O Etnocentrismo Brasileiro de Bernardo de Carvalho

Um erro comum ao interpretar um romance é confundir a voz do personagem com a do autor. Costuma-se ouvir que “Dostoievski disse isso” ou “Kafka disse aquilo” quando, na verdade, o correto seria dizer que “Raskólnikov disse isso” ou “Joseph K” disse aquilo. É bem verdade que muitas vezes o autor banca a visão de mundo de algum personagem – em geral o protagonista – e não são poucos os casos em que é razoável falar de um alter ego, ou seja, de um veículo ficcional de que o autor se vale para expressar suas próprias opiniões. Mesmo quando isso acontece – ou seja, mesmo quando é possível identificar o ponto de vista privilegiado pela narrativa – é muito raro que uma grande obra literária se limite a endossar essa concepção, apresentando situações que confirmem as ideias preexistentes. Quando isso acontece, o livro degenera em romance de tese, e a riqueza narrativa é limitada pela necessidade de provar a correção da ideia defendida.

Em romances mais densos, às vezes é quase impossível identificar o ponto de vista privilegiado. Em “A Montanha Mágica”, por exemplo, o intrigado Hans Castorp é apresentado, durante sua temporada de repouso no sanatório em Davos, ao que parece equivaler à totalidade das doutrinas sublunares e supralunares. Mesmo que seja possível argumentar que o autor deixe, num ou noutro trecho, entrever suas predileções humanistas, o repertório de personagens apresentado por Thomas Mann é tão rico e tão convincente, e as ideias e argumentos empunhados nos embates tão persuasivas que o leitor, transformado em criança deslumbrada diante de uma prateleira de quinquilharias de uma loja de brinquedos intelectuais, serve-se livremente das concepções que mais lhe agradam nesse assombroso painel.

Nem todo mundo, porém, é Thomas Mann. A capacidade de transformar um romance num “mundo aberto” – ou seja, um mundo tão autêntico quanto o nosso, e não um mundo-maquinismo engendrado segundo certas preconcepções – é um talento que só possuem os verdadeiros mestres. Em alguns casos, a confusão entre a voz do personagem e a do narrador não é um equívoco de quem lê: está no próprio texto.

***

Mongolia

Bernardo de Carvalho viveu o que possivelmente é o sonho de todo escritor: ser pago para viajar e escrever sobre o que viu. Tendo recebido uma bolsa da editora Livros Cotovia e da Fundação Oriente – ambas de Portugal – o autor viajou em 2002 para a Mongólia e percorreu mais de 5.000 quilômetros pelas diferentes paisagens do país. Uma oportunidade invejável, que poderia ter resultado numa ruptura do ensimesmamento cultural de nossa literatura, por meio de um testemunho artístico sobre um povo a respeito do qual o brasileiro pouco ou nada conhece. O fruto desse experimento literário foi o romance “Mongólia”, publicado em 2003 pela Companhia das Letras.

Consciente do risco de ter sua narrativa tomada como um diário da viagem que ele mesmo fez, o autor tenta intencionalmente estabelecer a distância entre si e as concepções de seus personagens por meio da divisão da narrativa em três vozes. Em primeiro lugar, o fotógrafo brasileiro cujo desaparecimento desencadeia o enredo. Em segundo, o diplomata-detetive enviado numa administrativamente inverossímil missão consular de busca pelo interior da Mongólia[1]. Em terceiro, o diplomata aposentado que assume a posição de narrador, entremeando suas próprias considerações com as anotações feitas pela segunda voz, a de seu colega mais jovem, o que foi atrás do fotógrafo.

Parece um recurso sofisticado, mas eu diria que talvez seja um malabarismo verbal para dissuadir o leitor de fazer a tentadora associação entre o autor, Bernardo de Carvalho, e a principal voz de seu romance – a segunda, a do diplomata-detetive que fez, no livro, um percurso muito parecido com o que o escritor fez na vida real, em sua passagem pela Mongólia. Afinal, mesmo diante das mediações da terceira voz, é difícil não pensar que as descrições e impressões do personagem sobre aquela realidade tão hermética possam ser fundamentalmente diferentes das que teve Bernardo de Carvalho em sua passagem pelo país – ainda mais considerando que a principal fonte de inspiração do livro foi essa viagem. À medida que a narrativa avança, a associação torna-se mais e mais forte, apesar da alternância de vozes e do esforço intencional em estabelecer o distanciamento.

A intuição de que a voz do autor possa estar por trás das considerações de seus personagens nos leva a uma curiosa intuição crítica a respeito do romance. Bernardo de Carvalho tornou-se um escritor de alguma celebridade ao ser identificado pelo público como autor de romances “pós-modernos” – narrativas fragmentadas que apresentam personagens desnorteados, geralmente empenhados em alguma espécie de busca fundamentalmente vã. Não sei se o próprio autor aceita esse rótulo de pós-modernidade que alguns lhe atribuem. Em todo caso, o fato de sua obra ter evocado esse epíteto é significativo. O pós-modernismo, afinal, é a corrente filosófica que considera ultrapassada as grandes certezas do projeto moderno. Partindo da constatação de que todo discurso está associado a um contexto linguístico e cultural, e da intuição de que não existem essências filosóficas que possam ser usadas como medida de verdade ou moralidade, o pós-modernismo nos jura de pés juntos que o mundo é um lugar de incertezas, em que sujeitos confusos lutam para encontrar uma justificativa existencial para suas entediantes rotinas.

Dentre as grandes narrativas que foram deixadas para trás pelo discurso pós-moderno está a de “civilização ocidental”. Tomando emprestado muitas das antecipações da antropologia, os pós-modernos entendem a cultura ocidental como uma dentre muitas versões possíveis da vivência cultural humana. A velha pretensão de estabelecer distinções entre povos mais ou menos evoluídos torna-se vã, já que o conceito de “evoluído” é problemático, por depender de definições que partem da própria cultura que se define como tal (ou seja, são conceitos que não se sustentam quando se incorporam outros pontos de vista). Uma das intuições eticamente relevantes da mentalidade pós-moderna (e que não é, nem de longe, originalidade sua) é a de que as diferentes culturas podem ser igualmente dignas de respeito, já que não há critérios seguros com que se possam escaloná-las.

Curioso, portanto, que justo um autor associado ao pós-modernismo tenha escrito o romance “Mongólia”. O enfado cultural de personagens que resmungam da banalidade da vida num cenário de um grande centro urbano pode ser curioso, e talvez até coerente com a concepção de mundo da pós-modernidade. Mas quando nos deparamos com um personagem pós-moderno desiludido murmurando insultos mal camuflados contra uma cultura estrangeira que ele não consegue compreender plenamente, intuímos que talvez estejamos diante de alguma forma de incoerência…

Eu diria que “Mongólia” é um romance que beira o racismo. A paisagem pintada pelo autor é de um país desprovido de plena humanidade. Os personagens mongóis são apresentados, quase que sem exceção, sob uma luz desfavorável ou, pelo menos, desde uma perspectiva desconfiada. Questiona-se, por exemplo, a sinceridade religiosa dos monges budistas do país ao se pintar casos específicos – que certamente devem ter acontecido, mas que não bastam para descredenciar a crença de milhões de seres humanos – de estupros de noviças. Os nômades são apresentados como uma espécie de degenerados alcoólatras sobrevivendo à margem de uma sociedade devastada pelo comunismo. Em algumas passagens, chega-se à revoltante insinuação de que a tradicional luta mongol – um antigo ritual de virilidade de que se orgulham estes que no passado já foram os maiores conquistadores da Terra – é, em verdade, expressão recalcada de uma tendência homossexual desse povo. Que contraste quando comparamos esses quase elementos da paisagem com os três protagonistas brasileiros – que, se não possuem verdadeira complexidade dramática, pelo menos afetam alguma profundidade ao assumir esse ar de tédio chic de leitor de filosofia francesa pós-guerra.

Entenda-se: há uma forma de pessimismo que se revolta contra tudo o que é humano, e que talvez caia bem a um personagem pós-moderno resmungão. Porém essa revolta – essa crença generalizada de que todos os seres humanos são interesseiros e hipócritas – é aceitável se é direcionada contra aquilo que temos de individual, e só se justifica pela crença de que todos os homens são igualmente ruins. Como poderíamos, afinal, criticar um viajante que vai a um lugar distante, e que realmente imagina ter encontrado pessoas maldosas e trapaceiras? Porém, a partir do instante em que se passa a fazer a crítica cultural não só de pessoas, mas dos traços de um povo em particular, então se está incorrendo no bom e velho etnocentrismo, ou seja, a crença de que há culturas melhores e culturas piores. Quando se criticam os mongóis não por serem humanos, mas por serem especificamente mongóis, não estamos sendo pós-modernos: estamos sendo preconceituosos.

Não quero aqui, defender um relativismo cultural ingênuo que assim se lamenta, como sardonicamente pontuou o romancista V.S. Naipal: “Pobre canibal! Ainda não comeu seu pedaço de carne humana hoje!”. Sei que há culturas em que são autorizadas práticas que, desde um ponto de vista de uma humanidade mais inclusiva, são flagrantemente injustas. Porém, reconhecer essa tensão entre o universalismo e o particularismo não pode servir de pretexto para justificar uma postura de arrogância do viajante ocidental que não consegue compreender a estranheza que testemunha. Diferentes povos podem possuir diferentes modos de lidar com as mesmas situações, e quando as práticas dos estrangeiros nos soam desagradáveis, isso não nos autoriza a proferir, levianamente, observações depreciativas. Além do mais, acho muito pouco provável que a Mongólia seja uma sociedade representativa de práticas culturais tão radicais quanto essas.

Ainda que fosse verdade tudo o que escreve Bernardo de Carvalho, referir-se aos mongóis nos termos em que ele se refere – mesmo que pela mediação da voz de um personagem – é uma postura simplista, incapaz de penetrar a barreira da alteridade para encontrar verdadeiro espírito num outro aparentemente indecifrável. Além disso, não está de modo algum claro que comportamentos sociais são condicionados pela cultura, e quais são definidos pela condição de miséria econômica. É bem verdade que em alguns trechos o narrador insinua uma associação entre o regime comunista sanguinário que dominou o país no século XX e a paisagem culturalmente devastada que ele descreve. Ainda assim, e embora Bernardo de Carvalho não tenha a pretensão de fazer uma análise histórica ou econômica da realidade que seus personagens testemunham, ele se omite de contextualizar a má vontade das vozes do texto. Ora, se um presunçoso escritor estrangeiro recebesse uma bolsa para passar uma temporada literária vivendo nas favelas brasileiras, certamente ele teria material abundante com que escrever um romance desqualificando a cultura e a sociedade brasileiras. Mas será que isso é legítimo? E os condicionantes históricos? E a economia? Pessoas que vivem em condições de limitação material podem possuir uma relação com os aspectos mundanos da existência que soaria extremamente grosseira a um turista bem alimentado.

O narrador/escritor também não ponderou, nos trechos em que descreve traços de desconfiança ou antipatia dos mongóis, o peso da incomunicabilidade provocada pelo desconhecimento da língua. Posso afirmar por experiência própria que muitos ocidentais que moram na China desenvolvem a percepção (em grande medida equivocada) de que a maioria dos chineses trata com má vontade os estrangeiros. Esse comportamento reservado, porém, se explica muitas vezes pelo constrangimento que alguns orientais sentem por não serem capazes de se comunicar bem em inglês. Embora isso não seja uma regra geral, é razoável afirmar que chineses que falam bem inglês são mais amigáveis com estrangeiros, e que estrangeiros fluentes em mandarim também recebem um tratamento melhor, pelo simples fato de conseguirem estabelecer alguma comunicação. No caso da Mongólia, esse fator linguístico certamente precisa ser levado em conta, juntamente com o traço cultural de algumas sociedades asiáticas de tratar pessoas estranhas com mais distanciamento.

Se o autor não chega a se arriscar a estabelecer essa conexão direta entre a cultura local e o que considera a degradação moral do país, ele também não a refuta, nem sequer tenta atribuir valor explicativo à pobreza que assola o país – mesmo quando a menciona. Bernardo de Carvalho se limita a apresentar fatos soltos – aí sim, adotando uma atitude pós-moderna. Às vezes, porém, encontramos pérolas como essa – dignas de um otaku – em que o autor consegue elogiar um povo para insultar um outro, com generalizações de todo equivocadas:

A língua falada não é feia como o chinês. As pessoas têm um jeito mais simpático. Aparentemente, são mais educadas e mais simples do que os chineses. Falam mais baixo, não dão a impressão de estar gritando, não tem a boca mole. Fiquei encantado com o meu primeiro contato com os ‘mongóis`, mas só até perceber, quando foram chamados pelos alto-falantes, que na realidade eram japoneses que aguardavam, na mesma sala de espera, o embarque em outro voo, de volta para casa” (pag 34 da 1ª edição da Companhia das Letras)

Na maior parte dos trechos, porém, a associação entre os traços depreciativos descritos pelos relatos com a cultura mongol acaba sendo uma inferência do leitor. Só que essa é uma inferência a que conduz a narrativa, ou seja, ela não é acidental.  Também não é pouco o fato de o romance chamar-se “Mongólia” – ou seja, possuir um título que seria plenamente adequado para um tratado de geografia ou um guia de viagens. Se o romance se chamasse “O Desaparecido”, o tom geral de desilusão possivelmente soaria mais como um aspecto estilístico do que como uma generalização cultural.

É preciso considerar que o leitor que adquire numa livraria um volume chamado “Mongólia” está no mínimo curioso para conhecer, pela leitura, um pouco mais desse distante povo. Em verdade, o título é a chave para o etnocentrismo do texto, pois se a narrativa não ousa dar o temerário passo de explicitar uma generalização sobre a cultura mongol, um título tão significativo dá outra luz às experiências negativas dos personagens. Contrariando fundamentalmente qualquer pretensão pós-moderna do texto, a palavra “Mongólia” funciona como chave interpretativa, transformando aquilo que em outro contexto poderiam não passar de informações dispersas num esforço coeso de descrição de uma essência – daquilo que torna o povo mongol especificamente o que ele é.

Se não era a intenção do autor estabelecer as associações de que estamos falando, ele deveria ter escolhido outro título para seu romance. Tendo, porém, optado por um nome com tão significativo, ele no mínimo possuía a obrigação moral – decorrente do respeito a que faz jus a população da Mongólia – de ser mais explícito nas suposições apresentadas. Do jeito como a obra está escrita, a obra parece mal resolvida, situando-se entre o relativismo e o preconceito.

Retomemos as perguntas: onde está a voz do autor? Onde a dos personagens? O preconceito é do escritor que fez, ele mesmo, uma viagem à Mongólia, ou é apenas um aspecto problemático da criatura ficcional que ele gerou num ato de fantasia?

A segunda alternativa seria um recurso expressivo válido e até mesmo interessante, se Bernardo de Carvalho tivesse sido capaz de problematizar a voz preconceituosa de seu personagem por intervenções críticas da terceira voz de seu romance – a do diplomata narrador, aposentado. Logo na abertura do livro há um trecho em que isso efetivamente acontece, ou seja, em que se marca a divergência de opiniões entre os dois personagens narradores por meio de uma discordância intelectual a respeito da cultura chinesa. O trecho é intelectualmente provocante, e fiquei até tentado, quando o li, a imaginar que ele deveria ser tomado como chave para toda a obra – o que livraria o romance das acusações que ora faço.

Trata-se de uma espécie de disclaimer, logo na abertura do livro. O diplomata aposentado narra o breve contato que teve com seu colega mais jovem quando ambos estavam em Pequim – antes de o diplomata detetive ser enviado para a Mongólia em busca do fotógrafo. O diplomata aposentado, narrador, comenta as anotações de seu colega a respeito da China. Tratam-se de generalizações simplesmente ultrajantes – ao menos para qualquer pessoa que já tenha estudado com a mínima seriedade a língua e a história desse país. A alegação, por exemplo, de que o povo chinês – o mesmo que criou uma das mais eruditas sociedades de que se tem notícia – não produziu autêntica literatura é algo que me soa tão vergonhoso quanto uma alegação racista sobre a inferioridade intelectual dos povos africanos.

“Por que não existe literatura moderna na China? (ou pelo menos não existe uma produção em prosa moderna consistente e duradoura comparável, por exemplo, com a literatura japonesa ou russa do final do século XIX e da primeira metade do século XX?) Minha tese, que me dizem ser superficial, já que não falo nem leio chinês (como fizeram a gentileza de me lembrar esta noite), é que a própria língua, por ser a única escrita do mundo com base predominantemente visual (o Japão usa uma língua híbrida, em que o visual foi se perdendo na comunicação diária, em nome do auditivo, substituído por um sistema silábico em que o kanji – os ideogramas chineses – tem uso restrito), possui um excesso de metáforas que em essência é inadequado à criação da prosa moderna.” (pag 24 da mesma edição)

Quanta abobrinha num parágrafo só! Sem sequer entrar no mérito da suposição estúpida de que caracteres chineses são impeditivos de verdadeira literatura moderna (e não sei eu que cargas d’água escreve, então, Mo Yan, o vencedor do prêmio Nobel de literatura de 2012), posso garantir que o trecho certamente foi escrito por uma pessoa que nunca abriu um livro em japonês na vida: se o kanji fosse um impeditivo à prosa moderna, então o Japão também não teria literatura, pois nessa língua o sistema de caracteres não é, de modo algum, secundário.

A suposição de que verdadeira literatura seja apenas aquela que possua as características da literatura europeia é de um provincianismo mental tão tolo quanto a do homem que achasse que só são belas as mulheres loiras. Ao ver uma beldade negra ou asiática, ele confundiria diferença com feiura, e isso o impediria de entender que a beleza conhece muito mais de uma maneira de se manifestar.

Quando li essa passagem – logo em seguida de outra na qual o autor pinta o retrato absolutamente falso de uma Pequim desprovida de autêntica vida – fiquei tão profundamente ultrajado que confesso que não consegui deixar de imaginar o autor, Bernardo de Carvalho, com seu caderninho de anotações passeando pela primeira vez pelas ruas dessa desconcertante metrópole. Todo ocidental que chega à China não pode deixar de evitar certa sensação de vertigem ao dar-se conta da imensidão daquela fração da experiência humana, vivendo sua vida sem se preocupar em prestar contas de seus hábitos à consciência pretensamente civilizada do Ocidente. É uma sensação parecida com a que tem o matuto que chega pela primeira vez à cidade grande: então o mundo é grande assim? Então há gente que vive de forma tão esquisita, tão diferente do jeito que a gente vive lá na cidadezinha?

“São grandes espaços, esplanadas e avenidas para cidadãos subjugados e obedientes, ao lado dos últimos resquícios dos velhos hutongs, aglomerações caóticas e labirínticas, favelas de alvenaria e pedra baseada na antiga disposição dos acampamentos mongóis. Os parques são como ilhas confinadas entre grandes avenidas. Na verdade, são prisões. Os edifícios espalhados, vistos de longe, são como torres de uma cidade de ficção científica, um mundo ao mesmo tempo futurista e decadente, sob a opressão das nuvens de poeira e de névoa que, tornando a luz do sol difusa e tênue, fazem do horizonte uma miragem, um desejo cego para quem quer escapar deste lugar sem saídas, um lugar que tenta ser asséptico, em vão, apesar de toda a sujeira mais atávica e dos odores mais variados e fétidos que volta e meia sobem ao nariz.” (pag. 18)

Que Pequim é essa que visitou o personagem? Será possível que seja a mesma Pequim em que eu vivi – a que está pululando de gente por todos os lados, cheia de vendedores ambulantes, de restaurantes, de lojas de todo tipo de quinquilharia, de crianças brincando com seus avós e de taxistas que podem ser tudo, menos os personagens de uma distopia orwelliana?

Essas e outras asneiras do diplomata-detetive são contraditas pelas anotações mais sensatas de seu colega narrador. Nessa altura do texto, o diplomata aposentado efetivamente funciona como o contraponto que distancia a voz do personagem da voz de Bernardo de Carvalho. O narrador até pontua que a ansiedade de seu colega mais jovem em escrever simplificações sobre a cultura oriental funcionava quase como um mecanismo de defesa.

A realidade é muito mais complexa do que parece. Não compreendemos nada do que vemos na China. Ainda assim, ele prosseguia. É preciso ser ignorante para falar. Quem conhece não precisa sair falando à procura de quem o contrarie.” (Pag 23)

Aqui quem fala é a segunda voz – o diplomata narrador que achou o diário do diplomata detetive. Diante dessa ressalva, realmente não há como dizer que Bernardo de Carvalho estivesse legitimando os ultrajes proferidos pelo seu personagem. A questão foi problematizada pelas diferentes profundidades narrativas. Ainda que se quisesse argumentar que o escritor pessoalmente estivesse mais inclinado a uma ou outra posição, o mero fato de ele deixar a questão em aberto já torna essa passagem rica de possibilidades. Isso foi um mérito narrativo, e aumentou minhas expectativas em relação ao restante do romance.

Se tivesse mantido essa estratégia, “Mongólia” poderia, realmente, ter sido uma obra de arte memorável. Seria um livro capaz de brincar com as percepções do leitor e de o provocar, problematizando as generalizações de um personagem-testemunha preconceituoso e etnocêntrico face às ponderações de um narrador crítico. Dessa tensão o leitor poderia tirar suas próprias conclusões, sem precisar minimizar os pontos de vista de qualquer das partes.

A verdade, porém é que o restante do livro não corresponde à expectativa criada por esse trecho. Na página 50, ainda encontramos a seguinte ressalva, feita pelo personagem narrador:

Parecia que eu estava ouvindo a mesma pessoa. De alguma forma, o desaparecido e o Ocidental tinham uma finidade sinistra nas suas ideias etnocêntricas. (…) No final das contas, repetiam os mesmos clichês. Execravam as sociedades orientais pela opressão que atribuíam à religião ou ao partido ou ao que quer que fosse”. (pag. 50)

Uma observação sensata, que aparentemente refuta meu ponto de que o etnocentrismo não se encontra na obra, mas apenas na voz de dois de seus personagens. O problema é que, à medida que o livro avança, a voz do diplomata-detetive – o que efetivamente viaja para a Mongólia e testemunha os modos de vida daquele povo – ganha proeminência sobre a voz do narrador. Novas simplificações são proferidas pelo personagem, porém sem novas intervenções do diplomata aposentado. Alguém poderia até argumentar, “Ah! Mas o autor já fez sua ressalva! Cabe à perspicácia do leitor precaver-se contra o erro de tomar integralmente o ponto de vista do personagem. O autor não pode ser criticado pelos disparates de sua criatura.” Isso seria verdade, caso o livro não tivesse o título que tem, e caso a obra fosse um mero exercício de fantasia.

Aqui nos deparamos com o problema da relação entre obra e biografia, que agrava ainda mais os problemas criados pelo título do livro. Se Bernardo de Carvalho jamais tivesse recebido a bolsa literária que recebeu, e jamais tivesse feito a viagem que fez, a leitura que faríamos de seu livro poderia ser outra. Mas não é de modo algum irrelevante o fato de o livro ser produto de uma experiência biográfica específica – uma que é inclusive ressaltada pelos textos de apoio que apresentam o romance. À medida em que a voz do diplomata narrador se enfraquece, e que a voz do diplomata viajante ganha força, não há como não associar as impressões do personagem com as que o próprio autor teve em suas perambulações pela Ásia. Seria, afinal, realmente fabuloso imaginar que Bernardo de Carvalho tivesse ido à Mongólia e registrado suas impressões pessoais e então, ao escrever seu romance, ter apresentado impressões profundamente diferentes para definir o tom de sua narrativa, simplesmente por achar que seria interessante confundir os leitores. Tal expediente literário não é impossível, mas é temerário aceitar essa interpretação quando não existem recursos narrativos claros marcando esse distanciamento.

Ao fim do livro, o leitor não pode evitar a sensação de que a voz do investigador foi a voz privilegiada, e que os esclarecidos momentos de crítica que se lêem no início da narrativa são, mais do que uma chave interpretativa, lapsos de consciência do escritor, um mea culpa de quem intuiu que a apresentação não qualificada de suas verdadeiras impressões poderia ser recebida negativamente por um público atento. Ele problematizou num momento inicial, afetando distância, e então se permitiu apresentar todas as afirmações antipáticas ao povo mongol que intimamente desejou fazer.

Não conheço Bernardo de Carvalho nem sei nada sobre sua biografia. Não tenho qualquer interesse em denegrir sua imagem ou em atacar a sua escrita. Não quero sequer entrar no mérito da discussão sobre as qualidades literárias do romance – irrelevantes para o debate que estou propondo. Mesmo que fosse uma obra artisticamente muito boa – o que não acho que seja o caso – ainda assim acho que não deveria passar despercebido à nossa consciência crítica o fato de se tratar de um texto ofensivo aos cidadãos da Mongólia.

Há uma violência contida entre os mongóis, que pode desencadear a qualquer instante. É uma violência louca, uma manifestação da ignorância e da brutalidade que o nomadismo dilui entre as paisagens mais belas do planeta. Existe como em qualquer parte do mundo. Mas diante da placidez das paisagens desérticas, quando a violência irrompe, é uma surpresa. Os estrangeiros também parecem incomodar os jovens mongóis. A abertura do país com a queda do comunismo lhes permitiu confrontar a própria pobreza com a riqueza dos turistas. O olhar direto e persistente nem sempre é de curiosidade, como gostariam os que ainda acreditam no mito do bom selvagem. O confronto com o estrangeiro é também o que revela, pela troça ou pelo interesse do fotógrafo ávido de fotos de homens seminus, de botas e sunguinhas bordadas, atracados uns com os outros, o elemento homossexual latente e inconsciente na luta e em toda a cerimônia que a precede, a começar pela ‘dança do Garuda’, em que o lutador homenageia a figura alada da mitologia oriental, dançando de braços abertos, à imagem de uma ave de rapina, em volta de uma estaca.” (pag 171-172).

Como alguém pode ter tido coragem de publicar, em pleno século XXI, um insulto tão insensível contra um dos povos com umas das mais orgulhosas culturas viris do planeta? O autor, que parece supor que toda cultura possui um caráter intrinsecamente autoritário, termina por tornar-se ele próprio intolerante, pois ao desprezar a cultura ele também despreza a sua expressão no nível dos indivíduos, ou seja, ele passa a desprezar as pessoas que servem de veículo a essas tradições.

 Os personagens mongóis do livro são literariamente aparentados aos personagens não-europeus dos romances de aventura do século XIX: são guias, acompanhantes, adversários que se movem em razão de interesses simplistas – ganhar alguma vantagem material ou evitar alguma forma de punição. Preguiçosos e desinteressados, são os povos exóticos que falam com sotaque estranho no filme do Zorro ou do Tarzan, jamais possuindo dramas internos a serem resolvidos ou qualquer profundidade psicológica a ser explorada pelo espectador. São como o sexta-feira de Robson Crusoe: necessários ao andamento da trama mas, tais como a paisagem, externos à narrativa. Heroísmo e protagonismo – a capacidade de sensibilizar por razões que não sejam estritamente materialistas – é exclusividade dos ocidentais. Até a postura blasé pós-moderna lhes é vedada. Ele chega ao cúmulo de chamar um de seus personagens de “o Ogro coxo”! (pag 174).

Tal tratamento literário de outros seres humanos não deveria ser aceitável em nossos tempos. Não digo que um livro com essas características deva ser proibido (como libertário, sou a favor até do direito de se publicarem idiotices), mas acho que, por uma questão de amadurecimento de nossa consciência coletiva, é preciso que as pessoas tenham a capacidade de indicar essas expressões culturais de intolerância. Em nossa época de incertezas, os escritores – em especial os romancistas – muitas vezes assumem a condição de verdadeiros oráculos. São vistos como criaturas de um entendimento superior, quase infalíveis em sua capacidade de decifrar a vida. Criam-se verdadeiros cultos de aficionados frequentadores de feiras literárias, os quais nem sempre se dão conta de que escritores, por serem humanos, também são moralmente falíveis. Inspirados por esse espírito, muitas pessoas devem ter lido “Mongólia” supondo que se achavam diante de uma peça literária fascinante – sem jamais se darem conta de que estavam diante de um testemunho do desprezo.

Por outro lado, suspeito que o próprio Bernardo de Carvalho sequer tem consciência de que adotou uma postura etnocêntrica ao escrever o seu livro. Seria injusto se eu tivesse dado a este texto o título de “O etnocentrismo de Bernardo de Carvalho”, pois estou sinceramente convencido de que o etnocentrismo de que estamos tratando não é apenas dele.

Um dos principais – e menos óbvios – valores da leitura de “Mongólia” é o de revelar como a cultura brasileira é autocentrada. Costumamos nos imaginar muito amigáveis e extremamente abertos ao mundo, mas a verdade é que nós – como os demais povos de países com dimensões continentais – estamos voltados para o nosso próprio umbigo. Isso é algo que se depreende do comportamento dos brasileiros que viajam ao exterior: ele parte da suposição de que todos os demais povos da terra estão interessados em seu jeito de ser e de se comportar, e acham que não é necessário se adequar aos costumes locais por entenderem que o jeitinho brasileiro de fazer as coisas é muito mais interessante. Não acho que seja uma marca de nossa má índole, mas apenas um indicativo de quão pouco nós conhecemos do mundo lá fora. Ainda somos como o matuto em sua cidadezinha, que acha que sabe de tudo, e que já ouviu falar da cidade grande, mas que ainda não foi por aquelas bandas e não experimentou a verdadeira diferença.

A má-vontade de Bernardo de Carvalho para com o povo mongol, portanto, é a má-vontade do brasileiro que viajou para o exterior e esperou a simpatia de um carioca ou de um baiano, ou talvez a prolixidade intelectual de um europeu, e encontrou um povo silencioso, reservado, acostumado à vida nas grandes vastidões da Ásia Central. Não deve ter recebido muitos calorosos sorrisos – como teria recebido mesmo nos mais afastados rincões do Brasil – nem deve ter encontrado interlocutores para confabulações existencialistas. Sentiu-se longe de casa, solitário, incompreendido, chegou até mesmo a projetar naquela cultura fixações que, em verdade, eram suas (como no caso da obsessão com Narkhajid, a divindade feminina tântrica do sexo). Usou a si próprio como medida, e não gostou do resultado.

Curioso que justo um autor brasileiro supostamente pós-moderno tenha manifestado com tanta força esse nosso etnocentrismo. Isso talvez seja sinal de que, mesmo quando supomos falar da fragmentação das referências, estamos ainda presos a diversos condicionantes mentais. E, ao nos depararmos com um povo diferente, um que possui hábitos de vida que podem nos parecer chocantes, acabamos por julgá-los segundo os critérios de casa. Uma das poucas virtudes do pós-modernismo é a sua capacidade de justificar uma atitude mais inclusive e tolerante. Sem isso, o pós-modernismo vira um culto de próprio ego (e preciso aqui confessar que os personagens de “Mongólia” me soaram como diferentes versões mal humoradas do autor, dialogando com clichés culturais que poderiam ter saído de um romance de aventuras vitoriano).

Quero concluir falando do matuto – talvez por eu mesmo ser um. Ao se defrontar com uma experiência de alteridade, um indivíduo com pouco conhecimento do mundo tem duas opções. A primeira é a de tentar um enorme esforço de compreensão – o que equivale a deixar para trás muitas das velhas concepções pessoais a respeito da vida. É reconhecer que pode haver mais de um modo aceitável de se comportar, e entender que o verdadeiro respeito não é a dar aos outros o direito de serem como nós mesmos, mas sim o de serem leais a si próprios.

A segunda alternativa é ater-se à visão de mundo original. Isso só é possível por meio da desqualificação mental dos novos modos de vida que se conhecem; bater no peito e dizer “Bom mesmo é ser matuto: é viver na roça, criar sua vaquinha e suas galinhas.” Quem é diferente é mau, é sujo, não sabe o que realmente é bom.

Das duas alternativas, a segunda definitivamente é a mais cômoda. Ao invés de ter que empreender todo o esforço necessário para compreender os modos de vida dos diferentes povos, é muito mais simples solucionar o problema por uma mera negação mental da possibilidade da diferença. Continua-se sendo o mesmo de antes, e a reação que se terá com o contato do outro será uma reação pautada pelas concepções preexistentes. Vive-se, então, como aquele matuto que se vê às vezes nas grandes cidades e que faz careta quando come algo que não é um cuscuzinho com bode guisado.

Acontece que o esforço de compreensão, embora seja mais custoso, pode nos transformar em pessoas melhores. Ele é talvez o único caminho para desenvolver uma atitude de verdadeira tolerância. Ao permitir o aprendizado de novas formas de cultivar o espírito, ele dá origem àqueles matutos que, quando voltam para sua cidadezinha, acham que ela subitamente se tornou pequena demais.

Espero um dia poder conhecer a Mongólia e o povo mongol.

Mongolia3

[1] Não sei com que dinheiro o MRE autorizaria as diárias de tão prolongada missão!

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