Crítica ao Livro "A Civilização do Espetáculo" de Vargas Llosa

11fde-vargasTendo recebido o Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa se permitiu uma pequena indulgência: escrever um ensaio sobre a crise da cultura em nossos tempos (“A Civilização do Espetáculo”, publicado no Brasil pela Editora Objetiva). Para um autor, nenhum exercício literário poderia ser mais divertido. Não por acaso, escolhi justo esse livrinho para ler durante minhas férias de fim de ano.

A ideia de um declínio dos padrões intelectuais de nossos tempos atende a uma necessidade subjetiva forte. Quando vemos tantos medíocres ocupando posições de destaque no cenário cultural, e quando vemos a proliferação de tanta produção irrelevante de valor estético duvidoso, é natural sentir que alguma coisa está errada. Vargas Llosa afirma enfaticamente esse declínio das referências, e diz que ele se deve ao fato de termos passado a pensar que a necessidade de entreter-se é o supremo objetivo da vida. Isso teria criado uma sociedade frívola, inculta, com requintes de sordidez em seu voyeurismo.

Mas será que realmente é assim? O fato de nossa sociedade não ser mais capaz de produzir, nos campos tradicionais da arte, gênios como Beethoven ou Dostoievsky vale como evidência desse declínio? Que parâmetros podemos usar para julgar o nível cultural da civilização como um todo?

Não me entendam mal: concordo com muito do que Vargas Llosa escreve. Ele é um observador inteligente, um prosador elegante e um intelectual engajado, com uma capacidade muito saudável – e cada vez mais rara – de se escandalizar. Seu capítulo sobre a frivolidade e performatismo do mercado da arte contemporânea diz uma verdade óbvia, mas raramente formulada. Suas observações sobre o charlatanismo filosófico dos pós-modernos franceses não poderia ser mais atual e pertinente. Concordo inclusive com sua defesa corajosa de um estado rigorosamente laico, que não se deixa iludir pela miragem de um multiculturalismo deslumbrado.

Mas a imagem heroica de um Vargas Llosa apaixonado pela tradição literária do Ocidente, vociferando contra os vendilhões do templo de nossa era, é clássica demais para não evocar, imediatamente, comparações. No século XX, tivemos Ortega y Gasset e o próprio T.S. Eliot – que é uma das referências do texto de Vargas Llosa. No século XIX, tivemos Schopenhauer e Nietzsche lamentando-se da mediocridade intelectual dos acadêmicos alemães (!!!). No século XVIII, Voltaire e Swift não pouparam seu arsenal e atiraram contra tudo e todos, pitando um quadro comovente da estupidez intelectual de seus contemporâneos e da humanidade inteira. E, se regredimos ainda mais no tempo, encontraremos Cícero furioso contra Catilina, cujas artimanhas políticas atentavam contra a pureza das antigas instituições republicanas, e veremos também a elite ateniense do século V. a.C., escandalizada com o que acreditaram ser a corrupção de sua juventude, condenarem à morte esse subversor das tradições que era Sócrates. Não muito antes, o profeta Isaías enfurecia-se com a hipocrisia religiosa do reino de Judá…

“A Civilização do Espetáculo” é uma recorrência de uma tradição literária antiga. As características dessa tradição variam muito ao longo do tempo, mas em geral ela expressa a visão desiludida de um autor de convicções morais fortes, estupefato com o que supõe ser a degeneração espiritual de seus contemporâneos. Podemos até supor que tais obras apareçam apenas em momentos recorrentes de declínio espiritual de um povo mas, ainda assim, só isso bastaria para provar que o que preocupa Vargas Llosa é, na verdade, um fenômeno típico de muitos momentos históricos que ele idealiza. Suspeito, porém, que as causas desse “complexo da idade de ouro” sejam mais profundas, e digam respeito à maneira como funcionam nossas mentalidades.

Peço licença para um breve devaneio. Quando a linguagem humana se torna abstrata, adquirimos a capacidade de formular conceitos que dizem respeito não mais à nossa experiência imediata (ou seja, aquilo que estamos vendo, ouvindo ou cheirando, e que podemos apontar com o dedo). Nasce, assim, nosso mundo espiritual – um mundo que possui uma dinâmica própria, apenas parcialmente influenciada pela nossa experiência. Desse modo, palavras que antes eram usadas apenas para ordenar numa mesma categoria uma série de comportamentos que foram efetivamente testemunhados (como, por exemplo, “honra” ou “virtude”), tornam-se, num ato inconsciente de hipostasia, entidades em si mesmas, ideais que remetem já não mais apenas à vivência dos antepassados, mas que são a porta de entrada para um misterioso mundo que passamos a aspirar com todas as nossas forças: o mundo da perfeição, da atemporalidade, da transcendência.

A alta cultura, enquanto tentativa de elevar os padrões espirituais de um povo a partir de ideais imaginados por um punhado de sábios, só é possível porque o ser humano é capaz de pensar com generalizações. Esses ideais que nos inspiraram por tantos séculos podem nunca ter sido vividos em sua integralidade por homens reais. Ainda assim, eles não foram menos concretos para aqueles que os buscaram – o artista que tentava encontrar, no bloco de mármore, uma beleza quase divina, ou o literato que, inspirado pelo que acreditava ser uma vocação, enredou tramas mais convincentes que as da vida real. No passado, nossos mais eminentes pensadores supuseram que esses valores eram eternos e absolutos, ou seja, eles não eram resultado de um processo histórico de evolução das mentalidades, mas estavam gravados na própria conformação do real. Apenas com a tomada de consciência permitida pelo aprimoramento do aparato conceitual da filosofia e da antropologia pudemos começar a suspeitar que mesmo esses supremos modelos talvez também possuíssem uma história – como tudo o mais que diz respeito ao homem.

Não precisamos de muita perspicácia para entender que existe um conflito permanente entre essa realidade aspirada (o mundo da cultura, da moral, dos ideais religiosos) e a banalidade do cotidiano. Quem quer que tenha passeado pelos iluminados jardins da mente não pode deixar de se chocar quando percebe que as pessoas em volta estão pouco ou nada preocupados com o Ideal – já que lhes parece muito mais proveitoso dedicar seu tempo aos prazeres mundanos. Ultrajado com a obscenidade do mundo real, o homem culto, então – talvez se valendo de um mecanismo inconsciente de defesa – projeta no passado ou no futuro seu mundo perfeito, onde as pessoas estão mais dispostas a sacrificar-se pelo supremo bem.

O que se supõe uma decadência histórica, portanto, é um conflito contemporâneo e perene entre a dimensão espiritual e a dimensão física da existência humana. Talvez não seja de todo absurdo dizer que uma das características mais singulares da cultura é a de estar sempre em decadência, já que o mundo parece sempre uma degeneração quando comparado ao ideal de si mesmo criado pelo espírito.

Essa capacidade humana de fabulação não é intrinsecamente boa nem ruim: ela é apenas um fato antropológico. Por um lado, foi nossa capacidade de nos distanciarmos da realidade que nos permitiu não apenas alcançar os monumentos estéticos do passado, mas também sonhar com uma sociedade mais justa. Por outro lado, essa mesma capacidade humana está na origem de algumas das maiores catástrofes históricas jamais testemunhadas – já que muitas vezes é o desejo de refundar a sociedade a partir do zero, segundo os ditames de uma tresloucada utopia, que justifica os mais fanáticos atos de violência coletiva.

Não é meu objetivo, ao assim argumentar, minimizar a importância das transformações culturais por que podem passar uma época. Acredito, inclusive, que a cultura do começo do século XXI seja, sim, profundamente diferente das que a precederam. Simplesmente acho que Vargas Llosa erra em seu diagnóstico ao identificar o desejo de entreter-se como sendo a principal causa do declínio dos padrões culturais em nossos tempos.

A satisfação das necessidades animais não é uma característica apenas de nossa época. Apesar das mediações muitas vezes rigorosas da religião, é possível encontrar em diversos momentos históricos manifestações de hedonismo – tanto nas elites como nas camadas economicamente subalternas. A necessidade de sentir prazer – inclusive em suas formas não sublimadas pelos requintes da civilização – é uma pulsão muito humana. Ela apareceu e se desenvolveu sempre houve tolerância social o suficiente. No passado, porém, os grupos sociais estavam muito mais sujeitos do que hoje às vicissitudes da natureza e da história. Não havia abundância material suficiente para permitir que todos as camadas da sociedade pudessem usufruir dessa indolência prazenteira. Além disso, a recorrência de guerras, de fomes ou de catástrofes era sempre um fator de apreensão em sociedades que não possuíam uma técnica suficientemente desenvolvida para garantir sua segurança.

As massas poderiam sempre culpar a permissividade moral das elites como sendo a causa não apenas de sua penúria, como também da fúria de Deus. Se havia tanto sofrimento no mundo, era porque provavelmente a humanidade estava descumprindo algum preceito cósmico fundamental. Além disso, a perspectiva real de destruição coletiva era sempre um estímulo ao aperfeiçoamento espiritual da sociedade. Um povo que compete com adversários poderosos vive apreensivo quanto ao seu próprio futuro. Ele precisa a todo instante se convencer não apenas de sua superioridade bélica, mas também da moral: “nós” é que somos os verdadeiros depositários do destino divino, nós é que manteremos viva a civilização, e para tanto daremos o melhor de nós mesmos, e seremos puros em nossa conformação à suprema lei do mundo. Os estímulos, portanto, para preservar certo puritanismo cultural são muito fortes.

Imagino que essa generalização simplista não seja assim tão fantasiosa para descrever maior parte das sociedades que viveram antes da revolução industrial. Apenas com o desenvolvimento vertiginoso das técnicas de produção na idade moderna foi possível uma transformação profunda da relação da espécie humana com seu meio natural: deixamos de estar tão vulneráveis aos caprichos do acaso. Além disso, com a derrocada do fascismo e do comunismo – e o fim da ameaça militar que tais ideologias representavam para o Ocidente – as sociedades industriais do século XXI entraram numa época de prosperidade sem precedentes. Mesmo diante da terrível realidade da concentração de renda, vivemos numa era em que se considera tecnicamente possível não apenas alimentar toda a população, mas também concedê-la um nível razoável de consumo. Talvez seja uma crença ilusória, mas nem por isso menos real enquanto fenômeno subjetivo. Vivemos numa era obcecada com a prosperidade, em que o supremo ideal tornou-se o consumismo.

Ou seja, se a diversão e o prazer tornaram-se tão ardentemente procurados em nossos tempos não é por uma decadência dos espíritos – por uma causa que pudesse ser explicada pela própria dinâmica da cultura – mas simplesmente pelo fato de termos passado a viver numa era que nos promete – com seus artifícios técnicos – essa leviana felicidade. Os homens de hoje não são menos capazes de grandes feitos; eles simplesmente reagem à realidade cultural em que passaram a viver.

Mario Vargas Llosa intuiu essa transformação, porém ele a interpretou no contexto de suas convicções pessoais sobre o que deve ser a cultura. E a mesma paixão que o leva a escrever com tanta graça foi responsável, em meu entender, pelas principais fraquezas de seu ensaio. Pois, seguindo à risca a tradição ensaística ibérica, ele apresenta como principais evidencias de sua argumentação impressões subjetivas, não necessariamente óbvias a todos os leitores.

Por exemplo, ao argumentar sobre o desaparecimento da alta cultura, ele apresenta como principal indício a proliferação de produtos culturais subalternos (produtos culturais que se amparam mais em seu apelo imagético do que em sua capacidade de comover as mentes pelas ideias, como é o caso dos filmes holywoodianos, dos videogames, e das demais formas de entretenimento de massa). A misteriosa pulsão humana ao entretenimento barato teria abolido – com um inclemente bocejo – o legado que por tantos séculos foi cultivada pelas elites do Ocidente.

Será possível que já estejamos vivendo na distopia profetizada por Ray Bradbury em seu clássico Fahrenheit 451? Esse romance é muito ilustrativo, e nos permite uma comparação que nos ajuda a compreender um pouco melhor o equívoco de Vargas Llosa. No livro, uma sociedade também obcecada com a diversão abole o hábito da leitura e proíbe os clássicos. Quem for pego lendo poesia é severamente punido – já que a leitura impõe uma distinção entre culto e inculto que deixou de ser considerada aceitável numa sociedade igualitária.

Nosso mundo está ainda longe de tal forma de loucura! Na verdade, se por um lado nós não estimulamos mais o jovem escritor que deseja produzir uma epopeia literária tão monumental como a de Proust ou de Balzac, por outro nossa tecnologia nos permite uma democratização sem precedentes dos altos produtos da cultura. O projeto Gutenberg, por exemplo, permite que qualquer pessoa conectada a um computador tenha acesso à mais relevante produção literária de todos os tempos. Eu mesmo, enquanto lia o livro de Vargas Llosa, usei meu smartphone para ver um quadro que ele cita e que eu não conhecia – Os banhistas em Asnières, de George Seurat. Em outros tempos, esse quadro poderia ser admirado apenas por quem tivesse dinheiro e tempo livre o bastante para ir até a galeria onde se encontra o original.

Como assim a alta cultura acabou, se eu tenho plena liberdade de usar meu tempo livre para ler Kant, Cervantes ou Tolstoi? É claro que nem todo mundo usa seu tempo de forma tão interessante e instrutiva, mas sinceramente acho consolador que essa possibilidade exista – ou seja, que dependa apenas de minha própria determinação e disciplina perseguir o caminho das letras.

O que talvez realmente tenha acontecido foi que aquilo que chamamos de alta cultura perdeu sua precedência moral em relação à sociedade. Vargas Llosa fala com certa nostalgia dos tempos em que uma elite ilustrada se dedicava ao estudo dos clássicos. Tais privilegiados supostamente teriam uma missão civilizatória, por serem capazes de mostrar ao resto da sociedade que os valores que cultivavam tinham o potencial de elevar o espírito humano.

Bem, a verdade é que essa elite teve sua chance, e ela fracassou. Não é nem de longe irrelevante o fato de a alta cultura europeia ter tido seus momentos de maior esplendor nas épocas em que a população de continentes inteiros estava sendo oprimidas e escravizadas. Isso não é um acidente de percurso: a proeminência geopolítica que o continente europeu exerceu no mundo andou de mãos dadas com seu desenvolvimento espiritual. Os mesmos pressupostos culturais que fundamentavam a distinção entre uma pessoa culta e inculta permitiam estabelecer uma diferença essencial entre o europeu civilizado – dotado das características de racionalidade, objetividade e senso de dignidade – e o bárbaro primitivo – volúvel, instintivo e de fracas sensibilidades morais. Além disso, o mesmo refinamento que permitiu o surgimento de tão bela música e tão belos romances no século XIX esteve na base do sentimento de tédio existencial que permitiu o nascimento do fascismo – embora estabelecer essa corelação direta seja, eu reconheço, bastante problemático.

É por isso que somos uma era tão desconfiada das essências: elas são uma caixa de Pandora, que podem nos trazer tantos bens quanto desgraças. Hoje nós nos contentamos em nos tolerar: achamos que a vida em sociedade e o exercício das liberdades políticas deve se dar negativamente – por meio de interdições à violência. Pouco importa que uma pessoa esteja dedicando sua vida a um grande ideal civilizatório ou não: o importante é que ele esteja respeitando o espaço de convivência comum sem causar mal aos seus semelhantes. Depois dos genocídios do século XX, que importa se uma pessoa irá passar seus dias inteiros jogando videogame ou lendo a mais bela poesia jamais escrita? Desde que sejam definidos os limites da civilidade compartilhada, cada um é livre para fazer o que bem entender.

A fragmentação cultural em que o Ocidente passou a viver é fruto inclusive de sua sofisticação filosófica. Nossa maior compreensão sobre os meandros da mente e da linguagem nos mostrou que aquilo que por tantos séculos tomamos por realidades em si mesmas poderiam ser meras miragens conceituais. Vargas Llosa fala depreciativamente dos pós-modernos (e concordo que há muito charlatanismo nas academias contemporâneas, especialmente nas da França), mas o verdadeiro instaurador da insegurança epistêmica a que estamos todos condenados foi Kant, cuja obra é uma das vigas-mestras do humanismo que Vargas Llosa admira. Ao estabelecer limites intransponíveis à razão humana, o discreto iconoclasta prussiano lançou a humanidade inteira no tempestuoso oceano da dúvida, amparada apenas pelas carcomidas tábuas da crítica. E como que de súbito se esfumaçaram algumas de nossas mais caras aspirações – como a de chegar a um conhecimento definitivo sobre os problemas filosóficos de base da nossa existência.
Mas foi essa insegurança com as próprias convicções que permitiu à Europa e ao mundo ocidental tornarem-se sociedades muito mais tolerantes. Se não temos como provar que somos tão bons assim como imaginávamos, então com que direito podemos tratar de forma autoritária os outros povos do mundo? Se nossa cultural não é tão superior, por que iremos impô-la à força aos povos mais atrasados? O que pode parecer fraqueza ou degeneração é, na verdade, a expressão maior do humanismo ocidental, que, sendo universalista, considera todo ser humano e toda cultura como dignos de respeito. Foi nossa lucidez histórica que nos levou à crise de valores.

Com a falência moral das elites e instauração da dúvida como realidade epistemológica fundamental de nossa época, aconteceu com a alta cultura o mesmo que antes havia acontecido com as religiões: elas foram expulsas do espaço público e passaram a ser um problema do foro privado. Se hoje em dia alguém irá ou não ler as obras de Leibniz é uma questão que diz respeito ao exercício da liberdade individual – do mesmo modo, por exemplo, que alguém pode escolher ser cristão ou ser ateu. O mesmo se diga de desenvolver um requintado gosto musical, ou aprender o grego ático. Como grande admirador da cultura clássica, acho muito tentadora a ideia de defender o ensino de línguas mortas em nossas escolas públicas. Mas entendo que a banalização da educação para as massas é, na verdade, o resultado de um longo processo de tomada de consciência humanista. Se não há mais como ter certeza sobre as grandes verdades existenciais, às pessoas deve ser dado apenas os meios para ter uma vida materialmente próspera – que lhes permitam empreender por si mesmas as aventuras culturais que desejem – caso as desejem. Ainda que na prática seja muito raro que as pessoas efetivamente encontrem motivação para empreender tais aventuras, não poderia ser de outro modo, já que moralmente não é mais admissível que uma elite estabeleça a legitimidade de uma única vivência cultural, seguindo um cânone autoritariamente selecionado.

Além disso, baseando-nos em que critério podemos afirmar que apenas as obras inspiradas por um elevado idealismo têm valor estético ou existencial?  Será que criações menos pretensiosas do engenho humano – criações, inclusive, que tenham como primeiro objetivo apenas entreter – não seriam também expressivas do mesmo gênio que nos afasta, em parte, da vivência puramente animal?  Para mim, todo ato de criação é sagrado, pois por ele o ser humano se afirma como sujeito – como alguém capaz de intervir no universo em que vive. Será que uma ópera – uma, por exemplo, tão fastidiosa quanto as que compõem o Anel dos Nibelungos – é forçosamente melhor do que uma canção popular despretensiosa, mas bela? Beleza se confunde com complexidade ou sofisticação? E quem disse que o gênio criativo humano não poderia aprender a usar as novas mídias – as mesmas que Vargas Llosa diz contribuírem com o nosso empobrecimento espiritual – para engendrar novos e originais produtos da imaginação? Nem tudo que é novo é necessariamente ruim, e eu seria capaz de citar um ou dois jogos de videogame que alcançaram o patamar de obra de arte.

Inebriado com sua nostalgia das essências, Vargas Llosa aborda apenas tangencialmente o que, para mim, é o verdadeiro mal de nossa era – a desigualdade econômica, e o cerceamento político das liberdades. Ao tratar da diferença entre preço e valor no capítulo em que ele aborda as religiões, ele reconhece a função banalizadora dos mercados: tudo é tratado como mercadoria, e não mais do que isso. Ou seja, desde que haja um nicho em que um produto possa ser potencialmente consumido, o mercado tentará atendê-lo (nem que para isso ele precise produzir os mais rasteiros produtos culturais).

Mas a indiferença dos mercados vale para os dois lados: tanto a música erudita como os filmes pornográficos possuem seus consumidores em potencial. O mercado, como mero instrumento de circulação de bens, não está interessado no valor estético do produto: ele apenas permite ao produtor e ao consumidor entrarem em contato e finalizarem sua transação. Sendo assim, a apreensão de Vargas Llosa é ilusória, pois a sobrevivência de nosso legado cultural dependerá apenas da sobrevivência de leitores como ele – que não conseguem entrar numa livraria sem sair com um bom livro debaixo do braço.

Porém, não podemos levar muito longe essa suposição, pois o mercado não é uma entidade abstrata, mas um fenômeno coletivo que nasce da interação de várias pessoas. E entre essas pessoas, existem relações de poder e de dominação que nem sempre são evidentes. Não sou marxista, mas acho que qualquer preocupação humanista minimamente coerente não pode se esquivar de enfrentar o problema da concentração de renda, e das formas de dominação que se constroem em cima da desigualdade econômica.

Muito mais grave do que o caso de uma pessoa que possui a opção de usufruir de boa ou de má cultura e escolhe consumir baboseiras é o caso do indivíduo que, por privações econômicas, não tem a liberdade de escolher que tipo de manifestação cultural irá vivenciar. No primeiro caso, a pessoa teve sua chance, e ela apenas exerceu legitimamente o seu direito fundamental de ser um completo imbecil. A via para o aprimoramento pessoal, porém, não lhe estava cerrada. Já no segundo caso, por uma impossibilidade econômica insuperável, o indivíduo é privado da escolha. Por ter que lutar pela sobrevivência numa situação de penúria material, está-lhe vedado qualquer forma de cultivo do espírito.O indivíduo frívolo pode ser, quando muito, incômodo para seus semelhantes, enquanto que uma pessoa pobre pode ser vítima direta de violências pessoais ou institucionais por parte daqueles que acham que, pelo fato de as coisas serem assim, é justo que elas sejam assim.

A desigualdade econômica é o verdadeiro problema humano de nossa época, o que precisa ser abordado com todas as energias por quem quer que se d4995-mario-vargas-llosa-006diga adepto da admirável tradição humanista de nossa civilização. Pouco interessa que as nossas massas estejam indo ao cinema ver os mais idiotas filmes de ação ou as mais açucaradas comédias românticas enquanto se empanturram com baldes de pipoca – desde que os livros de Kant continuem disponíveis para download gratuito na internet. Muito mais transcendência moral tem a situação dos que estão condenados a uma existência indigna, na qual toda perspectiva de engrandecimento espiritual está interdita. Ao invés de lamentar o desaparecimento das elites instruídas (que não é um desaparecimento, mas apenas um inclemente descrédito por parte do resto da sociedade), talvez Vargas Llosa devesse ter dedicado mais tempo para investigar o impacto da desigualdade econômica na abjeção intelectual da multidão de despossuídos de nossos tempos.

Enfim, não há motivos para alarmismo cultural. Idiotice e frivolidade houve em todas as épocas, e eu suspeito que esse pequeno e fanático grupo de idealistas resistirá, lendo Homero, Shakespeare e Goethe enquanto em seu redor um monte de adolescentes seminus balançam as nádegas ao som de contagiantes ritmos latinos. Nas férias, quem sabe eles não encontrarão até um tempinho para ler os ótimos romances de Mario Vargas Llosa. A cultura, assim, estará salva.

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4 Respostas para “Crítica ao Livro "A Civilização do Espetáculo" de Vargas Llosa

  1. Como valeu a pena ler esse texto em um 31 de dezembro! Animou-me depois de ver tantos rabugentos criticando a existência humana e a cultura. Hoje mesmo li sobre pesquisas em curso que prometem coisas como compreender a origem da vida na Terra (por meio da compreensão bioquímica da constituição do núcleo dos ribossomos, partícula quase idêntica em todos os seres viviso), estender a existência humana por cem ou duzentos anos curando males como o câncer ou as doenças cardiovasculares ou melhor entender o comportamento do universo por meio da possível comprovação da supersimetria entre partículas físicas. Será que a cultura impulsionando tantos avanços seria tão retrógrada?

    Tua resposta otimista, Siebra, é um alento. Tu apontas a tradição histórica da crítica à produção contemporânea e como o (salutar) idealismo conduz naturalmente a uma frustração com a realidade. Mostras que a satisfação de nossos desejos carnais é um impulso óbvio e natural de criaturas materiais e que o hedonismo tão presente em nosso tempo pode ser antes resultado da maior afluência e prosperidade de hoje em dia em comparação com o passado do que de uma relativa decadência cultural.

    Explicas também o paralelo entre a necessidade de modelos morais deontológicos de sociedades em competição pela sua sobrevivência e sua negação pela nossa sociedade crescentemente pacificada e próspera (ainda que desigual), que, ao contrário, exige a tolerância, proíbe a violência, quer evitar a imposição e é antes a favor, como bem disseste, do respeito ao espaço privado do que à doutrinação em prol da busca de um ideal, por nobre ou vulgar, construtivo ou destrutivo que ele seja. Tu dizes, com uma maturidade e bom senso admiráveis, que “a fragmentação cultural em que o Ocidente passou a viver é fruto inclusive de sua sofisticação filosófica. “

    Tu montas nos ombros de Mario Vargas Llosa para enxergar além do que ele viu: tu não pensas na cultura somente a partir de referências dela própria ou históricas, tu incluis a ciência, a economia, a indústria. Tu conseguiste escrever um texto talvez mais amplo que a crítica de Vargas Llosa, por se propor a uma visão mais abrangente. Por isso mesmo, tua crítica parece tão precisa: ela própria é prova de que não é de decadência o nosso tempo. E que o que de fato precisamos para atingir ideais e preservar a tradição humana de criação de alta cultura é mais desenvolvimento econômico e a eliminação da pobreza. A humanidade não costuma dar marcha à ré; é mais como um gráfico com altos e baixos, picos e vales: mesmo em suas crises e derrotas, costuma aprender e seguir adiante. Há mais motivos para ser otimista e ter fé do que o contrário.

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  2. Caro Cassiano, fico muito feliz não apenas por ter sido lido com atenção, mas principalmente por ter sido lido por uma mente que sei que é muito indagadora e muito comprometida com suas próprias convicções. Só isso já vale o esforço de ter escrito esse longo texto – e serve de motivação para continuar escrevendo outros. Um abração, para você e Celina, e um ótimo 2014 (no qual espero que possamos confabular pessoalmente, com muita cachaça para estimular os neurônios).

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  3. De minha parte, gostei da construção do conceito de “civilização do espetáculo”, mas a obra em si me deixou um tanto decepcionado: não consigo pensar nesse autor (latino-americano?!) senão como um velho “rabugento” e decepcionado com um mundo que já não pensa como ele. Em relação a sua crítica, que achei excelente (particularmente quanto aos aspectos psicológicos e de crítica social), gostaria de meditar um pouco mais e, prometo, responder com calma em outro momento.

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