O Céu e a Terra

por Frederico Oliveira

Existe uma relação misteriosa entre a ordem da alma e a ordem política – eis o núcleo das investigações filosóficas desde a Antiga Grécia até hoje.

Vivemos numa cultura dominada pela experiência da desordem. Estamos rodeados de estadistas e militantes que desejam alucinadamente debelar o mal e implantar uma ordem a ferro e fogo. O século XX mostrou que o projeto político de pôr fim às injustiças, eliminar a exploração do homem pelo homem, enfim, extinguir o pecado da face da Terra, acaba transformando a vida humana num inferno.

O projeto de instaurar o Paraíso na Terra é a adaptação política desastrada de uma idéia cuja raiz é puramente teológica. Vamos à origem do termo. A Igreja Católica diz que a celebração da Missa é o encontro do Céu com a Terra, onde os fiéis cantam “unidos à multidão de anjos e santos”, naquele momento em que o sacerdote pronuncia as palavras “corações ao alto” e a assembléia responde “o nosso coração está em Deus”. Mas um católico genuíno se contenta com viver essa experiência do “Céu na Terra” durante uma hora a cada domingo.

Na liturgia de hoje, leu-se o livro dos Atos dos Apóstolos 1, 6-8, em que os apóstolos interrogam o Cristo que acabara de ressuscitar: – Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino em Israel? Respondeu-lhes Ele: – Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo”.

A pergunta dos apóstolos encerra a expectativa messiânica do povo judeu de libertação contra o jugo romano. Trata-se de uma preocupação legítima do povo oprimido que esperava o Salvador de dinastia davídica. Jesus se compadece do sofrimento de seu povo, mas não veio aqui instaurar um domínio político. De fato, responde a Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus soldados certamente teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo.” (Jo 18, 36).

A resposta de Cristo nos Atos dos Apóstolos é misteriosa: não nos é dado conhecer a data do Juízo Final. O Pai reservou para si esse segredo e não nos cabe especular sobre ele – nos versículos seguintes, os anjos repreendem os discípulos porque estes ficam embasbacados olhando para as nuvens enquanto Jesus ascende aos Céus envolto em glória. Quanto a nós, compete continuar a caminhada na História, acompanhados pela presença do Espírito Santo. Naquele trecho bíblico, o Filho retorna para o seio do Pai, mas garante que estará com seus seguidores até o fim dos tempos por meio do Espírito Santo que anima a Igreja, o Paráclito, o Espírito Defensor que consolará os fiéis nas horas de sofrimento.

Em suma a vida do cristão é atravessar na fé o mar da História, uma mistura de ordem e desordem. O lago de Tiberíades ambienta essa experiência das tribulações: as águas revoltas sacodem a barca de Pedro, enquanto Jesus dorme aparentemente indiferente à aflição de seus amigos. Cumpre vigiar e orar. E a oração que Jesus ensinou diz “seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu”. Para o cristão o Céu na Terra é fazer a vontade de Deus, e a vontade de Deus está resumida no Sermão da Montanha.

Mas acontece que o ser humano está gravado com o pecado original, que é uma expressão simbólica para dizer “egoísmo” e “satisfação de suas próprias ambições”. A tentativa de reformar a natureza humana resulta numa desordem monstruosa, sendo o comunismo apenas a projeção imanente da Jerusalém Celeste – a união beatífica dos santos de Deus.

Infelizmente jamais existirá uma sociedade perfeita, livre da exploração do homem pelo homem. Não significa que devemos deixar o mundo como aí está. Vamos, sim, em busca da ordem.

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