O doutor e o mecânico

O dono da maior sapataria do bairro chegou à oficina mecânica e já foi logo saudando o mecânico Josimar:

– Fala, meu querido! Como é que está essa força?

– Tudo em ordem, doutor – respondeu Josimar. – Que o senhor manda?

– Essa lata velha está esquentando muito! Acho que a ventoinha pifou, o arrefecimento foi para o escambau!

– Carrão desse e o senhor chama de lata velha, doutor? Uma potência dessa está duzentão, está não?

– Por aí, por aí… E essa camisa feia? – Referia-se à camisa do Flamengo que estava por baixo do macacão de Josimar.

– Ô, doutor, o manto a gente não tira do corpo não! Dá azar!

– Tu está é doido! Agora, qualquer pano de chão é manto, é? Servido aí? – Enquanto conversavam, o empresário comprou um cafezinho e um salgado na confeitaria cujo balcão dava para a rua, ao lado da oficina.

– Tomei café agora, doutor. Valeu aí!

– Deixe de vergonha, rapaz! Dê aqui uma dentada!

– Tenho vergonha, não, senhor. Agradeço mesmo, de coração.

– Nunca vi flamenguista com vergonha. Na hora de roubar a gente e fazer gol em impedimento, vocês não têm vergonha, né?

– Deixa de papo, doutor! Está com inveja porque o Vasco só faz é ser vice!

– É claro! Vocês compram a CBF, a Globo, o raio que o parta! E ainda têm a petulância de dizerem que são hexa!

– E não somos?

– Pois fale isso lá em Pernambuco!

– Ah, doutor, vem não! Nosso time está bom, precisa é de um centroavante!

– Ué! Pensei que Obina fosse melhor do que Eto’o…

– Deixe de prosa que o senhor sabe que isso é papo de torcida.

– Papo de torcida é que vocês nos roubaram um título e depois vêm tirar onda de que somos vice, mas está tranquilo, estou de boa. Estou pilotando avião demais para me preocupar com futebol.

– Que quê é isso, doutor! – Josimar riu, evidenciando o espaço frontal em sua arca dentária. – Aquela mulher lá é toda tua, é?

– Oxe, e não é? Trinta anos mais nova, meu cumpadi! Trinta anos! Do caralho!

– O senhor já é cinquentão, é? Está conservado.

– Cinco ponto três, irmão! E ela, vinte e três aninhos!

– Boto fé!

– E que buceta! – Aqui, o empresário abaixou a voz, curvou-se em direção ao mecânico e pôs o braço em seus ombros. – Que buceta! Já comeu uma loira, Josimar?

– Loira, só tingida, doutor.

– Porra, não sabe o que está perdendo! Buceta rosinha, Josimar. E para dar uns tapas, que delícia! Fica a marca da mão todinha na bunda, Josimar! Bom demais, viu?

– Se Deus inventou coisa melhor que mulher, guardou para ele.

– Mas não é qualquer mulher não. Aquela lá é top demais! E não arrega não, viu? Tem tempo ruim não! Quer foder o tempo todo! Vou viajar amanhã com ela para Caldas Novas!

– Boto fé. Então, o senhor está feliz, isso é que importa. Porque homem nenhum se sustenta sem um braço de mulher, viu? E os negócios, vão bem?

– Uma merda! O pior natal dos últimos anos. Brasileiro não tem mais dinheiro, Josimar!

– Pior…

– A renda só faz despencar e esses filhos da puta ainda reelegem o PT.

– Oxe, mas PT foi bom para nós, pobres.

– Que bom o quê? E tu lá sabe o que é bom nessa vida, homem? Um mecânico falando o que é bom para o país! Olha lá, Josimar, preciso desse carro pronto hoje, hein! Não vai furar comigo! – E deu um tapinha no ombro de Josimar.

– Hoje dá, não, senhor. Carro de Dona Beth está na frente.

– Que Dona Beth?

– Oxe, sua vizinha!

– Ah, porra, aquele paliozinho? Bota aquilo para o fim da fila, Josimar!

– Dá não, doutor. Se não, a gente perde a freguesa.

– Porra, Josimar, há quantos anos a gente se conhece? Te trato com o maior carinho, maior respeito. A gente troca uma ideia massa aqui para quê? Para você me fazer essa desfeita?

– Desculpa, doutor, mas se eu fizer seu carro antes, o patrão briga.

– Aquele pela-saco? A barriga dele está tão grande que ele não vê nem a piroca entre as pernas, você acha que ela vai notar um carro a mais, um carro a menos?

– Vai, sim, senhor. O carro de Dona Beth tem que estar pronto hoje. Ela deixou aqui já tem dois dias.

– E para que mulher quer carro? – E gargalhou, mas, vendo que seu riso não foi compartilhado por Josimar, completou: – Digo: para que a Dona Beth, em específico, tem tanta urgência com o carro dela?

– Para trabalhar, doutor.

– Você não está entendendo, Josimar. Você ouviu que amanhã estou indo para Caldas Novas com aquele avião? Preciso do carro para essa viagem, mermão!

– Dá, não, senhor.

– Porra, Josimar, você já está me deixando puto! Na moral, qual é seu problema?

– O carro de Dona Beth chegou antes.

– Para o caralho com aquele Palio de merda!

– Que isso, doutor… A gente se esforça para comprar o carro que nossa condição permite, né?

– Condição de quê? De vagabunda?

– Ela é professora, doutor.

– De criança, né? Por causa dela, nossa educação vai muito bem!

– Meu filho é aluno dela, doutor.

– Então, troca ele de escola, se não vai virar mecânico, que nem o pai!

Josimar não respondeu, pareceu ter se entristecido. O dono da sapataria se desculpou:

– Desculpa aí, Josimar. Não quis te ofender.

– Está de boa, doutor.

– Josimar, vou te pedir agora na maior humildade. Na moral. Você é homem, você entende. Você mesmo disse que homem nenhum se sustenta sem um braço de mulher. Eu preciso viajar com a minha namorada. Entendo as necessidades de Dona Beth. Respeito muito Dona Beth, longe de mim fazer pouco de quem guia essa nação, nossos educadores. Mas à escola dar aula, ela pode ir de ônibus mais um dia. Só um diazinho. Já eu não posso adiar essa viagem, Josimar.

– Dá, não, senhor. O carro dela chegou antes.

– Porra, Josimar! Você é broxa? Você é viado? Qual é seu problema? Eu preciso comer aquela mulher amanhã, Josimar.

– Pois coma aqui em Brasília, doutor. O senhor não precisa ir para Caldas Novas para isso não.

– Caralho! Vai tomar no cu, Josimar! A gente trata os outros com educação, com o maior respeito, e quando precisa de um favor, recebe o quê? É bom para a gente aprender a ser escroto com quem é escroto com a gente! Bonzinho só se fode, está ouvindo? Só se fode! Vai à merda, Josimar! Seu tremendo filho de uma puta! Mecânico de merda, sujo de graxa filho da puta!

O empresário entrou em seu carro, bateu a porta com força, cantou pneu e arrancou. Seu Josimar ainda tentou gritar: “Não viaje com esse carro não! É perigoso!”. De nada adiantou. Ele não sabe se o sujeito viajou ou não, mas passou alguns dias preocupado. Na hipótese menos ruim, fundiria o motor! Se algo lhe acontecesse na estrada, Josimar se sentiria culpado. Paciência, é a vida. Nunca mais tornou a ver o doutor seu amigo.

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