O Peru

O texto a seguir merece alguma explicação. É um lapso de um lirismo a que raramente me entrego, uma nota ferida ao acaso por meu coração.

Como dói estar no mundo…

Gostaria de enfatizar que o “eu lírico” não se confunde com o autor: não tenho um gato, e em minha casa não há bidê. O cagão do texto é um cagão universal: é todos e não é ninguém.

Dito isso, divirtam-se, ou aborreçam-se, conforme lhes pareça de melhor tom.

Ass: O Editor

Aviso preliminar: esse divertimento verbal pode ser considerado de mau gosto por algumas pessoas. A essas, peço a condescendência e o favor de ignorar-me. Em meio a tanta asneira sendo publicada por aí afora, permitam-me um pouquinho de diversão imaginando um apocalipse pela caganeira.

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O Peru

(Este texto é uma adaptação da tradução de “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, para o português por Milton Amado. O original, para fins de comparação, pode ser encontrado AQUI)

Foi uma vez: quando eu comia, já no almoço do outro dia,
a carcaça gorda do peru de minha ceia de Natal.
Empazinado, amolecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É um peido” – fiquei a murmurar – “que vem à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais.”

Ah! claramente eu o relembro! Era no tórrido dezembro
e o ventilador animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a ave finda, em vão, a comer, buscava ainda
Devorar logo a amarga, infinda, atroz carne do peru
– esse, cheio de farofa no cu – o coitadinho do peru!
Que no freezer não cabia mais.

A pele trinchada fina descia, em lúgubre surdina,
enojando-me e evocando ignotos ruídos viscerais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: “É só vento, caro amigo.
Chegando tarde do umbigo está a fazer tanto ruído.
É apenas isso e nada mais.”

Ergui-me após e, calmo enfim, para o meu gato, disse assim:
“Perdoai, bichano, se com o fedor vos incomodais.”
De forma leve, mas profunda, escancarei então a bunda:
– soltei um peido, e nada mais.

Sondei a mesa suja e tranqüila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o manjar  imoto e quedo,
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Peru!”
E o eco, no prato de angu, o repetiu também: “Peru”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente tomo assento e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É outra bufa” – penso então. “Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É outra bufa, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É só vento e nada mais.”

Vou peidar e eis que, em tumulto, sinto a presença de um vulto:
– é um cocô hierático e soberbo, nas mil curvas intestinais.
Como fidalgo veio, augusto e, sem notar sequer meu susto,
Fez-me correr, a muito custo – para pousá-lo na privada,
(Mal acabara de lavá-la!); e se conserva ali, na privada,
enrolado e nada mais.

Ao ver da merda austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó cocô comprido e singular” – então lhe digo –
“não tens pavor. Fala comigo, pasta da noite saída sem macete
qual é teu nome, nobre tolete, o nome teu que te acomete!”
E a bosta disse: “Nunca mais”.

Maravilhou-me que falasse uma merda rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
que igual surpresa experimente: a de encontrar, na privada,
uma merda (grande, bem cagada), enrolada na privada
e que se chama: “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a merda fria,
Cilíndrica, a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena, sem achar valer a pena,
enquanto a mágoa me envenena: “Amigos… sempre vão-se embora.
Tenho esperança, se o como agora, o peru também há de ir-se embora”.
Me disse a bosta: “Nunca mais”.

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Aprendeu-as no intestino talvez com o lombo de um suíno
Frito num molho de pepino e a quem apenas resta um ritornelo
de seu cantor; do morto anelo, um epitáfio – o ritornelo
de ‘Nunca, nunca, nunca mais’ “.

Pareceu que a bosta me mudasse em um sorriso a triste face,
Sentei-me então no bidê, molhando as bandas laterais,
e, lavando-me assim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
visava a algum secreto fim) que pretendia a vasta bosta,
com que intenções, horrenda, torta, essa omniosa e grande bosta
grasnava sempre: “Nunca mais”

Sentindo dela, incandescente, o resto queimar-me fixamente
O aro, eu me abismava mudo, em deduções conjecturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre o bidê
A minha bunda de bebê em que a água jorra suavemente,
Essa bunda de que a água, quente, agora cai suavemente,
Melhor lavar-me um pouco mais…

O ar pareceu-me então mais limpo e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Agora sim!” – exclamo. “Enfim, companheiro, está limpo o teu traseiro.
Se és deveras cavalheiro, volta para terminar o peru
Devora-o, come a farofa! Que acabe logo esse peru!”
E a bosta disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” – brado. “Ó ser do mal! Profeta sempre, merda infernal
que da bunda lancei ao abismo, ou que arrojaram temporais
de alguma caganeira, a esta maldita e estéril água, a esta precita
poça de horror, que o horror habita – imploro, dize-mo, em verdade:
Acabará essa cornucópia? Imploro! dize-mo, em verdade!”
E a Bosta disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” – brado. “Ó ser do mal! Profeta sempre, merda infernal
Confessa, se alguma piedade ainda tens pelos mortais,
fala se este bucho sob a guante atroz da dor, com refrigerante
Terminará nalgum instante a carcaça do Peru
– esse, que um dia fez glu-glu – e cujo peito está cru!”
E a bosta disse: “Nunca mais”.

“Suma daqui, praga!” – ergo-me e grito, dando a descarga.
“Desce logo aos esgotos, aos negros antros infernais!
Nem leve caroço de ti reste, que tal mentira ateste!
Deixa-me só no banheiro, peste! Desce logo por esse vaso!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te desse vaso!”
E a Bosta disse: “Nunca mais”.

E o cocô ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
Entupindo o cano, inerte, com seus miasmas sepulcrais.
No seu marrom medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos dorme,
E o Bom Ar, inútil, sequer disfarça o seu fedor
Dele, um rolo furta-cor. Tampo o nariz, e ainda sinto
o fedor
Que não há de sumir, ai!, nunca mais!

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Uma resposta para “O Peru

  1. “Merda é veneno.
    No entanto, não há nada
    que seja mais bonito
    que uma bela cagada.
    Cagam ricos, cagam pobres,
    cagam reis e cagam fadas.
    Não há merda que se compare
    à bosta da pessoa amada.”

    (Paulo Leminski)

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