ansiedade, o professor Marcos Delgado repassou mentalmente os diálogos que tinha tido com Zé, ao mesmo tempo em que fantasiava sobre o que podia acontecer caso descumprisse a solene promessa que havia feito.

Seu eu racional achava aquilo tudo indigno. Que senso de respeito poderia ter uma pessoa que se deixa amedrontar por tal ordem de associações? É bem verdade que ater-se à palavra dada não seria nem um pouco custoso – ainda mais porque corresponderia a uma superstição que Marcos já possuía. Ainda assim, era degradante para um homem racional se permitir uma reserva motivada por razão assim tão tresloucada.

A coincidência do tsunami era o que o deixava hesitante. Ele não podia evitar a clássica pergunta “E se?”. Pois é, e se aquilo fosse verdade? E se Zé realmente fosse um visionário dotado de percepção sobre-humana?

Ceder era um risco. Seria apenas o começo. E depois, que mais Marcos aceitaria? Até onde ele estaria disposto a ir nessa brincadeira com a loucura? Quem garantia que esse não era apenas o primeiro passo num caminho sem volta?

Suas meditações foram interrompidas por uma súbita necessidade de ir ao banheiro. Seria a Providência dando-lhe uma chance de provar a si mesmo que ainda estava são?

– Que coisa, Átila! Será que o Batman já enfrentou uma aventura assim?

– Miau!

Não havia um segundo a perder. O chamado da natureza era um pouco premente. Pulemos, aqui, uma etapa da narrativa que seria um tanto supérflua, e reencontremos nosso herói ao toalete, ocupado em assear-se.

“Uma”. Ele contou mentalmente. Nada de errado aconteceu. É claro, seria loucura pensar que aquele gesto tão prosaico pudesse ter implicações desditosas.

“Duas”. Mas quem sabe, né? Com uma coisa tão boba, não custava ter um pouquinho de precaução. A coincidência do tsunami havia sido, para bem dizer verdade, um tanto assustadora…

“Três”. Ainda não estava completamente asseado. Melhor passar um pouco mais. “Quatro, cinco, seis, sete.” Pronto, agora sim. A bunda estava limpa. Mas sete era um número ímpar, e agora? Por que não passar só mais uma vez, só para ter certeza? Que custava evitar alguma terrível catástrofe com uma passadela de papel higiênico nas nádegas?

“Oito”. Pronto. Estamos resolvidos. O mundo continua a girar, e ninguém poderia responsabilizá-lo pelo que quer que fosse. Ainda assim, tamanha covardia era uma vergonha! Como ele poderia se julgar um homem – e ainda mais se comparar ao Batman – se não tinha coragem sequer de passar o papel higiênico um número ímpar de vezes no traseiro!

“Nove”. Sim, ele pararia no nove. Mostraria que era uma pessoa adulta e racional, faria jus à tradição intelectual helênica de que a academia tanto se orgulhava. Não permitira ser um joguete dessa maldita numerologia caldeia.

“Dez”. Foi meio que involuntário. Ele quase nem notou o gesto. Bem, já que aconteceu, poderíamos parar por aqui. Não?

Não! “Onze”. A bunda já estava ficando um pouco ardida com aquela palhaçada. Que situação, que cena ridícula, ele ali temeroso com o destino da humanidade, sem conseguir decidir-se a terminar de limpar os fundos.

“Doze”. Havia um restinho só de sujeira, ele passou essa última vez só para se certificar de que um dos lados havia ficado plena e inteiramente limpo.

A sensação que o professor Marcos sentiu naquele instante foi a de estar diante de um precipício. À distância, numa vastidão jamais devassada por mente mortal, podiam-se discernir relampejos de uma descomunal borrasca, em nebulosas plúmbeas que deviam estar a centenas, milhares ou quem sabe mesmo milhões de quilômetros de distância. Atrás do titânico paredão de nuvens, intuía-se uma presença – quem sabe uma vasta inteligência adormecida, esperando apenas a primeira oportunidade de se imiscuir no real, quem sabe o Nada definitivo, a que tudo, um dia, retornará.

Não, um verdadeiro herói jamais se deixaria vencer pelo horror à treva. “Treze”, ele contou.

***

Cabe aqui mencionar que, na noite anterior, um velho sábio zoroastra chamado Arash chegou tarde da noite a uma remota vila no Baluchistão. Trazia consigo, na velha camionete com que atravessara o deserto, uma carta astrológica aquemênida. Depois de estacionar o carro entre algumas habitações brancas de estuque, dentro das quais dormiam as famílias dos aldeões, ele dirigiu-se a uma das casas e esmurrou a pesada porta de madeira.

– Arash! Que o Altíssimo seja louvado! O que o traz à minha casa tão tarde da noite?

A brisa gélida que soprava do deserto parecia evocar rememorações solenes.

– Behnam, meu amigo, os sinais se mostraram…

– Como assim, Arash?

A face enrugada do velho sacerdote expressava um ar de temor reverencial.

– Que Deus se apiede de nossos pecados!

– O que?

Tremendo de pavor, o velho apontou com a mão direita para o firmamento, onde uma estrela vermelha havia despontado, numa posição onde jamais estivera. Com a mão esquerda, mostrou a Behnan o mesmo astro escarlate estampado no pergaminho aquemênida, que, há mais de um milênio, havia previsto o fim dos tempos.

red star

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2 Respostas para “As Conexões Ocultas

  1. Nooooossa, demais, Du! Muito bom, esse seu conto! Arrepiante… Empolgante, com um suspense contagiante e uma questão filosófica persistente sobre a relação entre causalidade e efeito. Até parece que Hume surge no meio do texto pra falar da subjetividade e sua concepção do Empirismo. Depois dá o seu ar da graça, o velho Leibniz, ao se tornar vívida a ideia de efeitos como resultados de causas necessárias. Mas daí, quando a filosofia se aparelha da física, como instrumento de comprovação, ou de complicação do jogo de dados do Universo, o piso sobre o qual nos apoiamos parece ceder sob os nossos pés. Você precisa publicar esse conto num livro de papel e vender como o Borges fazia na juventude. Eu faço a capa pra você!

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  2. Também quero publicar, Marcelo! Mas acho que preciso de mais contos para fazer um livro. Eu já tenho crônicas o bastante para um segundo livro, mas não fiz tantos contos. A questão é: quem me publicaria? Rss Será uma honra se você topar fazer a capa para mim. A propósito, se quiser publicar algo no blog, avisa!

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