Da Ineficácia do Sistema Punitivo do Inferno

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O Inferno está superlotado e tem graves problemas de infra-estrutura: está superaquecido, há rachaduras e infiltrações de lava por toda parte, e o cheiro de enxofre tornou-se praticamente insuportável. A quantidade de almas por fosso está muito acima da capacidade operacional. Há um grave déficit de recursos diabólicos: os demônios estão trabalhando em condições estressantes e sem material adequado. Não há tridentes o suficiente para espetar a atual demanda de condenados – que aumentou significativamente desde a revolução sexual da década de 1960. A garra-de-obra dos carcereiros e torturadores é mal preparada e mal remunerada. Como resultado, há negligência administrativa, o que tornou possível que as almas dos condenados se organizassem em facções criminosas que articulam o tráfico de bens de consumo de outras dimensões. O PCC – facção dos Padres Comedores de Criancinhas – já dominou sete dos nove Malebolges, segundo o último relatório dos Médiuns Sem Fronteiras. Isso para não falar das fugas em massas que se registraram em alguns dos fossos mais superlotados. Há quem acredite que, com o atraso do Apocalipse – que deveria ter acontecido em 2012 – o sistema carcerário do Inferno entrará em colapso.

A atual superlotação do Averno é apenas uma das muitas manifestações de um problema de base, quer dizer, a irracionalidade do Sistema Punitivo Universal (SPU). Instituído no primeiro manvantara para assegurar os princípios da justiça retributiva cósmica, o SPU teve o mérito de conciliar estímulos positivos – a possibilidade de ir para o Paraíso – com as sanções propriamente infernais. Porém, no plano dos fatos a promessa de salvação revelou-se ilusória – a não ser para um privilegiado grupo de falecidos antes da puberdade – e do um ponto de vista de uma administração cósmica minimamente racional, o sistema tem se mostrado perfeitamente ineficaz.

Mesmo se analisarmos o problema a partir de uma ótica retributiva – tão característica do discurso de intelectuais teocêntricos e paraisocêntricos – o SPU se revela como uma estrutura burocrática incapaz de implementar seus objetivos mais elementares. O fato de se atribuir uma mesma pena – a danação eterna – para uma amplíssima gama de pecadores, distorce os incentivos dos atores e subverte a lógica da virtude. Tratar um tirano com o mesmo rigor que um intelectual marxista, por exemplo, representa uma inversão completa da idéia de meritocracia. Além disso, a inexistência de dosimetria no momento da danação faz com que pequenos pecadores – como cangaceiros e campeões de vale tudo – permitam-se pecados cada vez maiores, como os que são típicos entre os ativistas de direitos humanos. Este fato, associado à característica do SPU de condenar uma amplíssima gama de condutas corriqueiras, porém consideradas nocivas – como a mera manifestação do desejo de comer as primas ou a mulher do próximo – gera um círculo vicioso em que esculhambação leva à esculhambação.

O problema, todavia, torna-se tão mais grave quando o analisamos a partir de uma ótica ressocializadora – mais em sintonia com o Direito Penal Cósmico da Era de Aquarius. Como se sabe, as almas condenadas não tornam a encarnar, e em princípio elas deveriam padecer de sofrimentos indescritíveis ad infinitum, até que o Tempo dobrasse sobre si mesmo e os suplícios recomeçassem. Ora, é flagrante que um tal arranjo não tem a menor preocupação de reintegrar o condenado à Ordem Universal das Coisas, sendo, na verdade, pouco mais do que a manifestação de uma Vingança Cósmica sanguinária e hostil ao livre-arbítrio. Como resultado, o Inferno tornou-se célebre por difundir maus hábitos e conhecimentos criminógenos entre sua população, o que muitas vezes gera péssimos spillovers para a Terra através de sessões espíritas e jogos de ouija.

A grande verdade é que o Inferno e o SPU caíram em descrédito no imaginário moderno. Como demonstram os sociólogos da danação, o homem peca sobretudo por imitação. Durante a Idade Média, quando os padrões morais e metafísicos eram muito mais estritos, poucos, com a notória exceção dos sacerdotes católicos, se arriscavam a pecar abertamente. Nos dias de hoje, por sua vez, o indivíduo médio observa seus vizinhos pecando e pensa consigo mesmo: “Ora, se Sicrano e Beltrano estão fazendo isso, então eu também vou fazer!”. E mesmo quando algum sacerdote lhe fala dos riscos dos tormentos infernais, ele se limita a retrucar: “Se Fulano também vai para o Inferno, nem me incomodo tanto de ir também”. Como resultado, assistimos hodiernamente a uma pandemia de pecados nefandos, tais como o adultério, a pedofilia e o relativismo metodológico nas ciências sociais.

Da forma como está atualmente organizado, o SPU é favorável apenas às elites exclusivistas do Paraíso. Ao direcionar um enorme contingente de almas para a Periferia dos Cosmos, este arranjo permite que as regiões centrais do Universo mantenham seus altos Índices de Desenvolvimento Angelical. Encasteladas em condomínios fechados e dirigindo carruagens douradas puxadas por corcéis de fogo, a elite dos serafins, querubins e mulheres frígidas gozam de uma série de privilégios que estão muito além do alcance da grande totalidade dos mortais – possuidores que são de uma passagem só de ida para o grande Fosso das Dimensões. Segundo as estatísticas do Banco Universal, o PIB do Paraíso é quase duzentas vezes maior do que o Inferno, enquanto que a população deste é cinqüenta milhões de vezes maior. Se fôssemos aplicar o índice de Gini ao Universo como um todo, seríamos obrigados a reconhecer que vivemos num Cosmos profundamente desigual.

Se quisermos viver numa totalidade verdadeiramente justa, a ineficácia do Sistema Punitivo do Inferno precisa ser trazida à tona nos debates civis e angelicais. Ainda que Leibniz tenha anunciado que vivemos no melhor dos mundos possíveis, é preciso reconhecer que algumas singelas reformas podem contribuir para aprimorar o desempenho das instituições cósmicas, e tornar nossa realidade mais próxima de um ideal igualitário de Universo, em que anjos, diabos e mortais desempenham seus papéis sem se ressentirem da dotação relativa de recursos.

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