Quetzalcóatl

Quetzalcoatl_tellerianoAristóteles afirmava que a filosofia começa com o “maravilhamento”, com a capacidade de espantar-se diante do mundo. O mesmo sábio grego escreveu um livro chamado PROBLEMATA onde elenca cerca de 900 problemas filosóficos para os quais não tem respostas definitivas. Meu mestre me ensinou que uma vida de estudos deve começar pelo diagnóstico das minhas ignorâncias. Este site, enfim, se intitula de maneira pretensiosa TODOS OS PROBLEMAS DO MUNDO.

Pois, se neste site cabem todos os problemas, deverá caber também este que é gigantesco. O problema do ÔMPHALO!

O ônfalo é o umbigo do mundo. É um símbolo cósmico-político que representa um império como o centro do universo, mas não só isso. Na obra de Platão, fala-se do ônfalo de Delfos. No seu Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier aponta a existência de ônfalos nas culturas indiana e celta. Na Bíblia, esse mesmo símbolo aparece associado à coluna de Jacó. Para o rei Hammurabi, a Babilônia era o ônfalo do mundo: o centro de um império que se estendia para os quatro quadrantes do globo, sendo a cidade de Babi-lon, literalmente, a “Porta dos Deuses”. A China Antiga se diz, em chinês, “império do meio”. Meio de quê? Do mundo! O imperador chinês na Antiguidade devia cumprir todas as manhãs um ritual de percorrer os quatro cantos da sua cidade proibida, sob pena de, acreditava-se, provocar catástrofes naturais como terremotos ou tempestades, colocando assim todo o reino em risco. Meca funciona como um ônfalo para os muçulmanos; e Roma o é para os católicos.

Em AS AMÉRICAS E A CIVILIZAÇÃO, Darcy Ribeiro descreve a cultura mesoamericana como base para sua interpretação a respeito do México atual. Lá pelas tantas, afirma o seguinte: “O Zocalo, praça central da capital mexicana – umbigo do mundo – pavimentada com grandes quadrados de granito negro, sem bancos – para que todos estejam de pé, como convém ao centro cívico da nação – é o símbolo do México. Uma face do Zocalo é coberta pela velha catedral, soleníssima pelo estilo austero com que a Igreja Católica quis exprimir ali sua dominação sobre os cultos dos antigos mexicanos, descomunal por suas proporções, edificada sobre as ruínas do principal templo de Tenochtitlán. Em outra face do Zocalo se ergue o palácio governamental construído sobre a residência de Cauhtémoc, o chefe indígena supliciado e morto por Cortez” (Ed. Vozes; pg 117).

Quem conhece a capital do México sabe que Zócalo é o outro nome para a famosa Praça da Constituição, cartão-postal da cidade. Este segundo nome, oficial e moderno, é também significativo, pois, no fundo, todas as Constituições político-jurídicas são formadas pela junção dos elementos que se encontram naquela praça: a Catedral Metropolitana e o Palácio Nacional, quer dizer, o templo e a sede do governo. Em outras palavras, o poder espiritual e o poder secular, separados mas coexistentes. Esta é a fórmula: dois poderes distintos, porém um ao lado do outro, um defronte ao outro. Santo Agostinho usaria outro símbolo: a Cidade dos Homens e a Cidade de Deus designam o tempo e a eternidade.

Nas minhas viagens a turismo, deparei com essa mesmíssima arquitetura em várias cidades. Em Veneza, a Basílica de São Marcos, padroeiro da Sereníssima República, estava ao lado do Palácio do Doge. Em Madrid, a Catedral de Almudena estava em frente ao Palacio Real de Espanha. Até na minha querida São Luís do Maranhão, a igreja da Sé divide a mesma praça com o Palácio dos Leões. E na vasta Brasília, o arquiteto ateu Nienmeyer achou de plantar sua Catedral Ecumênica na Esplanada dos Ministérios, não muito longe da Praça dos Três Poderes. Não deveria me espantar, portanto, o fato de que esse mesmo padrão se verificasse também em Tenochtitlán, centro político-religioso dos astecas. Não deveria… mas a filosofia começa com o espanto.

Um dado revelador, mencionado en-passant por Darcy Ribeiro, é que a catedral mexicana foi edificada sobre as ruínas do principal templo de Tenochtitlán e a sede do atual governo federal é a antiga residência do último rei asteca, cujo sangue foi derramado pelo conquistador espanhol. Ora, todos sabemos que um traço marcante da sociedade asteca é que os astecas ofereciam sacrifícios humanos ao deus Sol. Esse aspecto sacrificial aparece, portanto, duplamente na história mexicana.

Enfim, tudo pode parecer muito confuso, pois estou levantando uma série de alusões, ilações, associações, enfim PROBLEMAS, sem nada propor como resposta. Mas tudo pode ficar ainda mais confuso, ou definitivamente claro, se eu afirmar que a chave para todas essas perguntas estaria em Apocalipse 5, 1-10.

Agora, para complicar um pouco mais. Continuo lendo Darcy Ribeiro e descubro que a confederação asteca era composta de três cidades principais: Tenochtitlán, Tlacopán e Texcoco. Esta última tinha uma cosmologia diferente da dos vizinhos mexicas. Afirma o antropólogo: “Os Texcoco cultivavam principalmente Quetzalcóatl, uma divindade mais benigna, definida como um ser supremo que devia ser cultuado através da oração, do canto e da poesia, e a quem repugnavam os sacrifícios humanos. Acresce que este Quetzalcóatl era descrito como um homem de tez branca e longas barbas, que se esperava viesse viver um dia entre os homens, como um reformador dos costumes” (pg. 120).

O autor faz a associação óbvia que é relacionar a expectativa dessa divindade à chegada dos espanhóis, sugerindo, como fazem a maior parte dos historiadores, que os nativos mesoamericanos trataram os conquistadores como se fossem deuses ou como se Hernán Cortez fosse o próprio Quetzalcóatl encarnado. Não duvido de que isso tenha sido mesmo um fato histórico. Mas do ponto de vista antropológico há outros detalhes muitíssimo mais interessantes que escapam completamente à observação de Darcy Ribeiro.

Será que Quetzalcóatl, a Serpente Emplumada, não era uma espécie de “figura Christi”? Algum teólogo poderá objetar que a serpente alada, o dragão apocalíptico, só poderia ser um símbolo do demônio, nunca do Cristo. Entretanto, eu observo que o próprio Jesus Cristo se identifica, na conversa com Nicodemos, como “a serpente no deserto que precisa ser levantada” (Jo 3, 14-15). A referência de Jesus é o episódio da serpente de bronze no livro de Números 21, para onde remetemos o leitor. O Filho do Homem precisaria ser levantado, quer dizer, o Cristo precisaria passar pelo sacrifício da cruz; ser alçado à cruz como uma espécie de “trono”, como um rei “coroado de espinhos”. Novamente, a chave do universo é Apocalipse 5, 1-10.

Outros elementos de Quetzalcóatl levam-nos a pensá-la como “figura Christi”. Segundo Jacques Soustelle, em A CIVILIZAÇÃO ASTECA, essa divindade era rei-sacerdote. Ora, em toda a Sagrada Escritura a figura do rei de Israel é separada da função sacerdotal. Melquisedec, rei e sacerdote de Salém, é a única exceção. Por isso, a Carta aos Hebreus o vê como uma “figura Christi” do Antigo Testamento (Hb 7 e Sl 109, 4). Se formos bem atentos, perceberemos que daquela mesma passagem em Ap 5, 9-10 e Ap 1, 6 decorre a promessa de um “reino de sacerdotes”. Mas a linguagem apocalíptica não tem a ver necessariamente com a colonização hispânica. São João Evangelista, autor do Apocalipse, está falando dos mártires da Igreja. O reino dos mártires por Cristo é o verdadeiro “reino de sacerdotes” a que ele se refere.

Enfim, esse tipo de estudo é muito perigoso para a fé. Porque ninguém acredita numa nota de três reais, que todos sabem que é falsa. É a verdade que fornece o fundamento para a mentira. É bem possível crer numa nota falsa de vinte reais, se revestida de todos os elementos de verossimilhança. O demônio também sabe disfarçar-se em espírito de luz. Então, para terminar com um derradeiro problema, em vez de encerrar com uma conclusão definitiva, este tal Quetzalcóatl pode não ser “figura Christi” coisa nenhuma, mas apenas uma imagem de Satanás. Pois este adora parodiar o Cristo. Afinal, a besta do Apocalipse possui “chifres como o Cordeiro” e “estava como que ferida de morte, mas essa ferida de morte fora curada” (Ap 13, 3) – o que é, sem dúvida, um arremedo macabro da Ressurreição.

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