Coxinhas Vs. Crepiocas Sem Glúten

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Ou

Notas sobre a Polarização Política no Brasil

 

Saquaremas e Luzias, Caramurus e Farroupilhas, Blancos e Colorados, Girondinos e Jacobinos, Whigs e Tories. Os livros de história estão recheados de exemplos de dualidades políticas que surgem em momentos de tensão. O acirramento leva à formação de polos que arregimentam os sentimentos do público. Quando isso acontece, os insultos não tardam. Alcunhas depreciativas, em referência à posição social do insultado, são inventadas para desqualificar, num golpe de retórica, todo o programa político dos opositores. Trata-se do velho argumento ad hominem: refutam-se as ideias não pela sua incoerência ou por lhes faltar fundamento, mas porque as características pessoais de quem as profere já bastam para retirar-lhe a credibilidade. Poderíamos, afinal, dar atenção às opiniões de uma privilegiada elite que se engalfinha para preservar sua posição? E com que seriedade podemos interpretar os urros enfurecidos dos descamisados, que propõem uma reviravolta da sociedade sem deixar muito claro quem pagará a conta?

Nós, brasileiros do século XXI, estamos testemunhando um desses emocionantes momentos –  tão adorados pelos historiadores pelo seu esquematismo – em que surgem as dualidades políticas. Nas eleições de 2014, o eleitorado dividiu-se em duas facções com posições quase irreconciliáveis. Havia, de um lado, os que queriam tirar o Partido dos Trabalhadores do poder a qualquer custo, nem que para tanto tivessem que eleger o próprio Belzebu ou, pior ainda, Marina Silva ou Aécio Neves. Do outro, havia os defensores desse intrigante socialismo com características brasileiras: os que apregoavam um Estado cujos gastos só são superados por suas tremendas boas intenções. A estes, era imperativo manter a esquerda na situação, nem que para isso tivessem que reeleger o Príncipe das Trevas ou, pior ainda, Dilma Roussef.

Depois das eleições, o brejo continuou a exercer sua misteriosa atração sobre a vaca – que caminha, a inexoráveis passos bovinos, para lá – e o acirramento entre as duas posições só se agravou. A coisa está tão feia que alguns analistas já falam até mesmo no fim da República Nova – ou seja, na sua miraculosa transformação em Segunda República Velha. Essa antecipação é um claro indício de que começa a tomar forma o capítulo dos manuais de história que serão escritos no futuro sobre o período que se iniciou em 2015.

Sou capaz até de imaginar uma pequena seção de abertura, em que o autor fará breve exposição da situação econômica e social do Brasil nos primeiros meses do ano do carneiro. Provavelmente dissertará sobre a desaceleração da economia, e sobre o impacto dessa tendência sobre o bem-estar dos principais grupos sociais envolvidos no debate. Será, então, o momento perfeito para apresentar às deslumbradas gerações do porvir a dualidade que se está conformando em nossa Política – aquela que, de tão importante, certamente cairá na prova. De um lado, estarão os representantes da classe média tacanha, que ainda não alcançaram um estágio mental desenvolvido o bastante para compreender as delícias de pagar impostos, ou a irrefutabilidade dos ditames econômicos do keynesianismo maoísta. São os que defendem o liberalismo-goebbeliano, em que todo ser humano tem total liberdade de consumir tudo aquilo que a mídia golpista nos mandar comprar. Vislumbram um mundo sem constrangimentos ao indivíduo, em que a PM pode bater em pobre e preto sem mimimi de pedagogos paulofreireanos. Formam eles o enorme grupo de filhinhos de papai, agro-boys, paulistanos com sotaque escroto, respeitáveis senhoras católicas que, com a benção do Tribunal do Santo Ofício, ao lado dos mercadores de escravos e dos sesmeiros das capitanias hereditárias do Nordeste, querem destronar o PT. Eu vos apresento, senhoras e senhores, os coxinhas!

coxinhas

Foto tirada durante as manifestações do dia 15/03.

E do outro lado? Ah, do outro lado estão os que viram a luz, aqueles que sabem que a história humana é direcional, e que as sociedades marcham irrevogavelmente para o mais justo de todos os sistemas: a ditadura vegana do Estado circense do bem-estar social LGBT yóguico-feminista escandinavo-quilombola-guarani plural, em que todo ser humano tem o direito fundamental de viajar pelo menos uma vez na vida a Machu Picchu. São os mesmos que sabem que as estatísticas e a lei da causa e efeito são parte de uma conspiração imperialista da CIA/FMI/FHC para manter a situação de dependência dos povos tropicais, de modo a manter o preço das diárias em resorts convidativo para branquelos workaholics do enregelado Norte. São os… os…

Os o que? Se fosse na prova, nós tomaríamos bomba. Nossa dualidade política está incompleta! Apenas um dos polos do antagonismo atual foi devidamente insultado, estereotipado e etiquetado. Mas e o outro lado? E os que ficam, entre uma reportagem sobre cicloativismo, uma citação da Mafalda e uma lista de razões para adotar um gatinho, defendendo o governo petista no Facebook, mesmo depois do mesmo ter alcançado a cabalística marca de 13% de aprovação? Quem são eles? Como deverão nomeá-los os vestibulandos do século XXIII?

Precisamos superar essa inquietante lacuna terminológica, pois, caso contrário, o capítulo que versará sobre nossa época corre o risco de ser enfadonho. Vejamos lá: a coxinha é um alimento frito de baixo valor nutricional, cheio de gordura saturada e sódio, mas inquestionavelmente delicioso. Uma verdadeira bomba calórica, apreciada por pessoas de mentalidade simplória e pouca inteligência, adeptos das satisfações fáceis e das grandes certezas. Uma iguaria deliciosa, enfim – especialmente quando recheada com catupiry –, que no curto prazo provoca tremendos deleites, mas que no longo prazo pode se revelar a causa derradeira da destruição da biosfera. Um alimento, portanto, que simboliza perfeitamente o grupo político a que foi associado.

Que comida poderia representar os adversários dos coxinhas? Que alimento evoca as características de um grupo antenado no cinema franco-iraniano, que lê com prazer a Escola de Frankfurt, que defende o parto natural no estábulo, o aborto artificial nos hospitais e a abolição da matemática burguesa nas escolas? Um grupo que consegue, com seu peculiar moralismo, unir o inútil ao desagradável?

Não resta sombra de dúvidas: teria que ser algo nutritivo e insosso. A escolha, meus amigos, é natural: são os crepiocas sem glúten. É o Zygmunt Bauman da nutrição: uma comida que pode ser recheada com rabanete ou picles de pepino, que acompanha bem chips de melancia, kebab de jaca e salada de caroço de manga com redução de jiló. Algo que pode ser harmonizado com licor orgânico de folha de bananeira reciclada. Um prato representativo da gastronomia etno-ecológica-subsahariana de raiz, ao mesmo tempo pretensioso e entediante, inspirado numa teoria de bases científicas duvidosas, mas que promete fabulosos resultados sobre a zona intertropical do bucho.

Pode marcar sem medo: “A política brasileira do período que se inicia em 2015 foi marcada pela dualidade ideológica entre os coxinhas e os crepiocas sem glúten“. É isso aí, letra c), pode olhar no gabarito.

Quis facilitar a vida dos historiadores do futuro por meio de um simples paralelismo taxonômico. Em agradecimento por tão útil serviço, aceitarei uma estátua equestre, ou algo assim.

crepioca

Foto do Zygmunt Bauman durante seminário

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8 Respostas para “Coxinhas Vs. Crepiocas Sem Glúten

  1. Os tipos ideais/caricaturas usados nessa construção terminológica já podem ser aplicados na elaboração de testes de alta relevância social para circulação no Facebook: Quão coxinha ou crepioca sem glúten você é? Já fiz os meus cálculos e já tenho o meu índice de identificação. #sociologiapolíticadabesteira

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  2. Vixe, eu tenho que ter inspiração é para a minha pesquisa de verdade. Infelizmente, o meu tempo de ler, pensar e escrever besteira está muito limitado :). Mesmo assim, grata pela oferta.

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