Um restaurante muito especial

O casal completava vinte anos juntos. O marido escolheu o lugar mais caro da cidade para levar sua amada. Era uma data especial, que merecia nada menos do que um lugar igualmente especial.

Chegando ao local, o garçom – se é que podemos chamá-lo de garçom; parece-me altamente impróprio utilizar o mesmo nome para designar tanto o atendente de um boteco quanto o refinado senhor do restaurante mais caro da cidade – trouxe o menu de vinhos. É uma pena que esse narrador que aqui escreve, além de não saber como chamar o funcionário do lugar, tampouco entenda nada de vinhos, pois seria necessário descrever a qualidade dos produtos daquele menu. Digo: não sei se são mesmo vinhos especiais, mas, como havia garrafas de cinco mil reais, presumo serem da mais elevada categoria.

– Esse lugar é fantástico, amor! – deslumbrou-se a mulher. Ela estava mesmo encantada; o brilho era visível em seu olhar.

– Você merece muito mais! – respondeu o galanteador. – Nada mais fantástico do que esses vinte anos de sua companhia.

– Parece que foi ontem quando…

E, assim, os pombinhos começaram a relembrar vários acontecimentos marcantes da trajetória do casal, até que, por fim, resolveram atrelar a escolha do vinho à do prato principal. Delicadamente, o homem chamou o “garçom” (usarei aspas em sinal de respeito).

– O que o senhor sugere como prato principal?

Nisso, já tinham desfrutado do couvert, que era “cortesia da casa”, segundo o “garçom”. É claro que a cortesia custava 70 reais por pessoa, mas nada mais justo para uma refinada cesta de pães, manteiga e biscoito polvilho.

– Bem – iniciou o “garçom” –, como está o apetite dos senhores? Preferem um prato mais encorpado, um sanduíche ou, talvez, algo mais leve?

– O que você prefere, meu bem? – perguntou o marido à esposa.

– Ai, eu deixo você decidir. – Na verdade, ela mal tinha ouvido a pergunta. Estava apaixonada pela canção ao fundo: Nirvana em versão bossa nova.

– Vamos, portanto, pedir um sanduíche. Sei que não é o mais indicado para um jantar romântico – O “garçom” e a mulher sorriram (deve ter tido algo de engraçado) –, mas me falaram tão bem dos sanduíches da casa.

– Ha-ha-ha – sorriu de novo o “garçom”, mas sem mostrar nenhum dente. – Realmente, a crítica especializada nos concedeu pelo décimo ano consecutivo o título de melhor sanduíche do Brasil.

– E o terceiro melhor do mundo, se não estou enganado.

– O senhor está corretíssimo. Perdemos apenas para um em Paris e outro em Milão. Política, o senhor sabe.

– Compreendo, perfeitamente. Mas, então, o que o senhor me sugere?

O “garçom” deixou os olhos semicerrados por três segundos, ergueu as mãos teatralmente e respondeu:

– O nosso carro-chefe é o sanduíche de merda.

O cliente olhou para a esposa. Esta pareceu confusa e, pela primeira vez, dirigiu a palavra diretamente ao funcionário:

– Como? Não entendi.

– Merda. Fezes. Cocô. Bosta. O número 2.

– Merda?

– Merda. Último conceito de sustentabilidade.

– Mas… – gaguejou o marido. – Merda? Dessas que a gente faz no banheiro?

– Não a gente: eu e você. Mas o chef, sim.

– Merda-merda? Dessas que saem pelo nosso ânus?

– Merda. Uma delícia, meu senhor. Ecológico e delicioso.

O casal se entreolhou e o marido, não obtendo resposta por parte da esposa, perguntou:

– Qual vinho acompanharia o sanduíche de merda?

– Sugiro o Sauvignon Blanc – respondeu o “garçom”, para a surpresa deste que vos escreve. Ignorante que sou, nunca pensei que vinho acompanhasse sanduíche. Mas logo veio a explicação: – Acontece que, além de merda, o sanduíche tem ervas e um toque de limão, que combinam especialmente com o Sauvignon Blanc.

(Um adendo: se você, leitor, me disser que comprou esse mesmo vinho por 50 reais no supermercado e que, portanto, minto ao dizer que custou dois mil reais, vá reclamar com o restaurante. Este mero narrador não tem nada a ver com o fato de você ignorar que, nesses ambientes, paga-se também pela sofisticação. Se não gosta, vá lá pegar fila no mercado!)

– Ervas e um toque de limão! – disse o marido. – Perfeito! Mais o quê?

– Gorgonzola, evidentemente.

– Serve duas pessoas?

– Até mais de duas. Nossos sanduíches são muito bem servidos e ainda vêm acompanhados de deliciosas batatas fritas.

– É o nosso pedido, então. Um sanduíche de merda com Sauvignon Blanc.

– Perfeito. Algo mais?

– Só isso.

– Com licença.

Voltaram a conversar sobre a vida juntos, o passado, as dificuldades enfrentadas… Repararam que o casal da mesa ao lado havia pedido o menu degustação, que consistia numa seleção de quatro pratos criados na hora pelo chef e trazidos à mesa por um “garçom” que explicava detalhadamente cada ingrediente usado na preparação da iguaria. Duvidosos se haviam feito boa escolha ao optarem pelo sanduíche de merda, não puderam deixar de invejar o primeiro dos quatro pratos que chegava para os vizinhos, assim explicado pelo “garçom”:

– No centro do prato, um monte de nada, acompanhado de batatas inexistentes e cuscuz invisível, com rúcula e manjericão, ambos imperceptíveis. Bom apetite.

Não tiveram muito tempo para pensar quão maravilhoso parecia o monte de nada, pois, apenas uma hora e meia depois, chegou o sanduíche de merda. Cinco dentadas para cada um e estava acabado. Você, leitor, pode achar que é pouca quantidade, mas, de novo, isso é fruto da sua pobreza. Vá, então, pedir marmita de pedreiro! Foram cinco dentadas tão bem servidas de merda que ambos ficaram muito contentes. Além disso, vinham ainda cinco maravilhosos palitos de batatas fritas, suficientes para empanturrar os mais famintos!

Daí para frente, já satisfeitos com o memorável jantar que tiveram, o marido pagou a conta, pediram um táxi e deram prolongamento à noite de comemorações. Vou parar por aqui porque o que fizeram depois que saíram do restaurante, com seus hálitos de merda, é privado.

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