Villa-Lobos e René Girard: outra aproximação estética

O historiador René Girard tornou-se professor de literatura por um acidente de percurso: falta de vaga na Universidade. Mas esse acaso acadêmico deu alcance e força humana à sua obra. Ensinando os clássicos, Girard teve uma intuição sobre o enigma antropológico que acompanha a história da humanidade: o bode expiatório.

Em pobres linhas, a experiência básica do homem é a imitação. Platão já notara que a realidade é mimética: uma árvore imita um “modelo” de árvore; todas as coisas que existem, inclusive os seres humanos, imitam uma forma. Aristóteles, por sua vez, observou que a mímese é o princípio das artes. O teatro imita a cidade, o personagem imita o rei, o passo de ballet imita um gesto de amor, a flauta imita um canto de pássaro, O Trenzinho Caipira de Villa-Lobos imita a maria-fumaça, e assim por diante.

A contribuição de René Girard consiste na descoberta de que a imitação é também a fonte dos desejos e, logo, a fonte da violência. O bode expiatório é 616c2-bodesempre uma vítima que se distingue da coletividade por uma característica inferior (pobre, coxo) ou superior (rei, estrangeiro). Na crise, ele é castigado por não imitar. Os agressores se comportam mimeticamente como um enxame de abelhas ao redor do perseguido. Para não me estender na explicação do argumento, remeto o leitor diretamente à obra. Aos interessados apenas numa amostra grátis dela recomendo o capítulo 11 de O BODE EXPIATÓRIO, onde se entende por que Salomé dançou para Herodes antes de pedir a cabeça do prisioneiro.

Com essas palavras, passo ao Prelúdio nº 1 para violão de Heitor Villa-Lobos. Uma das peças mais conhecidas de Villa-Lobos, este prelúdio é presença obrigatória no repertório de qualquer guitarrista clássico. Na minha adolescência, estudei um pouco de violão solo, mas lastimosamente nunca aprendi a executá-lo. Porém ouço aí a forma melódica da tragédia expiatória.

Há uma corda solitária que se opõe ao conjunto das outras cordas. A melodia faz seu percurso independente enquanto acordes tentam obstar-lhe o passo, num vozerio de turba. A corda solitária não desiste, guiada pelo polegar da mão direita, porém as cordas reunidas lutam contra ela, como se quisessem abafá-la. A voz é um discurso criativo; a coletividade é repetitiva e seca, como um apitaço estudantil.

Reparo que o clímax da crise são as diminutas tocadas na parte aguda, o que confere dissonância e estridência (0:47” e 1:07” do vídeo). Logo após esse confronto, a melodia se refugia nos bordões, digamos que passa a falar grosso, firme em sua posição.

A tonalidade é menor, dando melancolia ao tema.

Na segunda parte, a música muda para a tonalidade maior. Parece que vai tomar um rumo completamente imprevisto. Aliás, parece outra música. Será que o vozerio coletivo deu uma trégua? A vida vai ser diferente?

Mas na terceira parte a perseguição retorna com mais força, acentuada pelo volume e a ênfase dada pelo violonista. Visualmente, o dedo solto percorre o braço inteiro do violão, mas não há escapatória: a massa de sons uníssonos o acompanha aonde for…

Essa história não poderia acabar bem. O prelúdio encerra com uma nota grave e pontual, em tom de morte. Para os enfurecidos, a única solução possível é a morte, a exclusão total do dissidente, o martírio do bode expiatório.

 
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