Como o Profeta Jeroboão se Tornou Famoso

Eduardo Siebra, 16/09/2014

O Rei estava apreensivo, pois sonhara com uma formiga engolindo um elefante.

Os ministros notaram pelo seu ar apático. O olhar do Rei perdia-se pela janela enquanto as demandas do dia lhe eram apresentadas. Depois de uma minuciosa explicação feita pelo Arquiteto-Mor sobre o entupimento dos esgotos do Templo, o Rei murmurou, unindo os dedos num gesto dramático:

– Uma formiga engolindo um elefante!

A coisa desandou quando, na noite seguinte, o Rei soube pelo Astrólogo-Real que um cometa fora avistado. Não havia mais dúvidas, era o fim do mundo.

Restava, porém, o problema de saber como e quando o mundo iria acabar. A profecia era vaga, e não entrava em minúcias sobre as desgraças que se abateriam sobre a Terra.

No mercado público, o assunto era discutido com grandes demonstrações de teimosia.

– O mundo acabará pelo fogo! – disse o açougueiro.

– Não, o mundo acabará pela água! – rebateu o artesão.

Entre os sábios do palácio, a situação não era muito melhor. Convocaram-se os profetas do reino, para que os sinais pudessem ser interpretados.

Eis o que disse o Profeta Careca:

– A formiga é o símbolo do pequeno, do insignificante. O elefante representa os poderosos do mundo. Uma grande rebelião se aproxima, e os humildes lançarão sua vingança sobre aqueles que até hoje os oprimiram.

– Oh! – disse a Rainha, aflita.

– O Rei deve despir-se de seus ornamentos, lançar pós sobre os cabelos e rastejar nu pelas ruas da cidade. Apenas assim a ira dos céus poderá ser aplacada!

O Rei empalideceu. Antes de tomar qualquer decisão, porém, ele queria ouvir o que os outros homens santos tinham a dizer.

Eis o que disse o Profeta Barrigudo:

– Tolo é o Profeta Careca, pois seus obscuros simbolismos o impedem de ver a verdade cristalina! A formiga jamais poderia engolir o elefante. Que ela o tenha feito no sonho do Rei é a prova de que as leis da natureza foram abolidas! O cometa no céu é o sinal! O mundo acabará, e não há nada que possa ser feito! É chegada a hora da retribuição!

– Ah! – disse a Rainha.

– Confessai  vossos pecados, e entregai-vos à misericórdia divina!

O Rei teve tanto medo que soltou um sonoro peido. Seus mais sombrios temores se confirmavam. Ele ainda ouviu o Profeta Cego, o Profeta Sujo e o Profeta Banguela, e todos descreveram em pormenores as catástrofes que estavam por vir. Todos concordavam que o fim estava próximo.

Então foi a vez do Profeta Jeroboão.

Jeroboão tinha um semblante até comum para um profeta: uma abundante barba negra, cabelos desgrenhados, e a face morena escalavrada pelo sol e pelo vento. Ele seria um profeta qualquer, não fosse por uma expressão quase tresloucada de impaciência que seu olhar transmitia. Os homens que lhe dirigiam a palavra costumavam pensar um pouco antes de falar, pois intuíam que podiam receber um tremendo fora se lhe dissessem alguma abobrinha.

– Só restaste tu! – disse o Rei, com a voz já meio chorosa. – Fala, profeta, como acabará o mundo!

Naquele dia, Jeroboão tinha tido que interromper a redação de sua mais grandiosa obra, um monumental tratado teológico que seria batizado, pelos arqueólogos do século XXI, como os Novos Manuscritos do Mar Morto. Ele, que já não era um homem muito tolerante, estava com um humor infernal.

– O mundo não acabará!

Seguiu-se constrangedor silêncio nos salões do palácio.

– Como assim? – indagou o Rei.

– O mundo não acabrá, nem amanhã, nem tão cedo, não importa o que esses imbecis digam! – e Jeroboão apontou para seus colegas de ofício.

O Conselheiro Real, provavelmente o homem mais sensato dentre os presentes, apressou-se em tentar evitar que o negócio desandasse. Ele entendeu que a assertiva do profeta, ainda que verdadeira, poderia ser interpretada como uma insinuação de que o próprio Rei, que insistira tanto na questão, era um palerma.

– Perdoe meu atrevimento, profeta, mas o nosso diviníssimo soberano não te pôs a questão sobre se o mundo irá ou não acabar. Ele te ordenou que interpretasse os sinais do sonhos, e dissesse, com base nele, como o mundo irá acabar.

Foi palpável o alívio dos ministros. O próprio semblante do Rei tornou-se um pouco menos sombrio.

– Exatamente! – o Rei disse. – Quero saber como o mundo irá acabar. Diga, profeta.

Jeroboão meditou um pouco, com o cenho enrugado. Então levantou o olhar para o Rei e bradou:

– Nesse caso, Majestade, não tenho o que dizer. A questão é filosófica, e escapa ao meu entendimento. Mesmo supondo que o mundo acabe um dia, sei lá eu como isso acontecerá!

Ouviu-se um burburinho entre os presentes. Alguém falou:

– Que tipo de profeta é esse, que não sabe como acabará o mundo?

– Mas – continuou Jeroboão, elevando a voz – de uma coisa eu tenho certeza. O fim do mundo, se acontecer, não terá qualquer relação nem com o vosso sonho, nem com o aparecimento do cometa! Vossa Majestade não é o primeiro nem será o último homem a sonhar um absurdo, e nem por isso o mundo acabou! Também já apareceram muitos cometas no céu, e cá está o mundo, besta, quente e barulhento!

Como sabem os arqueólogos do século XXI que estudaram a vida de Jeroboão, o profeta não apenas sobreviveu ao episódio, mas tornou-se conselheiro real e uma espécie de confidente do Rei. Como isso foi possível não está claro, uma vez que o manuscrito que relata a história está parcialmente destruído.

Especula-se, porém, que o fato de o mundo não ter acabado tenha contado a favor do Profeta Jeroboão, que posteriormente viveria muitas e grandiosas presepadas.

***

“Onde já se viu, uma formiga engolir um elefante?”
Profeta Jeroboão, Manuscritos do Mar Morto

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