Aristóteles contra Descartes e Kant

aristótelesO pensamento moderno tende a afirmar a subjetividade do conhecimento (pelo menos no campo das ciências humanas). O mundo seria um caos aparente; é a mente humana que dá forma ao mundo exterior. Hoje em dia, escutamos qualquer universitário dizer: ” – Você tem a sua verdade; eu tenho a minha; e ambos estamos certos”. Do subjetivismo passa-se facilmente ao relativismo. Mas muitos não se atentam que esse relativismo é meramente teórico e é simultaneamente negado, na prática e pela prática, por uma juventude universitária militante, a qual é, por definição, extremamente afirmativa e sai por aí dizendo o que é certo ou errado.

Mas deixemos de lado a massa estudantil e voltemos da assembléia do DCE para a sala de aula.

Nos manuais de história da filosofia, aprendemos que Immanuel Kant estabeleceu o criticismo, que finalmente colocou os pingos nos “is”, corrigindo o empirismo, por um lado, e o subjetivismo, por outro. Para Kant, o conhecimento começa – sim – com os dados sensíveis, como querem os empiristas, mas são trabalhados pelas formas a priori universais que estão na Razão humana.

Pouca gente se dá conta de que essa aparente solução kantiana é, na realidade, uma aporia filosófica muito maior.

Para Kant, jamais poderemos saber com exatidão o que são as coisas em si mesmas (você, para mim, tem a aparência de um interlocutor inteligente, mas nada impede que o seu Númeno seja um pato na lagoa e eu seja um javali de tamanco, a despeito das nossas aparências fenomênicas).

O kantismo é rebuscado, mas é artificioso. A nossa experiência desmente Kant. É muito mais racional pensar que eu e você nos vemos com formas humanas simplesmente porque temos formas humanas. O problema da Modernidade em reconhecer esse postulado singelo e evidente da experiência é que ele levaria a admitir as consequências científicas do aristotelismo: que a nossa razão ordenadora participa de uma razão mais abrangente, ordenadora de nós mesmos e do mundo ao nosso redor; em outras palavras, que a nossa inteligência individual é imagem de uma Inteligência que governa o cosmos.

É muito mais lógico admitir a existência do Logos.

Vamos separar as coisas. O testemunho de São João de que Jesus Cristo é o próprio Logos encarnado é pura questão de fé. Mas a experiência de participação no Logos, reconhecer a sua presença, não é uma questão de fé, é apenas uma questão de inteligência intuitiva.

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Uma resposta para “Aristóteles contra Descartes e Kant

  1. Caro Fredon,

    Como um kantiano bem-resolvido, preciso aqui discordar um pouquinho de suas doutas considerações!

    Se se faz uma leitura de Kant buscando argumentos para justificar o relativismo filosófico de nossos tempos, essa leitura é equivocada. O que Kant propõe, na verdade, é que nossa experiência de mundo está condicionada, por um lado, pelo nosso aparato cognitivo inato (que é, segundo ele, racional) e, por outro, pela impossibilidade de conhecer a coisa-em-si. O que nós percebemos são os fenômenos, ou seja, a impressão mental que esses hipotéticos objetos reais provocam em nossos sentidos.

    Perceber isso de forma alguma nos permite justificar um subjetivismo extremado ou um relativismo. Ao contrário do que se possa pensar, os fenômenos possuem, sim, objetividade e racionalidade. Podemos vivenciar a racionalidade do mundo – ou seja, o logos – tanto por percepções racionais a priori como pela meticulosa observação dos fenômenos (que não são, de modo algum, aleatórios). Os fenômenos são reais, e nos indicam a existência de um mundo real (Kant não é, portanto, um solipsista).

    Acho que se fazem leituras equivocadas de Kant, tentando extrair conclusões políticas de suas percepções estritamente filosóficas. Mas ele é um filósofo muito sério, e acho pouco provável que ele estivesse mascarando, por trás de sua filosofia do conhecimento, uma agenda política (essa agenda é abordada em outros textos, e de uma forma honesta, aberta).

    Kant é um baita de um objetivista! Ele simplesmente nos mostrou que existem limites intransponíveis ao conhecimento racional (o que não significa que outras vias de conhecimento, como a fé ou a revelação, não possam ser aceitas como mecanismos para escapar dessas limitações). A Crítica da Razão Pura foi uma das leituras mais recompensadoras que fiz na vida.

    Grande abraço!

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