Desvendando o Sentido da Vida

Nota preliminar:  Desde que criei o blog, recebi dezenas de milhares de mensagens reclamando que descumpri aquilo a que originalmente havia me proposto, ou seja, resolver, de forma peremptória, todos os problemas que assolam a humanidade.

Discordo, já que, como se depreende de uma leitura superficial de qualquer uma das minhas crônicas, meus textos não tem outro objetivo que o de permitir aos que os lêem adquirir uma apreensão imediata das verdades filosóficas fundamentais sobre o Universo. Todavia, como venho tentando exercitar com mais afinco as 8 virtudes budistas, escrevi o texto abaixo para aplacar a ira dos que principiavam a me considerar um falastrão. Ao fim da leitura, espero que todos meus leitores considerem superado o clássico problema do sentido da vida humana.

Desvendando o Sentido da Vida

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Qual o sentido da vida, ora bolas? O erro já reside na questão. Mais apropriado é perguntar: é possível ao ser humano conhecer se a vida tem ou não um sentido?

Com isso já limpamos o terreno para avançar no problema. Com um pouquinho de análise conceitual, então, conseguimos milagres. A primeira coisa que precisamos definir é o que entendemos por “sentido”.

Se damos à palavra uma acepção estrita, igualando-a ao que comumente entendemos como “significado”, (como quando falamos no significado de um acontecimento, de uma decisão, etc) então é possível afirmar, sem medo de se estar incorrendo numa extrapolação, que o ser humano pode, sim conhecer o sentido da vida, do mesmo modo que é capaz de conhecer o sentido de qualquer coisa. Quando afirmamos isso, estamos reconhecendo que o ser humano é uma criatura cultural, que interpreta o mundo em que viver pelo filtro da cultura, ou seja, usando conceitos, idéias e significados que são, ao mesmo tempo, criados por ele e impostos de fora, pela sociedade em que ele vive. Nessa acepção, a vida tem o sentido que o ser humano atribui a ela e reconhece nela, e o problema de desvendar o que se entende por “sentido da vida” é um problema meramente psicológico ou sociológico – algo que varia de um indivíduo para outro e de sociedade para outra. Não vale a pena ir muito mais fundo nessa direção.

Já se tomamos a palavra “sentido da vida” numa acepção ampla, como se nos referíssemos a um significado intrínseco ao universo, mas que só pudesse ser compreendido apelando-se a algum conceito exterior a ele (como, por exemplo, a idéia de Deus ou do Absoluto), então é possível afirmar, com razoável segurança, que não somos capazes de alcançar o “sentido da vida”, ou pelo menos não se nos limitarmos a utilizar os instrumentos da racionalidade. A explicação é simples: como nossa experiência se dá através dos sentidos, e como esses sentidos só são capazes de receber impressões de fenômenos deste mundo, não temos como alcançar um conhecimento sujeito a comprovação empírica sobre o que está além do universo sensível.

Por que razão teria sido o mundo criado? Por que nós, criaturas conscientes, nascemos aptas a amar, a sofrer, e a tomar conhecimento do bem e do mal? O que nos aguarda após a morte? Suspeito que a revelação religiosa ou a contemplação mística são os únicos caminhos para se encontrar respostas para essas perguntas, porém como tais formas de conhecimento estão além do escrutínio da racionalidade, sobre elas é preciso silenciar.

Se não podemos, porém, desenvolver um conhecimento empírico sobre objetos fora do alcance dos sentidos, nada nos impede de usar nosso intelecto para especular sobre eles (Kant que o diga). O fato de o conhecimento obtido por essa via não poder ser submetido à comprovação pelos fatos é irrelevante, já que o fundamento do conhecimento será a própria lógica usada na investigação. Claro, procedendo assim teremos que nos contentar, no máximo, com respostas provisórias, mas não já seria isso, em si mesmo, um grande avanço na compreensão de problemas que estão na base de nossas mais elementares angústias?

Eu digo que sim, e acredito que pouca lógica já é suficiente para nos dar um ponto de apoio. Vou dar um exemplo simples: mesmo não podendo dizer em termos peremptórios se a existência do universo possui ou não um sentido transcendente, posso tomar como verdadeira a seguinte proposição: “ou o universo possui um sentido ou o universo não possui um sentido”. Em outras palavras, é logicamente inaceitável que eu afirme que vivemos num universo que possui e que não possui sentido ao mesmo tempo.

Parece pouco? Não acho que seja. A mera apresentação do problema nesses termos já nos coloca diante de uma dualidade esclarecedora, independente da alternativa que se mostre, em última instância, verdadeira. Pois imaginemos que fascinante seria viver num mundo que, embora se nos apresentasse como um enigma, possuisse um sentido oculto, que talvez nos fosse revelado após a morte? E que fantástico seria poder descobrir, por misteriosas vias, esse significado profundo por trás de cada um dos pores-do-sol que já nos deslumbraram, de cada uma das perdas pessoais que já vivemos ou simplesmente de cada um dos peidos que já foram soltados? Ou, pelo contrário, qual não seria a nossa solidão – e, portanto, a preciosidade de nossas vidas – se nós na verdade vivêssemos num universo completamente alheio às nossas concepções de finalidade? Habitar um mundo imenso – um inacreditável abismo onde cintilam fascinantes coágulos de matéria incandescente – que só existe por existir – como um sopro, um sonho ou uma instabilidade na enorme superfície do lago do inexistir… E nós, como que por acaso, teríamos adquirido consciência de nosso pertencimento a esse mundo indecifrável, e do vazio que está no fundamento de tudo o que já experimentamos – da mais sublime nobreza aos atos mais torpes.

A mera colocação do problema de pronto já nos tornou capazes de compreender que, qualquer que seja a resposta que nós demos ao problema do sentido da vida, a resposta necessariamente será aterradora. Nosso estar no mundo é um milagre – nós só não sabemos exatamente que tipo de milagre. Além disso, ainda que nós não possamos definir qual das duas alternativas é acertada, não é fascinante saber que nós somos capazes de definir – mesmo que em termos hipotéticos – qual poderiam ser as respostas para a maior questão existencial jamais posta pela humanidade? E se alguém quisesse arriscar uma aposta – e se decidisse em termos definitivos entre as duas opções – essa pessoa teria 50% de chance de alcançar um conhecimento definitivo sobre a razão de ser do universo.

Não precisamos parar por aqui. Uma vez que tenhamos chegado a essa fascinante encruzilhada, podemos levar o exercício ainda mais longe e, a partir de cada uma das alternativas, desenvolver hipóteses subseqüentes não menos fascinantes. Por exemplo, partindo da suposição de que o universo possui um sentido transcendente[1], podemos nos perguntar: esse sentido foi definido por um Deus criador?

Responder afirmativamente ou negativamente nos põe diante de perspectivas interesantíssimas. Se tudo o que vemos foi intencionalmente criado por uma Inteligência não-humana, então que aventura é a vida – esse aparentemente banal transcorrer de acontecimentos que, à luz de um todo que não somos capazes de alcançar, encaixa-se num plano fixado desde o infinito! E se, pelo contrário, o universo possuir um significado exterior, porém que não tenha sido atribuído por Deus, então que lugar estarrecedor é este mundo em que vivemos, já que ele, mesmo sendo imanente e incriado, serve a um propósito que eu só conseguiria definir como o axioma do ser.

Uma pessoa com inclinações filosóficas poderia levar essa fascinante brincadeira aos extremos a que a quisesse conduzir sua curiosidade. Por exemplo, a partir de cada alternativa, seria possível aprofundar a especulação fazendo novas perguntas disjuntivas sobre cada uma das hipóteses que se está considerando. A cada passo que se dá nesse jogo, porém, afastamo-nos mais e mais da possibilidade de um conhecimento seguro sobre as questões transcendentes, já que cada nova suposição precisa ser construída em cima de suposições anteriormente tomadas como verdadeiras. Imagino, todavia, que nas primeiras etapas ainda seja possível fazer colocações tão interessantes como as que versassem sobre a inteligibilidade da mente de Deus, a moralidade ou não do significado existencial do universo, etc.

Quero concluir com uma objeção que eu mesmo levanto contra minha proposta. Pela maneira como apresentei o problema, tentando definir com clareza as grandes perguntas existenciais, não fiz nada além de me esquivar da essência dessas perguntas. Quando alguém se questiona “qual o sentido da vida?”, afinal, é evidente que essa pessoa já está presumindo que o universo possui um significado, e que esse sentido é exteriormente atribuído. O que a pessoa realmente deseja saber é o conteúdo desse sentido, independentemente de ele haver sido imposto por Deus ou não, de ser imanente ou transcendente, etc. Ou seja, o que ele realmente quer saber é para que cargas d’água o universo foi criado. Para provar uma tese moral? Para provar o amor de Deus pelas suas criaturas? Como um exercício intelectual de mentes inacreditavelmente mais evoluídas que as nossas?

Realmente, o exercício que desenvolvi não pode acrescentar nada a esse tipo de debate. Portanto, se o que se quer é decifrar aquilo que Augusto dos Anjos eloqüentemente chamou de a escuridão do cósmico segredo, bem, então ou nós comemos cogumelos, ou nós nos contentamos em dar tiros às cegas.

E se por acaso algum alienígena aí fora quiser saber a minha opinião sobre o assunto, bem, eu acho o Universo foi criado para entreter. E o mais foda é que às vezes eu acho que não estou me divertindo nem um pouco.


[1] Se ele não possui um sentido, não haveria mais razão para mais especulação, já que o fato em si se bastaria em termos existenciais.

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