Cavalo Marinho

I) O cavalo marinho é o único bicho que fica grávido na natureza.

II) Nada melhor do que ter um filho para me curar das minhas infantilidades.

III) O ser humano nasce sabendo sugar, mas sem saber mamar! E o escritor nasce propenso à linguagem, mas tem que aprender a escrever.

IV) Reconhecer no rosto do meu filho o queixo de meus ancestrais é como prefigurar a ressurreição DA CARNE.

V) Acabei de descobrir um fragmento incógnito dos poetas órficos: O SER É, MAS PRECISA SER CUIDADO.

VI) Filho é assim: quanto mais dá trabalho, mais a gente quer bem.

VII) De agora em diante só componho música de ninar!

VIII) A Paternidade é uma matéria que fica situada entre a Ciência e a Arte.

IX) Nunca mais dormimos e fomos felizes para sempre…

X) Vai entender! É preciso menos técnica pra parir que pra amamentar.

XI) Nem Euclides da Cunha, nem Gilberto Freyre, nem Machado de Assis. O gênio da raça brasileira é o Paulo Tatit.

XII) Um amigo meu disse assim: – Delicado é pensar o ser. Dedicado é quem pensa o ser. Mas só quem ama está no ser.

XIII) O amor é a única coisa que quanto mais se dá, mais se tem (e quanto menos se dá, menos se tem).

XIV) Felizes os pobres de alegria, porque deles é o Reino da poesia.

XV) O que é a vida afinal? A vida é um segredo soprado no ouvido de uma criança…

XVI) A vida é uma brincadeira séria.

XVII) O pediatra me disse: um sorriso aumenta a imunidade.

XVIII) Um fato trivial deu-me motivo para digressão: meu recém-nascido não quer dormir porque não sabe a diferença entre o sol e a lua. Ao longo das etapas da vida, da infância à maturidade, vamos aos poucos aumentando o nosso nível de consciência da realidade. E o primeiro degrau nessa escada é talvez a consciência do Tempo. O universo não nos é indiferente porque a vida é claramente marcada por um ritmo: manhã, tarde, noite e madrugada. Damos sentido à nossa vida ao participar dos ritmos da natureza que manifestam a ordem do ser. Uma criança precisa aprender isso quando não quer dormir à noite. Mas há adultos que ignoram este fato, para quem o ano, os meses, as semanas, os dias são uma massa homogênea e sem significado especial. Relembro aqui um poema de T. S. Eliot:

“Then came, at a predetermined moment, a moment in time and of time,
A moment not out of time, but in time, in what we call history:
transecting, bisecting the world of time, a moment in time but not like a moment of time,
A moment in time but time was made through that moment:
for without the meaning there is no time, and that moment of time gave the meaning.”

(Chorus from the Rock, VII)

Cada fase da nossa vida e cada etapa do ano têm um sentido próprio. Esta é uma verdade antropológica que está presente na cultura de todos os povos, desde celebrações cósmicas como a festa do milho, por exemplo. Somente uma população desenraizada, urbana e moderna como a nossa faz pouco caso do Tempo e da Eternidade. Se o Natal tornou-se tempo de consumismo, se a Páscoa é a época em que comemos ovo de chocolate, então essas festas do ano perderam o sentido. O carnaval, que era uma celebração grega (e também de outras culturas como a renascentista), perdeu igualmente o seu sentido pois já não é a despedida da carne. A quarta-feira de cinzas tornou-se um dia como qualquer outro; coincidentemente não para mim porque meu filho nasceu no dia 18/02/2015. Josué, qual a canção de ninar que vamos cantar para essa gente grande que não entende a liturgia das horas?

XIX) Um pai deve ter dotes de equilibrista para segurar a criança esperneando só com uma mão e preparar a mamadeira com a outra.

XX) Aquele chefe que quer tudo “pra já”, “pra ontem”, na verdade é bem infantil.

XXI) Há poucos dias me informaram que DE PROFUNDIS não é apenas o título de um livro de Oscar Wilde. Parece até que existe também um concerto de Beethoven com esse nome. A origem da expressão é muito, muitíssimo mais antiga. Ela está na tradução latina do Salmo 130: “De profundis clamavi ad te, Domine…”. Sabendo disso, fui então rezar o salmo para entender o que lá estava escrito. Posso contar para vocês que foi uma experiência nova e meio desconcertante. A experiência é a de quem entrega sua alma a Deus com total, digo mesmo, total confiança e abandono. Algo assim como as últimas palavras de Jesus na Cruz à hora da morte: “Pai, em tuas mãos, entrego o meu Espírito”. Algo assim como ontem estava meu filho não propriamente dormindo, mas quase desmaiado, num sono profundo e confiante, entregue em meus braços. Naquele sono desligado do mundo, ele não temia nenhum perigo real e concreto do mundo. Por exemplo, a hora em que, saindo da churrascaria, atravessei a rua com ele no colo e passou um carro… ele nem percebeu. Tenho muitos medos; alguns medos reais, outros imaginários. Mas o meu filho não teme nada. Só que ele não é propriamente um homem de coragem. É apenas alguém que se confia nos braços do pai.

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