Sam Peckinpah e “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”

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“A double bourbon with a champagne back, none of your tijano bullshit, and fuck off.”

“Meu ódio será sua herança” (The Wild Bunch, 1969) ficou conhecido por, segundo John Wayne, destruir o mito do Velho Oeste. Após o enorme impacto desse western tardio e ultra-violento, David Samuel “Sam” Peckinpah era apontado como um dos mais promissores cineastas de sua geração. Seguiram-se projetos que não correspondiam com as enormes expectativas comerciais neles depositadas, à exceção de “Os implacáveis” (The Getaway; 1972), ou que simplesmente apostavam em registros mais amenos e intimistas. Paralelamente, a credibilidade profissional de Peckinpah deteriorava-se a largos passos, processo acelerado pelo alcoolismo renitente e pelo abusivo consumo de drogas.

É verdade que o diretor sempre tivera uma convivência difícil com os estúdios: era de uma notória intransigência criativa, só comparável com sua intempestividade no set. Durante as filmagens de “Juramento de vingança” (Major Dundee, 1965), Charlton Heston, impressionado com a truculência do diretor ao lidar com a equipe, ameaçou cortá-lo de alto a baixo com o sabre que carregava seu personagem. No entanto, ao iniciar a década de 1970, o talento de Peckinpah não mais avalizava sua conturbada mecânica de trabalho. Nesse contexto se inicia a produção de “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia” (Bring me the Head of Alfredo Garcia, 1974), espécie de western moderno, rodado no México com pequeno orçamento e estrelado por Warren Oates, companheiro habitual do diretor desde seus primeiros trabalhos para a televisão ainda no final da década de 1950.

Peckinpah refere-se a esse filme como o único em que o resultado final correspondeu aos seus desejos, o que pode soar estranho quando observamos as caracterizações exageradas de todos os personagens e o profundo artificialismo de seus movimentos, sinais comumente associados a obras em desequilíbrio. Acontece que o rigor da obra de Peckinpah é erigido sobre substância rara, que parece atentar contra sua própria definição. Trata-se de um rigor no excesso – de cortes, evocações, violência, sentimentalismo. O desequilíbrio aparente oculta, dessa forma, a mais incomum harmonia visual; uma que até “Meu ódio será sua herança” parecia inconcebível ao cinema norte-americano. Certas cenas em seus filmes, ou mesmo alguns deles por inteiro, desmoronam grotescamente sobre seu próprio peso e relembram implacavelmente o quão delicado é esse projeto estético e o preço artístico que se paga por qualquer deslize quando se trabalha constantemente no limite.

Inevitável perceber os ecos entre a biografia e a filmografia de Peckinpah, expediente de uma facilidade perigosa e mesmo frívola, quando ambiciona enriquecer o retrato de uma personalidade tomando sua arte como fonte decorativa. Os esforços aqui empreendidos vão em outra direção, apontada pelo próprio “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia”: o homem deve ser medido pelos seus atos, tão e somente, e os atos por excelência de um cineasta são seus filmes. Utilizando-se dessa justa medida, uma coisa é certa, Peckinpah foi um homem daqueles cuja obsessão artística consome por completo; desgasta, enlouquece e, por fim, aniquila. Assim, a rota percorrida por Bennie, personagem de Oates abertamente inspirado no próprio diretor, é carregada do trágico romantismo daqueles que reconhecem em algum momento a inexorabilidade de seu destino. Daí nasce mais uma dessas contradições fulminantes típicas de sua obra: a resignação como impulso do inconformismo mais brutal. Morre-se aos chutes e berros, ou melhor, com uma arma em mãos.

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 “You’re up there you son of a bitch. I’m gonna find you. Damn your eyes!

A idílica cena que abre “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia” mostra uma jovem grávida que, sob uma luz acalentadora, molha languidamente seus pés em um riacho. Poucos instantes depois essa mesma mulher será torturada publicamente pelos capangas de seu pai para que revele o nome do homem que a engravidou. Essa violenta fratura entre dois registros opostos ocorrerá novamente mais tarde no filme, quando Bennie e sua companheira, Elita (Isela Vega), são arrastados de uma situação terna e bucólica e arremessados no interior de uma realidade de estupro e morte. Não há espaço para a felicidade, e mesmo as cenas citadas nada mais fazem que afirmar sua insustentabilidade, especialmente em meio ao clima sórdido e miserável do México em que se desenrola toda a trama.

Vale lembrar que esse mesmo México já fora, na obra de Sam Peckinpah, a última fronteira do individualismo imperturbável e da redenção espiritual. É como se a violência institucional, que ele sempre retratou como covarde e desprovida de qualquer nobreza, tivesse finalmente tomado o último quinhão que lhe faltava, mesmo que, diferente dos EUA, à revelia do Estado oficial. O diretor reconhece melancolicamente o triunfo do General Mapache de “Meu ódio será sua herança”: Emilio Fernandez, seu intéprete no filme de 1969, aqui faz o papel de El Jefe, homem que ordenará a caça à cabeça Alfredo Garcia, pai de seu neto.

Bennie, gringo alcoólatra e pianista medíocre, alista-se casualmente a um grupo de mercenários norte-americanos como uma espécie de mal-pago empregado terceirizado. Aparentemente atraído pelo serviço por simples ambição financeira, a impassibilidade com que responderá a tudo que tente desviá-lo aponta para outras motivações menos óbvias: afirmação individual, desejo de salvação, vislumbre, enfim, de uma felicidade duradoura. Dentre elas, seria desnecessário repetir, a única que lhe restará ao cabo do filme é a primeira, ao custo de sua própria destruição.

Há uma cena em que o fatalismo subjacente ao enredo é finalmente percebido e abraçado pelo protagonista: após ser golpeado e tombar inconsciente em um cemitério, Bennie acorda dentro de um túmulo, junto ao corpo de alguém que lhe era querido. Dele levanta-se cuspindo a terra que enche sua boca, desnorteado pela presença da morte. Daí em diante o filme avança em uma espiral de violência, acompanhando o personagem de Oates num surto psicótico; um transe no qual sua única companhia é a cabeça de Alfredo Garcia e uma obsessão vingativa aparentemente indiscriminada.

Os longos tiroteios da segunda metade de “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia”, contudo, não cintilam com a mesma carga de virilidade explosiva que consagrara Peckinpah no início de sua carreira. A decrepitude moral e física que pontua o filme impede que se retire qualquer significação positiva dessas cenas, filmadas tão e somente como momentos imundos, catárticos e doentios. Em determinado instante, enquanto esvazia sua pistola num homem que já havia matado, Bennie justifica-se gritando que o faz porque assim se sente bem. Não há mais a controversa dubiedade na forma com que o diretor encena a violência. Nesse filme, ela o interessa majoritariamente como manifestação aleatória e avassaladora da vontade individual de destruição. A essa ideia opõe-se o profissionalismo ascético do casal de mercenários homossexuais que cruza o caminho de Bennie, impecavelmente vestidos e asseados. Ao fim, é contra essa imagem que ele se insurge. Não há nada de profissional em matar; para fazê-lo, é necessário aproximar-se, sujar as mãos e, mais importante, estar disposto a morrer se for o caso.

A atmosfera desoladora que domina o filme nasce desse mal-estar diante de um mundo em que não há mais fronteiras a se recorrer, em que se tenta retirar até mesmo da violência o caráter eminentemente pessoal. Se os primeiros westerns de Peckinpah merecem o epíteto de crepusculares, aqui o sol já se pôs e a noite corre solta. Não se trata mais de testemunhar os dignos estertores de homens de determinada estirpe: todos já se foram e a dignidade não é possível nem na morte. O filme termina, virulento e áspero, com uma rajada de balas e a imagem do cano de uma metralhadora voltado ao espectador. A única coisa que parece restar é a possibilidade de uma última investida, febril e avassaladora, como o próprio “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia”.

Texto publicado originalmente na coletânea Os filmes que sonhamos, organizada por Frederico Machado e lançada pela Lume Filmes em 2010.

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2 Respostas para “Sam Peckinpah e “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”

  1. Zé, algum despeitado dirá que fazemos elogios autoreferenciais, mas teus textos sobre cinema estão muito bons e densos.

    Frederico Machado é um cineasta maranhense, filho do poeta Nauro Machado. Tive o privilégio de conhecê-los pessoalmente.

    Curtido por 1 pessoa

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