Filosofia Política no filme “Além da Liberdade”

por Frederico Oliveira

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Amigos meus vão amar o filme ALÉM DA LIBERDADE provavelmente por razões diferentes das minhas.

É um filme que faz pensar.

O enredo conta a história real da líder política Aun San Suu Kyi e sua luta pelos direitos civis em Myanmar. A ativista é filha de Aung San – símbolo da independência do país nos anos 1940 e assassinado pelo golpe militar que deu origem à ditadura que está até hoje no poder.

Exilada na Inglaterra, Suu volta à pátria para assistir os últimos dias de vida de sua velha mãe. Ao testemunhar a violência de que só tinha notícia pelos telejornais, acaba se envolvendo na campanha democrática por eleições livres, sendo aclamada pelos intelectuais e populares como o grande nome da resistência contra o regime.

Suu, que era uma dona de casa e leitora de Gandhi, se torna então a líder carismática da oposição. A ditadura reage violentamente com detenções, torturas e assassinatos. Mas, temendo a criação de um novo mártir, os militares decidem pela prisão domiciliar de Aun San Suu Kyi, que passa mais de seis anos (!) incomunicável dentro de uma chácara, sem notícia de seu marido e filhos ingleses.

Na minha opinião, o aspecto bem-sucedido do filme de Luc Besson é quase involuntário.

A película tem um leve tom de idealização da personagem: a mulher com flores no cabelo resistindo indefesa contra brutamontes. Há outros adornos românticos como o discurso do filho na cerimônia do Nobel da Paz, recebido à distância enquanto Suu toca sua música favorita ao piano. A música aí é o símbolo da liberdade, capaz de tocar até o coração do sargento cruel que vigia a sua prisão domiciliar.

Mas esses detalhes não tocam no cerne da obra. O que há de mais profundo ali é a tensão própria entre a “realidade ficcional” e a “realidade real” – vamos chamar assim por falta de um termo melhor.

A tensão entre a realidade real e a realidade ficcional se evidencia com mais naturalidade numa obra de arte baseada em fatos reais. Assim, o próprio subtítulo do filme sugere uma relação nebulosa entre a primeira e a segunda realidade.

Mas o problema não se limita ao gênero, à forma.

No início do filme chama a atenção a cena em que o tio de Suu vai recebê-la no aeroporto de Yangon. Ele lhe conta as mais recentes arbitrariedades do tirano de Myanmar: proibir os preços que não sejam múltiplos de 9, além de outras superstições. Eis uma grande verdade. As ditaduras são uma espécie de loucura. Todos os ditadores vivem numa realidade paralela, por assim dizer, num universo ficcional próprio. Como num caso de histeria, o tirano é incapaz de distinguir entre uma afronta real e uma ameaça imaginária, reagindo desproporcionalmente a esta. Por isso, os tiranos podem perfeitamente conversar com pajaritos ou repelir com tropas e canhões uma passeata pacífica de estudantes desarmados.

Para mim, a grande sacada do filme é que a Política moderna usurpou da Literatura, do Teatro, do Cinema o tratamento da ficção. E a tal ponto que não só os ditadores, mas também os políticos democratas correm o risco de romper com a realidade e passar a viver num universo interior paralelo.

Sim, é um ato de nobreza sacrificar a própria vida em favor dos outros, mesmo que seja uma causa perdida. Mas Aun San Suu Kyi sofre de uma incapacidade para avaliar corretamente o mundo exterior e se torna refém de seus próprios esquemas mentais.

Por exemplo, Suu transforma Mahatma Gandhi numa projeção de si mesma; cria uma imagem fictícia que não corresponde ao Gandhi real. Convicta, faz uma greve de fome para chantagear o governo, mas esquece que Mahatma Gandhi jamais fez “greves de fome”, senão prolongados jejuns espirituais.

Aliás, o esvaziamento espiritual dos políticos modernos e sua adesão a uma religião civil é outra realidade no Ocidente e no Oriente.

No fim, a protagonista vive um drama interior, muito bem explorado no filme. Suu não viu os filhos crescerem, e é claro que ela se angustia com isso. Quando finalmente os filhos recebem o visto para visitá-la em Myanmar, ela está ocupada demais com assuntos de última hora para dedicar-lhes muita atenção. Anos depois, seu marido está morrendo de câncer na Inglaterra. Suu então, já livre da prisão domiciliar, decide com tristeza não retornar para casa porque imagina que, deixando Myanmar, colocará a perder todo o trabalho dos últimos anos de luta pela democratização do país.

O câncer do marido e a solidão dos filhos são reais. A reforma política em Myanmar é um ideal. O amor ao povo e o amor a um filho não podem ter a mesma natureza porque o povo é uma categoria de pensamento, e um filho é alguém concreto. Não estou dizendo isso por razões egoísticas: como é possível “amar a humanidade” e negar esmola ao mendigo?

Aun San Suu Kyi chora ao telefone acompanhando de longe o fim melancólico de seu companheiro, Michael Aris. Sente na morte do marido em Oxford um prenúncio da extinção de sua própria vida, enquanto que a ditadura militar da Birmânia ainda continua vivíssima…

Isso é tragicamente real!

Quando a pobre Suu contrasta a vida de Michael com a República de Myanmar, se dá conta das diversas escalas do Ser. O ser humano é menos duradouro que uma sociedade. Assim como uma sociedade é menos duradoura que a natureza (aquele pedaço do planeta que é a geografia da Birmânia já testemunhou uma sucessão de domínios políticos). E mais duradouro do que a natureza só mesmo Deus.

É esse realismo que falta a todos os ditadores, mas que está faltando também a muitos democratas. Por um lado, o poder de mandar nos outros não nos eterniza. Por outro lado, um princípio de humildade ensina que um movimento social pode muito bem sobreviver além da pessoa que o liderou.

Cada um de nós é um grãozinho de ser no universo, e o que precisamos é afinar a nossa sintonia com o ser.

Ironicamente, a linguagem cinematográfica traz o espectador de volta à realidade.

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