Apontamentos para uma Filosofia do Desbunde

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Pensei que fosse ser meu fim. O curioso é que, da primeira vez que o pós-modernismo me foi apresentado na universidade, ele exerceu sobre mim forte apelo intelectual.

A princípio, tudo parecia fazer muito sentido. Todo conhecimento humano é condicionado pelo contexto e pela linguagem. A comunidade epistêmica é soberana ao definir seus conceitos. Nenhuma verdade é neutra, e mesmo as leis frias da lógica estão condicionadas por determinada moldura de pensamento que pode estar associada a uma estrutura de dominação. Tudo isso, para bem dizer a verdade, apenas expressa uma inquietação antiga da filosofia ocidental: a falibilidade do logos, quer dizer, do conhecimento racional assentado sobre a palavra. O trilema de Agripa não já nos mostrara que toda verdade está forçosamente assentada ou sobre um regresso infinito, ou sobre uma escolha arbitrária ou sobre uma petição de princípios?

O relativismo descortinou-me um mundo de possibilidades intelectuais. A tradição, a ciência, a religião, nada poderia escapar do olhar escrutinador da crítica pós-moderna. Por algum tempo, cheguei a acreditar que tal instrumental teórico seria capaz de libertar a humanidade dos grilhões que aprisionam seu espírito.

Até que um dia, numa discussão no Instituto Rio Branco, eu finalmente me dei conta de todos os desdobramentos da filosofia pós-moderna. Ainda tentei encontrar solo firme sobre o qual pudesse assentar minhas objeções, mas tudo em vão! Era forçoso reconhecer: se todo conhecimento é relativo, então talvez o feminismo esteja certo… Intelectualmente, não há como negar este fato.

Entrei em profunda depressão. Apesar de morar sozinho, fugi de casa e passei a me embriagar diariamente com etanol nos postos de gasolina mais imundos das cidades satélites. Plenamente convicto de que a única corrente filosófica coerente era a dos cínicos, abandonei o convívio humano e passei a viver entre os cachorros. Deixei o cabelo e a barba crescer, parei de tomar banho e de usar cueca, passei a andar de quatro e a me comunicar por latidos. Perambulava por depósitos de lixo e terrenos baldios com meus novos companheiros, dormia nas mais imundas sarjetas, me alimentava com os restos que conseguíamos encontrar em sacos de lixo furados. Tentei me suicidar sete vezes quando vi uma cadela com quem me havia envolvido fornicando com um vira-lata qualquer.

Até que um dia, enquanto estava delirando sob efeito de oxi num dos esgotos que correm pelo Parque da Cidade, tive uma visão que me salvou da ruína completa. Em meu devaneio, meu avatar astral havia rompido o véu de Maia e perambulava além das fímbrias do multiverso. Eu flutuava num abismo avassalador de inexistência, uma vastidão ominosa, que teria me enlouquecido imediatamente se meu ego não tivesse deixado para trás toda noção de temporalidade e de espacialidade. Até que, finalmente, numa das reverberações do Om, minha alma chegou ao místico Omphal, o umbigo do Universo, o ponto sagrado onde tudo é criado e destruído.

O Meta-Vortex Primordial

O Meta-Vortex Primordial

Estarrecido com a visão do meta-vortex primordial, vi emergir diante de meu terceiro olho o vulto monstruoso de Azatoth, o Sultão do Caos, o demônio cego que está aprisionado no coração da irrealidade. Sentado em seu trono de ossadas em meio ao baile eterno dos Antigos sem mente, ele abriu sua bocarra diabólica pela primeira vez em trezentos milhões de dias de Brâman e me falou, com palavras que gravaram minha alma como ferro incandescente:

– Quando a água bater na bunda, comece a nadar!

Ao despertar de meu sonho dogmático, percebi que eu estava salvo. Aquelas misteriosas palavras me fizeram desvendar num átimo o segredo do pós-modernismo.

Depois de fazer a barba, comprar algumas cuecas novas e retomar o convívio humano, percebi que meu receio face ao relativismo, em verdade, só se justificara por minha enorme tolice. Eu não havia me dado conta de que, se toda proposição oculta um discurso orientado pelo poder, não existe nada que nos permita escolher entre uma afirmação razoável e uma afirmação completamente agirobada. O relativismo não é uma arma que possa ser utilizada seletivamente! Ela torna igualmente aceitável o discurso do igualitário políticamente correto, do conservador reacionário ou simplesmente do lunático. Toda afirmação é igualmente boa e igualmente verdadeira, e o que determina qual verdade será aceita pela sociedade é simplesmente a capacidade que cada grupo possui de defender suas convicções idiotas frente a uma multidão inculta e pouquíssimo interessada em lógica formal ou epistemologia. A verdade é uma questão de psicologia de massas.

Como eu jamais estive interessado em convencer alguém do que quer que fosse, só me interessavam os desdobramentos do relativismo no nível individual. Neste patamar, as possibilidades são infinitas! Após finalmente ter me recuperado por completo de minhas aventuras cínicas, passei por verdadeira reviravolta conceitual. Pensei com meus botões:

“Segundo os pós-modernos, todo conhecimento pode ser igualmente válido, ou seja, não há nenhum critério de validação da verdade que se sobreponha a outro: tudo depende do contexto e dos interesses e valores envolvidos. Pode-se escolher tanto os tradicionais critérios de racionalidade como os critérios de um esquizofrênico. Porém, é preciso lembrar que a vida humana é breve e que – ainda que eu não tenha como provar filosoficamente estas afirmações – parece ser mais sensato dedicar nosso breve tempo de vida a atividades prazerosas do que a atividades aborrecidas. Ora, se tanto faz como tanto fez, então por que se aborrecer com silogismos? O único critério de validação da verdade realmente apto a tornar a vida prazerosa é a diversão!”

Fundei toda uma nova epistemologia embasada no divertimento e a batizei de Filosofia do Desbunde. Minha idéia era simples. Uma afirmação é verdadeira ou falsa não por se adequar às regras da lógica, mas simplesmente por ser ou não divertidas. O princípio é mais simples do que parece. Tomemos um exemplo prático. Aristóteles nos apresenta o seguinte silogismo como sendo verdadeiro:

Premissa menor: Sócrates é homem.

Premissa maior: Todo homem é mortal.

Conclusão: Sócrates é mortal.

Por nosso sistema, tal conclusão é falsa, já que está muito claro que o fato de Sócrates ter que mais cedo ou mais tarde morrer não é divertido nem para ele nem para nós – que somos lembrados de nossa própria mortalidade com seu suicídio. Este silogismo, segundo minha filosofia, deveria ser reformulado da seguinte maneira:

Premissa menor: Sócrates é meio besta.

Premissa maior: Homem que é homem não chora.

Conclusão: Hoje é carnaval!

Trata-se de um silogismo estritamente verdadeiro, tão verdadeiro quanto o fato de que ontem eu brinquei de amarelinha com Sócrates (e posso assegurar que foi extremamente divertido).

Sabendo que o leitor não acharia nem um pouco divertido se eu abusasse muito de sua paciência me alongando muito nas sutilezas de meu pensamento – o que terminaria por refutar meu próprio argumento – gostaria apenas de antecipar a inquietação das mentes mais desconfiadas, afirmando que meu sistema não é nem falacioso nem original. Ele é um desdobramento perfeitamente coerente da doutrina, atualmente tão divulgada em nossas universidades e centros de formação de opinião, de que toda verdade é relativa. Posso provar isso enumerando apenas algumas poucas convicções muito generalizadas que se enquadram perfeitamente no sistema geral de minha Filosofia do Desbunde:

– A energia renovável vai permitir que a civilização continue se desenvolvendo.

– Não existe uma natureza humana: a explicação para nossos males são todas sociais e culturais.

– Um país tem que gastar mais do que arrecada para se desenvolver.

– Pensamento positivo faz toda a diferença.

A estas percepções, acrescentaria as seguintes constatações práticas elaboradas por mim enquanto sofisticava meu pensamento:

– Para ser capaz de voar, basta querer.

– Mulheres escandinavas morrem de tesão por cearenses.

– Minhas crônicas são muito interessantes.

É tudo verdade, e tudo muito divertido!

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3 Respostas para “Apontamentos para uma Filosofia do Desbunde

  1. Bravo!

    Transcrevo uma parte de um texto de Olavo de Carvalho que trata do relativismo:

    “Para quem quer que pense com a própria cabeça, as teorias de Gramsci não apresentam o menor interesse, tanto quanto não o apresentam as velhas escolas céticas gregas, das quais o gramscismo é uma reedição mal atualizada. A refutação do ceticismo é, como se sabe, o primeiro teste do aprendiz de filósofo. Tal como se refuta o ceticismo — a negação de toda certeza — pela simples afirmação de que a negação também é incerta, o gramscismo igualmente não resiste a um confronto consigo mesmo: tendo negado a veracidade objetiva, ele se reduz a uma “expressão de aspirações”. Tendo reduzido toda a cultura à propaganda, ele próprio se desmascara como mera propaganda. Não tem sequer a pretensão de ser verdadeiro: nada pretende provar nem demonstrar; quer apenas seduzir, induzir, conduzir. O tipo de mentalidade que se interessa por pensamentos desse gênero é certamente imune a qualquer preocupação de veracidade, mas é movido por uma ambição insaciável que o faz revolver sem descanso as trevas, numa “ação” estéril, nervosa, destrutiva, da qual promete em vão fazer nascer um mundo. Por uma inevitável e trágica compensação, quanto menos um homem é apto a enxergar o mundo, mais assanhado fica de transformá-lo — de transformá-lo à imagem e semelhança da sua própria escuridão interior.”

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  2. A filosofia do desbunde é um alento analítico pra otimistas convictos como eu, teus exemplos práticos (“a energia renovável vai permitir que a civilização continue se desenvolvendo”) deixaram a digressão muito compreensível e convincente. O problema é a natureza aparentemente concreta do universo (seria o tal?!). Atrai nossa carne como um imã a todos os problemas do mundo. Faz parecer que tem uma programação por trás de tudo, um código universal que invalida a relatividade absoluta e até mesmo a relatividade desbundada. Mas a filosofia do desbunde é atual. Um brinde a ela e mais uma cerveja (/23:54)!

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  3. Tomar cerveja é divertido? Sim, logo, verdadeiro. Daí o ditado: “in cerveja veritas”.

    Não as verdades mundanas, confessionais, mas as verdades últimas sobre a natureza mesma do ser.

    É por isso que o barzinho sempre foi e para sempre será o derradeiro espaço de elucubrações filosóficas quintessenciais.

    Prost!

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