Cigarros

24/03/13

Fitou-lhe os olhos e, no canto direito de um deles, encontrou o que nem sabia procurar. Quis afastar um feixe de cabelos que se punha impertinentemente ali, mas, antes que esboçasse um movimento, ela o assoprou para longe com a desenvoltura que sempre lhe coube nas coisas do corpo. Pensou em como ela colocava as duas mãos sob os cabelos, por trás do pescoço, e, após o inevitável momento em que as mantinha suspensas, como que a acenar para um público ansioso, jogava-os para cima em um movimento seco e decisivo. Pensou, ainda, em como ela erguia o vestido, segurando o tecido entre os nós dos dedos, quando subia uma escada qualquer, deixando à mostra a medida exata de carne.

As manchas vermelhas que lhe saltavam à pele nunca deixavam de impressioná-lo. “E nunca deixariam”, pensou. Observou seus lábios, um tanto entreabertos, a revelar uma fileira de dentes levemente amarelados pela nicotina. Quis fumar, mas lembrou de haver se desfeito de seu último cigarro, intacto, mantendo uma velha superstição de sua terra. “O mal do maço no derradeiro só” – quase podia ouvir a voz de seu avô. Naquele instante, contudo, venderia a alma por um trago: pelo mal daquele maço e de muitos outros. Chegou a imaginar o fio de fumaça azul-acinzentada espalhando-se no ar e esgueirando-se entre as rachaduras do teto. Nesse momento, ela agarrou-lhe o pescoço e ele afinal parou de pensar.

Ela ainda arfava o suficiente para deleitá-lo, mas sua respiração entrecortada aos poucos se assentou, e logo adquiriu o mesmo caráter profundo e solene que se derramava de seu olhar fixo, quase obsessivo. Ele, em contrapartida, deixava os olhos correrem pelas curvas de suas sobrancelhas levemente arqueadas, anunciadoras de um desdém capaz de se fazer interesse de forma miraculosa. Corriam, ainda, de sinal em sinal, pequenas manchas cor de cobre que se rebelavam contra a brancura daquele rosto, para em seguida se lançarem exaustos ao chão daquela boca, que os engolia e regurgitava. Os grandes olhos dela continuavam a se enterrar nos seus. Sentindo-se inibido para deixar escapar um sorriso desbragado, contentou-se com meio sorriso de felicidade inteira.

Deitou, então, a mão direita sobre suas alvas ancas, acariciando-a com a firmeza dos que transformam um hábito num ritual, uma espécie de liturgia pós-coito a cujo misticismo ele se rendia languidamente. Deslizou a palma da mão entre curvas e aberturas, para logo em seguida levá-la com naturalidade à própria boca. Impassível, ela puxou a mão dele, tirando-a da boca, e colocou-a na sua. Confuso, furtado de uma ação tão particular, ele sorriu atrapalhadamente e demorou alguns instantes para recompor-se, indeciso a respeito do que sentia. O prazer estava lá, sem dúvida, mas algo mais parecia ter-lhe tomado diante daquele movimento: uma sensação indefinida, difusa e ameaçadora de vulnerabilidade.

Não havia notado o silêncio quase absoluto do recinto até o momento em que uma melodia foi sintonizada num rádio distante. O som parecia subir sofregamente pela janela entreaberta, acenando para os ouvidos dele como se desejasse ser reconhecido de pronto. As notas, inicialmente embaralhadas, aos poucos ganharam nitidez, e ocuparam o espaço de forma discreta, ainda que decidida. A lembrança da melodia ergueu-se enfim, desvencilhando-se de memórias há muito inertes. Escutara aquela música quando criança, e já então sabia que era de um romantismo anacrônico. Quase podia sentir o cheiro acre da cachaça e o odor do tabaco daquelas tardes em que seu pai se punha diante do som, tocando devotadamente seus discos.

Aos poucos foi tomado por uma sensação crescente de absurdo, como se aquela canção lhe chegasse diretamente do passado, arrastando-se pelas frestas do tempo. Chegou a escutar seu pai cantarolando, com uma voz grave, benevolente, a acompanhar de maneira atabalhoada a letra, esquecendo versos, modificando palavras, rindo de seus próprios erros entre um trago e outro. Sua expressão modificou-se; por um momento parecia vislumbrar uma aparição. De certa forma, era exatamente o que acontecia.

– O que foi?

– Nada, nada. Essa música.

– Bonita, não?

– Pra caralho.

Inquieto, virou-se e encarou durante alguns minutos o ventilador de teto que rodopiava lentamente sobre eles. Às suas pás enferrujadas e levemente tortas faltava um rangido intermitente, que comporia o cenário à perfeição. No entanto, nada mais soava no quarto além da música longínqua. Decidiu procurar a garrafa de uísque barato que bebiam antes de irem para a cama e levantou-se aos poucos: sentou-se, respirou fundo, e enfim se pôs de pé, levemente entorpecido. Ela esboçou alguma reação, murmurando baixo algo ininteligível, mas parecia prestes a dormir. O rádio, ao longe, foi desligado abruptamente no meio de outra canção; esta, alheia às suas lembranças.

O travor do uísque esvaeceu uma fração do gosto agridoce do sexo, o que o desagradou por alguns instantes, ao menos até o calor do álcool espalhar-se pelo corpo. A segunda dose, bebeu com mais vagar, ainda de pé, segurando o copo na mão direita e a garrafa quase vazia na esquerda, gargalo suspenso entre o indicador e o médio. Até então estava de costas para a cama, mas sabia que ela dormia; podia até mesmo sentir seu sono preencher o ambiente, turvar-lhe as cores e embaçar-lhe os contornos. Olhou por sobre o ombro esquerdo e viu-a, de bruços, rosto voltado para ele, nariz soberano a anunciar sua beleza. Virou-se por completo e observou-a detidamente. A terceira dose, bebeu com profunda e melancólica admiração.

Esvaziada a garrafa, colocou-a sobre a mesa, e começou a recolher suas roupas no chão do quarto, vestindo-as mecanicamente. A luz escassa provinha exclusivamente da luminária disposta ao lado da cama, o que dificultava seus movimentos e carregava-os de uma dramaticidade que o incomodava. Após alguns minutos, faltava-lhe encontrar apenas o casaco, que por fim recordou haver jogado apressadamente aos pés da porta pela qual haviam entrado. Aproximou-se para recolhê-lo, e notou que a seu lado estava a calcinha dela, delicadamente bordada, tão familiar a seu tato. Imediatamente cerrou a mão direita sobre a peça íntima e levou-a ao nariz.

– Aonde você vai? – ela despertara subitamente sem que ele se desse conta.

– Vou comprar cigarros.

Antes mesmo que terminasse de responder, o sono já parecia tê-la retomado para si. Abriu a porta, mas antes de dar o passo derradeiro, hesitou. Olhou mais uma vez sobre o ombro, e teve certeza que a amava. Saiu do quarto sem fazer ruído, fechou a porta, e nunca mais a viu.

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