Conto de Horror: Fenomenologia para Principiantes

corredor

Quinta-feira à tarde no escritório é o dia da torta. Não se sabe exatamente como surgiu a tradição – nem os funcionários mais antigos lembram – mas ninguém seria doido de desafiar o costume. Cada semana uma pessoa diferente leva uma torta e, por uns vinte minutos, toma-se café ou chá e discutem-se assuntos da mais absoluta frivolidade – seguindo especificações também não escritas da regra geral. Ruim como seja para os que fazem regime, essas reuniões são boas para colocar a conversa em dia, e discutir frivolidades sobre o Serviço Exterior.

Da última vez foi um pouco diferente. Passamos quase o tempo todo escutando Eliane nos contar o que havia acontecido com ela duas noites antes. Por um erro do segurança que fecha as salas, ela ficou trancada a noite inteira dentro da divisão!

Eliane, acho que cabe aqui explicar, é uma de nossas oficiais de chancelaria. Ela é feminista, tem uma mecha cor de rosa no cabelo e é fã da cultura japonesa – e creio que isso já diga o essencial. Como o seu marido estuda, ela precisa trabalhar em horário alternativo para cumprir as oito horas diárias dessa corvéia a que todo funcionário público está, segundo a letra da lei humana e divina, obrigado. Ou seja, todo dia ela chega ao escritório mais ou menos ao meio dia e, por causa do horário de almoço, ela tem de ficar até mais ou menos às nove horas da noite trabalhando.

Maior parte dos funcionários do Itamaraty volta para casa às sete. Às oito e meia, mesmo os diplomatas workaholics também já estão indo embora. Às nove horas não tem mais ninguém no ministério: o Anexo I, com seus corredores sombrios, vira cenário de filme de terror. Já é um pouco assustador imaginá-la sozinha, em meio às pilhas e pilhas de documentos da divisão, onde seria muito fácil um assassino entrar e sair sem ser notado. A idéia de passar a noite inteira trancada ali era de dar calafrios.

– Que horror, Eliane! – disse outro de nossos colegas – Mas o segurança não viu se ainda tinha gente trabalhando?

– Olha, se ele chamou, eu não ouvi.

Eliane não foi a primeira e não será a última pessoa a ficar trancada dentro de uma sala no Itamaraty. Todas as noites o segurança teoricamente tem a precaução de bater na porta e perguntar se há alguém dentro. Mas a verdade é que são muitas salas por andar, e se ele fosse muito meticuloso, essa obrigação enfadonha poderia levar tempo demais. O que torna o caso realmente singular é que, por uma série de coincidências impressionantes, ela não conseguiu pedir ajuda a ninguém.

Em primeiro lugar, porque o seu marido – que também trabalha no ministério – naquela semana estava viajando. Em segundo lugar, justo naquela noite a rede de telefones estava com problemas, e Eliane simplesmente não tinha como ligar para a portaria para pedir ajuda. Para completar, aconteceu justo na época em que se estava organizando um grande evento em Brasília, ou seja, aconteceu numa noite em que Eliane estava disposta a ficar ainda até mais tarde do que de costume. Quando ela percebeu que estava trancada, já passavam das dez, ou seja, o próprio Eixo Monumental já havia voltado a ser a desolação que era antes da intervenção civilizatória de JK.

– Mas por que você não gritou por ajuda, pelo amor de Deus?

– Ah, meu bem, e você acha que eu ia perder a pose? – e ela soltou uma risadinha sarcástica que lhe é muito própria. – Olha, para ser bem sincera, com a porcaria dessas licitações que eu precisava fazer, eu tinha trabalho para ficar acampada aqui a semana inteira. Logo quando eu vi que tinha ficado trancada, eu até fiquei um pouco assustada. Mas depois de ter batido na porta e chamado pelo segurança umas dez vezes eu disse – quer saber? Foda-se. Não vou ficar me esgoelando. Vou ficar aqui adiantando o trabalho e amanhã e durmo durante o dia.

– Ai, meu Deus, que horrível! – falou o outro colega, com pathos, comendo uma garfada de torta de chocolate para se reanimar. – Só de pensar em ficar aqui sozinho nesse prédio enorme eu fico morrendo de medo! Eliane, você é muito corajosa, hein?

– Ai, gente, também não é para tanto. Foi até divertido! – Se ela tinha sentido medo ou não, no fundo ela estava gostando de se tornar o centro das atenções. Talvez por isso ela estivesse minimizando um pouco o caso, como às vezes acontece em situações traumáticas da qual escapamos ilesos.

– Vem cá, você não sentiu medo de ver um fantasma não? Aqui deve ser cheio, viu? Esses diplomatas são todos tão obcecados que quando morrem devem continuar vagando por aí. – disse o mesmo que se havia definido como medroso.

– Ai, que besteira, hein? – respondeu Eliane, divertindo-se cada vez mais.

– Mas você não escutou nenhum barulho esquisito? Não viu nada de estranho?

– Olha, para ser bem sincera, não. Quer dizer, aconteceu uma coisa estranha, mas não tem nada a ver com o além.

– Vai, conta, eu adoro história de terror!

– Não é nada demais, é só uma besteira. Mas eu não vou mentir, tive um pouco de medo sim.

– E o que foi?

– Bem, depois das sete horas, esse lugar vira um túmulo. Qualquer barulhinho parece que ecoa pelo corredor inteiro.

– Vixe! Que medo!

– Ai, deixa de ser bobo, não é nada demais. Mas, bem, o engraçado é que isso meio que permite ver os hábitos das pessoas. Tem um cara aqui na divisão ao lado, por exemplo, que todo santo dia às oito horas vai pra casa. Eu sei disso porque escuto o barulho da porta batendo e depois o som dos passos. Eu nunca o vi, mas sei que é um homem, porque dá para perceber pelo barulho do sapato social dele no piso. E tem a louca das oito e quarenta. É incrível, não sei nem quem é essa mulher, mas todo dia às oito e quarenta eu escuto o salto dela pelo corredor, marcando o piso com um som seco.

A essa altura da narrativa, Ricardo – nosso estagiário de informática, que tem ares de filósofo e é sempre muito desligado das questões mundanas do trabalho – passou a prestar um pouco mais de atenção ao que Eliane dizia, como se fosse interrompê-la.

– Eu fico me perguntando – continuou Eliane – será que esse povo não tem vida? Ficar até às oito e quarenta no trabalho para mostrar serviço? Por isso que esses diplomatas ficam meio doidos…

– Mas, peraí, Eliane, como você sabe que é um diplomata? – perguntou outro oficial de chancelaria.

– Uma diplomata, meu bem. Afinal, quem mais usaria um salto daqueles? Parece até que ele ta furando o chão quando passa…

Aqui Ricardo, o estagiário sábio, não se controlou e, para surpresa geral, interveio com uma observação estritamente filosófica.

– Isso é uma inferência sua. Tudo o que você pode dizer é que escuta um som marcado e seco ecoando às oito e quarenta da noite. Daí a dizer que era uma diplomata, é outra história…

– E era o que então, meu bem, uma cabrita? Ou talvez fosse um fauno passando pelo sétimo andar, por que não?

Meio ofendido de ter sido tão cruelmente interpelado numa de suas primeiras intervenções sociais, Ricardo respondeu, estoicamente:

– O que é verossímil não é necessariamente verdadeiro. Você não tinha como tirar sua conclusão só por esse som.

– Ai, meu Deus, tá bom… Posso continuar a história?

– Vai Eliane, conta que eu já to aqui roendo as unhas. – disse o auto-proclamado medroso.

– Bem, então, todo dia passa essa diplomata, ou cabrita ou fauno ou sei lá o que, às oito e quarenta da noite. Eu pensava que, tirando, claro, o meu caso, ela fosse a última funcionária a ir embora, já que depois disso eu não escutava mais nada até a hora de eu ir para casa.

– E não era a última não?

– Poisé, meu filho, foi aqui que eu descobri como tem gente doida nesse lugar. Vocês não vão acreditar, quando deu exatamente meia-noite, eu ouvi os passos de outra diplomata que estava indo embora!

– Ai, gente, mentira que alguém vai ficar aqui trabalhando até meia-noite, né?

– Juro a você. Bateu meia-noite e eu ouvi o salto dela ecoando. Acho que ela deve ter algum problema, porque ela andava mais devagar, como se estivesse mancando, mas não tem como confundir o barulho de um salto alto batendo no piso.

– Isso você que está dizendo. – interrompeu Ricardo, corajosamente – Do ponto de vista fenomenológico, tudo o que você pode dizer é que à meia-noite escutou um barulho seco que lembrava um salto alto de mulher.

Eu já tinha visto Ricardo folheando um manual básico de introdução à filosofia. Possivelmente ele tinha chegado ao capítulo de fenomenologia e estava tentando pôr em prática o que tinha aprendido, com toda a falta de tato de um estudante de ciências da computação.

– “Do ponto de vista fenomenológico” – imitou Eliane, fazendo voz de harpia para irritá-lo. – E o que diabos estaria provocando aquele som, então?

Nesse momento, como um grande mestre do diálogo que só intervém no momento mais oportuno, Israel, nosso assistente de chancelaria meio mórbido, meio metaleiro, disse:

– Talvez fossem os cascos fendidos do demônio ecoando pelo piso. Quem sabe ele não vem ao Itamaraty toda noite para levar embora as almas dos que se venderam para virar embaixadores.

Todo mundo, menos eu e Ricardo, riu com a piadinha de mau gosto. Eliane, triunfante, parecia achar que aquilo bastava para provar sua teoria, ou seja, a de que existem diplomatas malucas que ficam trabalhando todos os dias até meia-noite. E então eu, que estava meio intrigado com o rumo absurdo que aquela conversa estava tomando, falei, meio que para mim mesmo:

– Poisé, mas se realmente fosse o demônio passando, naquela hora Eliane teria sido tomada por pensamentos de infanticídio, possessão e adoração da besta…

Ninguém riu, o que tornou o absoluto pavor que Eliane sentiu naquele instante tão mais fácil de notar, no silêncio que se havia criado, pelo seu olhar vidrado perdido no vazio.

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