Uma Teoria da Ficção a partir de José Lins do Rego

O post de hoje para mim é especial porque ele é uma contribuição de um muito caro amigo, Frederico Oliveira de Araújo. Conhecedor dos assuntos mundanos e divinos, rapsodo meio cearense/meio maranhense, atualmente defensor dos fracos e oprimidos na fronteira do Brasil com o Paraguai, diplomata nas horas vagas, Fred desvendou o sentido da vida aos 14 anos, e até hoje nunca o revelou a ninguém.

Em seu texto, Fred parte de suas leituras do célebre paraibano Zé Lins do Rego para desenvolver uma visão pessoal do fazer literário. Uma reflexão que publico com alegria, com a certeza de que ela elevará em muito a média de qualidade deste blog (serão necessárias pelo menos umas 4 crônicas minhas sobre besteirol para trazer a média geral de qualidade ao nível anterior).

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UMA TEORIA DA FICÇÃO A PARTIR DE JOSÉ LINS DO REGO
Por Frederico Oliveira de Araújo

76346-rego252cjos25c325a9linsdo-bangu25c325a92528capa25292528125c225aaed252c2529Na obra de Zé Lins, encontramos alguns símbolos que desvelam a própria essência da ficção literária e sua “função” na nossa vida. O escritor insiste em um tema arquetípico: a aventura, a abertura para o mundo, o anseio humano de sair do ambiente mesquinho e descobrir novos horizontes. Assim é o coração de Carlinhos, um de seus personagens principais, da trilogia MENINO DE ENGENHO, DOIDINHO, BANGÜÊ. É também o caso do personagem Bento em PEDRA BONITA e CANGACEIROS.

O protagonista de MENINO DE ENGENHO é uma criança descobrindo o mundo, para quem tudo é novo. Mas essa mesma personagem cresce e se torna o adolescente de DOIDINHO, que passa a habitar o universo fechado de um internato. Ali Carlinhos começa a ter uma experiência do mal, das injustiças e da crueza do mundo, de modo que as imagens de sonho são a própria infância idílica na fazenda, onde a vida era encantada. Já em BANGÜÊ, o adulto Carlos é um bacharel em direito, formado em Recife, sem vocação para a vida forense. Volta para o engenho do avô no interior da Paraíba com o canudo na mão e sem saber o que fazer da vida. Fica aguardando uma indicação para a promotoria, que nunca chega, enquanto vai esperando o tempo passar na fazenda. E se descobre um homem sem habilidade alguma: nem para as letras jurídicas que estudou sem entusiasmo, nem para chefiar os homens do eito na lavoura. Passa dias encostado na casa-grande deitado na rede ou matando moscas num gesto de absoluta falta de sentido…

BANGÜÊ é para mim o melhor romance de Zé Lins, e a sinopse acima é apenas o fragmento de um dos seus infinitos aspectos para os fins deste ensaio. Vale muitíssimo a pena lê-lo. Mas o que interessa no momento é explorar esse sentimento de mal-estar no mundo que está presente nas obras citadas.

Em CANGACEIROS, Bentinho se vê num ambiente hostil de ameaças iminentes. Ele é o irmão caçula do maior cangaceiro dos sertões num tempo emd370d-regojosc3a9linsdo-cangaceiros1c2aaed que o menor relacionamento com coiteiros atraía a repressão violenta e indiscriminada das forças policiais. As pessoas avisam que volantes cercam as redondezas. Sua pequena casa está em perigo, mas ele não consegue tomar a iniciativa de fugir. O medo o paralisa. Adia inúmeras vezes esse passo necessário e decisivo. A filha do mestre de alambique o espera; está noivo da moça e tem a aprovação dos futuros sogros. Mas aí a própria dignidade do ato se transforma em empecilho para a partida: não podem casar na calada da noite, como fugitivos; isso seria uma desonra para a mulher da sua vida. Ele chega a imaginar uma vida melhor no Rio de Janeiro ou na capital, mas evita por fraqueza realizar o sonho.

Esses protagonistas de José Lins são gente pura e indecisa, que não compreende bem os acontecimentos a seu redor. Sente-se desnorteada pelo mundo e seus males; quer reagir aos perigos mas não tem força ou não sabe como fazê-lo. É aí que entra em cena outro arquétipo usado pelo escritor: o rapsodo errante que, no universo nordestino, é o cantador de viola. Como aedos sertanejos, esses cantadores percorrem o interior do Nordeste contando histórias maravilhosas, abrindo a dimensão do fantástico e um universo inteiro de possibilidades.

Em MENINO DE ENGENHO, a Velha Totonha era uma “edição viva das mil e uma noites”.  Em CANGACEIROS, é só o cantador Dioclésio quem consegue provocar Bentinho a sair da paralisia e consequentemente salvar a sua vida e a de Alice. No romance anterior, PEDRA BONITA, é pela voz musical de Dioclésio que Bento fora apresentado a um universo completamente novo. Bento se criara na vila do Açu, aldeia minúscula e sem graça, onde as pessoas o desprezam e ocupam o tempo com mesquinharias. Mas um dia chega à vila o trovador e lhe conta suas aventuras, suas canções ponteadas na viola, seus amores proibidos com mulheres bonitas, enfim, toda uma vida rica de experiências.

É precisamente esta a função da literatura: doar um universo de possibilidades.

A boa ficção não pretende convencer alguém a mudar de opinião, como faz o discurso político; nem fazer uma descrição mais exata dos fenômenos, como faz o discurso científico. A literatura se destina a criar aquilo que Samuel Coleridge chamou de “suspensão da descrença”: a imaginação livre, o mundo da fábula, onde tudo é possível, até bichos falarem como gente. Já dizia algum sábio que a vida não é feita apenas de fatos verossímeis. A vida às vezes tem histórias tão incríveis que, se a gente fosse contar, pareceria mentira. Eu conheço algumas pessoas que têm uma vida cinematográfica.

A ficção ajuda a abrir os horizontes da nossa vida ao campo do inesperado. E com isso desenvolve não apenas a nossa sensibilidade, mas também a nossa inteligência. Por falta de uma boa educação literária é que certos “cientistas políticos” e articulistas de imprensa são incapazes de elaborar mais de uma hipótese explicativa para determinado fato político do dia. Eles já sabem de antemão a explicação de tudo: uns estão convencidos de que “é o neoliberalismo”, enquanto outros estão certos de que, ao contrário, “é o excesso de intervenção do Estado”. É sempre a mesma resposta pronta. Ou é isto ou é aquilo. E ponto. O enigma do mundo está resolvido. Devorei a esfinge com um golpe de marxismo. Comprei a cabeça dela vendendo uma ação em Wall Street. Mas pergunto eu: e se não for nem uma coisa nem outra? E se for uma terceira coisa muito insuspeita?  Dizia Albert Einstein, em sua autobiografia, que os grandes cientistas têm uma rica imaginação, pois precisam abrir-se às hipóteses improváveis se querem descobrir alguma coisa nova.

Quem se encolhe na sua razãozinha deixa escapar o mistério da vida. A razãozinha totalizante é aquela onde tudo se encaixa à força. Os limites de quem pensa não vão além da ponta do nariz de quem pensa. Todos os milagres podem acontecer bem na cara do sujeito e ele fecha os olhos para não vê-los, porque os milagres não cabem no seu estreito esquema explicativo a respeito do universo. É um capítulo patético da história da ciência aquele em que Augusto Comte não quis admitir a nova configuração do sistema solar proposta pelos físicos de sua época, após a descoberta de novos planetas, porque isso implicaria refazer todo o seu Sistema de Ciência Positiva. Augusto Comte estava morrendo de preguiça de começar tudo do zero. Estava com medo, na verdade. Medo da imensidão infinita do universo. Medo cósmico. Medo de quebrar a sua certeza científica definitiva, que era uma muleta na sua vida, a sua bengala de cego. É o medo que Bento tinha de mudar de rumo: pegar a noiva Alice, ir-se embora do Sertão, partir para o Rio de Janeiro e largar tudo para trás.

Mas quem dá valor à ficção escuta a voz do cantador, ou seja, habitua-se à extraordinariedade das coisas. Torna-se uma espécie de Dom Quixote. Tal como o Engenhoso Fidalgo, pode até ficar louco de tanto ler, mas jamais insensível ao grito do que é humano. Porque, entendida nesse sentido, a literatura educa e humaniza.

É bom aprender esses mistérios inexplicáveis que o mundo da ficção nos ensina. É melhor ainda quando aprendemos a fazer isso guiados pela mão de um escritor tão grande e tão gostoso de ler como José Lins do Rego.

DIÁRIO DE UM CÔNSUL NA FRONTEIRA, 09 DE JANEIRO DE 2014

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